Éolo Maia
“Se não conhecermos nossa cultura arquitetônica,
vamos sucumbir no processo de globalização”
 
  Éolo Maia nasceu em Belo Horizonte, em 1942, e formou-se em arquitetura em 1967, pela UFMG. Premiado diversas vezes em concursos no Brasil, leciona na cadeira de projeto em faculdades de Belo Horizonte
   
 
  "Muitos pensavam que pós-modernismo era uma linha, mas na verdade era um processo de transformação"
   
  "O que teóricos e práticos estão querendo é uma fórmula para fazer arquitetura, ninguém quer procurar o novo"
   
  "O professor não tem que formar o aluno. Ele precisa conversar com o estudante e fazer com que este pense a arquitetura"
   
 
  "Projeto para praça em Cuzco, Peru, desenvolvido pelo mesmo grupo vencedor
do concurso para a nova sede do grupo Corpo"
 
Mineiro de Belo Horizonte - “por acaso” - Éolo Maia é certamente um dos profissionais mais conhecidos, e polêmicos, de Minas Gerais. Formado no final dos anos 1960, ele desenvolveu projetos conhecidos por sua inspiração pós-moderna. Agora, aos 60 anos, acaba de ganhar, junto com jovens arquitetos e com o escultor Amílcar de Castro (81 anos), o concurso do projeto para as novas instalações do grupo de dança Corpo, cuja sede original, em Belo Horizonte, havia projetado em 1975,
junto com o arquiteto Márcio Lima.
 
Como foi o início de sua carreira, no final dos anos 1960?

Naquela época, qualquer pessoa com diploma tinha condições de trabalhar. E não precisava nem procurar emprego, bastava juntar-se a dois ou três arquitetos e montar um escritório. Aqui em Minas havia a vantagem de poder ir até São Paulo, Rio ou Brasília para conversar com [Vilanova] Artigas, Sérgio Bernardes ou [Edgar] Graeff. Em Belo Horizonte, não havia diálogo arquitetônico entre as gerações mais novas e as mais velhas.

 
Por quê?

Havia um preconceito muito grande contra os jovens profissionais. No final da década de 1960, quando Artigas ganhou o prêmio da Bienal, eu, recém-formado, estive com ele e me ofereci para trabalhar em seu escritório.
Ele, inicialmente, disse não, mas, depois de algum tempo e alguns goles, cedeu. Fiquei muito empolgado, mas ele me perguntou: “Você já leu Guimarães Rosa?”. Respondi que não e ele disse: “Então está despedido”. Fiquei horrorizado, mas Artigas continuou: “Aprenda isso: se você não conhece suas origens, nunca vai conseguir fazer arquitetura”.
Na hora não entendi nada, mas depois vi que essa foi a maior lição de arquitetura da minha vida: você tem de sacar onde está e o que quer. Para mim, a grande lição de Artigas foi essa, e não a dos quatro pontos, da estrutura que canta.

 
Qual sua trajetória, posteriormente?

Fiquei trabalhando em Belo Horizonte e numa cidade grande que fizeram para a Açominas, com 200 mil habitantes. Era a difícil época da ditadura. Na década de 1970, começamos a questionar a arquitetura moderna ortodoxa. Eu era o mais atrevido de um grupo que incluía o Sylvio [Podestá] e outros. Estava uma chatice no Brasil, com toda a arquitetura igual, como se houvesse uma camisa-de-força. Muita gente pegava o bonde andando de Artigas e só fazia coisas ruins. Uma arquitetura que não refletia o Brasil, porque aqui temos diversas culturas. Fazíamos leituras sobre pós-modernistas, nas revistas internacionais, e começamos a discutir isso. Foi quando comecei a ficar conhecido. Nessa época, estive com Vicente [Wissenbach], que começou a ampliar a PROJETO, e logo em seguida surgiu a AU.
Foi uma época de efervescência na discussão da arquitetura e da procura de uma via brasileira. Muitos pensavam que pós-modernismo era uma linha, mas na verdade era um processo de transformação pelo qual o mundo e a cultura passavam, e que se refletia na arquitetura. Não era apenas um modelo a ser seguido.

 
Como vê a arquitetura atual?

Acabou o pós-moderno e o desconstrutivismo passou muito rápido. Zaha Hadid me disse, certa vez, que o desconstrutivismo jamais chegaria ao Brasil, porque, com tantas favelas, o país já é desconstruído naturalmente. Ainda há arquitetos, principalmente no Rio Grande do Sul, fazendo um trabalho muito voltado para a arquitetura moderna, que acham fantástica.
Lógico que é, só que ela não pode ser uma camisa-de-força. O que teóricos e práticos estão querendo é uma fórmula para fazer arquitetura, ninguém quer procurar o novo. Então fica todo mundo perdido. Ótimo. A inexistência de rumo dá mais força para trabalhar e renovar.

 
Você se considera um pós-moderno?

Não me classifico como nada, porque não tenho nada predeterminado, só sei que quero fazer arquitetura com prazer e contemporaneidade.
A vida é muito dinâmica, eu mudo todo dia, e a arquitetura é uma expressão cultural que se reflete em meu trabalho. As fórmulas se tornam uma chatice, e a ânsia de estar na onda é um erro. Não se pode ser fechado, dogmático.
É preciso ter liberdade total.

 
De que maneira você encara o resultado do concurso para a sede do Corpo, que seu grupo venceu?

Isso renovou muito minha cabeça. Começamos a trabalhar com o concurso para uma praça em Cusco, Peru, que nos deu a visão de um relacionamento sem muito preconceito no trabalho de arquitetura e cujo resultado nos deixou muito felizes. Resolvemos fazer para o Grupo Corpo um trabalho mais ousado, e nós o desenvolvemos junto com Amílcar, com a estratégia de trabalho dele.

 
Já havia trabalhado com Amílcar de Castro antes?

Não, mas sempre fomos amigos. Eu fazia o projeto e punha uma escultura dele, mas nunca tínhamos trabalhado conjuntamente. No sede do Corpo, procuramos usar sua metodologia: uma das vertentes do trabalho de Amílcar são os volumes pesados, que adquirem grande força, nos quais ele interfere muito sensivelmente com rasgos ou cortes mínimos. O problema era como passar isso para a arquitetura, que não é só forma, mas um lugar onde acontecem coisas. Era preciso expressar-se com uma economia fantástica de recursos, e nós, brasileiros, somos muito barrocos. Essa experiência única tornou-se ainda mais interessante por causa do tema, do local, , do material, do programa, enfim, tudo pedia um projeto desse tipo. De vez em quando chamávamos Amílcar e ele nos orientava, mas foi um processo de arquitetura. Na primeira eliminatória, o júri observou que a parte interna não correspondia à proposta externa. Concordamos e refizemos muita coisa do projeto.

 
O que, por exemplo?

A própria sede do Corpo tinha que ser mais alta para se poder ver a paisagem, mas nós secionamos demais as diversas funções internas e resultou um sobe-e-desce muito grande. Então, baixamos, fizemos rampas e passou-se a subir três pavimentos normais, em vez de cinco. Demos continuidade e fluidez aos espaços, e a iluminação ficou mais interessante. De fora, pode-se ver o que acontece lá dentro, o que permite uma integração interior-exterior muito forte.

 
A convivência de gerações diferentes foi positiva para a elaboração desse projeto?

Para fazer arquitetura não existe esse negócio de idade. A pessoa pode ter 30, 60 ou 90 anos, arquitetura é arquitetura, boa ou má. O arquiteto português Gonçalo Byrne observou que os outros três projetos concorrentes poderiam ser encontrados em qualquer lugar do mundo, mas o nosso não, só em Minas Gerais. Para ele, é um trabalho regionalista, que poderá ter repercussão internacional, por sua força. Ficamos felizes com essa opinião, porque procuramos exatamente criar um trabalho que reflita a nossa realidade, mas seja capaz de funcionar no mundo inteiro.
Não é por estarmos no Terceiro Mundo que temos de fazer coisas pobres.

 
O projeto do Centro de Arte Corpo é forte, de nível internacional, mas nele não se reconhecem traços dos grandes mestres brasileiros.

Não dá para identificar o “brasileiro” do projeto porque há milhões de brasileiros. O que existe
é a cultura peculiar de uma região. Temos em Belo Horizonte uma cultura urbana acontecendo de maneira tão latente que ainda não se tem consciência profunda dela: a música do Milton Nascimento, a dança do grupo Corpo, o teatro do grupo Galpão. Minas tem uma cultura muito forte
e diversificada, com influências do interior e de outras partes do Brasil. Foi mais ou menos isso que estávamos procurando quando discutíamos esse trabalho: uma linguagem própria, não um carimbo, mas algo que casasse com a força do Corpo e fosse de Minas, de nossas montanhas.
O resultado é uma arquitetura forte, que até assusta à primeira vista, porque não se trata de folclore simplório.

 
O fato de o projeto vencedor ter sido apresentado por um grupo mineiro pode ter influenciado o resultado?

Acho que não. Até pensei que os candidatos de São Paulo teriam mais chances, porque no júri havia três paulistas, [João Walter] Toscano, Sophia Telles e Bia Lessa; o baiano Pasqualino Magnavita; os mineiros [José Eduardo] Ferolla e Pedrosvaldo Santos; e o português Gonçalo Byrne, que levantou questões muito interessantes.

 
Muitos jovens arquitetos têm se destacado, recentemente, em concursos por todo o Brasil.
Em sua opinião, eles têm um caminho já definido ou ainda estão tateando?

Poucos arquitetos brasileiros têm a preocupação de procurar linguagem própria à nossa cultura.
Há muita influência da literatura especializada estrangeira. A moda atual são os arquitetos holandeses, e nossos estudantes acham Rem Koolhaas fantástico. Eu também acho, mas o trabalho dele não tem nada a ver com o Brasil. Esses estudantes não conhecem a obra de [Affonso] Reidy, de Rino Levi, de Artigas.
É importante que tenhamos informação de nossa própria cultura arquitetônica, porque, do contrário, vamos sucumbir nesse processo de globalização. Se não se tem história, passado, tradição, não se tem nada. Acho que esse excesso de informação e a pouca valorização do que é feito aqui aniquila nossa cultura. Tenho a esperança de que isso passe e voltemos a dar valor ao que é nosso.

 
Em seus projetos, você tem preferência por algum material específico? Já havia trabalhado com aço antes da proposta para a sede do grupo Corpo?

Estudei em Ouro Preto, porque meu pai foi professor da Escola de Engenharia de Mineração de lá, e antes de cursar arquitetura fiz o técnico de mineração e metalurgia. Na época, desenhava parafusos, encaixes, tudo matematicamente, e isso me deixou muito detalhista na arquitetura, muito exigente. Aprendi a detalhar com o professor Reinaldo Masotti, com quem, logo depois de eu me formar, passei um ano detalhando o projeto de um hospital em Belo Horizonte.
E também um pouco com Lelé [João Filgueiras Lima], em Brasília. Lelé é incrivelmente detalhista. Sempre trabalhei mais com concreto, que é a linguagem brasileira. Com estrutura metálica fiz, em 1973, um mercado grande em Belo Horizonte, depois uma capela na cidade de Ouro Branco e, já nos anos 1980, ganhei do IAB do Rio o prêmio Siderbrás de estrutura metálica.

 
Você trabalha no computador?

Não, trabalho na munheca. Ainda não sei mexer com computador. Uma pessoa fica no computador e eu atrás, dizendo o que fazer.

 
Entre seus projetos, quais considera os mais representativos?

Gosto muito da capela de Ouro Branco, perdida no meio do mato. Ninguém ia lá me amolar, tive plena liberdade. E também de um prédio que fiz logo que me formei e onde morei 25 anos. É interessante porque os apartamentos são grandes, baratos, com espaços diferentes. Gosto muito, ainda, de uma escola para crianças carentes, em Vicente Timóteo-MG, de alvenaria estrutural de tijolos, com cobertura em cúpula.

 
Como você vê a formação profissional de hoje em comparação com a sua? As diferenças são muitas?

Minha formação acadêmica não foi das melhores.
A Universidade Federal de Minas Gerais era considerada uma boa escola, mas tínhamos que pesquisar por nossa conta, porque os professores sonegavam informações. Se isso ocorrer hoje, os estudantes têm mais alternativas: há uma grande quantidade de livros e revistas, a Internet; eles podem até se formar sozinhos. O professor não tem que formar o aluno; ele precisa conversar com o estudante e fazer com que este pense a arquitetura. Só isso já está bom demais.

 
O que é pensar a arquitetura para você?

Por exemplo, no projeto de uma casa não vou pensar em três quartos, dois banheiros, sala
e cozinha, mas em como o futuro morador vai viver ali, se vai se sentir bem, se tem crianças, qual sua cultura, de que maneira ele vai se expressar nesse espaço. Então, em vez de três quartos, um galpão enorme pode ser melhor para ele.
Para fazer essa análise se tem de pensar
a arquitetura: o programa pode não ser politicamente correto, mas é o que o morador precisa. E não é só isso: tenho de avaliar como
o projeto funciona no ambiente, que tipo de agressão ao lugar representa etc. Nem sempre
é ético seguir cegamente os regulamentos.

 
Por quê?

Os regulamentos são burros, e o arquiteto precisa ser mais sensível que eles. Às vezes, tenho problemas para aprovar projetos porque não concordo com coisas permitidas pela lei, mas
que considero uma agressão. Por exemplo,
a prefeitura permite que se derrube uma árvore desde que ela seja replantada em outro local,
ou que outra seja plantada no terreno.
Para mim, isso é selvageria.

 
Por Silvério Rocha
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 267 Maio 2002
 
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