| |
Engenheiro
mecânico por formação, o consultor
de esquadrias e fachadas Igor Alvim comemora 15 anos de
atuação no setor, fazendo parte da restrita
lista de profissionais que conhecem a fundo um mercado
que vive em total ebulição. Para ele, projetos
de fachadas cada vez mais complexos colocam o consultor
como parceiro do arquiteto e exigem nova postura dos fabricantes
de esquadrias que buscam aperfeiçoar suas empresas,
tanto no aspecto administrativo, quanto na linha de produção.
Com duas empresas, uma delas voltada para as áreas
de projeto e consultoria e outra para o desenvolvimento
de software de planejamento para a produção
de esquadrias, Igor Alvim afirma que, graças à
criatividade dos arquitetos, cidades como São Paulo
estão povoadas de prédios de grande qualidade
estética e técnica. “O sonho é livre
e tecnicamente possível de ser realizado”, diz
ele nesta entrevista a Ledy Valporto Leal. |
| |
| O mercado registrou, nos últimos
anos, grandes mudanças na tecnologia aplicada à
construção de fachadas. Os sistemas utilizados
atendem às exigências de conforto termoacústico?
|
Atualmente contamos com velocidade
de fabricação e de instalação
muito boas, além de sistemas com ótimo
nível de estanqueidade à água,
realmente eficientes. Ocorreram grandes mudanças,
especialmente no método de instalação.
Os sistemas utilizados hoje permitem a montagem por
dentro.
Com isso, há uma série de vantagens:
a velocidade com que as janelas são colocadas
no local da obra, por meio de um processo motorizado,
a garantia de que elas chegam íntegras, protegidas
de batidas. Também são eliminados os
riscos de o operário trabalhar pelo lado de
fora, sujeito à precariedade dos andaimes,
e de queda de ferramentas, especialmente no caso de
prédios construídos no alinhamento.
|
| |
| É necessário conhecimento
especializado para instalar esses sistemas? |
Eles estão no mercado há
cerca de dois anos, mas hoje sua aplicação
é corrente. Entretanto, não é
qualquer serralheria que pode utilizá-los.
É necessário que a empresa tenha maquinário
eficiente, esteja bem relacionada com um extrusor
e capacitada para a leitura de um projeto. Afinal,
tudo que estiver no papel deverá ser seguido.
Portanto, em sistemas desse tipo, o planejamento é
fundamental.
|
| |
| Então vale a pena as empresas
investirem em planejamento? |
O tempo que se ocupa com a etapa
de planejamento é largamente recompensado com
a rapidez na montagem da fachada. Para termos uma
idéia, uma fachada de 16 mil metros quadrados
de um prédio de escritórios pode ser
montada em dois meses.
|
| |
| Como essas mudanças têm
repercutido na estratégia das empresas? |
Alguns fabricantes de esquadrias
ficarão à margem desse segmento do mercado.
Eles podem até querer participar, mas não
têm condições. Faltam pessoal
especializado e equipamentos eficientes, tanto de
software e medição, quanto de identificação,
como os equipamentos de ultra-som que mostram a presença
de ferragens nos pontos de furação.
Creio que apenas cerca de 15% das empresas que atuam
no mercado estão capacitadas para fazer isso.
A maioria vai ficar com sua janelinha de mão,
porém com uma janelinha de mão mais
eficiente, pois esta é também uma imposição
de mercado. Não se pode admitir ineficiência
num produto que responde por aproximadamente 15% do
valor do edifício.
|
| |
| Essas mudanças ocorreram apenas
em projetos de edifícios comerciais? |
A revolução maior ocorreu
nos prédios comerciais, mas ela também
está presente nos residenciais. Cada extrusora
ou distribuidora procurou criar uma linha mais eficiente
do que as antigas linhas 25 ou 30, atrasadas meio
século, que nem sequer escova de vedação
tinham, mas ainda são usadas em certas regiões
brasileiras por pequenos serralheiros.
|
| |
| Qual a interferência dessa
nova tecnologia na concepção arquitetônica? |
Os arquitetos hoje vêem o consultor
como um parceiro. Antigamente, o consultor era contratado
somente para dar parecer. Essa postura mudou e hoje
ele faz o projeto, sendo quase um departamento técnico
do serralheiro. Isso possibilita ter uma definição
do conceito do projeto da caixilharia antes do fechamento
da obra, o que auxilia significativamente, por exemplo,
na realização da concorrência.
Sem esse recurso, as distorções quanto
à qualidade das esquadrias serão significativas.
O arquiteto passou a utilizar esse tipo de apoio.
Ele define que resultado plástico quer obter
e os consultores, como escritórios de projeto,
desenvolvem a concepção.
|
| |
| ATUAÇÃO
DOS ARQUITETOS |
| |
| Como as escolas de arquitetura têm
abordado os avanços tecnológicos na construção
de fachadas? |
Cabe uma crítica ao ensino:
é inadmissível um jovem se formar em
arquitetura sem saber a diferença entre uma
janela de tombar e uma maxim-ar. O formando deveria
ingressar na vida profissional dominando os princípios
básicos necessários sobre o assunto,
coisa que não ocorre. O que vejo, na prática
profissional, é um desequilíbrio, por
exemplo, entre o grau de informação
sobre um telhado e sobre uma fachada. O primeiro apresenta
detalhes de caibros, terças e beirais etc.,
enquanto as esquadrias têm informações
sumárias.
|
| |
| Nesse sentido, qual o recado que
você passaria aos arquitetos? |
O sonho é livre e possível
de ser realizado. É graças ao sonho
dos arquitetos que cidades como São Paulo estão
povoadas de prédios de grande qualidade estética
e técnica.
|
| |
| Em que etapa da obra o consultor
de esquadrias deve começar a atuar? |
É desejável que isso
ocorra desde o momento em que o arquiteto estiver
concebendo a fachada, a caixilharia. O sonho é
importante - e olha que às vezes o arquiteto
sonha, o consultor sonha e os donos sonham mais ainda
-, mas é preciso controlá-lo. É
dessa relação íntima e inicial
que surgem os melhores resultados. Um projeto de arquitetura
estuda, logo no início, a cor, o tamanho e
a espessura do vidro, para identificar qual deles
atenderá ao coeficiente térmico desejado,
como serão as lajes e os vigamentos, como o
prédio vai trabalhar em termos de estrutura
- se haverá flechas nos pavimentos.
|
| |
| Para otimizar o trabalho do consultor,
quais os pontos básicos que o projeto de arquitetura
deve definir? |
Em princípio, há condições
de atender a todas as determinações
do arquiteto. No entanto, é necessário
considerar que, conforme a natureza de sua concepção,
o custo irá variar. Dependemos, portanto, das
disponibilidades de desembolso do empreendedor. Então,
a relação concepção/custo
tem que estar definida desde o início do trabalho
de consultoria.
|
| |
| Como está a evolução
tecnológica de componentes para esquadrias? |
Tem ocorrido grande desenvolvimento
tecnológico e muitos componentes e acessórios
foram ou estão sendo nacionalizados. O que
me parece faltar é obediência às
normas técnicas estabelecidas para o setor.
Elas não são impositivas, são
indicativas. Mas, havendo um problema, elas serão
tomadas como referência. Normas para concreto
armado ninguém ousa desobedecer, porque isso
afeta diretamente a segurança do prédio.
Normas que se referem a aspectos considerados secundários,
como guarda-corpos de sacadas, tendem a ser desconsideradas.
|
| |
| E os vidros, que novidades apresentam?
|
Dispomos de vidros com ótimo
desempenho térmico, alguns importados. Creio
que a Europa domina a tecnologia mais avançada,
com a Bélgica à frente. A Glaverbel
tem a maior planta da Europa e fabrica vidros com
sistema fotovoltaico que capta a luz solar e a transforma
em energia elétrica, direcionando-a para o
consumo energético do edifício. Mas
seu custo é muito elevado e nós trabalhamos
com um período para o retorno do capital investido
bem menor que o de alguns países europeus,
que pensam num horizonte três ou quatro vezes
maior.
Há também os vidros low-e com índice
de reflexão praticamente zero. Veja os casos
das torres de controle de aeroportos: sistematicamente
seus vidros são inclinados, em razão
dos inconvenientes da reflexão. Hoje, essas
superfícies podem ser na vertical, dada a disponibilidade
de vidros anti-reflexivos.
|
| |
| De que maneira está sendo
resolvida a passagem do som de um andar para o outro nas
fachadas-cortina? |
Trata-se de problema gravíssimo,
que hoje é considerado questão prioritária
- primeiro, o isolamento acústico em relação
à rua e, depois, de um andar para o outro.
Há um tripé a ser considerado: ar-condicionado,
esquadria e acústica. Em alguns casos, como
aeroportos, a questão é crítica,
devido ao som ensurdecedor das turbinas dos aviões
e ventos consideráveis. Esses inconvenientes
têm que ser resolvidos, de fora para dentro,
com o emprego de vidros mais eficientes, tanto térmica
quanto acusticamente; de um pavimento para outro,
a solução está nos forros acústicos
absorventes, como a lã de rocha.
|
| |
| CUSTOS |
| |
| Como é possível racionalizar
custos com as esquadrias sem comprometer a qualidade?
|
Hoje o arquiteto lança a idéia
e o projetista de esquadrias faz tudo. Sem esse projeto,
acabamos comparando produtos distintos. É importante
esclarecer que um projeto, para ser eficiente, não
pode ter uma linha exclusiva. Não cabe ao consultor,
por exemplo, fazer uma linha de janelas. Ele tem que
definir uma idéia, inclusive os perfis, mas
esse produto será feito, no caso, pelo extrusor.
O construtor contrata a empresa extrusora, que desenvolve
os perfis pensados pelo construtor, e não o
contrário.
|
| |
| Ainda predomina a cultura de redução
de peso como fator de redução de custo das
esquadrias? |
No mundo inteiro, a esquadria é
especificada por metro quadrado e não por quilo.
Qual a razão? Ora, se uma janela que antes
pesava oito quilos teve seu peso diminuído
para cinco quilos, seu preço não pode
ser reduzido nessa mesma proporção,
uma vez que a área do perfil a ser pintado
ou anodizado não sofre alteração,
pois independe da espessura. Portanto, o raciocínio
não pode ser por quilo. Os preços devem
ser diferenciados, deve-se montar um custo analítico,
levando em conta cada tipo de janela e cada tipo de
sistema.
Em outras palavras, deve-se considerar o tempo gasto
na sua fabricação e na sua instalação
e agregar a isso o custo da mão-de-obra, a
matéria-prima e os acessórios. Acrescentados
ao total o BDI e os impostos, temos o preço
final. Se o critério for por quilo, haverá
grave distorção no preço: o serralheiro
tanto poderá estar ganhando quanto perdendo
200%. No entanto, é bom lembrar que esse procedimento
analítico exige a utilização
de sistema informatizado para chegar ao custo correto.
|
| |
| E quais as conseqüências
da redução de peso das esquadrias? |
A redução repercute
na matéria-prima, mas não afeta os gastos
com mão-de-obra. Exemplo: convencionou-se que
um critério correto para dimensionar os custos
de uma esquadria simples era multiplicar por três
o custo da matéria-prima. Com a redução
do peso dos perfis em cerca de 50%, digamos, esse
critério, necessariamente, deverá ser
revisto, uma vez que, apesar da queda de 50% no preço
da matéria-prima, o custo da mão-de-obra
não sofre alteração. A manutenção
desse critério, muitas vezes por imposição
das empreiteiras - que, além de ter ciência
do peso total das esquadrias, são as responsáveis
pela compra da matéria-prima -, tem levado
serralherias à quebra.
|
| |
| Existem softwares direcionados para
os fabricantes de esquadrias? |
De nada adianta produção
eficiente se não houver controle de custos
também eficiente. Desenvolvemos um software,
através da empresa MDQ, que permite ao serralheiro
ver sua fábrica por dentro e fechar todo esse
emaranhado de valores. Tecnologia, ele encontra no
mercado. Por isso deve começar a pensar nos
sistemas de desenhos e de controle de custos, na qualidade
da fábrica, na ISO 9 000, em máquinas
mais automáticas. É a reengenharia.
E com isso se obtêm controle gerencial, redução
de custos e aumento da produtividade.
|
| |
| Qual sua opinião sobre a produção
de esquadrias em canteiros de obras? |
É admissível a fabricação
de esquadrias no canteiro, desde que nele se instale
uma fábrica. Simplesmente levar para lá
uma máquina e duas furadeiras não é
solução, é improvisação.
Perde-se totalmente a qualidade. No entanto, se colocarmos
uma indústria no canteiro, em lugar apropriado,
protegido, para receber as máquinas que estariam
na fábrica, é possível obter
bons resultados.
Na verdade, o principal ganho com a transferência
da fábrica de esquadrias para o canteiro está
relacionado a impostos. Não concordo com essa
transferência. Penso que uma esquadria deve
ser produzida na fábrica, pois é aí
que se consegue obter qualidade. Na fábrica
estão presentes o gerente, o encarregado, enquanto
no canteiro quem responde por essas funções
é um operário, trabalhando em condições
insalubres e sem a necessária segurança.
Fazer uma esquadria no canteiro deve ser encarado
como exceção, e não como regra.
|
| |
Por Ledy
Valporto Leal
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 33 Maio de 2003 |
|