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| Christian
de Portzamparc |
“O tema da música possibilita
trabalhar acústica e desenho, conceber uma
forma livre”
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Christian de Portzamparc
nasceu em Casablanca, no Marrocos, em 1944,
e estudou em Paris, na École de Beaux-Arts, onde
se diplomou em 1969.
Em 1994, ganhou o Prêmio Pritzker |
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Maquete do projeto de Christian
de Portzamparc para a Cidade da Música,
no Rio de Janeiro |
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O francês
Christian de Portzamparc, vencedor de diversos concursos
em seu país e em vários continentes, é
um dos mais importantes representantes da arquitetura
internacional contemporânea.
Ele e a arquiteta brasileira Elizabeth de Portzamparc,
especializada em interiores, com quem é casado,
estiveram em maio no Rio de Janeiro, onde mostras de seus
trabalhos fizeram parte do 27º Congresso Brasileiro
de Arquitetos. Portzamparc expôs seu projeto para
a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira - que vem
sendo chamada de Cidade da Música, alusão
à Cité de la Musique, em Paris, de sua autoria.
Com entusiasmo, o arquiteto fala, nesta entrevista, desse
projeto para o Rio, cidade que aprendeu a amar desde a
juventude, quando teve os primeiros contatos com livros
sobre a obra de Oscar Niemeyer. |
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| Por que o senhor, que na juventude
fez importantes incursões pelas artes plásticas,
acabou optando pela arquitetura? |
Ainda no colégio, comecei
a estudar pintura, desenho e escultura. Como lia muito,
descobri um livro de arquitetura sobre Le Corbusier,
que falava da noção de espaço.
Passei a me interessar pelas cidades e percebi que
tudo aquilo que ele dizia tinha coerência. Também
me interessei pela arquitetura moderna, vi imagens
das obras de Niemeyer no Brasil e comecei a sonhar
em ser um arquiteto como ele. Logo em seguida, iniciei
meus estudos de arquitetura. Mas continuei desenhando.
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| E desenha até hoje? |
Sim, um pouco em função
do meu trabalho de arquiteto, mas desenho sempre que
posso.
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| O senhor nasceu no Marrocos, de família
francesa, não? |
Meu pai era oficial do Exército
francês, na Segunda Guerra Mundial, e enquanto
ele estava preparando o desembarque dos Aliados no
sul da França minha mãe foi para Casablanca,
no Marrocos, onde morou quase dois anos. Nasci em
1944 e ela só voltou para a França em
1945. Minha primeira visão do mundo foi o Marrocos.
Não me lembro de nada, mas pode ser que isso
conte alguma coisa em minha obra.
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| Seu projeto para a Disney, apesar
de a idéia homenagear o Brasil, tem qualquer coisa
que lembra seu país de nascimento. |
Muitas vezes me dizem isso. Até
no projeto de Hautes Formes há quem veja algo
de marroquino, por causa do branco das construções.
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| O senhor retorna sempre ao Marrocos? |
Sim, mas nunca voltei a Casablanca,
sempre fico em Marrakesh. Um dia ainda farei uma peregrinação
ao lugar do meu nascimento.
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| Entre seus inúmeros projetos,
qual o preferido? |
O mais recente.
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| Sempre prefere o mais recente? |
Não, mas prefiro esse do Rio.
Alguns são mais excitantes que outros, mas
esse é uma síntese de minhas reflexões
e de outros projetos que tenho feito.
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| A
CIDADE DA MÚSICA, NO RIO DE JANEIRO |
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| Como surgiu a idéia desse
projeto para a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira? |
No ano passado, dois funcionários
da prefeitura carioca, Ricardo Augusto Maciel e Raul
Fernandes Ribeiro, estiveram em Paris para conhecer
a Cité de la Musique, no parque La Villette,
porque desejavam um projeto semelhante para a sede
da sinfônica brasileira. Entraram em contato
comigo, pois gostariam que eu fizesse o trabalho.
Algum tempo depois, Maciel pediu, por telefone, que
eu fosse ao Rio escolher o terreno.
Cheguei em setembro e percorremos a cidade de helicóptero,
do Corcovado à Barra da Tijuca,
e pude entender melhor a forma geral da cidade, a
localização do centro do Cebolão,
que é o cruzamento dos eixos da Baixada.
A Barra é uma longa planície de 15 quilômetros
e o terreno escolhido ocupa o coração
geométrico da zona oeste da cidade.
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| A área escolhida, sem nenhuma
interferência próxima, dificulta as coisas? |
O terreno fica na Barra da Tijuca,
no cruzamento de dois grandes eixos de circulação,
pensados por Lucio Costa para estruturar essa planície
urbana de 15 quilômetros. A área é
difícil porque sua posição central
forte e simbólica pede um projeto audacioso.
Como ela não dispõe de nenhum marco
paisagístico ou arquitetônico, decidi
fazer do edifício uma referência, um
sinal urbano forte, a exemplo do Corcovado, do Pão
de Açúcar, da lagoa, entre outros. Assim,
ele poderá desempenhar seu papel e marcar sua
presença cívica - pois se trata de um
edifício público cultural importante.
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| Por outro lado, o senhor terá
a oportunidade de fazer da arquitetura um objeto isolado. |
Exatamente. Uma situação
totalmente diferente das que encontrei na Europa,
nos Estados Unidos, em Israel, no Japão. Em
Nova York, na torre LVHM (leia
PROJETODESIGN 241, março de 2000),
os regulamentos eram muito restritivos; em Tel-Aviv
as exigências são muito abrangentes;
em Berlim tudo é muito fechado; Luxemburgo
faz imposições rigorosas. Aliás,
na Europa, sempre há regras que determinam
“não mais que isso ou aquilo”.
Aqui, ao contrário, o edifício precisava
preencher o espaço, o terreno pedia uma grande
amplitude. Isso me deu inteira liberdade para projetar,
o que nunca ou raramente se tem na Europa. Depois,
o tema da música possibilita trabalhar acústica
e desenho, conceber uma forma livre, porque não
há conflito entre o conteúdo musical
e a forma arquitetônica.
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| Quais foram as premissas na concepção
do projeto? |
A idéia foi a de uma ampla
casa sobre pilotis, em homenagem a um arquétipo
da arquitetura moderna brasileira dos anos 1950. Eu
queria que o edifício tivesse uma presença
forte, visível a longa distância, e resolvi
sobrelevá-lo cerca de dez metros, de maneira
que parecesse flutuar sobre o jardim de manguezal
que vamos desenvolver junto com Fernando Chacel, sob
a edificação.
Dessa cota elevada, o visitante, como num belvedere,
poderá se apropriar visualmente do vasto panorama,
com o perfil das longas cadeias de montanhas de um
lado e, do outro, a linha do mar. Volumes e vazios
estão encerrados entre grandes cascos curvos
de concreto, que separam luz e sombra, isolam salas
e dão a impressão de levantar o conjunto
com leveza. O edifício tem duas longas lajes
de concreto, com 200 metros de extensão cada
e 20 metros de largura.
Procurei uma interação entre as formas
curva e retangular, uma síntese de muita coisa
que já experimentei antes.
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| A Cidade da Música no Rio
terá muitas relações com trabalhos
anteriores? |
Certamente, o projeto está
incluído em um ciclo de pesquisas que venho
desenvolvendo acerca da relação entre
cheios e vazios e da sobrelevação de
estruturas. São idéias recorrentes em
minhas obras. No projeto carioca, entre as duas grandes
lajes horizontais do terraço alto e do teto,
os volumes das salas de música e os espaços
dos átrios públicos brincam com o diálogo
de cheios e vazios que se interpenetram. Já
desenvolvi isso no projeto do concurso da Biblioteca
de Quebec.
E para o concurso do Museu de Seul, em que fiquei
em segundo lugar, o edifício aparece sobrelevado
sobre jardins e espelhos d’água.
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| De que maneira o programa foi definido? |
Como deveria ser semelhante ao programa
da Cité em La Villette, chamei o arquiteto
Bertrand Beau, que tinha trabalhado comigo em 1985
naquele projeto. No Rio, conversamos com o pessoal
da orquestra, para conhecer suas necessidades. Maciel
nos disse que, embora a sala fosse destinada mais
a concertos musicais, ela deveria permitir a transformação
ocasional em casa de ópera. Isso era ambicioso
e ficamos interessados em enfrentar esse desafio.
Assim,
de volta a Paris, começamos a delinear o projeto.
Além do auditório, para 1 800 pessoas,
projetamos várias salas menores, serviços
de escritório e midiateca, que ocupam um dos
lados do edifício, e, do outro, sala de música
de câmara e vários outros espaços.
Comecei a definir o grande auditório no início
do mês de dezembro e quando o pessoal da prefeitura
do Rio esteve em Paris mostrei as idéias. Na
ocasião, fiquei de trazer todo o trabalho para
o Rio em meados de janeiro. Mas passei um mês
e meio bloqueado, sem trabalhar, porque meu pai faleceu
nesse período.
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| E como o projeto foi desenvolvido? |
Não me satisfaziam as soluções
sugeridas para a estrutura das duas grandes lajes
do edifício, pois desejava algo leve e delgado,
sem muitos pilares. Curiosamente, em janeiro, no momento
em que estava indo para a inauguração
da Embaixada da França em Berlim, surgiu-me
a idéia de utilizar o concreto protendido,
que faz parte da cultura arquitetônica do Brasil
e é muito bem desenvolvido no país.
Passei a organizar, então, uma estrutura que
se abrisse a partir do solo, sem pilares.
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| Há brasileiros na equipe
técnica? |
Pelo contrato, parte da produção
do projeto será feita no Brasil, com arquitetos
e engenheiros brasileiros, porque os custos desses
serviços na França são quase
três vezes mais caros. Conhecemos a equipe dos
coordenadores brasileiros, os engenheiros Henrique
Aragão e Francisco Salles, e conversamos sobre
a organização; depois estivemos com
o arquiteto Luís Antônio Rangel, encarregado
das providências administrativas junto à
prefeitura. De volta a Paris, organizei minha equipe
com Xu Yaying, para desenvolver a parte acústica,
e os cenógrafos Jacques Dubruil e Michel Fayet,
que são muito importantes para a parte cênica,
referente à ópera.
No Brasil, organizei com a Engineering e com o Rangel
a equipe brasileira, que terá os engenheiros
calculistas de concreto Bruno Cantarini e Carlos Fragelli,
e ainda o Ismail Solé, um cenógrafo
muito bom de Porto Alegre,
e José Augusto Nepomuceno, um excelente engenheiro
de acústica de São Paulo.
Xu Yaying faz o projeto básico da acústica
e José Augusto o isolamento sonoro.
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| Esse tipo de construção
não é muito comum na Europa. |
Quando mostrei o projeto a meu engenheiro,
em Paris, ele disse: “Eu costumo ousar, mas esse projeto
é muito ambicioso. Os espaços são
muito grandes, se fossem 20 metros, tudo bem. Mas,
enfim, esses brasileiros...”.
No Brasil me encontrei com Fragelli e Cantarini, que
me disseram: “Tudo bem. Se forem 30 metros será
ótimo”. Concordei.
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| Com relação ao grande
auditório, quais serão suas características? |
Concebida para apresentar concertos
de alta qualidade e óperas, a sala tem características
do teatro shakespeariano, com as paredes laterais
cobertas de camarotes instalados em pequenos edifícios,
o que possibilita que público e orquestra tenham
uma excepcional relação espacial.
Cada espectador deve notar a presença da platéia,
mas, ao mesmo tempo, se sentirá sozinho, vendo,
ouvindo e vivendo o importante momento musical. As
pequenas torres tiram a impressão de que o
espaço é uma caixa fechada, o clássico
volume paralelepípedo.
Para se transformar em sala de ópera, as torres
próximas ao palco podem ser deslocadas mecanicamente,
deixando livres as laterais e o fundo. Uma parte da
platéia cede lugar ao fosso da orquestra. O
teto refletor acústico é escamoteável,
para desimpedir a caixa de palco abaixo. A moldura
do palco de ópera é, enfim, estreitada
como um diafragma retangular, com paredes corrediças
e uma cortina.
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| A
EMBAIXADA FRANCESA EM BERLIM |
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| Quanto à embaixada francesa
em Berlim, recém-inaugurada, o terreno é
o mesmo ocupado antes da guerra? |
Sim, próximo à porta
de Beaubourg, mas eles adquiriram outro terreno, que
formou um L com o antigo. Fica no centro de Berlim,
em área que era cortada pelo muro. Essa zona,
como quase toda a cidade, é construída
com quadras fechadas, contrárias à teoria
que defendo, de quadras abertas, mais criativas, pois
proporcionam formas variadas e têm maior capacidade
de receber luz e ventilação.
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| Mesmo com a aquisição
do novo terreno, o lote era difícil de trabalhar? |
Quando vi o terreno, quis desistir
do concurso, porque era muito fechado e havia restrições
demais. Mas Elizabeth [Portzamparc] queria muito participar,
os interiores seriam interessantes para ela. Então,
condicionei minha participação: só
concorreria se encontrasse um meio de impedir a claustrofobia.
Eu queria que todos os salões se abrissem para
a luz do sol. Fiz a maquete, mas tinha sempre alguma
coisa que não me satisfazia. No final, para
abrir o lote, projetei sete volumes de formas diferentes
para cada um dos pontos do programa.
Uma das paredes laterais, com 30 metros de altura
por 120 de comprimento, foi cortada lateralmente ao
meio; a parte inferior foi ocupada pelos espaços
de escritórios, e no alto projetei um passeio
com plantas e árvores, uma espécie de
jardim suspenso. Uma rua interna envidraçada
leva luz aos ambientes e pode ser vista do exterior.
A fachada principal é a mais fechada, por causa
das exigências da prefeitura. Seu térreo
recebeu janelas pequenas e uma textura de concreto
martelado, de tom róseo, que desenvolvi para
fazer uma referência às pedras que revestem
a maior parte dos edifícios da cidade.
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Por Éride
Moura
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 281 Julho de 2003 |
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