Gianfranco Vannucchi
Arquiteto, novo presidente da Asbea-Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura
Acredito na profissão; um projeto de qualidade sempre dá resultados
 
 
Gianfranco Vannucchi:
"Não podemos mais ter vergonha de usar o marketing para vender nosso melhor produto"
 
Assumir a Asbea neste momento - em que há acusações de práticas profissionais desleais - trará dificuldades especiais para sua gestão?

O tema em si [acusações de práticas profissionais desleais] não é surpresa. Vem sendo debatido há bastante tempo entre nós. Creio que devemos realizar esforços contínuos para revalorizar a profissão, com o arquiteto reassumindo responsabilidade mais ampla sobre o projeto. A prática de baixar preços vai na contramão. Ninguém faz milagres. Preços menores levam à menor qualidade do trabalho e à desvalorização profissional.

 
Mas na Asbea certamente convivem arquitetos que concordam com isso e outros, submetidos a circunstân-cias difíceis de trabalho, que não concordam. O presidente da Asbea vai tentar adotar uma postura didática ou vai seguir um caminho de exclusão?

Censurar ou aplicar sanções depende de estabelecermos regras explícitas, conhecidas por todos. Para isso precisamos consultar os associados e apurar melhor o que eles esperam da Asbea para então estabelecer o que a Asbea espera deles. E manter a generosidade nas decisões, qualquer que seja o caminho escolhido. Porém, simplesmente defender a diminuição de preços para garantir a sobrevivência é algo que dispensa a própria existência da associação. Cada um pode fazer isso por si, sem a necessidade de pagar mensalidades, comparecer às reuniões ou votar. Se você ingressa numa associação profissional, é para valorizar, para aumentar o patamar de qualidade dos serviços que quer oferecer. Mas talvez isso não esteja tão claro para todos.

 
Como foi o processo que resultou em sua eleição?

Fui indicado para a presidência por vários escritórios, inclusive pelo arquiteto Sérgio Teperman, que argumentava com a necessidade de renovação. Na ocasião, achei que meus compromissos no escritório, na direção da Fundação Bienal, no Secovi etc. não me permitiriam aceitar. Como vários outros arquitetos cogitados também não aceitaram, Teperman foi bastante pressionado para concordar com sua candidatura. As denúncias de que seu escritório ofereceu preços considerados muito baixos em uma concorrência complicaram a situação. O novo presidente de uma entidade que se propõe a lutar contra tal prática não poderia iniciar seu mandato sob esse tipo de reclamação. Meu nome voltou a ser cogitado e concordei.

 
E agora, quais são os planos de gestão?

Espero que o episódio venha a fazer parte do processo de crescimento da associação. Ao longo dos anos, ganhamos força e visibilidade que resultaram num aumento das cobranças sobre nossa atuação. Um dos pontos mais importantes do nosso plano de ação é manter e aumentar a credibilidade da profissão e dos escritórios de arquitetura, mostrando que nosso trabalho é de qualidade. O outro é criar mercado, abrir fronts de trabalho. Há mais de 60 escolas de arquitetura no estado de São Paulo; no Brasil, são mais de cem. Elas formam anualmente um número imenso de profissionais que vão atuar num mercado estagnado. É preciso fazer algo.

 
EXERCÍCIO PROFISSIONAL
 
Como valorizar o exercício profissional num mercado acossado pelo grande número de formandos, pela forte disputa entre os profissionais, pelas exigências adicionais feitas pelos grandes clientes, pela diminuição das obras públicas, pela concorrência de escritórios estrangeiros etc. etc.?

Acredito em nossa profissão. Vejo que um bom projeto tem resultados claros. Em nosso escritório sempre procuramos realizar o melhor projeto, conscientes de que ele permanecerá visível por 30 ou 40 anos e estará indicando nossa responsabilidade em relação à arquitetura, ao cliente e à sociedade. Estará indicando nossa qualidade profissional. Assim, trabalhando de maneira ética, sem a proteção de padrinhos, às vezes cobrando preços superiores aos demais, temos conseguido sobreviver com dignidade, se é que isso não é um lugar-comum. Aprendemos que o cliente que aperta mais e mais os preços não é o que nos interessa, pois sua atitude não vai permitir a realização de um projeto de qualidade. A médio prazo, esse tipo de cliente derruba a reputação de um profissional. Felizmente, muitos clientes desse tipo estão mudando de atitude, convencidos de que os serviços têm um custo e de que, se eles querem mais e melhor, devem pagar por isso. Mas ainda existe muita confusão e a maioria dos construtores considera incluídos no preço serviços como o projeto do estande de vendas, supervisão dos folhetos de propaganda, iluminação etc. Mas essa é uma receita individual e nós estamos falando do conjunto. Primeiro, é necessário identificar o que é o mais valorizado em nossa profissão. Segundo, fazer um trabalho de divulgação. Não se pode mais ter vergonha de usar o marketing para vender melhor nosso produto. Claro que isso não pode ser feito de uma forma festiva, jocosa. Veja só, escritórios norte-americanos desfrutam de grande prestígio entre os clientes brasileiros. Eles são tão melhores do que nós? Não, mas têm uma aura de credibilidade, fruto de um marketing profissional. Já nós temos a fama de gente chata, que fica brigando por detalhes sem importância. Seria ridículo concordar com tudo, mas brigar por bobagens também é.

 
ESCRITÓRIOS ESTRANGEIROS
 
E a regulamentação da atividade dos escritórios estrangeiros?

Não devemos ser xenófobos. Se o escritório estrangeiro tiver uma atuação compatível, não há como ser contra. Queremos condições de igualdade em relação às leis sociais do nosso país e à Receita Federal. Mas há outros aspectos. Tem clientes que compram Ferrari, como é o caso da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, encomendada a Álvaro Siza. Mas a maioria encomenda projetos pasteurizados, que trazem uma tecnologia que nada tem a ver com o Brasil e depois são “tropicalizados”. Os escritórios estrangeiros dispõem de tecnologia e os brasileiros engatinham nisso. Se você está falando de informática, concordo. A Asbea desenvolve programas para financiamento de hardware e software e vamos incrementar isso para melhorar as condições de concorrência. Mas também incentivamos a obtenção das normas ISO a partir de um minucioso trabalho que está sendo coordenado por nosso vice-presidente Henrique Cambiaghi e reeditamos o Manual de contratação de serviços. Meu sócio, Jorge Königsberger, reúne uma grande coletânea de procedimentos, contratos-padrão de arquitetura, leis que regem a profissão, direitos autorais, código do consumidor, seguro de responsabilidade profissional etc., que será editada em capítulos pela Asbea. Trabalhamos um manual de gestão de qualidade, um manual de padronização de layers/CAD. Firmamos convênios com outras entidades. Ou seja, estamos incorporando conhecimentos e tecnologia ao acervo da Asbea e isso está disponível para os associados.

 
E o programa de integração com a indústria de materiais de construção?

Merece um capítulo à parte. É um grande sucesso. Com ele estamos conseguindo melhorar as informações técnicas que recebemos dos fornecedores. Avançamos para a normatização e padronização de materiais. Discutimos com os fornecedores, às vezes antes do lançamento do produto, a adequação deste, a introdução de melhorias, a modulagem. É um processo muito saudável para todos.

 
As leis brasileiras ajudam ou atrapalham?

A 8.666 [a lei federal de licitações] é um desastre. Pretendeu moralizar a concorrência nas obras públicas e introduziu a questão do menor preço. Ora, o menor preço não pode ser critério para avaliar um projeto de arquitetura. Mas a 8 666 fez pior: permite a contratação de projetos iniciais, deixando para as construtoras o desenvolvimento de todos os demais projetos, inclusive o executivo. Com isso, abre espaço para inúmeras revisões de preço. Isolados, pouco podemos fazer; mas, ao lado de outras entidades, vejo a possibilidade de promover alterações na lei para que ela fique adequada à realidade.

 
Texto resumido a partir de entrevista de Arlindo Mungioli
(Edição 244 - junho 2000)
veja também
  Kisho Kurokawa - Entre a simbiose e o marketing
  Massimiliano Fuksas quer Madona nas Bienais - “A bienal de arquitetura deveria ser um evento popular, com a participação de artistas como Madona”
  Jacques Herzog - 'Arquitetura é percepção, pensamento, formas simples.Questões estilísticas não me preocupam'
  Bruno Roberto Padovano - 'Precisamos pensar as cidades como um projeto de todos'
  Carlos Lemos - 'Brasília é um sopro de civilização contaminado pelo Brasil'
  Carlos Maximiliano Fayet - 'O Colégio Brasileiro de Arquitetos será implantado'
 
patrocínio   informe publicitário
     
Índice Notícias Agenda Fórum Envie por e-mail