Siegbert Zanettini
“A arquitetura é o equilíbrio entre o racional e o sensível”
 
  Siegbert Zanettini diplomou-se pela FAU-USP em 1957 e é professor da mesma escola desde 1960. É titular do escritório Zanettini Arquitetos Associados, de São Paulo
   
 
  Capa do livro "Arquitetura razão sensibilidade"
   
 
  "Em minhas primeiras obras usei até trilhos de bonde que estavam sendo desmontados"
   
 
  Projeto de Siegbert Zanettini para o Centro de Tecnologia da Construção Metálica, no campus da USP, em São Paulo. (Clique e leia mais)
   
 
  "Acho que a meia formação em engenharia não serve para o arquiteto. Não o forma na ciência da física, da matemática, na ciência das estruturas. O arquiteto não sabe manipular os elementos tecnológicos de que precisa. E hoje, mais do que nunca, não se faz arquitetura sem tecnologia"
   
 
  Maquete do edifício para
a Panamericana de Arte, em São Paulo
   
 
Com 40 anos de profissão e 38 de magistério, Siegbert Zanettini acaba de lançar o livro "Arquitetura razão sensibilidade", que reúne toda a sua extensa experiência.

Membro de uma geração que amadureceu no diálogo e na reflexão sobre a arquitetura moderna, Zanettini aponta agora a necessidade da análise sobre a produção arquitetônica contemporânea, estudo em sua opinião inexistente em nossas bibliotecas especializadas.

Ele defende uma discussão que recoloque a arquitetura em outro patamar de qualidade, pluridimensional, e não só numa abordagem estética. Inúmeras vezes premiado, Zanettini sempre procurou trabalhar com técnicas e materiais de tecnologias avançadas: concreto, madeira, técnicas mistas e, finalmente, o aço.
 
Por que a arquitetura?

Na crise de 1929, meu pai veio do interior para São Paulo - eu nasci na Vila Itororó, que está para ser tombada - e montou sua marcenaria no Brás, nos fundos da nossa casa. Ajudei na marcenaria até os 18 anos. Isso foi muito importante para meu trabalho com estruturas de madeira e de aço.

No meu tempo de FAU-USP, a maioria dos professores vinha da (Escola) Politécnica e eu era um dos poucos que se identificava com o conhecimento técnico. A partir do terceiro ano já construía. Adquiri densa formação tecnológica, tanto que recebi do Instituto de Engenharia o título de “o mais engenheiro dos arquitetos brasileiros”.

 
Mas como foi a escolha da profissão?

Foi muito importante o papel de algumas pessoas, como o professor de desenho Vicente Micozzi, do Colégio Dante Alighieri, onde estudei. Certo dia, ele viu um desenho meu e disse que eu nascera para ser arquiteto. Já no científico, participei de uma bienal de artes do colégio e tirei o primeiro lugar. Fiz o vestibular, entrei na FAU e conheci outro mundo...

 
Que ambiente você encontrou?

O ambiente era espetacular. A faculdade era em Higienópolis, na Vila Penteado, que está completando cem anos. Éramos como uma família: apenas 30 alunos por classe, 150 em toda a escola. Todo mundo se conhecia. Éramos, e até hoje somos, amigos.

 
Quem fazia parte da sua turma?

Cândido Malta, que foi meu sócio numa construtora com Manoel Cociuschi Correa durante dez anos, Eduardo de Almeida, Paulo Bastos, Dácio Ottoni. Naquela época havia a turma de adeptos do (Frank Lloyd) Wright e a turma cujo modelo era Le Corbusier. Sempre tive preferência por Wright, embora em certa época, por influência da escola, a visão racionalista de Corbusier tenha me atraído. Durante dez anos, fiz uma arquitetura de forte base moderna racionalista e ganhei prêmios, porque sabia interpretar bem. Mas já no fim da década de 1970 comecei a questionar isso.

 
Na sua época de FAU, quais os mestres mais admirados?

O grande nome era (Vilanova) Artigas. Mas convivi com Hélio de Queiroz Duarte, que me chamou em 1964 para ser seu assistente. Tivemos outros excelentes professores, como Anhaia Melo, Figueiredo Ferraz e Carlos Milan. Minha turma queria Milan como professor de projeto e decidimos não entrar em aula enquanto ele não fosse contratado; chegamos a perder um semestre, até sua contratação, fizemos o quarto e o quinto anos juntos e Milan foi nosso paraninfo. Milan faleceu muito jovem, em 1967, mas foi uma das principais referências para meu trabalho.

E Rino Levi também, que considero um dos maiores arquitetos brasileiros. Apesar de ser italiano, entendeu o Brasil como ninguém. Com Hélio Duarte, participei da criação, na década de 1970, da faculdade de arquitetura de São José dos Campos, que foi considerada a melhor escola de arquitetura até hoje no país. Fui o coordenador didático durante um ano, mas depois desisti, pois quase fui preso.

 
No início de sua carreira, você usou muito o concreto.

Sim, como toda a minha geração, era o modelo de arquitetura do momento. O concreto aparente era a tecnologia da época...

 
Depois passou a usar a madeira...

Até 1968 ou 1969, eu tinha ganho a maioria dos prêmios da época, inclusive o primeiro Prêmio Milan, em 1967. Houve ano em que recebi todos os prêmios de projeto de arquitetura e de obra, de São Paulo e de outros Estados.

Em 1969, comecei uma nova linha, com a casa de Paulo Amaral Gurgel, aproveitando minha experiência de marcenaria. E produzi a mais
bem-resolvida solução de madeira da época.
A casa tinha um tabuleiro plano e o resto era totalmente montado. Fui chamado para falar da minha obra numa aula de estética do projeto, cadeira de Flávio Motta, outro professor fundamental em nossa formação. Tudo ia bem até que apresentei a casa de madeira. Aí armou-se a confusão. Disseram que eu estava me rendendo à burguesia, jogando fora meus valores. Motta pediu para eu voltar depois e explicar a casa, pois os alunos queriam discuti-la. Voltei e dei a aula mais brilhante de toda minha vida, sobre o uso da madeira no Brasil. Falei da importância da nossa madeira, como ela deveria ser cortada, preparada, secada. Mostrei como ainda estávamos presos à tecnologia do concreto, muito usado como forma e não, como eu achava que deveria, enquanto estrutura, devido a suas patologias.

 
Como foi a passagem para o aço?

Fiz mais de 50 casas de madeira e depois comecei a projetar prédios industriais, postos de gasolina, usina de lixo, e a experimentar outras tecnologias com técnicas mistas de construção. As próprias condições de trabalho foram exigindo essa mudança. Até que cheguei, entre 1971 e 1972,
ao primeiro prédio totalmente em aço. Montei uma fábrica de 17.500 m2 em 35 dias, e mais 25 dias para fazer o fechamento. Entendi que o aço era outro caminho, o começo da contemporaneidade.

 
No início, houve problemas para fornecimento das peças?

Sem dúvida. Em minhas primeiras obras usei até trilhos de bonde que estavam sendo desmontados. Era a pré-história do aço no Brasil. Havia pouquíssimas fábricas; a única usina que produzia sistematicamente, a CSN, estava mais voltada para a fabricação de perfis leves e chapas finas para a indústria automobilística. Depois surgiram as primeiras metalúrgicas, que faziam o "feijão-com-arroz" do aço.

 
Como vê indústria do aço frente a seus projetos atuais?

A indústria está consolidada e nisso eu tive um papel muito forte; fui uma espécie de garoto propaganda do aço. Enfrentei muitas brigas, porque existe um lobby do cimento fortíssimo.
O fato de essa tecnologia não ter sido desenvolvida há mais tempo no país, que é uma montanha de ferro, é um absurdo.

No Japão, 85% das obras são feitas em aço, nos EUA mais de 65%. O aço marca todas as obras importantes do mundo dos últimos 15 anos.
No Brasil faltam formação, indústrias, matéria-prima. Toda a indústria de aço no Brasil está voltada para a produção de chapas. Pronto mesmo, só há uma empresa, em Minas, e outra que produz perfis finos, leves, de até 4 polegadas, que não servem para a maioria das construções.

 
Como surgiu o livro "Arquitetura razão sensibilidade"?

A principal razão é que, de certa maneira, muito pouco se discute e se reflete sobre a arquitetura contemporânea. Ainda está na cabeça da maioria dos alunos - e sei disso porque leciono há 38 anos na FAU-USP - todo o conjunto de referências, conceitos e fundamentos do período moderno.
O movimento moderno teve papel importantíssimo, de transformar todo o ecletismo da arquitetura anterior e começar a colocar questões urbanas e sociais, fazer a revisão na questão de espaço, das tecnologias. Até a década de 1960 seu papel foi fundamental, por sua racionalidade, por pensar a estrutura com certa limpeza, por sua visão de função industrializada, das questões urbanas incorporadas à própria arquitetura.
Mas, a partir de certo momento, esse processo deixou de ser causa e passou a ser um estilo.

 
Mas, sucederam-se movimentos que negavam o modernismo...

Sim, e o pós-modernismo foi dos mais evidentes, mas com uma discussão unidimensional da estética, sem base conceitual mais ampla.
Alguns arquitetos de todo o mundo - e aqui no Brasil venho falando nisso - dizem que a dimensão da arquitetura passou a ser filosófica, não é mais uma discussão estética. Foram chamadas a participar dessa nova arquitetura não só as ciências exatas, porque ela é tecnologia, mas também todas as áreas do conhecimento humano. Acho importante que se coloque essa reflexão sobre a visão pluridimensional da arquitetura, em outro patamar de qualidade. Pouquíssimos profissionais brasileiros perceberam isso.

 
Quais os nomes você citaria?

Lelé (João Filgueiras Lima) percebeu isso, e a arquitetura dele, principalmente a mais recente, tem essa conjunção harmoniosa e equilibrada entre o conhecimento científico do saber teórico e o conhecimento prático do saber fazer. Essa, aliás, é minha definição de arquitetura contemporânea: a relação equilibrada entre conhecimento racional e conhecimento sensível, ou seja, o resultado físico e espacial do equilíbrio harmonioso entre o mundo racional e o mundo sensível. A arquitetura está no meio disso.

 
Além de Lelé, citaria mais alguém?

Não, ninguém mais.

 
E fora do Brasil, quais os nomes importantes?

(Norman) Foster, um dos maiores no momento.
Ele consegue perceber que não pode resolver a arquitetura sem uma base estrutural tecnológica fortíssima, mas também sensível e extremamente bem resolvida. E consegue equilibrar isso de maneira harmoniosa e eficaz. Renzo Piano e Richard Rogers também são magníficos em relação a esses aspectos.

 
Imagino que o senhor discuta isso com seus colegas professores. O que eles pensam dessas idéias?

Não, não tem havido discussões. Para haver discussão é preciso que haja produção e reflexão sobre essa produção. Por isso meu livro não é teórico. Apresento 300 projetos e obras que colocam os fundamentos desses processos, garantidos pelo fazer. Sempre procurando equilibrar o saber fazer e o saber teórico, o agir e o pensar. Durante toda a minha trajetória, sempre tive as duas atividades - a profissional e a acadêmica -, e isso foi fundamental para ligar os aspectos do que se reflete e do que se produz. Muito do que produzi não chega ao nível da escola. Por exemplo, hoje sou considerado o maior especialista em aço no Brasil, mas a tecnologia do aço ainda não entrou nas escolas de arquitetura do país. Não há produção de conhecimento dentro das escolas, apenas reprodução.

 
O uso do aço desperta o interesse dos alunos? Eles procuram o senhor para obter mais informações?

Eles estão desesperados. Os livros mais procurados das bibliotecas das escolas são os dos expoentes da arquitetura contemporânea, que, em sua maioria, tratam a questão tecnológica como fundamental. Tanto que venho defendendo o retorno do arquiteto-engenheiro.

 
Explique essa posição.

Definiu-se, erroneamente, o engenheiro como aquele que faz e o arquiteto como aquele que pensa, quando a obra é uma só. A formação científica e de exatas do arquiteto é hoje precariíssima. Por outro lado, o engenheiro é um reprodutor, não é capaz de conceber, só sabe verificar. Os grandes nomes da arquitetura brasileira são Ramos de Azevedo, Rino Levi, Artigas, todos engenheiros-arquitetos.

 
De que maneira e em qual instância você tem pregado o retorno do engenheiro-arquiteto?

Em minha tese de livre-docência e titularidade falei abertamente e a idéia foi extremamente bem aceita. Recebi nota dez por unanimidade da banca. Acho que a meia formação em engenharia não serve para o arquiteto. Não o forma na ciência da física, da matemática, na ciência das estruturas. O arquiteto não sabe manipular os elementos tecnológicos de que precisa.
E hoje, mais do que nunca, não se faz arquitetura sem tecnologia. Fui recentemente representar a FAU-USP na Bélgica e na França, para desenvolver um convênio com escolas daqueles países sobre a formação dupla de arquiteto aqui e de engenheiro-arquiteto lá. Alguns alunos da Escola Politécnica já estão indo e acho que a FAU estará no convênio dentro de pouco tempo.
A idéia é formar o arquiteto no sentido pleno, com o domínio científico também.

 
Não é ruim ficar conhecido como arquiteto do aço?

Não, porque eu faço muita obra em concreto, em madeira. Claro que o trabalho com o aço marcou muito. Mas tenho o bom senso de usar o material em função da lógica conceitual e produtiva.
Em uma obra com pilares próximos, como é o caso de hospitais ou prédios de apartamentos, uso o concreto.

 
Como você vê trabalhos em que o aço é usado como subsidiário e não como forma de expressão?

Não tenho esse radicalismo de achar que toda obra em aço deve se exprimir como tal. O aço pode ser usado como um sistema estrutural muito lógico, leve, fácil, rápido, preciso, sem desperdício, mas que pressupõe grande qualidade de projeto e de planejamento de obra. Não é uma tecnologia que possa ser resolvida na hora, com jeitinho. Precisa ser concebida totalmente antes, peça por peça. E tem todo um processo fora do comum:
não entrego o projeto pronto, mas elementos que vão para a fábrica, onde são feitos os desenhos de fabricação, que voltam para que eu verifique se estão corretos, de acordo com a arquitetura e integrados a todos os projetos complementares, estruturas, instalações etc. Um erro, por menor que seja, e a peça tem de voltar para a fábrica, que geralmente fica muito distante da obra. O sistema exige alta precisão e racionalidade total.

 
Por Éride Moura e Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 274 Dezembro 2002
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