Josep Maria Botey
“A arquitetura não é dirigida aos sentidos, mas à capacidade emocional das pessoas”
 
  Josep Maria Botey integra a direção do Museu de Granollers, atua como arquiteto da catedral de Barcelona. Autor de inúmeras obras
(PROJETO 172, março de 1994), escreveu artigos publicados em várias revistas européias especializadas em arquitetura e urbanismo, além de livros, como Oscar Niemeyer - Obras y proyectos, editora Gustavo Gili, de Barcelona
   
 
  "Só por meio da autêntica qualidade é que
as obras públicas permanecem na cidade.
A demagogia é barata"
   
 
  "Não se pode mudar a alma de uma cidade,
não se pode transformar seu espírito. Isso contraria sua própria evolução"
   
 
  Sala São Paulo, na estação Júlio Prestes:
"projeto bom e muito bem executado"
   
 
  Pinacoteca do Estado, em São Paulo-SP
 
Dividido entre a teoria e a prática, o arquiteto Josep Maria Botey é autor de inúmeros projetos de restauração e reciclagem na Catalunha, Espanha - entre eles, a famosa casa Battlò, de Gaudí -, e, ao mesmo tempo, é conhecido como estudioso do tema.
Em maio de 2002, Botey esteve em São Paulo para participar do Seminário Internacional de Preservação e Recuperação do Patrimônio Cultural, organizado pela Secretaria da Cultura do estado de São Paulo. Bastante familiarizado com o Brasil, o arquiteto visitou obras revitalizadas no centro paulistano.
 
Qual sua opinião sobre o processo de revitalização pontual, com edifícios como o da Pinacoteca e as estações Júlio Prestes e da Luz, em São Paulo?

Acredito que se está fazendo um trabalho muito importante e sério em São Paulo. É muito fácil, em uma praça ou uma rua, pintar os bancos de vermelho e as colunas de amarelo, só para dar uma satisfação às pessoas. O difícil é fazer para a população obras bem-feitas e caras. E só por meio da autêntica qualidade é que as obras públicas permanecem na cidade. A demagogia é barata.
A obra da Estação Júlio Prestes teve projeto bom e muito bem executado, isso é o fundamental.
Se gosto ou não, esteticamente, não tem a menor importância. Acho que, com ela, a Estação da Luz e a Pinacoteca, vai se formalizando um tecido urbano mais sólido. É evidente que estão atuando com o chamado efeito da gota d´água, que vai se expandindo sempre e aos poucos.

 
E esse processo funciona?

Fiz um trabalho assim que me emocionou muito.
A prefeitura de uma cidade próxima a Barcelona doou a área para a implantação de uma creche e um jardim para crianças pobres. Mas, para abrigar todas elas, o prédio teve de ocupar todo o terreno. Então pedi à prefeitura permissão para que a creche utilizasse, apenas nos períodos de aula, a praça pública ao lado. Ela seria fechada com paredes metálicas móveis que se reabririam depois das quatro da tarde, quando as crianças retornavam para casa, e a praça voltava a ser pública. Trata-se de um bairro muito pobre e degradado e, se as crianças brincam naquele espaço, os pais vão cobrar da municipalidade a manutenção e a limpeza daquela área. E assim aconteceu. Ninguém joga papéis sujos nem seringas usadas ali. A praça, agora, é um ponto limpo na cidade. As casas mais próximas começaram a ser pintadas e renovadas, e depois as das outras ruas. Outra intervenção no bairro, cuja área também começou a ser pintada, ajudou a dar o efeito gota d’água.

 
O Centro Cultural Banco do Brasil foi inaugurado, há um ano, no centro histórico de São Paulo, com uma exposição do artista plástico Tunga, que afirmou ser a revitalização do centro uma tolice - já que não conhecia lugar mais vivo no mundo - e uma medida elitista, para afastar dali os usuários de poder aquisitivo mais baixo.
O que voce acha disso?

Durante o seminário sobre o patrimônio, alguém na platéia chamou de elitista o Projeto Broadway São Paulo, que pretende devolver a teatros e cinemas do centro o glamour dos anos 1940. Quando terminou a palestra, perguntei a essa pessoa se achava minha gravata elitista. Ele disse que no Brasil era. E eu respondi que, na Espanha, só não usam gravata em ato público as classes sociais altas e sem educação. O metrô de Moscou, por exempo, foi feito com mármore de Carrara - eu não concordo com essa posição - porque assim o Estado poderia dar o máximo conforto coletivo a muitas pessoas, uma vez que não se poderiam obter outras conquistas. Não há símbolos sociais altos nem baixos. O que há são exclusões. Quando se fala de glamour, não se está pensando em uma classe social com gravata ou com mármore de Carrara, mas em oferecer espaços públicos onde se possa exercer a imaginação.
A arquitetura não é dirigida aos sentidos, mas à capacidade emocional das pessoas. Se não somos capazes de nos emocionar com a arquitetura, não estamos fazendo nada para a população. Só não gosto da palavra Broadway, porque é imperialista; gostaria de um nome mais brasileiro, como Cinelândia ou Teatrolândia. Se eu fosse paulistano, lutaria para que São Paulo tivesse suas próprias raízes, sua própria identidade.

 
Em São Paulo, está surgindo um fenômeno novo:
o setor privado sugere à prefeitura projetos urbanos para, caso sejam aprovados, financiá-los parcialmente. Isso acontece na Espanha?

Acho que o dinheiro público deve ser muito bem controlado. Se a proposta for do setor privado, com dinheiro privado, trata-se de taxa urbanística a pagar e nada mais. Em Barcelona, se um particular sugere à municipalidade o projeto de uma praça pública, por exemplo, o pedido será submetido à equipe de arquitetos da prefeitura, porque a cidade deve ter padrão de projeto.
A sugestão só será aprovada se os arquitetos concordarem, o que dificilmente vai acontecer, porque nesses casos há sempre em jogo um grande interesse particular, e não coletivo.
Isso ocorre em qualquer lugar do mundo, porque as pessoas só vêem seus próprios interesses. Nunca vai acontecer, por exemplo, o caso de um particular levar à prefeitura um projeto magnífico, este ser aprovado e ter os recursos liberados para execução por quem sugeriu.
O que pode ocorrer é o particular levar uma idéia à prefeitura, ela achar boa e contratá-lo para desenvolver o projeto, pago pela municipalidade com recursos públicos, por se tratar de uma obra de interesse coletivo, mas a execução será controlada por arquitetos públicos. Tenho trabalhado muito para a municipalidade. Faço o projeto, aceitam, dirijo os trabalhos, me pagam, mas tenho mais duas pessoas que me controlam, na arquitetura e no custo.

 
Seminários como esse do qual você participou
em São Paulo são produtivos?

Eles são muito interessantes, porque representam a oportunidade de absorver opiniões de profissionais com as mais diversas formações, como historiadores, sociólogos, arquitetos, engenheiros etc. E, antes da execução de um projeto, todas as opiniões precisam estar muito bem conectadas, porque, do contrário, os problemas depois podem ser terríveis.
O arquiteto deve saber que as construtoras têm sempre problema de timing e necessitam de planos e projetos fiéis à arquitetura e coerentes com o arquiteto. Eu não sei como funcionam, no Brasil, as concorrências para as obras públicas, mas na Espanha começa a ser bastante normal que as licitações estejam vinculadas antes a um arquiteto, para que não haja conflito depois.
O arquiteto faz primeiro seu projeto, a construtora prepara sua proposta econômica e eles, atuando de forma unificada, ganham o concurso.
E não, uma vez pronto o projeto, a administração abre a licitação para a construção e ganha uma construtora que quer mudar tudo.

 
O arquiteto, no caso, faz parte da construtora?

Na Espanha, o arquiteto está proibido de fazer parte de uma construtora, porque é muito difícil defender a arquitetura pura e, ao mesmo tempo, os interesses econômicos da empresa.
Ele pode ser promotor ou consultor de uma obra, desde que não tenha sido projetada por ele.
A idéia é impedir que o arquiteto tenha parte econômica numa empresa.

 
Você conhece o projeto que Lina Bo Bardi desenvolveu para revitalização do centro histórico em Salvador?

Próximo da Baixa do Sapateiro.
Sim, eu o visitei, era muito bom. Mas não foi adiante. O Pelourinho está horrível. Aquilo é um exemplo de Disneylândia.

 
Lina insistia que o Pelourinho só havia sobrevivido por causa de seus moradores, pois a elite local havia muito não residia ali. Para ela, não fazia sentido retirar aquela população. No projeto executado, os moradores foram retirados e o local foi ocupado por bares e restaurantes. Hoje, é um lugar seguro e isso agrada a população.
Como administrar esse dilema?

Não se pode tirar a população local. Trata-se de um problema de recursos. As empresas não vão investir dinheiro se o lugar não for seguro. Elas compactuam com a municipalidade e condicionam seus investimentos à desocupação da área.
Mas a municipalidade se equivoca, não deveria aceitar essas propostas. Ela deveria renovar o tecido humano, fazer pequenas intervenções de habitações sociais, para estudantes que queiram morar lá, para pessoas que saibam defender-se, e pouco a pouco o tecido social vai mudando.
Assim, em algum tempo, um tecido velho e sujo passa a ser jovem e criativo. Isso é o que a municipalidade tem de fazer. Não se pode mudar a alma de uma cidade, não se pode transformar seu espírito. Isso é contra sua própria evolução.

 
Você tem acompanhado os projetos urbanos para o Rio
de Janeiro, como o Rio-Cidade e o Favela-Bairro?

Vi o que Luiz Paulo Conde fez, e achei muito bom. Digo que acho bom, e volto a repetir: concorde ou não com ele especificamente, o critério é correto.

 
Falando em tecido urbano, arquitetos e urbanistas estão debatendo o que fazer no local do atentado em Nova York. Como você vê o assunto?

O tema é muito complicado, mas acho que ali deve ser feito o que o próprio urbanismo pedir. Não como reação a nada, é preciso pensar seriamente. Porque uma resposta emocional poderia propor a ocupação do local com três torres, em vez de duas. Atualmente, pode até ser necessário fazer quatro torres, mas o importante é saber de que a cidade necessita e por que necessita.
Sou emocional, mas muito reflexivo. Estudo, olho, espero, guardo, analiso, e quando sei realmente tudo sobre o lugar onde vou trabalhar, a história do local, seus moradores, o edifício, se é do patrimônio, como está o subsolo, suas fundações, as paredes, os estuques, as vidraças, a cobertura... Então, simplesmente espero e deixo que meu coração fale, porque quero recuperar a emoção. E esta chega de forma bem clara, não como uma revelação do Espírito Santo, é mais como sabedoria. Depois de informações exaustivas e de tudo escrito é que o projeto toma forma, livre, para que todas as pessoas da comunidade voltem lá.

 
Em que projeto você trabalha atualmente?

Acabei um teatro-auditório para uma comunidade de cerca de 100 mil pessoas, situada a 20 km de Barcelona. É um espaço pequeno, com mil lugares, mas muito interessante.
O auditório se transforma, suas paredes se movem e formam uma sala mais ampla ou menor, conforme o tipo de espetáculo. O espaço pode modificar-se: com orquestra, sem orquestra ou simplesmente com a orquestra no centro, para uma apresentação de música. Tudo com o mesmo teto e as mesmas paredes.

 
Por Éride Moura e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 270 Agosto 2002
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