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| Marcelo
Carvalho Ferraz |
| “A alma da arquitetura contemporânea
está indo embora, perdendo o sentido” |
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Marcelo Ferraz tem
46 anos de idade e é mineiro de Carmo de Minas,
sul de MG. Foi criado em Cambuí, na mesma região.
Veio para São Paulo para cursar arquitetura na
FAU-USP, onde se formou em 1980. Colaborou, ainda durante
a faculdade, com Lina Bo Bardi no projeto do Sesc Pompéia.
Em 1977 criou o escritório Brasil Arquitetura,
que contava, inicialmente, com mais dois sócios,
Marcelo Suzuki e Francisco Fanucci. Foi diretor do Instituto
Lina Bo e Pietro Maria Bardi, do qual se desligou em setembro
de 2001 |
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"Há uma carência
geral de cultura
arquitetônica em nossa sociedade" |
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"As cidades pequenas estão ficando
com a cara da periferia de São Paulo"
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Marcelo Ferraz
é um polemista. Essa qualidade ele herdou de
Lina Bo Bardi, arquiteta com quem colaborou por 15 anos.
Dividido entre projetos de arquitetura, de mobiliário,
livros e exposições, Ferraz é titular,
com Francisco Fanucci, do escritório Brasil Arquitetura.
Vencedor do concurso internacional para o Bairro Amarelo,
em Berlim, ele recebeu PROJETO DESIGN em seu escritório
para uma conversa sobre sua saída do Instituto
Lina Bo e Pietro Maria Bardi, seus projetos recentes,
modificações no Masp, o legado de Lúcio
Costa e o destino das cidades brasileiras. |
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| Você acaba de desligar-se do
Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi. Foi uma saída
traumática? |
De certa forma, sim. Eu tinha uma
visão completamente diferente do caminho que
o instituto estava tomando. Estava sentindo resistência
e dificuldade para continuar com a turnê da
exposição sobre a obra de Lina, que
circulou por 46 cidades, em 17 países. Para
uma mostra de arquitetura, isso é um sucesso.
E sem custo nenhum, uma vez que éramos convidados.
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| A que você atribui esse comportamento
no instituto? |
Acho que não queriam mais
a arquitetura em primeiro plano. Queriam dar um aspecto
mais familiar, e os interesses domésticos se
apoderaram da instituição. Uma coisa
muito comum no Brasil.
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| O instituto foi criado justamente
para evitar isso, não? |
Exatamente. Quando começei
a trabalhar com Lina, sabia das intenções
do casal Bardi. Convivi diariamente com ela durante
15 anos, e depois disso tive muito contato com o professor
Bardi. Eram pessoas com visão pública.
Quando percebi que a instituição começou
a publicar livros de menor interesse, como o do sobrinho
de Lina, resolvi sair.
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| Como foi seu início no instituto?
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Entrei para o conselho a convite
de Lina e do professor Bardi. Naquela época,
queríamos - eu, Marcelo Suzuki e André
Vainer, os assistentes mais próximos - fazer
o livro sobre a obra de Lina junto com ela. Lina dizia:
“Não quero livro. Façam depois que eu
morrer”. Quando isso aconteceu, sentimos a obrigação
de fazer o livro, que se desdobrou em exposição
e documentário.
Ao coordenar a publicação, por acidente,
estava também dirigindo o instituto, que só
existia no papel e passou a existir, de fato, em 1992,
ano em que Lina morreu. Esse livro foi o primeiro
trabalho do instituto, que, eu acreditava, poderia
ser um espaço maravilhoso para a arquitetura.
Fizemos várias publicações, com
uma equipe muito boa.
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| Quantos livros vocês fizeram?
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São 28, incluindo uma série
com arquitetos brasileiros. Já havíamos
feito quatro - Lina, Artigas, Reidy e Lelé
-, mas eu pretendia fazer oito.
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Há críticas, principalmente
no meio acadêmico, em relação à
maneira como esses livros foram feitos.
Qual sua opinião sobre isso? |
O livro de Lina é fascinante,
não só para arquitetos, mas para leigos.
Acho difícil alguém não pensar
assim, pois a matéria-prima era maravilhosa.
Os textos idem. Ouvi também muitas críticas.
Mas tínhamos de ser pragmáticos, pois
havia poucos recursos. Procurei patrocínio.
Pagar fotógrafos para fazer fotos novas, nem
sonhar. Fizemos com o material que possuíamos.
Sem ser pretensioso, acho que valeu a pena.
Em 1992, quase não existiam livros sobre a
obra de arquitetos brasileiros. Eu achava que tínhamos
que fazer um panorama, um álbum cronológico,
bilíngüe, na medida do possível,
para ir para o exterior, no qual as pessoas poderiam
conhecer Artigas, Reidy, Lelé. Nossos livros
não têm texto crítico. Essa também
é uma briga no campo editorial. Os arquitetos
têm feudos, é uma coisa impressionante.
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| Qual seria o próximo arquiteto
abordado? |
Apesar dos muitos livros publicados,
o próximo seria o de Oscar Niemeyer. Fizemos
ainda a série de livretes com a obra da Lina,
cada um sobre um projeto, por sugestão do arquiteto
holandês Aldo van Eyck. Quando esteve no Brasil,
pouco antes de morrer, ele disse: “Façam pequenos
livros com a obra de Lina, encham uma caixinha”. Foram
publicados cinco: Masp, Sesc Pompéia, Teatro
Oficina, igreja de Uberlândia e Casa de Vidro.
E fizemos ainda a série Pontos sobre o Brasil.
A idéia era editar publicações
sobre qualquer área da cultura brasileira,
como cinema, música ou teatro.
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| Em que projetos seu escritório
está trabalhando? |
Terminamos agora o KKKK
e estamos muito satisfeitos, pois conseguimos fazê-lo
por inteiro. Foram seis anos de trabalho, não
só de arquitetura. Também faz parte
da profissão do arquiteto a luta para viabilizar,
política e economicamente, a obra. Para inaugurar
o Memorial da Imigração Japonesa de
Registro, conseguimos juntar, em 15 dias, uma pequena
coleção de obras de arte nipo-brasileira,
além da escultura da Tomie Ohtake. Pedi para
alguns artistas amigos que doassem obras, para que
o museu iniciasse seu acervo. Conseguimos 50 obras,
de 47 artistas de primeira qualidade. Isso não
faz parte do meu trabalho, mas é um empenho
que costumamos ter no escritório.
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| Em que outros projetos vocês
estão trabalhando? |
Estamos fazendo o Monumento às
Nações Indígenas, em Goiânia,
com Siron Franco. É uma obra que ele fez, mas
foi estragada. Projetamos a infra-estrutura: uma grande
laje em que se passeia para ver o monumento de cima,
auditório fechado e anfiteatro. Temos também
o estúdio Vera Cruz, em São Bernardo
do Campo-SP, que está parado, mas deverá
ser retomado. E o Teatro Carlos Gomes, em Santo André,
que projetamos há dois anos e cujo detalhamento
para início da construção estávamos
negociando quando o prefeito da cidade foi assassinado.
É um teatro pequeno, do começo do século,
que pretendemos transformar em um espaço cultural
com três salas de cinema, teatro, bar, café.
As obras devem começar este ano.
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| A prefeitura paulistana anunciou
sua mudança do Palácio das Indústrias,
projeto da equipe de Lina do qual o senhor participou.
Qual sua opinião sobre isso? |
Tínhamos esperança,
quando a prefeita Marta Suplicy assumiu, de que o
projeto
de Lina para o palácio fosse retomado.
Mas acho boa a mudança para o prédio
do Matarazzo, projetado pelo Piacentini. Primeiro
porque o prédio é propício para
a prefeitura. E o Palácio das Indústrias
vai voltar a ser centro de exposições,
sua função original.
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| Como o senhor vê as modificações
que a gestão de Júlio Neves está
fazendo no Museu de Arte de São Paulo? |
Algumas coisas são inaceitáveis.
Até certo momento, tentamos - eu e André
Vainer - acompanhar, discutir o projeto junto com
Júlio Neves. Mas ele só fazia metade,
ou o que achava interessante. Então começamos
a discordar com mais veemência - por exemplo,
com a existência de uma sala vip para almoços
ou com a mudança do piso. Depois de o piso
ter sido todo trocado, sugerimos apenas que fosse
tirado o brilho. Ele foi apicoado. Melhorou, mas não
é original. Os materiais fazem parte da arquitetura.
É bobagem achar que o piso de pedra de Goiás
não fazia parte do projeto do Masp: era característica
da obra da Lina o aspecto da natureza bruta. Mas existem
méritos, como a construção de
mais um subsolo, discussão da qual participamos.
O espaço para o acervo técnico é
importante, assim como a climatização.
Mas o mais grave é a retirada dos cavaletes
de vidro: aquilo era a cara do museu, aquele oceano
de pinturas flutuando no vidro.
Eu disse ao Júlio que vou brigar a vida toda
pela volta dos cavaletes de vidro.
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| Como está o processo de tombamento
do Masp? |
Está em andamento. Eu montei
o processo do pedido de tombamento, considerando os
cavaletes como parte integrante do conjunto.
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| Em entrevista recente, Luiz Paulo
Conde disse que falta ousadia à arquitetura brasileira.
Qual a sua opinião? |
A arquitetura brasileira está
num momento complicado. Quando viajo, vejo as cidades
se acabando, não só pelo processo natural,
econômico, pela favelização, mas
também por causa dos arquitetos. Até
as cidades pequenas estão ficando com cara
de periferia de São Paulo. Vejo poucos projetos
interessantes. A onda é comercial, todos se
repetem.
A formação do arquiteto é muito
ruim. E existe a dificuldade que o excesso de informação
gera. Isso é um paradoxo, mas as pessoas ficam
perdidas no meio de tanta informação.
Os estudantes de arquitetura e os arquitetos estão
perdendo a capacidade de pensar sobre a essência
das coisas, sobre a função, sobre o
porquê de cada projeto, cada objeto, cada material.
Hoje, o arquiteto projeta uma casa ou uma loja sem
saber que aquilo é um pedaço de cidade.
É a alma da arquitetura que está indo
embora, perdendo o sentido. Arquitetura que eu considero
de forma geral: projetar um livro, uma exposição,
uma mesa, uma cadeira, um cenário, tudo isso
é arquitetura. Essa é uma das boas heranças
de Lina.
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A que o senhor atribui isso? Não
há mais mestres,
não há mais correntes hegemônicas?
O que falta? |
A sociedade colocou o consumo como
fim último, no lugar do bem-estar, da busca
da felicidade. Hoje, as pessoas acham que a arquitetura
é mudança de fachada, como mudam de
roupa.
A arquitetura não é assim: ela tem fundo
social, tem responsabilidade civil. Há uma
falta de cultura arquitetônica muito grande,
não no sentido de se conhecer autores ou estilos,
mas de saber que uma coisa tem de funcionar, mesmo
que seja o quadro pendurado na parede. No mundo rural
existia isso: todo ano as pessoas caiavam a casa por
que ia ter a festa de final de ano ou a festa do santo.
Os migrantes, porém, perderam essa noção
na cidade. E hoje, principalmente nas periferias,
as cidades têm aspecto de inacabado. A laje
meio feita, esperando um telhado que nunca vai chegar,
a caiação e o reboco que nunca virão.
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Nesse sentido, fale um pouco sobre
a experiência
do projeto do Bairro Amarelo, em Berlim. |
O trabalho em Berlim Oriental foi
muito interessante. Era um bairro como todos da cidade:
grande, periférico, construído com elementos
pré-fabricados de concreto. Não se podia
dizer se era um bairro de classe alta, média
ou baixa, pois não havia isso lá...
Depois da queda do muro, estava havendo um evasão
de pessoas que queriam melhoras: ter jardim e áreas
coletivas mais interessantes, prédios diferentes.
No Brasil, as pessoas também não gostam
de morar em pombais. Não é querer muito
projetar um conjunto habitacional com um mínimo
de humanidade, e não essas infindáveis
paisagens monótonas, inóspitas e áridas.
Aqui, os arquitetos poderiam fazer, do zero, coisas
melhores, sem acréscimo de custo. Podemos fazer,
no Brasil, conjuntos com 3 mil habitações
de maneira interessante.
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Que mensagem voçê deixaria
a estudantes
e jovens arquitetos? |
Toda cidade do Brasil tem um rio:
grande, pequeno ou médio. A grande maioria
tem uma relação péssima com esse
rio, que está poluído pelo esgoto. Então,
um plano para a recuperação das zonas
ribeirinhas dos mais de 5 mil municípios brasileiros
já seria um trabalho interessante para 20 ou
30 anos. Ou então recuperar os conjuntos habitacionais.
Neste país, temos 60% da população
vivendo em cidades e não existe um ministério
do desenvolvimento urbano para cuidar disso. É
um absurdo.
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Texto resumido a partir de reportagem
de Silvério Rocha e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 265 Março 2002 |
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