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Desde a metade
do século 19, quando a expansão do proletariado
urbano exigiu a criação dos primeiros programas
de habitação de baixo custo, passando pela
criação do BNH-Banco Nacional de Habitação,
durante a ditadura militar, e por iniciativas mais recentes,
como Pró-Moradia e Pró-Saneamento, o papel
do Estado na oferta da habitação tem sofrido
profundas alterações no Brasil. Hoje há
uma forte tendência de redução da
intervenção direta do setor público
no processo de provisão da moradia popular. Ao
mesmo tempo, é crescente a participação
do setor privado, das ONGs e das próprias comunidades.
Essa é uma tendência global, e o Brasil não
é uma exceção. Com o objetivo de
investigar qual o novo papel do Estado nesse processo,
uma pesquisa da Escola Politécnica da Universidade
de São Paulo, faz uma análise comparativa
de diversos modelos de relação entre agentes
públicos e não-públicos na oferta
de habitação no país.
O coordenador da pesquisa, professor Alex Kenya Abiko,
fala sobre algumas respostas oferecidas pelo estudo que
será transformado no livro "Pluralismo na
Habitação". |
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| Segundo a pesquisa é possível
observar dois novos papéis do Estado na provisão
da habitação no país: um Estado que
atua na regulação técnica dos projetos
de habitação e outro que estimula a parceria
com a sociedade buscando sanar o problema da moradia.
Gostaria que o senhor começasse nos falando sobre
a atuação do Estado no que vocês denominaram
de 'regulação técnica expandida'. |
É um Estado que, por um lado,
não produz ou constrói unidades, mas
que incentiva a iniciativa privada a participar amplamente
da produção. Por outro, no entanto,
regula fortemente os aspectos técnicos. Esta
é uma posição diferente em relação
ao Estado que produz, e também do Estado que
permite que a iniciativa privada atue livremente na
produção, segundo as leis do mercado.
Resumindo, é um Estado que atua no que chamamos
de regulação técnica expandida,
incentivando a participação da iniciativa
privada na produção, mas exercendo uma
forte regulação técnica.
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| Também de acordo com a pesquisa,
a postura do Estado na regulação técnica
expandida foi principalmente observada através
da inesperada satisfação dos moradores com
o produto, ou seja, sua própria moradia, verificada
durante as análises dos dados coletados junto aos
programas de habitação estudados na região
da cidade de São Paulo. Por que a equipe se surpreendeu
com os dados obtidos e como eles levaram à observação
desse novo papel do Estado na oferta da habitação?
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O fato mais surpreendente observado
foi, sem dúvida, a satisfação
mediana generalizada verificada em relação
à unidade habitacional, ao conjunto no qual
a unidade está inserida e à localização
no tecido urbano da Cidade de São Paulo onde
este conjunto foi implantado.
Nos perguntamos qual a explicação mais
evidente para esta satisfação e por
que neste momento não se verifica a repetição
daquilo que se assistiu no passado, como as reclamações
quanto à qualidade da unidade habitacional,
do conjunto e do local na malha urbana onde este estava
inserido, que com freqüência era a franja
do tecido urbano contínuo, no qual a terra
tem, via de regra, preços mais baixos. E a
explicação possível aqui parece
ser uma só. Esta satisfação deve-se
a uma habitação efetivamente de boa
qualidade, o que é conseqüência
da atuação de uma tecnoburocracia amadurecida,
que regula diversas etapas do processo de provisão,
tanto através do licenciamento de terrenos
e/ou das construções, utilizando seus
projetos, quanto da fiscalização financeira
e do processo de construção - e esta
é a atuação do Estado na regulação
técnica expandida.
Para tornar mais claro, tomemos como exemplo o licenciamento
de terrenos na Companhia de Desenvolvimento Habitacional
e Urbano de São Paulo, a CDHU. Por um lado,
a companhia amadureceu, ao longo dos anos, uma série
de normas para aceitação dos terrenos
para implantação de conjunto de habitação
popular. Por outro, a dinâmica da instituição
permitiu que seu corpo de tecnoburocratas adquirisse
uma autonomia tal que as normas referentes à
terra são respeitadas, mesmo quando há
pressões para que isto não ocorra, vindas
de forças e interesses diversos.
A efetivação desta autonomia deve-se
não só a um processo intrínseco
da companhia, mas também à existência
de um corpo de leis urbanísticas e ambientais
genéricas, promulgadas nas últimas décadas,
que são devidamente cobradas por instituições
do Poder Judiciário, como por exemplo do Ministério
Público. As normas da CDHU se ocupam não
só de aspectos relacionados à localização
do terreno tais como a obrigatoriedade da inserção
no tecido urbano contínuo, as distâncias
aos principais equipamentos urbanos, a existência
de rede de infra-estrutura ou de transporte coletivo
etc., como também de aspectos geomorfológicos
tais como declividade mínima, a situação
do lençol freático etc. É fácil
perceber que o atendimento a essas normas resultaram
na satisfação dos moradores, verificada
pela pesquisa.
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| Um outro exemplo considerado pelo
estudo é o Programa Qualihab, Programa da Qualidade
da Construção Habitacional, também
da CDHU. De acordo com a pesquisa, entre os vários
aspectos deste programa é possível apontar
dois que caracterizam essa nova forma de atuação
do Estado e da relação entre o Estado e
o setor produtivo. Como funciona este programa e que aspectos
são estes que revelam novas facetas do poder público
na área de habitação no Brasil? |
O Qualihab é o resultado do
interesse comum pela melhoria da qualidade, existente
entre a CDHU e o setor da construção
de habitações populares. Este programa
começou a ser articulado no final do ano de
1993 envolvendo construtoras e indústrias de
materiais de construção, que perceberam
a importância do tema para o setor. O Qualihab
tem por objetivo a otimização da qualidade
dos materiais, componentes, sistemas construtivos,
projetos e obras nos empreendimentos habitacionais
do governo do Estado de São Paulo, para habitação
popular, induzindo através de seu poder de
compra, que os segmentos do meio produtivo estabeleçam
programas setoriais da qualidade, incluindo a elaboração
de normas e documentos técnicos, desenvolvimento
de programas de treinamento da mão-de-obra
e a implantação de processos de qualificação,
homologação e certificação
de produtos (materiais, componentes e sistemas) e
serviços (projetos e obras).
O primeiro aspecto do programa que podemos apontar
e que caracterizam uma nova forma de atuação
do Estado e da relação entre o Estado
e o setor produtivo é a explicitação
do poder de compra do Estado. Ou seja, pelo volume
de recursos envolvidos e por sua responsabilidade,
o Estado exerce um papel ativo propiciando um avanço
na qualidade da produção habitacional.
O segundo é a participação ativa
do setor produtivo, elaborando normas, documentos
técnicos, implantando sistemáticas que
têm como conseqüência programas setoriais
de qualidade. Esta regulação pela tecnoburocracia
é observada em diversas outras situações,
tais como o controle financeiro dos Mutirões,
cujas parcelas do financiamento são liberadas
somente depois das devidas "medições",
e a distribuição feita sempre através
de "sorteios" das unidades prontas da CDHU.
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| Vamos agora então falar um
pouco sobre o outro papel do Estado na provisão
da habitação que, segundo a pesquisa, é
o de parceiro da sociedade civil organizada. Como ele
se dá? |
Este outro novo papel do Estado na
provisão de habitação popular
está relacionado com o Modo de Provisão
Mutirão. Nele o Estado atua como parceiro da
sociedade civil organizada em associações.
Esta parceria é nova e duvidou-se muito da
sua eficiência e eficácia, até
que os fatos as comprovassem. Com a pesquisa verificamos
duas parcerias muito importantes e que merecem a recomendação
para efeitos de políticas públicas.
Uma delas é a parceria entre o Estado, representado
pela CDHU, e a iniciativa privada, que no caso desta
pesquisa efetiva o Modo de Provisão Empreitada
Global. E a parceria entre o Estado, representado
também pela CDHU e pela COHAB-SP, e o cidadão
comum reunido em Associações, que efetiva
o Modo de Provisão Mutirão.
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| Qual é a importância
destas duas parcerias? |
A primeira compõe o Modo de
Provisão Empreitada Global que é, entre
os seis modos de provisão estudados, o mais
eficaz, ou seja, sendo aquele que mais produz, ele
se aproxima mais daquilo que consideramos o objetivo
genérico de uma provedora de habitação
popular: produzir o maior número possível
de unidades. A segunda parceria compõe o Modo
de Provisão Mutirão, que é o
mais eficiente tanto financeira quanto administrativamente.
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| Por que o Modo de Provisão
Empreiteira Global foi considerado mais eficaz? |
A eficácia da parceria Estado
- iniciativa privada, que compõe o Modo de
Provisão Empreitada Global, deve-se ao seu
perfeito ajuste ao modo de produção
capitalista dos países periféricos.
Nesse modelo, o Estado representado pela CDHU desempenha,
basicamente, o papel de financiador e regulador de
todo processo de provisão, enquanto a iniciativa
privada constrói as unidades.
A princípio, uma parceria entre Estado e iniciativa
privada com esta distribuição de papéis
é comum e foi percebida ao longo da história
da habitação popular no país.
Quais são, então, as características
desta parceria entre a CDHU e a iniciativa privada
que criam as condições para a efetivação
da eficácia observada do Modo de Provisão
Empreitada Global? Acreditamos que estas características
estão, principalmente relacionadas à
CDHU. Há um fator específico que torna
esta empresa peculiar, diferente das outras provedoras
ordinárias: é a destinação
anual à empresa de uma verba no valor de "mais
de meio bilhão de dólares". Todos
os anos, em virtude de uma determinação
legal, um percentual do ICMS, lembremos, terceira
maior cidade do planeta, é destinado à
CDHU. Dada a magnitude desses recursos, por diversas
vezes um dos presidentes da Companhia afirmou publicamente
que ela seria a maior provedora de habitação
popular do mundo.
O que se observa na prática é que esta
situação privilegiada faz com que a
CDHU desempenhe um importante papel econômico
e político no Estado como um todo, e especificamente,
na Cidade de São Paulo. Por um lado, face à
magnitude dos recursos financeiros movimentados pela
empresa, ela se tornou um elemento importante na criação
de trabalho para o capital produtivo - os construtores
- envolvidos com na atividade de construção
civil. A empresa é hoje uma incrementadora
da atividade da construção civil no
Estado, o que afirma seu importante papel econômico.
Por outro lado, a CDHU é hoje uma ferramenta
preciosa no jogo de adesões do Governo Estadual,
desempenhando aí um papel político relevante.
O fornecimento de unidades habitacionais em todo o
território do Estado é um poderoso instrumento
para atrair a aproximação, tanto dos
governos locais, como também dos eleitores,
do Governo Estadual. Sendo assim, é fácil
observar que a manutenção da lei que
assegura os recursos anuais à CDHU interessa
não só ao capital produtivo como também
aos governantes. Além disto, este interesse
se estende, é claro, aos trabalhadores, uma
vez que o capitalismo periférico não
remunera o trabalho suficientemente de forma a permitir
a aquisição de moradia no mercado formal.
É fácil perceber, entretanto, que tanto
o interesse do capital, inclusive o governo, quanto
do trabalho não se limita à manutenção
da lei que assegura os recursos anuais à CDHU.
Interessa a efetiva produção de unidades
habitacionais, ou seja, interessa que os recursos
disponibilizados sejam transformados em unidades habitacionais
e não despendidos nem com estruturas administrativas
avantajadas nem de outra forma. É por isso
que o processo de provisão materializado por
esta parceria é bem ajustado ao modo de produção
capitalista periférico. É algo que interessa
ao capital produtivo e ao trabalho, o que explica
sua eficácia verificada na pesquisa.
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| E o Modo de Provisão Mutirão,
por que motivos foi considerado eficiente tanto financeira
quanto administrativamente? |
O Mutirão, na verdade, não
é só um processo de provisão
de habitação popular. Ele pode ser caracterizado
como um movimento de organização social
mais abrangente, que evoluiu ao longo dos anos, muito
característico da Cidade de São Paulo.
Mas em seus primeiros anos, esse processo foi alvo
de críticas. Era comum a argumentaçã,
por setores da esquerda, de que o Mutirão representava,
em última instância, uma sobrecarga de
trabalho para os futuros moradores, que tinham que
abdicar do descanso no fim de semana para se dedicar
à construção de sua casa própria.
Defendia-se naquele instante mudanças mais
amplas que garantissem ao trabalhador rendimentos
suficientes para a aquisição de sua
casa própria no mercado formal.
Atualmente, embora aceita esta argumentação,
os movimentos populares têm considerado o Mutirão
como uma das alternativas possíveis e viáveis
para a solução dos seus problemas de
moradia.
É possível formularmos diversas hipóteses
que justifiquem esta escolha, mas sem dúvida
o menor custo é um grande argumento. Além
desse argumento, e correlato a ele, é a possibilidade
de através desse modo de provisão se
ter moradias mais amplas, ou seja, maior número
de metros quadrados na unidade habitacional. Uma outra
explicação para a adesão da comunidade
a essa opção é a boa qualidade
resultante dessas construções coletivas.
O que hoje se observa é o resultado de um
processo de aperfeiçoamento desta modalidade
habitacional. No início do Mutirão,
a comunidade era considerada apenas como mão-de-obra
não paga, em projetos providos pelos órgãos
públicos responsáveis pela habitação
popular. Com o passar do tempo e com as experiências
acumuladas, a comunidade começou a ter um papel
muito mais ativo e participativo, surgindo inclusive
a possibilidade de ela contratar Assessorias Técnicas
para auxiliá-la no trabalho especializado.
Nesta linha de evolução, percebeu-se
também que era necessário envolver a
mão-de-obra remunerada para assumir tarefas
mais especializadas como instalações
elétricas e hidráulicas, e para preparar
o trabalho do canteiro para o fim de semana, que é
o período de maior concentração
de trabalho dos Mutirantes.
O envolvimento das Assessorias Técnicas e
da comunidade na gestão dos empreendimentos
explica a eficiência administrativa, verificada
pelo indicador referente ao número de funcionários
por unidade produzida. Vale à pena enfatizar
que muito provavelmente esta eficiência administrativa
e financeira não ocorreria se o Mutirão,
enquanto modo de provisão, não fosse
devidamente acompanhado da regulaçã
do Estado.
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| Que aplicações a equipe
vislumbra para a pesquisa? |
A pesquisa traz dados concretos sobre
diversos modelos de oferta habitacional no Brasil,
o que a torna instrumento de apoio para a reformulação
e a formulação de políticas públicas.
Os resultados obtidos podem também ser utilizados
em outros setores de maneira comparativa. Ou seja,
eles são úteis na avaliação
de diferenças e semelhanças entre a
habitação e outros bens/serviços,
bem como na avaliação de quais as recomendações
que podem ser generalizadas e quais as que devem permanecer
específicas para o setor.
Pensamos que este trabalho pode também ser
enviado para agências internacionais diversas,
que têm notadamente uma influência forte
e crescente em assuntos nacionais, com o um subsídio
para adaptação de suas políticas
genéricas à realidade brasileira. Por
último, como os modelos de oferta habitacional
estudados envolvem não apenas agentes públicos
mas também os não-públicos, como
as firmas privadas e as ONGs, os resultados aqui obtidos
podem ser usados pelos agentes não-públicos
com o objetivo de melhorar o seu desempenho.
Especificamente no que diz respeito ao problema habitacional,
vale salientar que, com o final das macro-políticas
ditadas por órgãos como o BNH, criou-se
uma lacuna no tocante a possíveis direcionamentos,
tanto para a provisão quanto para a produção
habitacional, que ainda não foi adequadamente
preenchida. Esta pesquisa visa oferecer subsídios
para seu preenchimento.
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Publicado originalmente
na revista Habitare,
do Programa Habitare - Finep
Veja mais no site habitare.infohab.org.br |
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