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| Clorindo
Testa |
Uma conversa
sobre arquitetura |
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Clorindo Testa é
italiano de nascimento, mas estabelecido na Argentina,
e diplomou-se arquiteto em 1947, pela Universidade de
Buenos Aires. Desde jovem atuou, simultaneamente, como
arquiteto e pintor.
Suas concepções arquiteturais, originalmente
próximas às de Le Corbusier, evoluíram
para um estilo mais livre que o levou às fronteiras
da escultura e do kitsch.
Entre as obras de sua primeira fase (1950/70), destacam-se
o centro cívico de Santa Rosa de La Pampa, a sede
do Banco de Londres e a Biblioteca Nacional (estes dois
últimos em Buenos Aires), considerados marcos da
arquitetura argentina e que mostram a habilidade do arquiteto
no uso plástico e técnico do concreto aparente.
Entre seus projetos mais recentes, destacam-se o Hospital
Naval e o Design Center Recoleta,
em Buenos Aires, e as instalações da estação
balneária La Perla, em Mar del Plata |
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"Acho que as cidades
são como as pessoas, vão crescendo. O que
se pode fazer é arrumá-las, ordenar seus
acessos, as áreas residenciais" |
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| Em julho de 2002,
o arquiteto argentino radicado no Brasil Jorge
Mário Jáuregui integrou
um grupo de profissionais que manteve, no escritório
de Javier Fernandez Castro, longo diálogo
com Clorindo Testa, um dos mais importantes arquitetos
e artistas plásticos latino-americanos da atualidade.
No encontro de Buenos Aires, Jáuregui e
Testa concluíram conversa iniciada meses antes
em Santo Domingo, onde estiveram, a convite da prefeitura
local, para, junto com outros profissionais latino-americanos,
elaborar estudos sobre possíveis intervenções
urbanísticas na capital da República Dominicana.
Esse
longo diálogo deu origem à entrevista
publicada a seguir. Os croquis que a ilustram foram executados
por Testa durante a conversa, a título de explicação
dos projetos citados. |
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| De que maneira o senhor soluciona
a questão da ordem na composição
de sua arquitetura, que se caracteriza por um traço
vigoroso, muito jovem, quase casuístico, como se
resultasse de um impulso? |
Vou organizando as coisas em função
do que me foi solicitado, sempre confrontando meu
traçado com o que o lugar me permite e me condiciona
- preexistências naturais ou construídas,
por exemplo -, numa tensão entre o que desejo
e o que existe. Crio, assim, uma espécie de
problema produtivo, no qual intenção
e preexistências vão estabelecendo um
contraponto. A proposta vai se encaixando no que existe
e passa a fazer parte da realidade, mas tudo sempre
muito ordenado.
No caso do Banco
de Londres, por exemplo, uma das exigências
era que a distância percorrida pelos funcionários
entre as circulações fosse a menor possível.
No projeto elaborado, havia uma ordem bem clara e
forte nesse sentido, e esse foi um dos fatores determinantes
para que ganhássemos o concurso. O traçado
regulador das fachadas também corresponde a
uma modulação precisa dos apoios, que
constituem os grandes pórticos nascidos da
estrutura do teto. A forma das colunas e o diafragma
das fachadas se imbricam, constituindo uma só
coisa, o que reforça a ordem e a unidade do
conjunto.
Já no caso da Biblioteca
Nacional, os quatro grandes pilares em forma
de tubos que suportam o corpo do edifício alojam
as escadas e elevadores, permitindo configurar um
grande espaço coberto e aberto como uma espécie
de praça pública, que constitui o acesso
à biblioteca. No volume superior estão
os setores administrativos, as áreas de exposições,
o foyer do auditório, o café e as salas
de leitura com vistas para a paisagem. Os livros,
que são a parte pesada do programa, estão
no subsolo. Dessa forma, a ordem funcional se manifesta
na composição do edifício.
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| A cor tem presença muito forte
em seu trabalho. De que maneira ela se relaciona com sua
busca plástica? |
Desde o início, já
sabemos como tudo vai ficar. A questão da cor
faz parte de nosso processo de projeto. Acho que,
de alguma maneira, tem a ver com a genética,
com a pessoa. E a arquitetura é um instinto.
As crianças desenham suas casas todas iguais;
os homens das cavernas também desenhavam de
maneira semelhante. As crianças deixam de desenhar
depois que crescem, mas algumas continuam porque têm
certa tendência que as outras não têm.
Acredito que a habilidade com a cor é genética,
mas seu uso vai mudando dentro de determinada cultura,
até que chega o momento em que algumas questões
não interessam mais. Na Argentina, a arquitetura
moderna não estava interessada na cor, só
agora passou a se interessar.
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| De que maneira o senhor analisa a
evolução da tecnologia da construção
e seu efeito na arquitetura? |
Na medida em que mudem os materiais
com os quais se pode construir, a arquitetura poderá
ser mais sensível e maleável. Hoje,
continuamos construindo como há mil anos -
com pedra, tijolo etc. -, mas em outras áreas
as coisas mudaram muito. Uma residência atual
não se diferencia muito, construtivamente,
de uma casa romana. A indústria da construção
ainda não está acompanhando outros setores,
bem mais dinâmicos. A maneira de fazer as coisas
em nossa área de atuação tem
evoluído pouco. Um edifício continua
durando setenta, oitenta, cem anos, enquanto um carro
ou um avião duram de cinco a dez anos.
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| Qual a visão que o senhor
tem da cidade atual, tomando como exemplo Buenos Aires?
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Acho que as cidades são como
as pessoas, vão crescendo. O que se pode fazer
é arrumá-las um pouco, ordenar seus
acessos, suas áreas residenciais e as que não
são residências, como o comércio,
serviços etc. Porque essas são atividades
naturais, os negócios se juntam e se distribuem
por vários setores da cidade, embora hoje,
pela grande dimensão alcançada, trate-se
de problema bem mais complicado, mais complexo. Mas
as pessoas continuam preferindo estar umas ao lado
das outras, com a possibilidade de se encontrarem
em espaços agradáveis e de qualidade.
É nisso que nós, arquitetos, devemos
pensar e o que devemos favorecer com nossas intervenções.
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| Como o senhor vê a tendência
de construir grandes conjuntos de edifícios de
escritórios em novas áreas, afastadas dos
centros das cidades? |
Acho que todos os que trabalham preferem,
de maneira geral, estar em contato uns com os outros.
Os empregados das lojas são amigos das pessoas
que compram ali e vivem na mesma área. Gostam
de sair à rua e se encontrar com as pessoas.
E geralmente os pintores são amigos dos pintores,
os arquitetos dos arquitetos, e freqüentam os
mesmos lugares da cidade. Dessa forma, acredito que
devemos evitar o isolamento, a formação
de guetos.
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| No livro Clorindo Testa Architects,
de Manuel Cuadra, publicado pela NAi Publishers em 2000,
e no texto “Clorindo Testa”, publicado pela revista
Summa+Libros, em 1999, são comentadas as relações
entre vida pública, tecido urbano e arquitetura.
De que forma a arquitetura pode contribuir para facilitar
as relações sociais e torná-las mais
amistosas? |
É claro que a arquitetura
condiciona e favorece esse tipo de relação
na medida em que os projetos são bons. Uma
casa pode ser melhor que a outra, oferecer mais opções
e permitir viver melhor; o mesmo pode ocorrer com
os edifícios de escritórios. A arquitetura,
em sua configuração urbana, deve contribuir
para favorecer as relações sociais,
a conexão do diverso; permitir que os diferentes
usos mantenham continuidade e possibilitem ter a sensação
de fazer parte de algo maior.
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| Os argentinos sempre deram grande
valor à instância pública, à
transparência entre o espaço público
e o privado. O que devemos fazer para que as cidades não
percam sua “caminhabilidade”, a condição
de espaço público integrador na escala do
pedestre? Em seu novo projeto para a universidade de San
Luis, o senhor busca a conexão entre as partes,
possibilitando o caminhar e o encontro no campus. |
Estão fazendo agora uma parte
da urbanização do campus; são
cinco edifícios com ateliê, depois tem
um centro de estudantes com bares, o centro de artes,
as residências, os equipamentos desportivos,
e também a praça e a galeria, que são
como uma cruz onde se localizam a reitoria, a biblioteca
e o auditório. Então, o campus foi todo
idealizado como uma espécie de célula
urbana em que as diversas partes configuram diferentes
opções de atividades e de percursos,
com seus também distintos pontos de atração
e convivência. É um projeto que busca
contribuir para fazer cidade.
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| A rampa continua sendo elemento importante
de suas composições, tanto no que diz respeito
ao objeto arquitetônico quanto ao espaço
urbano? |
É, as rampas deixam tudo mais
lindo. Agora mesmo estamos projetando uma casa fora
da cidade, com os quartos embaixo e a sala de estar
em cima, para aproveitar a vista da paisagem.
E mais acima fica um terraço, que permite estender
ainda mais a visão dessa paisagem.
A casa tem rampas porque é para um deficiente
físico e, neste caso, ela se expressa no objeto,
é uma parte muito importante dele.
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| O senhor sempre diz que as viagens
e os desenhos de viagem cumpriram um papel muito importante
em sua vida de pintor e arquiteto. Como foi isso? |
Comecei desenhando paisagens apenas
pelo prazer de fazê-lo, e em 1949, quando estava
na Itália - recebi uma bolsa de estudos de
três meses, mas acabei ficando por dois anos,
e pude até visitar outros países -,
tive oportunidade de desenhar muito. Um dia, em Roma,
conheci Frans van Riel, que se entusiasmou com meus
desenhos e me convidou para expô-los em uma
galeria que ele tinha em Buenos Aires. A exposição
foi em 1952, alguns meses depois de meu regresso,
e apresentava paisagens com pontes, máquinas
e estações ferroviárias. No ano
seguinte, fui convidado a expor novamente, e assim
iniciei o trabalho que até hoje realizo, ao
lado da arquitetura. Desde aquele época, pintura
e arquitetura estão sempre juntas. Quando criança,
gostava de desenhar, e fiz muitos modelos de barcos
e aviões. Mas os dois anos que passei na Itália,
viajando e desenhando, absorvendo tudo o que via,
foram fundamentais para minha formação.
Gosto de desenhar, é algo que me diverte; transmito
minhas idéias por meio dos croquis.
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| Qual, entre suas obras, o senhor
elegeria como a preferida? |
Todas me interessam sempre, mas o
Banco de Londres, a Biblioteca Nacional e o Centro
Cívico de La Pampa são obras importantes.
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| No ano passado, no concurso de Córdoba,
a solução apresentada pelo senhor me pareceu
brilhante. Foi um dos poucos projetos que tinha uma proposta
que levava em conta o entorno. |
Tratava-se de um edifício-fita,
com os núcleos de circulação
de escadas e elevadores bastante próximos uns
dos outros. No programa, pedia-se que fossem espaços
fáceis de serem transformados, pois não
se conheciam as necessidades futuras de aumento ou
redução de usuários. Depois,
havia uma rampa para o público, com a planta
baixa livre, e os acessos às circulações
verticais. Podia-se subir e ver a paisagem. O edifício
era, para a população do entorno, local
de passeio no fim de semana; rampa para o público
e planta baixa livre para circulação
dos visitantes, constituindo um passeio público.
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| Como o senhor avalia sua experiência
de docente? |
A docência me divertia quando
o aluno era bom; quando não, era muito chato.
Com o aluno bom você se diverte confabulando,
pondo a imaginação para trabalhar intensamente.
A relação com um bom aluno é
um estímulo à criatividade.
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Por Jorge Mário
Jáuregui
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 273 Novembro 2002 |
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