Bruno Roberto Padovano
arquiteto, professor da FAU/USP, pesquisador do NUTAU/USP
“Precisamos pensar as cidades como um projeto de todos”
 
 
Bruno Padovano: "A verticalização e a construção de grandes torres são a saída para as metrópoles"
   
 
  "Nosso papel é montar estratégias para a metrópole"
 
O arquiteto Bruno Roberto Padovano é (quase) um globe-trotter italiano: fez o colégio e o primeiro ano de arquitetura na Universidade do Vale das Águas Brancas, na África do Sul (onde seu pai trabalhava, como executivo da Olivetti); com a mudança da família para o Brasil, no final dos anos 60, concluiu sua graduação na FAU-USP. Posteriormente, fez dois mestrados em Harvard, nos EUA, um deles em desenho urbano. De volta ao Brasil, começou a dar aulas na FAU-USP e a trabalhar com escritórios de renome, como Rino Levi e Cauduro e Martino. Interessado pelo tema das megacidades, coordenou a participação brasileira num seminário realizado em Hong Kong, no início do ano. Nesta entrevista, Padovano discute o conceito de megacidades e as soluções para as metrópoles.
 
Por que uma conferência sobre megacidades, começando por Hong Kong?

Foi o professor Stephen Lau, da Universidade de Hong Kong, quem concebeu a idéia de fazer encontros para discutir como os profissionais da área arquitetônico-urbanística podem enfrentar essa nova escala, tanto de problemas como de potencialidades. Como Hong Kong seria a sede da primeira conferência, Lau chamou duas outras megacidades da Ásia: Shangai, na China, e Tóquio, no Japão. Chamou também São Paulo, a megacidade latina, que ele já conhecia - e levamos projetos de dez escolas daqui, a começar pela FAU-USP. Atualmente, mais da metade da humanidade está concentrada em cidades. Todos os países estão sofrendo o processo de urbanização crescente. A China ainda tem 70% de sua população no campo, mas a taxa de crescimento das cidades chinesas é muito maior do que a taxa de crescimento da população rural. Essa é a tendência. No Brasil, temos mais de 70% da população em área urbana. Existe então um fenômeno de urbanização pelo qual as cidades estão se tornando problemas colossais, por suas dimensões, dificuldades etc. As populações da África, da Ásia e da América Latina dobrarão nos próximos 50 anos. E o Brasil, que demorou 500 anos para chegar a 170 milhões de habitantes, vai demorar apenas 50 para atingir 350 milhões.

 
O que há de comum entre São Paulo e as grandes cidades asiáticas?

Os fenômenos que afetam as grandes cidades podem ser lidos dos pontos de vista mais diversos - político, sociológico, institucional etc. No caso da conferência de Hong Kong, foram vistos mais sob a ótica de arquitetos e urbanistas. É claro que a situação asiática e a latino-americana têm algumas correlações. Em ambos os casos, há pouca democracia, há uma herança autoritária e centralizadora - e o setor público tem dificuldades para arcar com as despesas que a demanda crescente das populações urbanas impõe. As dinâmicas populacionais são muito parecidas. Houve um crescimento fortíssimo de população em Tóquio, que agora diminuiu um pouco. Fala-se em cerca de 25 a 30 milhões de pessoas na Grande Tóquio. É quase o dobro da Grande São Paulo, que é uma região peso-pesado, uma das cinco maiores do mundo, com seus quase 18 milhões de habitantes. Em Shangai, que é uma das maiores cidades da China, moram 13 milhões de pessoas.

 
MEGATORRES
 
O que houve de mais interessante nessa conferência?

Em todas essas cidades existem processos e dinâmicas que exigem soluções, melhorias, posturas de planejamento, de projeto, de utilização de recursos, que poderão tomar formas diferentes. Tivemos casos curiosos. Professores da Universidade Waseda, de Tóquio, vêm pesquisando, por exemplo, hipertorres com até 1000 m de altura e que formam megaestruturas, com soluções de circulação horizontal e vertical muito sofisticadas e custos que extrapolam qualquer órbita. Essas hipertorres foram desenvolvidas numa fase em que o Japão parecia viver um eterno crescimento, no final dos anos 80. Não foram executadas por causa dos problemas na economia japonesa. Mas o conceito está correto. Acredito que a verticalização e a construção de grandes torres são a saída para as metrópoles.

 
Foram apresentadas outras propostas inovadoras em Hong Kong?

Sem dúvida. Mas o universo ali era muito amplo e havia questões específicas das cidades asiáticas, diferentes das nossas. Shangai, por exemplo, foi objeto de uma das apresentações mais interessantes, pela demonstração da convivência do antigo, da preservação da memória arquitetônica e cultural da cidade, ao lado de soluções extremamente modernas, como a da circulação viária por meio de uma rede de viadutos aéreos muito altos, a cerca de 20 a 30 metros do solo, que formam verdadeiros paliteiros sobre a área urbana.

 
Fazendo um paralelo com projetos das hipertorres e a proposta da Maharishi São Paulo Tower, o senhor é favorável à megatorre proposta para o bairro do Pari, em São Paulo?

Não, mas somente porque essa proposta beneficiaria apenas um empreendedor privado, e com recursos públicos, o que seria uma discriminação contra os demais potenciais empreendedores de projetos semelhantes. A prefeitura faria desapropriações, teria gastos, apenas para beneficiar um empreendedor privado. Mas o conceito, de verticalização, está correto. Ele também é a base da proposta que desenvolvemos, com a equipe da FAU-USP, para o projeto Ecópole Oeste, inserido no seminário das megacidades (PROJETODESIGN 239, janeiro de 2000).

 
A questão urbana no Brasil recebe o tratamento que merece?

Esse é um campo muito pouco trabalhado. Acho que São Paulo tem uma tradição de desenho, de projeto urbano, muito frágil. Em toda a história da cidade de 10 milhões de habitantes, o único prefeito que teve realmente vocação urbanista foi Prestes Maia. Os outros todos foram da engenharia ou de outras áreas que não o urbanismo. Isso numa cidade que se notabilizou pela indústria, pela motorização, onde o elemento viário sempre teve precedência sobre outras áreas. E mesmo os planos sempre foram muito atrelados a essa proeminência do viário.

 
AUTOMÓVEL
 
Isso quer dizer uso particular do automóvel?

Não posso ignorar que existem o metrô e o sistema de ônibus, entre outras intervenções importantes no espaço urbano. Mas, se compararmos o que pôde ser feito e o que deveria ter sido realizado, há uma distância colossal. As decisões sempre foram políticas e não técnicas. Houve um lobby muito forte dos segmentos com interesse no setor viário, que teve muito peso na definição de políticas públicas. Apesar dos vários planos diretores, falta uma visão abrangente da cidade, uma visão multidisciplinar de trabalho coordenado, reunindo engenheiros viários, paisagistas, sociólogos. As ações são desconectadas. O que falta em São Paulo é integrar as diversas iniciativas existentes. A grande questão é: quem deveria fazer essa conexão? Antigamente, víamos a gestão da cidade como tema eminentemente público, da administração pública. Isso está superado. O setor público, a iniciativa privada, as comunidades envolvidas, as várias associações de classe, institutos de pesquisa, universidades, associações comerciais, entre outros, necessitam estar juntos nesse processo. Precisamos começar a pensar as cidades como um projeto de todos.

 
Qual o papel dos arquitetos nessa necessária articulação?

Maior participação. Temos, de alguma forma, uma diferença em relação aos demais profissionais, porque nós, urbanistas e arquitetos, conseguimos sintetizar através do projeto tudo o que é pensado. Nossa posição é estratégica, nesse contexto de novas instâncias institucionais. Não adiantaria sair da atual situação e privilegiar as intervenções arquitetônicas: em vez de trabalhar o espaço urbano, poderíamos cair na visão setorial. Sem a participação comunitária, dos comerciantes, dos empresários etc., nossos projetos podem ser extremamente divorciados da realidade e desprovidos do suporte social que qualquer ação correta exige. Nos países desenvolvidos, eles se reúnem e debatem até que o profissional de projeto tenha várias linhas para resolver determinado problema. Essas linhas são examinadas por grupos de perfis diversos até selecionar aquelas que servem melhor à coletividade. No Brasil, as coisas estão sendo mais discutidas agora e acredito que esse é um processo que virá à tona. Nosso papel como profissionais preocupados com a metrópole e a cidade é o de tentar montar estratégias. E nisso é muito importante a participação de entidades como o Instituto para o Desenho Avançado, o Idea, e o Instituto de Arquitetos do Brasil.

 
CONCURSOS DE ARQUITETURA
 
O senhor é favorável a concursos de idéias?

Sou. Nossa equipe venceu, por exemplo, o concurso das marginais de São Paulo, mas ele não avançou por problemas da prefeitura. Só que não podemos inventar eventos desse tipo; eles são válidos quando as propostas são discutidas. É necessário saber como os empresários vêem essa ou aquela idéia, por exemplo. O papel das associações de classe, das entidades, das faculdades é o de mostrar o que poderia ser feito. E lutar para montar novas estruturas institucionais, que gerem não só projetos, mas também o acompanhamento de sua aplicação. Seria muito importante introduzir nas revistas especializadas esse tipo de discussão a respeito dos concursos. Por que não fazer uma mesa-redonda sobre um concurso e seus resultados? Seriam convidados o vencedor, um arquiteto que participou do julgamento, um crítico, o autor do trabalho mais polêmico, menos enquadrado no paradigma dominante, e a partir daí se faria um painel, se discutiria aquele trabalho. Acho esse tipo de questionamento, de discussão conceitual, um contraponto muito bom para a arquitetura e o urbanismo no Brasil.

 
Mas o fato de muitos concursos não saírem do papel não gera descrédito?

Acho que o concurso público é um grande instrumento de participação da classe, de discussão para averiguar em que pé está o conhecimento em nossa profissão. Os concursos são preciosos para a arquitetura. Sou absolutamente a favor deles. Mas é claro que eles apresentam problemas e geram descrédito. Às vezes, o júri escolheu um trabalho de qualidade inferior, ou a própria organização do concurso gerou problemas. Em outros casos, não foram utilizadas as propostas vencedoras. Concursos de idéias, porém, são diferentes. Participamos porque aquela discussão nos interessa particularmente. Claro que o ideal é que o concurso saia com o compromisso de contratação e execução do projeto vencedor. Mas nem sempre isso é possível ou desejável.

 
Por que não é desejável?

Concursos de idéias podem ser interessantes. Em certos casos, quando não se sabe exatamente o que fazer, realiza-se o concurso, alguém ganha, mas o programa estava equivocado, o edital estava malfeito e o resultado final não será bom nunca. Há concursos que têm problemas de origem. Sou favorável à melhoria do modelo e contra o descrédito. É necessário que o programa seja discutido exaustivamente pela comunidade, por aquele grupo de usuários, que seja checado se existem recursos para sua aplicação. Precisamos discutir as deficiências dos concursos, para melhorá-los. E não jogar fora o bebê com a água

 
Por Fernando Serapião e Silvério Rocha
(Edição 243 - maio 2000)
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