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| Assumir a Asbea neste momento - em
que há acusações de práticas profissionais desleais -
trará dificuldades especiais para sua gestão? |
O tema em si [acusações de práticas
profissionais desleais] não é surpresa. Vem sendo
debatido há bastante tempo entre nós. Creio que devemos
realizar esforços contínuos para revalorizar a profissão,
com o arquiteto reassumindo responsabilidade mais
ampla sobre o projeto. A prática de baixar preços
vai na contramão. Ninguém faz milagres. Preços menores
levam à menor qualidade do trabalho e à desvalorização
profissional.
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| Mas na Asbea certamente convivem
arquitetos que concordam com isso e outros, submetidos
a circunstân-cias difíceis de trabalho, que não concordam.
O presidente da Asbea vai tentar adotar uma postura didática
ou vai seguir um caminho de exclusão? |
Censurar ou aplicar sanções depende
de estabelecermos regras explícitas, conhecidas por
todos. Para isso precisamos consultar os associados
e apurar melhor o que eles esperam da Asbea para então
estabelecer o que a Asbea espera deles. E manter a
generosidade nas decisões, qualquer que seja o caminho
escolhido. Porém, simplesmente defender a diminuição
de preços para garantir a sobrevivência é algo que
dispensa a própria existência da associação. Cada
um pode fazer isso por si, sem a necessidade de pagar
mensalidades, comparecer às reuniões ou votar. Se
você ingressa numa associação profissional, é para
valorizar, para aumentar o patamar de qualidade dos
serviços que quer oferecer. Mas talvez isso não esteja
tão claro para todos.
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| Como foi o processo que resultou
em sua eleição? |
Fui indicado para a presidência por
vários escritórios, inclusive pelo arquiteto Sérgio
Teperman, que argumentava com a necessidade de renovação.
Na ocasião, achei que meus compromissos no escritório,
na direção da Fundação Bienal, no Secovi etc. não
me permitiriam aceitar. Como vários outros arquitetos
cogitados também não aceitaram, Teperman foi bastante
pressionado para concordar com sua candidatura. As
denúncias de que seu escritório ofereceu preços considerados
muito baixos em uma concorrência complicaram a situação.
O novo presidente de uma entidade que se propõe a
lutar contra tal prática não poderia iniciar seu mandato
sob esse tipo de reclamação. Meu nome voltou a ser
cogitado e concordei.
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| E agora, quais são os planos de gestão?
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Espero que o episódio venha a fazer
parte do processo de crescimento da associação. Ao
longo dos anos, ganhamos força e visibilidade que
resultaram num aumento das cobranças sobre nossa atuação.
Um dos pontos mais importantes do nosso plano de ação
é manter e aumentar a credibilidade da profissão e
dos escritórios de arquitetura, mostrando que nosso
trabalho é de qualidade. O outro é criar mercado,
abrir fronts de trabalho. Há mais de 60 escolas de
arquitetura no estado de São Paulo; no Brasil, são
mais de cem. Elas formam anualmente um número imenso
de profissionais que vão atuar num mercado estagnado.
É preciso fazer algo.
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| Como valorizar o exercício profissional
num mercado acossado pelo grande número de formandos,
pela forte disputa entre os profissionais, pelas exigências
adicionais feitas pelos grandes clientes, pela diminuição
das obras públicas, pela concorrência de escritórios estrangeiros
etc. etc.? |
Acredito em nossa profissão. Vejo
que um bom projeto tem resultados claros. Em nosso
escritório sempre procuramos realizar o melhor projeto,
conscientes de que ele permanecerá visível por 30
ou 40 anos e estará indicando nossa responsabilidade
em relação à arquitetura, ao cliente e à sociedade.
Estará indicando nossa qualidade profissional. Assim,
trabalhando de maneira ética, sem a proteção de padrinhos,
às vezes cobrando preços superiores aos demais, temos
conseguido sobreviver com dignidade, se é que isso
não é um lugar-comum. Aprendemos que o cliente que
aperta mais e mais os preços não é o que nos interessa,
pois sua atitude não vai permitir a realização de
um projeto de qualidade. A médio prazo, esse tipo
de cliente derruba a reputação de um profissional.
Felizmente, muitos clientes desse tipo estão mudando
de atitude, convencidos de que os serviços têm um
custo e de que, se eles querem mais e melhor, devem
pagar por isso. Mas ainda existe muita confusão e
a maioria dos construtores considera incluídos no
preço serviços como o projeto do estande de vendas,
supervisão dos folhetos de propaganda, iluminação
etc. Mas essa é uma receita individual e nós estamos
falando do conjunto. Primeiro, é necessário identificar
o que é o mais valorizado em nossa profissão. Segundo,
fazer um trabalho de divulgação. Não se pode mais
ter vergonha de usar o marketing para vender melhor
nosso produto. Claro que isso não pode ser feito de
uma forma festiva, jocosa. Veja só, escritórios norte-americanos
desfrutam de grande prestígio entre os clientes brasileiros.
Eles são tão melhores do que nós? Não, mas têm uma
aura de credibilidade, fruto de um marketing profissional.
Já nós temos a fama de gente chata, que fica brigando
por detalhes sem importância. Seria ridículo concordar
com tudo, mas brigar por bobagens também é.
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| E a regulamentação da atividade dos
escritórios estrangeiros? |
Não devemos ser xenófobos. Se o escritório
estrangeiro tiver uma atuação compatível, não há como
ser contra. Queremos condições de igualdade em relação
às leis sociais do nosso país e à Receita Federal.
Mas há outros aspectos. Tem clientes que compram Ferrari,
como é o caso da Fundação Iberê Camargo, em Porto
Alegre, encomendada a Álvaro Siza. Mas a maioria encomenda
projetos pasteurizados, que trazem uma tecnologia
que nada tem a ver com o Brasil e depois são “tropicalizados”.
Os escritórios estrangeiros dispõem de tecnologia
e os brasileiros engatinham nisso. Se você está falando
de informática, concordo. A Asbea desenvolve programas
para financiamento de hardware e software e vamos
incrementar isso para melhorar as condições de concorrência.
Mas também incentivamos a obtenção das normas ISO
a partir de um minucioso trabalho que está sendo coordenado
por nosso vice-presidente Henrique Cambiaghi e reeditamos
o Manual de contratação de serviços. Meu sócio, Jorge
Königsberger, reúne uma grande coletânea de procedimentos,
contratos-padrão de arquitetura, leis que regem a
profissão, direitos autorais, código do consumidor,
seguro de responsabilidade profissional etc., que
será editada em capítulos pela Asbea. Trabalhamos
um manual de gestão de qualidade, um manual de padronização
de layers/CAD. Firmamos convênios com outras entidades.
Ou seja, estamos incorporando conhecimentos e tecnologia
ao acervo da Asbea e isso está disponível para os
associados.
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| E o programa de integração com a
indústria de materiais de construção? |
Merece um capítulo à parte. É um
grande sucesso. Com ele estamos conseguindo melhorar
as informações técnicas que recebemos dos fornecedores.
Avançamos para a normatização e padronização de materiais.
Discutimos com os fornecedores, às vezes antes do
lançamento do produto, a adequação deste, a introdução
de melhorias, a modulagem. É um processo muito saudável
para todos.
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| As leis brasileiras ajudam ou atrapalham?
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A 8.666 [a lei federal de licitações]
é um desastre. Pretendeu moralizar a concorrência
nas obras públicas e introduziu a questão do menor
preço. Ora, o menor preço não pode ser critério para
avaliar um projeto de arquitetura. Mas a 8 666 fez
pior: permite a contratação de projetos iniciais,
deixando para as construtoras o desenvolvimento de
todos os demais projetos, inclusive o executivo. Com
isso, abre espaço para inúmeras revisões de preço.
Isolados, pouco podemos fazer; mas, ao lado de outras
entidades, vejo a possibilidade de promover alterações
na lei para que ela fique adequada à realidade.
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| Texto resumido a partir de entrevista
de Arlindo Mungioli |
| (Edição 244 - junho 2000) |
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