| |
Após gestão
profícua (2000-2002) na presidência nacional
do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), em que conseguiu
destacar a presença da entidade em todos os grandes
eventos nacionais e internacionais ligados à arquitetura
e ao urbanismo, Haroldo Pinheiro Villar de Queiroz foi
reeleito em maio último por grande maioria.
Cearense radicado em Brasília, onde se formou arquiteto,
trilhou o início de sua carreira ao lado de nomes
como João Filgueiras Lima (Lelé), Oscar
Niemeyer e Lucio Costa. Apesar de se dizer “profissional
de prancheta”, Pinheiro tem atuado continuamente nas entidades
de classe, tanto no IAB, quanto na Federação
Pan-Americana de Associações de Arquitetos
(FPAA) e na União Internacional de Arquitetos (UIA),
sempre preocupado em encontrar soluções
para as principais questões da atividade profissional. |
| |
| Como foi definida a plataforma para
a próxima gestão? |
Em janeiro, tivemos uma reunião
do Conselho Superior do IAB, já com a presença
dos conselheiros eleitos em novembro passado, na qual
foram alinhavadas as tarefas da Direção
Nacional para a próxima gestão. Nossa
plataforma foi estabelecida a partir disso. Tivemos
duas chapas: a de Maria Elisa Baptista, do Departamento
de Minas Gerais, que concorreu pela segunda vez, e
a do Departamento do Distrito Federal, que reapresentava
minha candidatura. As duas propostas foram muito semelhantes;
as diferenças estavam mais nas prioridades
e nas formas de agir.
Em relação ao Colégio Brasileiro
de Arquitetos, por exemplo, as duas chapas mostravam
disposição de tentar ultrapassar esse
capítulo tão difícil, mas cada
uma em ritmo próprio. Pretendemos, ainda este
ano, dar entrada ao projeto de lei do CBA no Congresso
Nacional; queremos aproveitar o apoio tanto do ministro
da Justiça, Miguel Reale Júnior, cujo
escritório é nosso consultor jurídico,
quanto do atual ministro do Trabalho, Paulo Jobim,
que também já nos deu orientação
quando secretário geral do ministério
e é favorável a nossa proposição.
Esperamos que, em maio de 2003, por ocasião
do Congresso Brasileiro de Arquitetos, possamos dar
o empurrão final para a aprovação.
Devido, porém, ao entendimento distorcido do
que é a organização das profissões
no Brasil, particularmente das que estão incluídas
no sistema Confea/Creas, contaremos com a oposição
desse sistema, claro. Creio que, no Congresso, não
teremos expressivas posições contrárias.
|
| |
| A maior reação não
viria de setores da própria categoria? |
Reação não,
o que pode existir são interesses, que devem
ser considerados, mas não chegam a ser obstáculos
intransponíveis. Em 1994, chegamos a dar entrada
a um projeto de lei, tínhamos trabalhado em
conjunto com algumas entidades, mas houve dificuldade
no ritmo. Naquela época, a reação
das outras entidades do sistema e até do próprio
IAB não foi contra o CBA, mas contra o projeto
de lei apresentado, a forma como o IAB se colocou
nessa formulação. Por isso, optamos
por esse caminho de consultas longas, para chegarmos
ao Congresso já com consenso. Todas as nossas
decisões são tomadas em acordo com as
cinco entidades de arquitetos [IAB, Asbea, Abap, Abea,
FNA], que estão juntas nessa tarefa.
|
| |
| São pequenas, então,
as divergências entre as entidades? |
Quase tudo que era tido como divergência
foi retirado. A questão do exame de ordem ou
estágio probatório, por exemplo, que
eu defendo, nem chegou a ser discutida. Depois de
criado o CBA, quando tivermos um plenário só
de arquitetos, aí, sim, poderemos discutir
isso. Temos um indicativo da UIA segundo o qual a
formação do arquiteto deve durar sete
anos, dois deles dedicados ao estágio ou à
residência técnica.
A UIA coloca o exame de ordem como alternativa, e
é o que foi adotado pela União Européia.
Na minha opinião, ele seria necessário
apenas para quem fosse exercer a profissão,
não para os arquitetos do serviço público,
por exemplo, que prestam concursos específicos.
Estamos atualmente com 140 faculdades de arquitetura
no país, que enviam ao mercado, a cada ano,
cerca de 6 500 arquitetos. Se não houver controle
externo, há grande risco de desagregação
da profissão.
|
| |
| As questões mais polêmicas
foram retiradas para viabilizar a aprovação
do colégio? |
Sim, mas essas discordâncias
não eram intransponíveis, refletiam
apenas dificuldade de enfrentar certos assuntos. E
o mais importante agora é a criação
do colégio.
Se pegássemos a lei que nos disciplina no sistema
Confea/Creas e simplesmente a transferíssemos
para um conselho apenas de arquitetos, como ocorre
em todo o mundo, já seria um salto formidável.
Não precisamos fazer uma lei definitiva, precisamos
confiar nos que vêm depois de nós, como
confiamos nos que vieram antes. Os futuros dirigentes
poderão corrigir nossos possíveis tropeços.
|
| |
O atual presidente da Asbea, Henrique
Cambiaghi, afirmou, em entrevista a PROJETODESIGN
(clique
e leia), não acreditar que o projeto de criação
do CBA seja votado em menos de dois ou três anos,
e por isso considera importante fortalecer as câmaras
de arquitetura do sistema Confea-Creas.
O que o senhor acha disso? |
Não acho que estejamos tão
distantes. Se chegarmos ao Congresso com o consenso
das entidades, conseguiremos maior agilidade. Quanto
a fortalecer as câmaras e as ações
dos arquitetos dentro do sistema Confea/Creas, também
somos a favor e temos agido dessa forma.
Enquanto estivermos dentro do sistema precisamos defender
nossos interesses, mesmo enfrentando dificuldades,
pois somos minoria e há leigos discutindo assuntos
relativos a nossa profissão. O que eu entendo
de agronomia ou de engenharia elétrica para
opinar sobre assuntos específicos dessas profissões?
E os agrônomos, por exemplo, dominam os problemas
da arquitetura?
E esses profissionais opinam e votam no plenário
do Confea, o que, aliás, é uma ilegalidade.
Todas essa profissões são regulamentadas,
têm atribuições muito bem definidas
e não podem ser exercidas por quem não
for habilitado. Se não posso exercer uma profissão
para a qual não estou habilitado, também
não posso decidir sobre seu exercício.
|
| |
| No momento, em que ponto está
a proposta do colégio? |
Agora em maio, o comitê executivo
formado por três representantes de cada uma
das cinco entidades concluiu a revisão da minuta
do projeto de lei preparada pelo Escritório
Miguel Reale Júnior. Houve concordância
quanto a todas as observações, e depois
da avaliação dos presidentes das cinco
entidades vamos procurar de novo o escritório
para que ele dê a forma final. Daí faremos,
os presidentes das cinco entidades, a última
avaliação e estará pronto o projeto
de lei para apresentação à sociedade.
|
| |
Há parlamentares que defenderão
a proposta no Congresso? |
O projeto tanto pode entrar pela
Câmara quanto pelo Senado. Da primeira vez,
o senador Dirceu Carneiro, que é nosso colega,
assumiu a paternidade; agora, há deputados
e senadores que querem propô-lo. E ele também
pode dar entrada via Executivo. Como nosso consultor
jurídico, o Escritório Miguel Reale
Júnior vai nos orientar sobre a melhor forma
de encaminhar o projeto de lei.
|
| |
| O Colégio será o principal
ponto da sua gestão? |
Não é o principal,
mas ficaria muito orgulhoso se pudéssemos ter
isso aprovado e implantado nessa gestão. E
não só eu, mas todos os presidentes
das demais entidades, por termos tido a coragem de
vencer mais essa etapa da organização
da arquitetura no Brasil. Outros assuntos da prática
profissional estão nos ferindo e precisam ser
atacados, mas tudo acaba remetendo à questão
do colégio.
Há pouco tempo, em conversa com alguns presidentes
de Crea, disse-lhes que o CBA não é
questão de corporativismo, mas de cidadania,
porque nenhuma das profissões do sistema Confea/Creas
está sendo devidamente fiscalizada e quem sofre
com isso é o cidadão. A não-responsabilização
pela prática profissional má ou ilegal
está levando a problemas como condutas antiéticas,
perda de qualidade do produto e outros.
|
| |
| Isso remete à responsabilidade
do arquiteto sobre a obra, que no Brasil não existe.
Como fica essa questão? |
Temos de recuperar essa responsabilidade,
que vigora no Uruguai, na Argentina, na Espanha, nos
Estados Unidos, na França, na Inglaterra e
em outras nações com as quais estamos
lidando de maneira cada vez mais próxima. Muitos
arquitetos desses países querem vir trabalhar
aqui e nós também queremos poder trabalhar
lá, mas para isso precisamos retomar um patamar
mínimo de responsabilidade.
E isso não é difícil, faz parte
de nossas atribuições profissionais.
Note que os arquitetos que nos servem de referencial
na profissão assumem essa responsabilidade.
Lelé só faz um projeto se tiver controle
total sobre a obra. Severiano Porto, Paulo Mendes
da Rocha, Fábio Penteado, Carlos Fayet e muitos
outros exercem sua responsabilidade ao limite, porque
arquitetura é construção.
Lamentavelmente, há também os profissionais
que não tiveram formação com
o rigor devido, ou não tiveram a oportunidade
de receber a orientação de um arquiteto
que lhes repassasse essas noções. Seus
projetos são mais baratos, porque a responsabilidade
tem custo, mas isso vai refletir-se em prejuízos
mais adiante, seja para os proprietários, seja
para os futuros usuários.
|
| |
| Os cursos de arquitetura entraram
este ano no "provão" do MEC. Você
acredita que o retrato resultante do teste será
significativo? |
Na falta de controle mais adequado,
o provão vai trazer, de alguma maneira, informações
sobre o ensino de arquitetura. Mas uma coisa é
o ensino, outra é o exercício da arquitetura;
as duas discussões devem ser consideradas conjuntamente.
Há pouco tempo, tive uma conversa com o diretor
de ensino superior do Ministério da Educação
e ele afirmou que a responsabilidade de seu ministério
é apenas reconhecer escolas de arquitetura;
cabe ao conselho profissional avaliar a competência
do arquiteto para a prática da profissão.
O provão, no meu entendimento, verifica se
as faculdades obedecem a um padrão mínimo
aceitável. Numa situação em que
não se tem controle nenhum, tendo algum já
é bom. Só que o controle ainda é
interno, do ministério, e não externo,
como seria o do exame de ordem. Atualmente, se nosso
profissional quiser atuar em outro país, terá
de fazer o exame lá, o que é pior. Portugal,
por exemplo, precisou instituir o exame para que seus
arquitetos pudessem trabalhar nos demais países
da União Européia.
|
| |
| A candidatura do arquiteto Jaime
Lerner à presidência da UIA faz parte da
estratégia do IAB para criar maior visibilidade
na mídia? |
Nos últimos anos, temos pago
a duras penas nossas dívidas com a UIA: a anuidade,
que em 1992 era de 1 100 dólares, em 2002 foi
de 18 mil dólares. Aumentou muito e ninguém
sabe explicar direito por quê. Precisamos participar
mais da entidade, e acreditamos que o arquiteto brasileiro,
com a visão que tem do mundo e enfrentando
questões de hábitat dramáticas
como as de um país como o nosso, pode oferecer
à UIA uma contribuição muito
expressiva.
Em 2001, Brasília sediou uma reunião
da UIA com muito sucesso e grande repercussão
na entidade. Este ano, em conversa entre Miguel Pereira
e um grupo de dirigentes da entidade sobre a necessidade
de escolher, para a próxima gestão,
um presidente reconhecido internacionalmente, não
só por ter vivência grande nas entidades
mas, também, por ser respeitado como profissional,
um colega francês destacou três nomes:
Fumihiko Maki, Charles Corrêa e Jaime Lerner.
Quando, no Brasil, o IAB sugeriu o nome de Miguel
Pereira para eventual candidatura à presidência
da UIA, uma vez que ele já é vice-presidente
para as Américas, ele disse que o nome que
teria melhores condições seria o de
Lerner.
Numa reunião posterior com todos os conselheiros
e delegados internacionais do IAB, o nome de Lerner
recebeu todo o apoio. Nessa mesma ocasião,
recebi ofício do presidente do Colégio
de Arquitetos da Espanha informando que apresentará
o nome de Jaime Lerner para uma das medalhas da UIA
no próximo congresso. Fizemos o convite formal
a Jaime Lerner, expondo o atual pensamento do IAB
sobre a atuação da UIA e o real potencial
da entidade, e ele aceitou.
|
| |
| Além de Lerner, quais são
os outros candidatos? |
São todos vice-presidentes
da UIA: Alejandro Sokoloff, colombiano que dividiu
o mandato de vice-presidente para as Américas
com Miguel Pereira; o tunisiano Taoufik El Euch, vice-presidente
da região do Oriente; o alemão Andreas
Hempel, vice-presidente para a Europa e o candidato
mais forte; e Hisham Albakri, da Malásia. Lerner
já conta com apoio formal da Espanha e da Coréia,
e informal de vários outros países.
Vamos começar agora a fazer a divulgação,
com uma publicação em que o candidato
é apresentado por Oscar Niemeyer e por mim,
como presidente do IAB.
|
| |
| Quais os planos do IAB para o futuro? |
Com a criação do Colégio
Brasileiro de Arquitetos, nossa preocupação
passa a ser com o futuro da entidade. Um dos pontos
principais da atual Direção Nacional
é pensar o IAB para o futuro, e nessa organização
propus algumas vice-presidências extraordinárias:
uma delas para a minha própria região,
a Centro-Oeste, porque fazia muita falta alguém
que tratasse das questões regionais; outra
para a área de planejamento, que se dedicará
ao planejamento de médio a longo prazo.
O responsável é Roberto Simon, que foi
presidente em Santa Catarina, onde fez excelente trabalho.
Ele vai se dedicar à proposta do IAB no novo
cenário, com o CBA, para que o instituto possa
se preservar e se fortalecer como entidade nitidamente
política, profissional e cultural. Outra novidade
é que vamos ter uma diretoria executiva, para
dirigir o dia-a-dia da entidade. O IAB/DN terá
seu escritório definitivo em Brasília,
com staff mínimo, mas futuramente terá
sede própria.
|
| |
Por Adilson
Melendez e Éride Moura
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 269 Julho 2002 |
|