João Filgueiras Lima
“Ter a nossa própria entidade é um sonho que alimentamos há muitos anos”
 
  João da Gama Filgueiras Lima, nascido no Rio de Janeiro, em 1932, formou-se pela Faculdade de Arquitetura da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1955. Trabalhou na construção de Brasília e desenvolveu os hospitais da Rede Sarah em todo o país, entre inúmeros outros projetos. Recebeu diversos prêmios ao longo de sua carreira
 
João Filgueiras Lima (Lelé) não foi escolhido por acaso patrono do 17º Congresso Brasileiro de Arquitetos, realizado no Rio de Janeiro, entre o final de abril e o início de maio. “Técnico e artista”, como o definia Lucio Costa, Lelé foi fundamental para a evolução da arquitetura nos anos 1960, quando introduziu e desenvolveu a racionalização da construção com pré-moldados. Em 1957, recém-formado, partiu para o Planalto Central, onde, juntamente com Oscar Niemeyer e Lucio Costa, trabalhou na realização do sonho da nova capital.
 
Gostaria que o senhor falasse sobre sua opção pela arquitetura.

Acho que ela foi meramente acidental, nunca pensei em ser arquiteto. A rigor, nem sabia o que era arquitetura. Venho de família muito simples e estudava na Academia Militar de Agulhas Negras, que, na época, oferecia oportunidade de carreira segura. Mas depois vi que não tinha vocação para o exército e abandonei a escola. Como precisava trabalhar, tornei-me escrevente-datilógrafo do Serviço do Arsenal da Marinha.

 
Pensou em fazer algum vestibular?

Passei um ano sem saber qual curso poderia me interessar. Por acaso, no lugar onde eu trabalhava, estava sempre desenhando e fazendo caricaturas. Um dia, um subtenente perguntou-me por que eu não estudava arquitetura. Foi então que procurei saber o que era arquitetura e depois prestei o vestibular. Mas foi, na verdade, coisa de quem não tem outra opção.

 
Seu pai era militar?

Não, tínhamos uma vida muito simples. Morávamos no Rio, num subúrbio da Central do Brasil. Filho único, meu pai era postalista, nos Correios e Telégrafos, e pianista muito conceituado, que tocava nos cinemas, na época dos filmes mudos. Só deixou de tocar aos 40 anos, quando casou. Tínhamos piano em casa e minha iniciação musical foi com ele, mas nada acadêmica. Toco piano e acordeão só de ouvido.

 
Na faculdade, algum professor se destacou, influenciando mais sua formação?

Minha cabeça foi feita fora da escola, por Aldary Toledo, que trabalhava no projeto da cidade universitária do Rio de Janeiro, com Jorge Moreira, e também no Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários, o IAPB. Mas a faculdade contava com bons professores, e nessa época se concentrava muito na área técnica. Tínhamos um professor de concreto armado bastante exigente, o engenheiro Décio Moreira da Rocha.

 
Nessa época já era faculdade de arquitetura?

Era de belas-artes, mas, por incrível que pareça, as disciplinas técnicas tinham grande influência. Muitos alunos passavam três ou quatro anos repetindo a cadeira de concreto e alguns até desistiam. Como minha formação de exatas tinha sido muito forte, não cheguei a ter problema. Eu sentia uma lacuna enorme na área cultural, até por questão familiar, de formação mesmo, e quem me ajudou a preenchê-la foi Aldary. Principalmente no campo artístico. Além de arquiteto, ele era pintor, desenhava e pintava muito bem.

 
BRASÍLIA
 
O senhor foi para Brasília logo depois de formado?

O concurso de Brasília foi em 1956; terminei o curso um ano antes e trabalhei, inicialmente, em construtoras. Antes de me formar, fui desenhista no IAPB, Aldary que me levou para lá. Quando me formei, ninguém queria ir para Brasília, e eu me ofereci e fui aceito. A tarefa era construir as superquadras dos apartamentos do IAPB. Fui procurar Oscar Niemeyer no escritório, ainda no Rio.

 
Já o conhecia?

Pela fama de grande arquiteto. Nessa época, ele já tinha trabalhado no Ministério da Educação e feito a Pampulha, era profissional importante. Para nós, estudantes do Rio, era a grande referência. Ele me estimulou a ir para Brasília, dizendo que seria boa oportunidade para aprender muita coisa. E cheguei ao Planalto Central logo no início das obras, em 1957.

 
E em Brasília o senhor começou a praticar arquitetura?

Não, fui lá para construir, e não para projetar. Tive de desenvolver meus conhecimentos técnicos, pois, naquela época, não havia nem como me comunicar com o Rio. Se eu não tivesse adquirido certa base técnica e estudado bastante sobre construção, não teria conseguido fazer nada. Inicialmente, construí um acampamento para 2 mil pessoas, uma verdadeira cidade, na superquadra norte 109. Esta só foi construída depois da inauguração da capital, mas aí já trabalhava com Oscar.

 
Fale sobre o começo com Niemeyer.

Sempre tive muita ligação com ele e com Mauro Esteves, o responsável pelo escritório em Brasília. Em 1962, na construção da Universidade de Brasília, fui como secretário executivo, e então já trabalhava só com arquitetura. A universidade foi o centro de desenvolvimento da pré-industrialização e da pré-fabricação.

 
Como surgiu a idéia do pré-fabricado?

Surgiu nessa época da construção de Brasília, pois Darcy Ribeiro queria os prédios do Instituto de Ciências prontos em pouquíssimo tempo. A pré-fabricação resolvia a necessidade de urgência. Os primeiros prédios foram pré-fabricados e concluídos em 45 dias.

 
O sistema oferece de fato grandes vantagens em relação aos mais tradicionais?

A industrialização é questão de economia de escala. Se houver grande quantidade de obra, torna-se mais econômico. Na rede de hospitais Sarah Kubitschek temos industrialização com estrutura metálica e argamassa armada, uma usina muito bem montada, mais sofisticada que a da Europa naquela época. Conseguimos resultados financeiros bem vantajosos em relação aos sistemas tradicionais. A construção artesanal, como se pratica no Brasil, provoca enormes desperdícios. Houve ocasião em que o desperdício de energia e de matéria-prima chegava a 30% no Brasil.

 
E sua experiência como professor na Universidade de Brasília?

Fui professor da cadeira de projeto e coordenador do curso de pós-graduação, responsável pelo tronco de técnica da construção. Fiquei até o golpe militar, quando fomos todos demitidos e tive de trabalhar mais uma vez como engenheiro de obras. Depois, ainda nem tinha escritório montado, surgiu a oportunidade de trabalho como arquiteto no projeto do hospital de Taguatinga. Fui indicado por Oscar e a obra foi toda pré-moldada.

 
Que tipo de obras o senhor fazia então?

Projetei casas, muitos edifícios, fiz o Centro Administrativo da Bahia, em Salvador, e ainda desenvolvia os projetos do Oscar no Brasil. Cheguei a construir dois edifícios para a Camargo Corrêa em pré-fabricados. E projetei em meu escritório, em 1976, o primeiro hospital para a Rede Sarah Kubitschek, em Brasília. Depois disso fui para Salvador.

 
HOSPITAIS
 
Como foi seu trabalho em Salvador?

Trabalhei com o prefeito Mário Kertész nas suas duas gestões, como funcionário arquiteto. Na primeira administração, optou-se pelo uso de projetos padronizados executados com componentes pré-fabricados de concreto armardo para a Companhia de Renovação Urbana de Salvador, criada pelo prefeito em 1979. Era uma forma de acelerar a execução e torná-la mais conômica. A usina fabricava peças de concreto para abrigos, drenagem, saneamento, escolas, creches e outros equipamentos urbanos, como escadarias, abrigos de ônibus, passarelas, bancos, sanitários públicos etc.

 
A argamassa armada é dessa época?

Sim, comecei a usar a argamassa armada em Salvador, em 1979. Antes, já tivera alguma experiência em Brasília, quando entrei em contato com o engenheiro alemão Frederico Shieel, que desenvolvia estudos sobre o tema na USP de São Carlos. A aproximação foi por intermédio do filho dele, arquiteto, que trabalhava comigo. Para os trabalhos em Salvador, Shieel foi chamado para assessorar o escritório. A argamassa armada exigiu a criação de moldes metálicos bem mais complexos do que os empregados nos pré-moldados de concreto. Assim, tivemos antes que desenvolver um setor de serralheria, muito importante para as obras posteriores. Usamos em Salvador, primeiro em obras de saneamento básico, depois no centro histórico. Hoje, no Centro Industrial Sarah, o CIS, temos uma parte da produção industrial em argamassa armada, usada em estruturas, divisórias, paredes e lajes dos hospitais da Rede Sarah em todo o país.

 
Além da espessura delgada, quais as vantagens da argamassa armada?

Suas peças são muito mais leves e fáceis de transportar que as de concreto. Isso é importante no caso dos hospitais da Rede Sarah, uma vez que a indústria fica em Salvador e as peças precisam vencer grandes distâncias para chegar aos diversos pontos do país. E há um processo específico de industrialização. Usamos um tipo de armação que antes era importada da Bélgica e agora passou a ser fabricada no Brasil. A argamassa recebe malha de uma espécie de fibra metálica, constituída por um arame muito fino que vem com cola em seu processo de industrialização, dissolvida depois na água. Trabalhamos com dois moldes e a argamassa é injetada, e não lançada, como se faz com o concreto pré-moldado.

 
As divisórias não apresentam problemas de acústica?

Tanto o concreto quanto a argamassa são péssimos no que diz respeito a acústica e conforto térmico. Precisamos tomar algumas precauções, e temos várias tecnologias para solucionar o problema. Usamos sempre paredes duplas que não se tocam, e podemos deixar passar uma corrente de ar entre as duas ou colocamos uma lâmina de isopor. Estamos sempre aperfeiçoando nossos projetos e isso significa um sobrecusto, mas o conforto é importante e temos de mantê-lo. Nossos hospitais oferecem conforto bem razoável.

 
Mas os espaços são distintos, claro...

Evidentemente, dependendo da disponibilidade da técnica que desenvolvemos, e ela é bem flexível, conseguimos mudar os espaços de acordo com o programa. Hospital tem programa muito técnico, mas, ao mesmo tempo, exige espaços de conformações muito diferentes. Alguns muito específicos, outros que devem ser necessariamente agradáveis, para que o paciente não se sinta confinado. O hospital tecnológico, projetado na década de 1950, com ênfase no aspecto médico, não resolveu. A tendência hoje volta-se para hospitais mais abertos, mais humanos. A própria questão da assepsia mudou muito. Na briga com as bactérias, nós vamos acabar perdendo, porque temos antibióticos cada vez mais fortes e elas vão se fortalecendo cada vez mais. Nossos pacientes na Rede Sarah, como têm pouca mobilidade, sofrem com infecções urinárias, intestinais. Os tetraplégicos são ainda mais suscetíveis.

 
O que a arquitetura pode fazer para reduzir esses problemas?

Uma tendência aponta, no mundo inteiro, para o fato de que mesmo as bactérias que se reproduzem repartindo-se transferem o DNA pelo contato. Então, quando se pega uma bactéria da rua e ela fica junta a uma superpoderosa do hospital, esta tem seu poder reduzido. Assim, quanto mais aberto o ambiente hospitalar, mais saudável ele será para os pacientes. O centro cirúrgico do Sarah de Brasília está dividido em duas partes, cada uma com quatro salas. Enquanto se utilizam as quatro salas de um deles, as outras quatro são desinfetadas. Isso não é possível em um centro cirúrgico convencional, porque a galeria é a mesma e seria preciso parar todo o centro.

 
Em centro cirúrgico, qual o problema mais grave?

Sem dúvida, é o sistema de ar condicionado. Ninguém consegue limpar os dutos direito, mesmo com os robôs. No novo hospital da Rede Sarah no Rio, já projetamos os dutos correndo pelo teto e com a possibilidade de ser abertos para limpeza e desinfecção. Não ficou muito mais caro, porque já foi projetado assim, mas num hospital convencional seria impossível abrir os dutos. Usamos a ventilação natural, pelas janelas, que têm até sistema de abertura motorizado. Na Rede Sarah trabalhamos em conjunto com os médicos e estamos sempre discutindo esses problemas.

 
Mas as inovações criadas chegam aos outros hospitais?

Não, porque nossos equipamentos implicam um conceito, uma filosofia de tratamento próprios do Sarah. Não adianta introduzir apenas um desses equipamentos num hospital convencional porque não iria funcionar. É toda a filosofia de tratamento que precisa mudar.

 
ARQUITETURA NO BRASIL
 
Como o senhor vê a luta para a criação de uma entidade própria para os arquitetos?

Esse é um sonho que alimentamos há muitos anos. O Crea se tornou gigantesco; se, por um lado, isso oferece prestígio, por outro, como há predominância de engenheiros, os arquitetos têm parcela de representatividade menor e acabam perdendo. E ainda temos que enfrentar muita confusão, porque as pessoas não entendem a diferença entre o trabalho do engenheiro e o do arquiteto. Em todo o mundo, o arquiteto tem sua entidade específica, por que temos de ser diferentes? Mesmo no Brasil, outras profissões têm suas entidades próprias, como a Ordem dos Advogados do Brasil e o Conselho Regional de Medicina, por exemplo.

 
Quais os arquitetos que mais se destacam no panorama brasileiro?

Tenho visto trabalhos excelentes de jovens arquitetos publicados na PROJETO DESIGN, mas convivo mais com o pessoal antigo, como Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, Severiano Porto e outros por todo o país. Em geral, nossos profissionais têm potencial para fazer trabalhos excelentes, e se não o fazem é porque as oportunidades não aparecem. E poder se exprimir é fundamental em arquitetura. Mesmo os que têm oportunidade dificilmente conseguem fazê-lo por completo, porque enfrentam grandes restrições. É a construtora que não constrói direito, é o cliente que procura um barateamento vil, e assim por diante. Nesse particular, fui privilegiado, porque tive oportunidades que os outros não tiveram. Na Rede Sarah temos o controle sobre tudo. Se acontece algum erro, é nosso, da nossa equipe, e temos de assumir. Mas aí fora, principalmente na iniciativa privada, com a especulação imobiliária, é muito difícil o arquiteto se impor. O potencial dos arquitetos não pode ser medido pelos trabalhos que são deturpados.

 
Entre os estrangeiros, quais os arquitetos que senhor mais admira?

Eu não gosto muito de Frank Gehry, prefiro o trabalho de Renzo Piano e de Norman Foster, que são profissionais muito atuantes e com boas obras. O aeroporto de Piano construído no Japão é muito bonito, a solução tecnológica foi muito engenhosa. É pena que a ilha artificial esteja afundando.

 
 
Por Éride Moura
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 280 Junho de 2003
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