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| Paulo
Mendes da Rocha |
“Tentamos sempre
preservar a integridade
do projeto, enfrentando
a vertigem do mercado” |
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Paulo Mendes da
Rocha diplomou-se pela
FAU-Mackenzie em 1954 e é um dos mais destacados
arquitetos brasileiros. Recebeu diversos prêmios
internacionais como o Trayectoria Profesional, em 1998,
na Bienal Ibero-Americana em Madri; o Vitrúvio,
em 1999, conferido pelo Museu Nacional de
Belas-Artes de Buenos Aires; e o 3º Prêmio
Mies van der Rohe Latino-Americano, outorgado em 2000
pela fundação espanhola homônima |
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Na
mesa, em sentido horário: José Armênio
de Brito Cruz, Milton Braga, Marta Moreira, Paulo Mendes
da Rocha, Eduardo Colonelli, Guilherme Wisnik, Martin
Corullon, Fernando de Mello Franco (de costas) e Silvério
Rocha (de costas). Fernando Serapião fez a foto |
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"Todo mundo se constitui
em escritórios por razões técnicas,
comerciais, jurídicas. Mas nós, na verdade,
somos autônomos personagens. Eu falo com o Martin,
como se falasse com o Milton, que fala com o Eduardo,
que fala com o Zé Armênio: qualquer um de
nós fala com o outro de igual para igual, e isso
é muito interessante. Trabalhamos muito bem juntos,
porque já nos aproximamos por afinidades intelectuais;
não foi uma procura para etiqueta de trabalho." |
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"Nunca temos planos
predeterminados para um projeto, não se sabe como
será o próximo trabalho, apenas que será
muito rico se surgir desses arquitetos. Há coisas
que podem escapar, mas esse é um grupo muito crítico.
Mesmo porque somos bem mais do que os que estão
nessa mesa. E são todas pessoas extraordinárias.
Nós temos recebido estagiários não
só do Brasil, mas também da Holanda, de
Portugal, que vêm nos procurar porque o trabalho
naturalmente é divulgado. Portanto, há uma
espécie de florescimento das coisas muito bom.
Mas não temos um controle, não somos um
grupo eficiente, propriamente organizado." |
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Croqui do Clube Paulistano,
em São Paulo, 1957-61 |
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Pórtico na Praça
do Patriarca, São Paulo:
"Se o padre tivesse imaginação, abriria
as portas da igreja, celebraria a missa lá e poria
o coro de fora, que não caberia na igreja do ponto
de vista sonoro, com 300 cantores, por que não?"
Foto: Nélson Kon
Clique na foto e veja a matéria |
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Croqui do Mube, em São
Paulo, 1986-95 |
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Casa Gerassi: interior e
guarda corpos
Clique na foto e veja a matéria |
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PoupaTempo Itaquera, em
São Paulo: com a equipe dp MMBB
Clique na foto e veja a matéria |
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Terminal do Parque Dom Pedro
II, São Paulo
Paulo Mendes da Rocha e MMBB
Foto: Nelson Kon
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Aos 74 anos,
Paulo Mendes da Rocha está em plena forma: recebe
prêmios internacionais, elabora importantes projetos
e tem o privilégio de trabalhar
com quatro equipes de arquitetos. Para falar sobre projetos
recentes, sobre a profissão e sobre essa inusitada
forma de trabalho, PROJETODESIGN promoveu o encontro,
em uma espécie de mesa-redonda, de Mendes da Rocha
e sete integrantes desses escritórios. Participaram
do debate Eduardo Colonelli, do Ricoy Torres e Colonelli;
José Armênio de Brito Cruz e Renata Semin,
do Piratininga Arquitetos; Milton Braga, Marta Moreira
e Fernando de Mello Franco, do MMBB Arquitetos; Guilherme
Wisnik e Martin Corullon, do Metro Arquiteto. |
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| Fale sobre sua forma de projetar,
em parceria com outros escritórios. |
Paulo Mendes da Rocha - O
trabalho de arquitetura tem de ser feito com participação
efetiva de companheiros; não pode ser solitário.
Há uma permanente interlocução,
mesmo quando não está explícita.
Nosso modo de trabalhar não é inédito,
e, no nosso caso, ele é conseqüência
da nossa vivência na escola, o fato de termos
convivido na FAU-USP.
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| E certamente muitos deles foram seus
alunos... |
Todos foram meus alunos, mas não
é isso. É mais uma questão de
clima. Tenho a impressão de que nenhum deles
aprendeu nada comigo. Somos um grupo de arquitetos.
O resultado do nosso trabalho é uma questão
que não se pode prever muito, é uma
espécie de desencadeamento de uma situação.
Considero nossa forma de trabalho um privilégio.
E ideal.
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| Por que ideal? |
É que, na verdade, ela resulta
de uma escolha de nós todos, não sou
eu que escolho. Iniciamos um trabalho que, desencadeado,
é impossível fazer de outro modo.
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| Como aconteceu essa aproximação?
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O que nos aproximou foi o trabalho.
O grupo é unido por amizade, parceria, e, mais
do isso, por solidariedade no trabalho. E, claro,
nós enfrentamos o trabalho com certa dificuldade.
A prática do trabalho, a prática pública,
o trato com construtoras, empresas, a demanda de trabalho,
e mais, tentando sempre preservar a integridade do
projeto, enfrentando a vertigem do mercado e coisas
do tipo. E, inclusive, tentando preservar a independência
e a liberdade do discurso da arquitetura como uma
forma de conhecimento.
O grupo todo se ampara muito bem nessa expectativa,
mantendo certa independência no trabalho em
relação à expectativa preexistente
das demandas. Em certo sentido, procuramos replicar
a vertigem do mercado.
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| Replicar como? |
É fazer a arquitetura se mover
na direção da reflexão sobre
as coisas que vão se transformando, no âmbito
da cidade, por exemplo. Uma questão, a desconexão
entre metrô - que ainda é uma novidade,
até pela lentidão com que é feito
- e a estrutura mesma da cidade, planos de educação,
localização dos equipamentos urbanos
etc. são fatos, por exemplo, que merecem uma
réplica. Não se consegue corrigir uma
cidade, mas consegue-se sempre dizer alguma coisa
que não é passiva em relação
ao assunto.
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Milton Braga - Acho que talvez
o PoupaTempo seja um bom exemplo.
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Paulo Mendes da Rocha - Pois
é, tem toda a razão. Fizemos o PoupaTempo
com esse grupo
(o escritório MMBB), que pouco a pouco conquista
uma posição de prestígio para
a própria profissão. Um projeto em que
se consegue dizer: seria melhor não fazer assim,
mas desse outro modo. Em outras palavras, uma vez
ou outra nós temos ganho algumas paradas interessantes.
Isso exige certo prestígio que é de
todo o grupo.
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| É claro que o seu prestígio
conta muito. |
Eu digo grupo, mas não é
bem um grupo: são personalidades individualmente
muito marcantes.
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| Projetar assim, com muitas pessoas,
deve dar algum problema. Como funciona na prática?
|
Só temos um problema e é
grave: é que nos divertimos muito e precisamos
manter certa seriedade. Gastamos tanto de tinta de
impressora quanto de litros de uísque.
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Milton Braga - Muitas vezes,
marcamos uma sessão de trabalho para o sábado,
e a manhã não dura muito, porque logo
queremos almoçar. E depois do almoço,
é muito bom ficar conversando e nós
não voltamos para a segunda sessão do
trabalho. Talvez seja um pouco o que o Paulo falou.
Não que durante o almoço não
estejamos trabalhando, pois vamos discutindo o trabalho
o tempo todo.
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Eduardo Colonelli - O que
acontece é que nos divertimos muito no trabalho,
mas dá para separar bem as duas coisas.
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Milton Braga - Eu diria que
a grande razão de trabalhar dessa forma não
é tanto pela diversão, entendida como
afinidade intelectual, que é o que nos aproxima
e diverte também. Para mim, é um prazer
o momento em que paramos para fazer um trabalho mais
metódico e até, eventualmente, tomar
uísque ou grapa, conversar sobre o projeto,
mas de forma descontraída, que aí nem
sabemos se ainda é trabalho. Acho que a aproximação
desse grupo, não só com Paulo Mendes,
mas com todos aqui, é, principalmente, por
afinidade intelectual.
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| O que é essa atividade intelectual?
É no modo de encarar a arquitetura, no trabalho,
na sociedade? |
Milton Braga - No modo de
encarar a sociedade, que é o mais amplo, e
no qual a arquitetura também comparece.
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| De que modo é isso? |
Marta Moreira - Acho que é
inclusive uma relação com a profissão,
com a forma de trabalhar.
O prazer não é só nesses momentos
informais;
a própria dinâmica do trabalho é
extremamente prazerosa.
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Fernando de Mello Franco -
Quando se fala de forma nova de gestão, de
projeto, acho que a tônica não é
essa. O Paulo nunca disse: “Puxa, que forma inusitada
de desenvolver projetos, vamos terceirizar e tal”.
A questão da organização do trabalho,
desde o ponto de vista gerencial da profissão,
não está colocada. Acho que essas associações,
feitas das mais diversas formas, acontecem no âmbito
estritamente intelectual, e não gerencial.
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Paulo Mendes da Rocha - Acaba
se estabelecendo um amplo equilíbrio entre
os vários interlocutores, inclusive no plano
crítico.
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Eduardo ColonelliC - É
um trabalho, para unificar a tônica de como
deve se organizar e como trabalhar. Há muitas
estratégias. Uma delas é para enfrentar
as dificuldades dos problemas colocados pelo trabalho.
Essa forma de trabalho é uma estratégia
de bom senso.
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Paulo Mendes da Rocha - Todo
mundo se constitui em escritórios por razões
técnicas, comerciais, jurídicas. Mas
nós, na verdade, somos autônomos personagens.
Eu falo com o Martin, como se falasse com o Milton,
que fala com o Eduardo, que fala com o Zé Armênio:
qualquer um de nós fala com o outro de igual
para igual, e isso é muito interessante. Trabalhamos
muito bem juntos, porque já nos aproximamos
por afinidades intelectuais; não foi uma procura
para etiqueta de trabalho.
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| O trabalho feito com prazer é
mais produtivo, a pessoa não se sente uma figura
alienada pelo trabalho. Isso explica a resistência
de vocês às fórmulas e imposições
do mercado? |
Paulo Mendes da Rocha - Temos
aqui uma assembléia crítica permanente,
e isso é muito útil para nós
todos.
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José Armênio de Brito
Cruz - Essa afinidade é intelectual e de
idéias, passando pela compreensão da
arquitetura - como nós entendemos a arquitetura
-, e daí o prazer no trabalho, pois estamos
fazendo o que acreditamos, entendemos que aquele discurso
que estamos elaborando é igual ao do colega
que está desenvolvendo outro projeto. Afinidade
é isso. Na verdade, os diversos projetos caminham
sempre na mesma direção de elaboração,
que está em constante assembléia crítica.
O Paulo muda de assunto, de projeto, mas na verdade
é a mesma coisa. A afinidade de idéias,
de entender a arquitetura enquanto discurso que organiza
a realidade. Fica fácil resolver, ninguém
está cumprindo uma função.
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Paulo Mendes da Rocha - Nunca
temos planos predeterminados para um projeto, não
se sabe como será o próximo trabalho,
apenas que será muito rico se surgir desses
arquitetos. Há coisas que podem escapar, mas
esse é um grupo muito crítico. Mesmo
porque somos bem mais do que os que estão nessa
mesa. E são todas pessoas extraordinárias.
Nós temos recebido estagiários não
só do Brasil, mas também da Holanda,
de Portugal, que vêm nos procurar porque o trabalho
naturalmente é divulgado. Portanto, há
uma espécie de florescimento das coisas muito
bom. Mas não temos um controle, não
somos um grupo eficiente, propriamente organizado.
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| Como são definidos os projetos?
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Paulo Mendes da Rocha - Suponha
que houvesse um mistério em relação
a isso. E nós preferíamos não
desvendar pois pode desandar o angu.
As coisas estão muito bem hoje, mas amanhã
podem desandar. Como estou ficando velho, tenho a
impressão de que serei o primeiro a ser posto
para fora.
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O senhor sempre trabalhou em equipe.
Tem saudades de alguém em especial? |
De muitas pessoas. Sempre trabalhei
com pessoas muito especiais, como o Alexandre [Delijaicov],
a Geni [Sugai], o João de Gennaro, que foi
meu colega de turma, uma personalidade brilhantíssima.
Durante o regime militar, passamos dificuldades, eu
fui cassado e desmontamos a estrutura que tínhamos,
e em seguida ele foi convidado para iniciar o que
depois se chamou de Itauplan, do grupo Itaú.
Outro com quem trabalhei muitos anos foi o arquiteto
Newton Arakawa, que hoje está no Metrô.
Ele apareceu no meu escritório levado por alguém
que trabalhava comigo e era um excelente desenhista,
com curso profissionalizante da Fundação
Getúlio Vargas. Um dia, depois de alguns anos
no escritório, nos convidou para tomar um vinho
no Fasano, pois tinha entrado na FAU-USP. Fez todo
o curso trabalhando no escritório e, quando
se formou, fiquei engasgado sem saber como contratá-lo
como arquiteto sênior, pois era brilhante, mas
eu não tinha condições de mantê-lo...
Mas aí toca o telefone, e era o Oscar [Niemeyer],
da Argélia, perguntando se eu não tinha
uns arquitetos paulistas para mandar para lá,
porque já estava cheio dos cariocas, que passavam
um mês e queriam voltar. Eu falei com o Newton,
ele topou e levou um amigo. Uns 15 dias depois eu
estava recebendo cartões-postais dele, dizendo
que estava desenhando a Universidade de Constantine,
depois a de Argel. Ficamos amigos para o resto da
vida, e tudo isso associado ao trabalho.
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| Sobre a influência dos arquitetos
na cidade, o senhor não acha que é pequena
ainda, perto do que deveria ser? |
É verdade, é muito
menor do que poderia ser. Veja a cidade do Rio de
Janeiro, já com o MAM do Reidy, com o jardim
do Burle Marx, agora com o museu de Niterói,
do Oscar, e aí não é que vem
uma força-tarefa para fazer um Guggenheim meio
submerso, em frente?
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| Qual sua opinião sobre o Guggenheim
no Rio? |
É uma grande estupidez, um
negócio muito torto, inclusive muito pouco
claro, como deve ser um bom negócio, disfarçado.
E não vai nos trazer nenhum acervo, nada, é
uma marca como outra qualquer, uma franquia como outra
qualquer. Uma coisa feita para vender porcarias para
os tolos por fortunas imensas. Acho que os arquitetos
estão um pouco mudos com tudo isso.
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Os arquitetos do Rio estão
se movimentando e,
inclusive, tentando o tombamento do píer onde seria
construído o museu... |
E isso tem sentido, porque esse píer
era um tradicional atracadouro de passageiros do cais
do porto. É o eixo da avenida Rio Branco. É
lindo e tem muita história, todas as figuras
famosas desciam dos transatlânticos por ali.
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Guilherme Wisnik - Os que
o defendem dizem que junto com o museu vem investimento,
e que o Rio entrará na rede de metrópoles
globais. Em Bilbao deu certo, levantou a cidade, mas,
num país subdesenvolvido, querer que o governo
pague é outra história.
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Paulo Mendes da Rocha - Não
diria que o Brasil é um país subdesenvolvido,
mas peculiarmente desenvolvido. Não é
tradicionalmente desenvolvido, como os Estados Unidos,
claro. Não somos um país miserável.
Podemos ter nossos próprios museus, não
precisamos de um de fora.
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| Não é irônico
que, num país que já teve arquitetura tão
admirada, como o Brasil, se pense em trazer um arquiteto
para projetar um museu que, teoricamente, ajudaria a aumentar
o fluxo turístico no Rio? |
Essa não é uma questão
da arquitetura. É arquitetura para promover
o turismo. É um absurdo ir ao Rio para ver
um Guggenheim e desprezar toda a cidade, que tem muita
coisa para se admirar. Daqui a pouco o turista vai
dizer assim: aonde eu posso ir que não tenha
um Guggenheim? O que atrai o turismo não é
determinado museu, mas certo lugar, o modo de vida
de certo povo. E tem mais, turismo de massa é
horrível para ambas as partes, para o turista
e para as pessoas do lugar.
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| Sua opinião mudaria se o Guggenheim
fosse projetado por um arquiteto brasileiro? |
Se o novo museu fosse do Oscar, por
exemplo, acho que até atrairia mais turistas
do mundo inteiro. O museu é geralmente um projeto
muito peculiar. E os museus não são
apenas reservas de preciosidades, eles tendem cada
vez mais a reunir um conjunto de outras atividades.
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| Por falar em museu, poderia comentar
sobre o que o senhor está projetando para a USP?
|
Fui chamado pela USP para orientar
a forma de organizar a associação dos
seus três museus, o de arqueologia/etnologia,
o de zoologia e o de ciências, que é
muito curioso, porque está sendo planejado,
e deverá estar permanentemente em transformação,
com mostras de diversos
departamentos. Ele tem uma particularidade muito interessante,
porque os trabalhos de pesquisa permanecem enquanto
a visitação pública se realiza,
enfim, as duas atividades devem conviver com tranqüilidade.
Em linhas gerais, sugerimos criar uma espécie
de grande vestíbulo comum aos três museus,
aproximando bem os três, e ainda dar a eles
uma configuração de caráter construtivo,
espacial e, portanto, arquitetônico, vertical.
O raciocínio desse projeto ainda é abstrato
estritamente quanto à forma, e está
sendo desenhado juntamente com os escritórios
Piratininga e MMBB.
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| No projeto da praça
do Patriarca, algum desses escritórios trabalhou
com o senhor? |
O Eduardo [Colonelli] e o Martin
[Corullon] trabalharam. O Patriarca foi um projeto
que levou dez anos para ser realizado.
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| Como vocês encaram as críticas
que estão sendo feitas quanto à escala do
projeto? |
Milton Braga - A escala não
me parece grande, talvez porque eu tenha muita empatia
com o trabalho do Paulo, e isso pode influenciar minha
avaliação. O portal da praça
do Patriarca é uma nova construção
de que as pessoas vão aprender a gostar, imagino.
As pessoas que falaram que a escala seria grande partiram
de um pressuposto que eu não adotaria: que
era necessário preservar a paisagem como era.
Acho que o bonito é ver a paisagem recortada
por esse novo projeto. Para mim, a vista mais bonita
é a de quem está lá na própria
praça, que vê a obra aos poucos, que,
acredito, seja um pouco o raciocínio do projeto.
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Paulo Mendes da Rocha - Já
disseram que aquilo é grande, pequeno é
que não é. Só uma construção
grande pode ser feita de vazios.
Se é grande, a praça então é
enorme, para caber uma coisa tão grande. Tudo
isso é muito contraditório e o discurso
da arquitetura é feito dessas contradições.
Não se pode imaginar a forma ideal para certa
coisa. O que se pode imaginar é a totalidade
da circunstância, uma praça daquela,
cheia de gente passando, visual a longa e a curta
distância, fragmentos da coisa, molduras inesperadas.
A praça tem a ver com as visuais que se tem
de diversos pontos do centro.
Não é um objeto isolado, posto lá,
é uma construção que não
se via e deve-se ver. Uma outra coisa que não
justifica nada, mas que deve ser observada, é
que aquela cobertura desce bastante na parte de trás,
do lado da rua Líbero Badaró. O rebaixamento
para aquele lado é porque ali os ventos vêm
todos do descampado do vale do Anhangabaú.
Mas essas ações nunca justificam a arquitetura,
pode ser uma conversa. Se a laje fosse plana, seria
uma superfície, e logo iriam subir lá
em cima e seria preciso fazer um acesso, já
calcular para essa carga etc.
E ficaria uma dubiedade que a arquitetura não
gostaria, como discurso consistente. Aquela casca
singela não é para se subir em cima.
Por outro lado, em São Paulo, que tem vocação
para as virtudes da técnica, tinha que ter
um feito e não uma estrutura qualquer, vulgar,
que os operários já estão cansados
de fazer todos os dias.
A obra não precisava ser como é, mas
essa é a grande virtude da arquitetura.
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| Talvez surpreenda então porque
foge ao lugar-comum? |
Não sei dizer, mas acho que
as pessoas estão tão desamparadas que
a beleza impacta. E também não esperam
o belo, esperam algo no mínimo cult. Ninguém
espera que a prefeitura vá fazer algo belíssimo
assim. O que é isso? Acho uma bela pergunta.
Quem pergunta tem direito de dizer o que quiser. “Se
chover, corre pra baixo.” Mas é sem dúvida
o grande átrio da própria igreja.
Se o padre tivesse imaginação, abriria
as portas da igreja, celebraria a missa lá
e poria o coro de fora, que não caberia na
igreja do ponto de vista sonoro, com 300 cantores,
por que não?
Outra questão interessante é a posição
da escultura do Patriarca, [escultor Alfredo] Ceschiatti.
Ninguém sabe quem é Ceschiatti, que
é belíssimo, com um traço barroco.
Independente de ser o Patriarca, é uma obra
de arte. Se você a põe no centro da praça
é uma maneira de evitá-lo - porque o
centro é perdido, ninguém vai ao centro
da praça, dentro dela o meio não existe.
Eu imaginei que se tivesse um deslocamento em relação
a um ponto muito intrigante que fica entre a rua São
Bento e a rua Direita, em certa posição
por ali, estaria muito bem.
Essas posições no espaço urbano
são muito importantes. No espaço urbano,
existem pontos virtuais que não se percebem,
mas que têm força. Se imaginarmos o eixo
da praça passando no centro do vão entre
a casca e o pilar, e imaginarmos outro eixo, o do
viaduto, pode haver um ponto em que os dois se cruzam.
Porque entre o eixo do viaduto e o da praça
há uma angulação, uma quebra.
Portanto, onde os dois se encontram, há um
ponto forte, e é lá o local escolhido
para colocar o Ceschiatti.
|
| |
| Esse posicionamento mudou algo? |
Nunca se viam os detalhes da capa
do Patriarca, agora as pessoas estão lá,
olhando, lendo o que está escrito, ninguém
sabia que aquele era o Patriarca, porque ficava no
centro da praça, que é perdido, ninguém
pára para olhar e ler. É por isso que
quando se marca no centro, é com uma altura
de 40 metros, que dá para ver bem, como é
o caso do obelisco de Trafalgar Square, em Londres.
São coisas arbitrárias, essa é
uma questão da arquitetura, é como diz
o meu querido Niemeyer, “arquitetura é uma
invenção”. A grande virtude que a arquitetura
pode ter, primordial na minha opinião, é
ser oportuna.
|
| |
| Obras como o Mube, a Pinacoteca e
o Patriarca se arrastaram por anos, mas a conclusão
delas coincidiu com o momento em que o senhor é
celebrado no país e no exterior. Isso é
fruto da experiência? |
Mas você veja, essas chamadas
atividades-fins só se enriquecem com a experiência,
o que não é muito honesto com os mais
jovens. E isso é verdade, eu vi, experimentei,
passei por experiências construtivas, é
preciso serenidade para fazer certas coisas. Com relação
a meus companheiros de trabalho, eu tenho até
muita inveja, porque eles têm uma força
que parece que a experiência não faz
falta.
Comigo, é a experiência que me ampara.
|
| |
| A experiência faz uma grande
diferença em relação ao período
em que o senhor era jovem? |
Deve fazer, porque são coisas
que já foram experimentadas antes, repetições
de sucessos que se transformam, mas dentro de uma
genealogia não só de recursos técnicos
mas também da própria imaginação.
Se você pensar que em tudo o que fazemos uma
coisa sai da outra, muito do que se projeta agora
são projeções feitas antes, à
luz de outras questões, que lá não
cabiam, mas cabem aqui. O assunto é um só,
é a transformação espacial de
acordo com o que se imagina. A experiência dá
tranqüilidade.
|
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Marta Molreira - O que acho
é que talvez, hoje, as suas aflições
sejam menores do que quando fez o Paulistano ou o
pavilhão em Osaka, não?
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Paulo Mendes da Rocha - Por
causa da experiência? Daí é que
vem a experiência. Eu era mais intrépido.
No projeto do [clube] Paulistano eu tinha 28 anos,
recém-formado. Tinha saído da escola
quando abriu o concurso. Não me importei muito
com o concurso, tinha o escritório, e até
trabalho, não precisava ganhar o concurso para
pagar as contas, mas achei interessante organizar
aquela desordem que o terreno apresentava, com vários
edifícios. Dizendo assim, ganhar um concurso
parece uma balela, como quem ganha uma raspadinha,
mas os projetos foram submetidos a um júri
muito bom, composto por Rino Levi, Plínio Croce,
homens de grande cultura, de grande saber, eruditos.
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| |
| E concorreram bons arquitetos. |
Ah, sim, certamente, mas os outros
são os outros. A questão é o
julgamento dessas personalidades. E eu também
não pensei muito nisso, até porque o
júri só apareceu lá para as tantas.
Voltando à questão da experiência,
nesse projeto eu procurei imaginar o desejo dos outros,
aquilo que fosse festivo, alegre. Tinha que fazer
uma arquibancada, e sempre fui muito preguiçoso,
e chamei um consultor que fez os cálculos da
curva de visibilidade perfeita, com matemática
pura.
A técnica não tem mistério.
|
| |
O que o projeto do Paulistano tem
em comum com
o do Patriarca? |
Não teve nada de diferente,
tudo é suspenso. Hoje parece uma balela a estrutura
metálica, mas aquela do Paulistano é
uma estrutura que tem uma forma talvez mais interessante
do que as que geralmente aparecem - ou quase fatalmente
têm que aparecer -, associada idealmente, do
ponto de vista da geometria estrutural, a outros amparos
não metálicos, mais consistentes. Nenhuma
estrutura é simplesmente isso ou aquilo, geralmente
são associadas a outros materiais. Exceto as
catedrais de pedra, que são só de pedra,
e são maravilhas de outra época.
|
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Marta Moreira - Ainda sobre
a experiência, parece que uma coisa pressupõe
a outra. Mas acho que para fazer o Museu da Escultura,
por exemplo, o Paulo não precisava ter feito
antes o Paulistano. Se a questão tivesse sido
posta naquela época, acredito que ele teria
feito o museu da mesma forma.
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| Paulo Mendes da Rocha - O arquiteto
não evolui, então? |
Marta Moreira - A evolução
existe, mas não vejo no trabalho do Paulo uma
evolução. Cada coisa é diferente
da outra e elas vêm em função
do problema que se coloca, e acho isso uma coisa muito
marcante nele - a capacidade de enxergar o problema.
Talvez a experiência esteja no fato de ele já
não ficar aflito, ter mais serenidade.
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| A experiência talvez esteja
na facilidade e rapidez com que ele detecta a melhor solução...
|
Marta Moreira - Mas acho que
isso sempre houve no trabalho do Paulo.
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Paulo Mendes da Rocha - Talvez
eu não tenha me expressado bem, a experiência
é mais no trato das coisas. Fiz o Paulistano
há quase 50 anos, quando não tinha experiência.
Lembro que fui ao escritório do Figueiredo
Ferraz falar da estrutura e ele me deixou esperando
umas três horas. Mas depois encontrei o ilustre
engenheiro Tulio Stucchi e, se não fosse ele,
não teria feito o Paulistano. Estavam me dizendo
que aquilo não dava certo, mas como ele estava
ligado à obra disse: “Não senhor, vamos
fazer isso”. Se em alguns momentos você não
encontra a pessoa adequada, ou se topa com a pessoa
inadequada, pode receber um tranco e atrasar ou mesmo
mudar sua vida. Eu tive a sorte de encontrar uma pessoa
solidária e que confiava na engenharia, na
possibilidade de realizar as coisas.
|
| |
Guilherme
Wisnik - Uma coisa que marca
muito quem foi seu aluno é quando você
diz que “não sabe exatamente o que quer fazer
mas sabe o que não quer”. Isso é fundamental
e quem trabalha com você vai assimilando seu
modo de projetar, e quem escreve sobre seu trabalho
sempre erra, porque pega pelo aspecto formal.
No Patriarca, quando você diz que não
fez uma laje plana para não subirem e isso
você não queria... São princípios
que vão se encadeando e o projeto é
estruturado assim. A experiência pode contar
nesse sentido, de discernir o que você não
quer fazer.
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Paulo Mendes da Rocha - O
Mube é um exemplo de dificuldades enfrentadas.
Quando me foi dito que seria um museu para escultura,
independente de outras questões, surgiu na
minha mente que a parte de exposições
ao ar livre era muito importante. As grandes peças
poderiam chegar e ser depositadas lá por imensas
gruas, sem dificuldade. Essa parte ao ar livre me
criou o maior problema. Se eu faço um edifício
qualquer, o terreno confinado, só sobram três
espaços, marcados quase com um estigma: quintal,
jardim e recuo lateral.
A outra hipótese era fazer o pátio interno,
mas pátio interno me lembrava o colonial, o
horror do convento, a coisa escondida, eu não
queria fazer um pátio interno. Então
eu vou ficando no mato sem cachorro. Não é
que não saiba fazer as coisas, mas você
vai criando situações e chega ao ponto
que diz: fazer o que agora? Há uma solução
belíssima para esse tormento do ar livre, que
é o teto-cobertura, seja do que for - porque
o espaço é belíssimo, delimitado
magicamente, não precisa fazer cerca, grade.
Lá de cima, ou se cai ou se fica ali. E tinha
outras questões advindas dessa solução,
que quem tem experiência conhece: para chegar
nesse espaço interno é sempre complicado.
Foi aí que vi o desnível do terreno
e pensei em fazer o museu subterrâneo e o espaço
de exposição é todo o jardim,
de 7 mil m2. Aí, pronto, está feito
o projeto. Uma idéia consistente como essa
- depois do não faz isso, não faz aquilo
- edita a solução.
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| A obra de algum arquiteto ainda o
emociona? Qual? |
O Niemeyer sempre me impressiona
muito. O que me impressiona mais no Niemeyer, atualmente,
é a expectativa de qual será sua próxima
obra. O Fernando [de Mello Franco] disse que esse
museu de Curitiba é um maravilha. Levei um
amigo arquiteto da Suíça, o Luigi Snozzi,
que é muito culto, para conhecer o museu de
Niterói e ele ficou encantado. Aquilo é
o modo de o Niemeyer ver a terra dele, e Niterói
é um anexo do Rio e vice-versa. Às vezes
a arquitetura do Norman Foster impressiona, porque
o Reichstag, em Berlim, é um horror. Mas o
aeroporto de Londres é muito lindo, as estruturas
metálicas são belíssimas.
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Reportagem de
Fernando Serapião e Silvério Rocha
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 275 Janeiro 2003 |
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