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| Ruy Ohtake |
“Se eu me preocupar com
a crítica, vou ficar tolhido, fazendo arquitetura
de 30 anos atrás” |
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Ruy Ohtake diplomou-se
em arquitetura em 1960, pela FAU-USP e, desde então,
mantém o escritório Ruy Ohtake Arquitetura
e Urbanismo, em São Paulo. É autor de diversos
projetos, entre os quais o Parque Ecológico do
Tietê, em São Paulo, 1975; a embaixada brasileira
em Tóquio, 1982 (leia PROJETO 127, novembro de
1989); os hotéis Renaissance (1992) e Unique (2002),
ambos em São Paulo.
Foi professor na USP, na Universidade Mackenzie e na FAU-Santos |
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“Arquitetura só se
completa quando construída; ela tem que participar
do espaço da cidade” |
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"Desde o início,
introduzi em minhas obras esse prazer pelas curvas, essa
relação um pouco aberta entre a forma e
a estrutura" |
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Ohtake Cultural, São
Paulo, 1995
"Primeiro vem o projeto, depois a técnica
que melhor se adapta a ele. O arquiteto é que tem
de conduzir a tecnologia" |
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Casa Rosa Okubo (corte),
São Paulo, 1964 |
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Residência Tomie Ohtake, São Paulo
Foto: www.vitruvius.com.br
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Hotel Renaissance, São
Paulo
Foto: Nélson Kon
Clique na foto e leia mais |
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Hotel Unique, São
Paulo
Foto: Blair Alden
Clique na foto e leia mais |
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O paulista Ruy
Ohtake é atualmente um dos arquitetos brasileiros
mais conhecidos no país e no exterior.
Diplomado há mais de 40 anos pela FAU-USP, onde
foi aluno de Vilanova Artigas, e ligado à escola
paulista, Ohtake avançou para uma arquitetura mais
lírica, mais leve, que expressa o prazer pelas
curvas, pela inovação. Por essa razão,
já foi considerado “o mais carioca dos arquitetos
paulistas”. É evidente certa influência de
Oscar Niemeyer, de quem é amigo e admirador desde
estudante.
Segundo Ohtake, seus projetos procuram dar continuidade
à arquitetura moderna brasileira, criando volumes
de formas arrojadas, até mesmo polêmicas,
projetadas de acordo com técnicas que ele sabiamente
incorpora e adapta às suas necessidades. |
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Quando você decidiu fazer arquitetura?
Houve influência familiar? |
Desde o colegial já pensava
nisso. O ambiente de casa, a convivência familiar
com esculturas, cores e discussões sobre arte,
deve ter tido influência em meu gosto e talvez
isso tenha me levado à arquitetura. Mas nunca
foi uma coisa imposta, e veja que meu irmão
também fez arquitetura, ambos estudamos na
FAU-USP. Procuro sempre fazer com que meus filhos
tenham também essa convivência com a
arte, e todos os domingos almoçamos na casa
da minha mãe (a artista plástica Tomie
Ohtake), onde ficamos até a noite, conversando
sobre arte.
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| Seus filhos pensam em fazer arquitetura?
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O mais novo está no último
ano do colégio e vai prestar vestibular para
arquitetura. Minha filha, que é mais velha,
fez curso de teatro - junto com filosofia - mas ainda
não sabe se quer trabalhar com dramaturgia,
direção ou representação.
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Em seu tempo de estudante, quem era
a grande figura
do ensino? |
Artigas foi o grande condutor da
FAU. Quando entrei na faculdade, ele estava fora.
Voltou em 1957, quando eu estava no segundo ano, e
fui seu aluno então. Depois, houve uma reestruturação
do ensino, e fui seu aluno também no terceiro
e no quinto anos. Artigas foi o responsável
direto por minha formação e por minhas
preocupações como cidadão. Com
ele, passei a situar melhor o conteúdo da arquitetura,
a me preocupar com a questão política
da arquitetura. Devo muito a ele e também a
outros professores. Quando entrei na FAU, ela ainda
funcionava no casarão da rua Maranhão,
em Higienópolis, e era muito pequena, com apenas
30 alunos por turma. Alguns colegas que já
estavam mais adiantados também foram muito
importantes para minha formação. Destaco
Júlio Katinsky e Abrahão Sanovicz, que
trabalhavam como estagiários em um escritório
na rua Major Sertório. Eles iam para lá
todos os dias a pé, e eu, sempre que podia,
os acompanhava, só para ouvi-los conversar
sobre arquitetura. Esses colegas complementavam meu
curso didático. Foi uma época muito
rica, em que se discutia muito a arquitetura.
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| Além de Artigas, que outro
professor se distinguia? |
Lourival Gomes Machado, um erudito,
crítico de arte com personalidade muito forte.
Sua erudição alargava fronteiras para
todos nós. Outra grande figura era Flávio
Mota, professor de história da arte. Os professores
eram muito bons, abriam nossas cabeças. A própria
escola, desde sua criação, pela própria
natureza do trabalho e pela conscientização
dos estudantes, sempre foi muito reivindicadora. Na
época, diziam que o grêmio de alunos
de lá era o termômetro de esquerda do
movimento universitário. E não podemos
deixar tudo isso isolado do que acontecia no resto
do país, que nesse período atravessava
uma fase cultural muito importante. Foi quando começou
a surgir a bossa nova, o cinema novo. No teatro, em
1956, o Arena começou a montar textos da dramaturgia
brasileira e clássicos adaptados a nossa realidade.
Surgiram diretores importantíssimos, ainda
hoje em atividade.
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| E, na arquitetura, Brasília.
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Sim, em 1960 Brasília foi
inaugurada e esse foi um momento efervescente. Considero-me
um privilegiado por ter vivido naquela época.
Quando o Rio ainda era a capital, eu ia lá
sempre que podia para visitar o escritório
de Niemeyer. Claro que um estudante no início
do curso, como eu, não ia perguntar se ele
podia me atender. Ligava só para saber se ele
estava no Rio. Pegava o ônibus na noite da sexta-feira,
viajava sete horas pela Dutra, que tinha só
uma pista, e chegava na praça Mauá pela
manhã. Fazia uma horinha, ia de lotação
até Copacabana, subia até o escritório
e ficava esperando que Niemeyer chegasse.
Da primeira vez, ele entrou e foi direto para as reuniões,
e eu lá fora, esperando. De vez em quando ele
vinha trazer alguém na porta e me via lá.
Numa das vezes, perguntou o que eu queria, expliquei,
e ele me mandou entrar. Disse que não poderia
falar comigo naquele momento, mas que se eu quisesse
poderia esperar. Fiquei vendo as pessoas que desenhavam
e às seis da tarde ele disse: “Você ainda
está aqui? Espere mais um pouco e jante comigo
aqui perto”. Para mim, foi a glória jantar
com Oscar Niemeyer e ouvi-lo falar. Eu estava no primeiro
ano e não tinha a menor condição
de manter um diálogo sobre arquitetura. Era
um monólogo mesmo, mas eu só queria
ouvi-lo. Então, na minha formação,
além de Artigas, de alguns professores e colegas
mais adiantados, esses primeiros contatos com Niemeyer
foram muito importantes.
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Como Oscar Niemeyer era visto pelos
estudantes da
FAU-USP na época? |
Era considerado uma figura importante.
Só passou a ser contestado depois. Agora voltou
a ser muito respeitado. Na minha época de estudante,
ele era um pouco inatingível, porque quase
nunca vinha aqui. Além do prédio do
Ministério da Educação, a Pampulha
e alguns livros colocaram Niemeyer no mundo. Antes
de meu período na FAU, ele vinha muito a São
Paulo por causa dos projetos do Ibirapuera para a
comemoração do quarto centenário
da cidade. Ciccillo Matarazzo, fundador da Bienal
de São Paulo, com sua grande visão,
sugeriu que a prefeitura usasse o terreno do Ibirapuera,
um lamaçal cortado por três córregos,
para fazer as obras do quarto centenário da
cidade, que seria dali a três anos. E sugeriu
também a contratação de Niemeyer
para projetar o parque e seus edifícios. Nessas
obras, Carlos Lemos e Eduardo Corona o ajudaram muito.
Ele projetou aquilo tudo para ser um centro cultural,
só que depois a própria prefeitura foi
se apossando dos prédios. E não foi
feito o teatro, que ele cobra até hoje.
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Passada a fase da faculdade, como
foi sua entrada
na profissão? |
Na época, a atividade profissional
era mais heróica, pois a arquitetura ainda
estava se firmando. Quando nos formávamos,
muitos ingressavam no serviço público,
que tinha cargos bem interessantes, alguns iam trabalhar
em escritórios de arquitetura, outros montavam
seu próprio ateliê. Alguns trabalhavam
pela manhã em ateliê próprio e
à tarde, para outro profissional. Havia só
a FAU e o Mackenzie, e a relação com
o trabalho era mais tranqüila. Depois de formado,
trabalhei meio período no Centro de Pesquisas
de Estudos de Urbanismo da FAU, onde se faziam planos
diretores para as estâncias, financiados pelo
Estado, e no tempo restante em meu próprio
escritório, na rua 24 de Maio. Atraídos
pela sede do IAB, no centro, procurávamos ter
escritórios naquela parte da cidade. Depois
mudei para uma casinha de vila na alameda Tietê,
até que ficou pronto o edifício da Faria
Lima onde tenho escritório desde 1978. De início
fiz pequenas obras, reformas, ampliações.
Meu primeiro projeto foi uma garagem para a casa de
um tio, no bairro da Aclimação. Sempre
fui muito curioso com relação a obras,
técnicas, materiais, tintas, pincéis,
cores. Sentia necessidade de ter certo domínio
sobre tudo. Sem falar no amadurecimento quanto ao
espaço, à expressão arquitetônica,
à relação com a cidade.
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Entre suas primeiras obras, qual
foi aquela que, depois
de concluída, levou o senhor a pensar: bem, agora
sou arquiteto para valer? |
Nunca pensei assim. Projetei uma
casa quando já estava com dois anos de formado
de que gosto muito, e ainda hoje ela continua bem
(residência Rosa Okubo). É uma casa pequena,
num terreno de 10 por 30 metros, cujo projeto tinha
alguma influência de Carlos Milan, que insistia
muito “na verdade do material, na essência do
material”. Procurei trabalhar com essa essência,
usando o bloco de concreto de diversas formas, deixando-o
sempre aparente. O piso foi um só, todo em
cerâmica, dos dormitórios às salas.
O projeto é interessante e ganhou um prêmio.
Até hoje, quarenta anos depois, sempre sou
consultado quando o proprietário quer fazer
alguma coisa.
Ele passa silicone nos blocos, para mantê-los
impermeáveis, pinta os caixilhos da mesma cor
original, o laranja, enfim, a casa se mantém
como nova. Fico contente em saber que a maioria das
obras que fiz satisfez os clientes e que elas continuam
em muito bom estado.
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| A partir disso, como foi a evolução
de sua trajetória? O senhor a dividiria em fases?
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À medida que eu fazia os projetos,
ia tomando muita consciência. Minhas reflexões
sobre meus trabalhos sempre foram feitas após
a elaboração. Por isso acredito que
arquitetura é obra construída. A etapa
do papel é culturalmente muito importante,
mas acho que a arquitetura só se completa quando
construída, ela tem que participar do espaço
da cidade. Luto muito para que meus projetos sejam
construídos, talvez por isso tenha um grande
índice de obras feitas em relação
aos projetos elaborados. Claro que precisamos da colaboração
da construtora e de quem está à frente,
do organizador, seja ele do poder público ou
da iniciativa privada. A soma da vontade dos três
- arquiteto, construtora e organizador - é
que faz a obra ser executada.
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| O senhor se considera um integrante
da escola paulista? |
Não concordo muito com a expressão
“arquitetura paulista”. Quando me formei, ela estava
no auge, com uma produção muito interessante.
Mas sempre achei que era preciso acrescentar certo
lirismo, um pouco de gesto à chamada arquitetura
paulista. Então, desde o início, introduzi
em minhas obras esse prazer pelas curvas, essa relação
um pouco aberta entre a forma e a estrutura, tanto
que já fui chamado de “o mais carioca dos arquitetos
paulistas”. Fui caminhando assim na seqüência
de meus projetos, pois achava importante que essa
liberdade de forma e de desenho transparecesse também
na expressão da obra. Uma das características
da arquitetura brasileira sempre foi saber dar expressão
à obra, tanto por sua forma e volume, quanto
por sua limpeza, pelo cuidado no tratamento dos espaços
e por sua forte relação com a estrutura.
E ainda por permitir maior liberdade para inovações
e surpresas.
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| Seu projeto para o Parque Ecológico
do Tietê foi uma boa experiência profissional?
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A porcentagem de implantação
é pequena, mas tentei recuperar aquela área
e hoje ela é importante para a cidade de São
Paulo. No projeto, tive a colaboração
do Aziz Ab’Saber, de Burle Marx, do pessoal do Hermes
Moreira de Souza, de Campinas, e de muitos outros
especialistas. O rio corre em serpentina porque essa
várzea - que no caso do Tietê varia entre
600 e 800 metros, chegando até a um quilômetro
- tem um primeiro patamar constituído de terra
mais consistente; o equívoco é fazer
a cidade entrar na parte mais baixa. No Parque Ecológico
do Tietê foram feitos apenas oito quilômetros,
mas deixei o rio percorrer seu trajeto, sem ocupar
a várzea, e coloquei as marginais bem afastadas,
a uns 800 metros da água, bem no limite da
plataforma. Procuramos trabalhar com a natureza: o
rio sobe e desce, mas dentro da planície, sem
transbordar. Aqui em São Paulo, na canalização
feita para eliminar inundações, malária
e outras doenças, houve um erro de cálculo,
pois qualquer chuva mais forte inunda tudo. Além
de acabar com a planície, erraram na conta,
e o rio transborda.
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| Esse foi um de seus trabalhos mais
importantes? |
Sim, sem dúvida. Eu o considero
um dos projetos urbanísticos mais importantes
feitos para a cidade de São Paulo nos últimos
80 anos.
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| Qual sua opinião sobre o trabalho
de aprofundamento da calha do Tietê? |
Segundo os hidrólogos, existe
no fundo do rio uma laje imensa, uma pedra que vai
da ponte da Casa Verde à Freguesia do Ó,
chegando talvez até quase a Cidade Universitária.
O Tietê vem da zona leste, entra em São
Paulo, passa por cima dessa pedra, sai no Cebolão,
próximo da Cidade Universitária, e sobe
para o interior. O Tamanduateí, que é
um contribuinte importante do Tietê, desemboca
na altura da Ponte Pequena, e sua contribuição
- cada vez maior, porque a cidade está se impermeabilizando
rapidamente - é jogada num rio que está
amarrado pelas duas marginais. Então, a solução
é afundar o leito do rio, e há 20 anos
se fala nisso. Só que afundar como, com essa
laje de pedra no fundo? Se não conseguirem
afundar a laje, a obra será paliativa. Depois
de oito ou dez anos o problema estará de volta.
São Paulo merecia uma solução
mais a longo prazo. E o rio também precisa
ser dragado continuamente.
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E a solução proposta
por Niemeyer há alguns anos,
da qual o senhor participou? |
Foi na época em que Jânio
Quadros era prefeito e Niemeyer foi convidado para
projetar a prefeitura, que seria na Ponte Pequena.
Ele sugeriu que a marginal fosse levantada e a cidade
passasse sob ela para chegar à beira do rio.
E o rio Tietê seria tratado paisagisticamente.
Esse trabalho de levantar a marginal provocaria desapropriações
e não havia clima para isso. A imprensa fez
um barulho muito grande e o projeto foi engavetado.
Mas era uma solução paisagística
mais interessante, porque a cidade, antes das marginais,
ia até a beira do rio. Nós, paulistas,
sempre fomos muito insensíveis no diálogo
com a natureza.
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| O fato de a arquitetura paulista
ter proposto uma introspecção não
seria um reflexo disso? O exterior caótico teria
levado os projetos a se voltarem para o interior? |
Quando a paisagem externa não
tem grandes atrativos, volto a casa para o interior,
mas criando uma praça interna, um lugar de
convívio para os amigos e familiares. Quem
propôs isso de forma clara e didática
foi Artigas, nas décadas de 50 e 60. Rino Levi
também, mas de forma mais leve, menos clara,
com aporte mais europeu.
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| Por manter quase sempre uma relação
duradoura com seus clientes, o senhor sente-se agora à
vontade para ousar? |
Não há essa relação.
O arquiteto precisa ter sua postura desde o início.
Você não pode ousar nos projetos posteriores,
é preciso ousar desde o primeiro.
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| E a crítica, como o senhor
a encara? Porque não se pode ficar indiferente
a um projeto seu... |
A crítica faz parte da natureza
da arte. Toda arte de vanguarda é polêmica,
porque rompe com o que está estabelecido. Creio
que o desafio do arquiteto é dar continuidade
à arquitetura brasileira. Cada profissional
tem seu projeto, e isso tem de ser respeitado. Se
eu me preocupar com a crítica, vou ficar tolhido,
fazendo arquitetura de 30 anos atrás. O desafio
da inovação é caminhar para o
desconhecido. O artista é aquele que procura
o caminho do desconhecido e por isso mesmo está
sujeito a críticas. Só não concordo
com preconceitos.
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| Nos últimos anos, você
tem trabalhado com escalas cada vez maiores. Esses projetos
de maior visibilidade têm um tratamento diferente?
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Quando estou elaborando um trabalho,
o que me preocupa é que ele tenha um conteúdo,
uma relação, a expressão da ordem
do projeto. E que seu interior seja adequado, funcione
bem e signifique um avanço na linha da arquitetura
brasileira. Não quero saber, nem estou preocupado,
se um projeto obteve mais repercussão que o
outro. O que quero, e muito, é que a população
em geral goste da obra de arquitetura.
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| Dada a quantidade de projetos, você
se preocupa com a possibilidade de perder um pouco o controle
do trabalho? |
Mas eu não tenho tantos projetos.
Possuo sempre controle muito grande sobre minhas obras.
No piso do Instituto Tomie Ohtake, por exemplo, sei
dizer onde estão as juntas de dilatação,
que são muitas e diferentes.
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| Você gostaria de ter um escritório
maior ou menor? |
Preferia ter um escritório
mais bem remunerado.
A remuneração no Brasil é menor
do que na Argentina, na Colômbia, muito inferior
à dos europeus. Na Europa, os arquitetos projetam
duas obras e ficam o resto do ano tranqüilos.
E um trabalho, para mim, tem na verdade três
fases: a de anteprojeto, a do projeto executivo e
detalhado, e a fase do acompanhamento da obra, durante
a qual sempre vou ajustando algumas coisas. Isso com
projeto de qualquer escala.
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| De que maneira o seu trabalho incorpora
as inovações tecnológicas? |
Há a tecnologia que serve
para o funcionamento da obra, ou seja, para controle
de ar condicionado, luz, uso de computadores e outras
máquinas. Outra é a tecnologia adotada
na construção. Geralmente, faço
o projeto independente de qualquer preocupação
tecnológica. Depois, no detalhamento, percebo
que o cobre ficaria melhor na cor verde, já
oxidado, e começo a procurar no Brasil. Se
não consigo, procuro no exterior quem possa
fornecer. Quero saber sobre a melhor forma de fixar
o cobre e como é feita sua manutenção.
E isso para todos os elementos do projeto, como o
funcionamento da janela, o tipo de vidro etc. A técnica
deve estar de acordo com o que o projeto coloca. Primeiro
vem o projeto, depois a melhor técnica que
se adapte a ele. O arquiteto é que tem de conduzir
a tecnologia.
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| Na arquitetura atual, quais os profissionais
que o senhor mais admira? |
Sem dúvida, Lelé, Oscar
Niemeyer e Paulinho (Paulo Mendes da Rocha).
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Por Adilson
Melendez, Éride Moura e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 272 Outubro 2002 |
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