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Paulo Casé
faz parte de uma geração de profissionais
que passou os anos de faculdade debatendo arquitetura
e lendo tudo o que lhe chegava às mãos sobre
modernismo. Era o final dos anos 1950 e na tradicional
Escola Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, ainda
reinava o ecletismo, enquanto o moderno não chegava
às salas de aulas - “por desinteresse, acomodação
ou conservadorismo”, diz o arquiteto.
Como a maioria dos colegas, o modernista, racional e formal
Casé tinha em Lucio Costa, Sérgio Bernardes
e Oscar Niemeyer seus gurus nacionais, mas era a arquitetura
de Frank Lloyd Wright que fazia realmente sua cabeça.
Sua atividade profissional, intensa, tem se voltado, nos
últimos anos, para o urbanismo e a arquitetura
que ele chama “de intenções”, de projetos
simples, mas que oferecem opções de lazer
e esportes aos bairros carentes do Rio de Janeiro. |
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| FORMAÇÃO
EM ARQUITETURA |
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| Como o senhor decidiu fazer arquitetura?
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A escolha foi ao acaso, nunca tive
tendência para desenho nem para arquitetura.
Sempre fui assíduo freqüentador da praia
de Copacabana, não me dedicava muito aos estudos.
Quando terminei o serviço militar, fiz o terceiro
colegial à noite e tinha o dia todo para ir
à praia. No colégio, um colega me disse
que ia fazer vestibular para arquitetura. Eu nem sabia
o que era isso, e fiquei espantado quando ele me explicou
que era uma prova com toda a matéria do colegial
- já achava difícil passar por um ano
de cada vez.
Também na praia encontrei um amigo que era
levantador de peso e perguntei o que ele estava fazendo.
Fiquei muito mal quando o brucutu disse que tinha
passado em engenharia. Quando ele me perguntou o que
eu ia fazer, respondi a primeira coisa que me veio
à cabeça: arquitetura. Ele então
me indicou um excelente cursinho na cidade.
O professor tinha um entusiasmo tão grande,
uma didática tão boa que me fez tomar
gosto pelo estudo. Nunca tinha desenhado, mas passei
bem, em quinto lugar, e comecei a fazer arquitetura
na Escola Nacional de Belas-Artes.
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| Nessa época, o ensino já
era modernista? |
Os professores tinham ainda a linguagem
do ecletismo, mas nós segurávamos a
bandeira do modernismo. Nossos gurus na época
eram Lucio Costa, Sérgio Bernardes e Niemeyer.
A dissociação entre o corpo docente
e o discente era total.
Eles não admitiam o moderno, por desinteresse,
acomodação ou conservadorismo. Nós,
os alunos, buscávamos Frank Lloyd Wright, que
nos chegava em inglês, numa linguagem até
difícil de ser interpretada. Dos ícones
do país, Niemeyer era o mais importante, porque
tinha uma coisa mais forte, mais formal, muito bonita.
Foi uma época maravilhosa.
A escola era um casarão na Rui Barbosa - hoje
fica lá a reitoria -, com jardins internos
onde fazíamos serestas aos sábados.
As turmas eram pequenas e todos se conheciam, havia
uma união muito grande entre os alunos. Na
verdade, fazíamos nossos próprios cursos,
nos formávamos em nossas discussões.
Hoje, me sinto como um matusalém, pois já
passei por muitas épocas. Poucos puderam ter
a experiência de viver tempos tão diversos,
com visões de vida tão diferentes, como
as pessoas da minha geração.
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| Entre os professores, algum se destacava?
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Eu recordo mais os fatos que os nomes
das pessoas. Lembro-me do Archimedes Memória,
que ganhou o primeiro concurso para o projeto do Ministério
da Educação e foi diretor da Escola
Nacional de Belas-Artes.
Como disse, nos formamos lendo e discutindo arquitetura
entre nós mesmos. Tivemos de descobrir o que
era urbanismo, por exemplo, porque a matéria
ainda não existia. Soubemos que Le Corbusier
havia proposto qualquer coisa sobre o assunto na Carta
de Atenas, mas desconhecíamos exatamente do
que se tratava.
Nós, alunos, éramos todos racionais,
modernos, porém formais. O que, aliás,
não deixa de ser a visão do modernismo:
forma universal, determinismo histórico da
arquitetura, falta de relação com o
meio.
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| A influência de Niemeyer foi
importante na sua formação? |
Não, na verdade minha matriz
formal foi Frank Lloyd Wright. Eu desconfiava que
atrás das formas das obras de Wright havia
um conceito principal, o que eu não via em
Niemeyer. Muito embora eu tenha descoberto depois
o conceito de que a beleza é a função.
Até então, beleza para mim era beleza.
Depois entendi o que ele dizia: a função
acaba, mas a beleza da forma permanece. Embora essa
não seja a minha visão de arquitetura,
compreendo que é a maneira de ele encará-la.
Mais tarde, quando me tornei professor [na Universidade
Federal do Rio de Janeiro], achei horríveis
aqueles corredores enormes no prédio moderno
do campus do Fundão. O modernismo foi uma praga,
não por ele, mas pelos princípios.
Os decálogos impunham como a obra deveria ser,
com brise-soleil, pano de vidro, pilotis e por aí
vai.
Do contrário, não seria moderno. Por
um lado,
era cômodo, o arquiteto não precisava
pensar.
A forma bela estava ali.
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| TRAJETÓRIA
PROFISSIONAL |
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| E em que momento o senhor começou
a questionar o formalismo? |
Descobri que fui pós-moderno
desde 1964, mas no sentido correto do termo, como
movimento crítico do moderno. Essa questão
começou a ser discutida uma geração
antes da minha, mas eu achava tão certo que
a arquitetura de Niemeyer era paradigma que não
levava em conta outra interpretação.
Até que participei, no início dos anos
1960, de um concurso do IAB, dentro do 1º Fórum
de Discussão de Arquitetura no Brasil, com
um projeto feito em 1958, quando eu ainda era estudante.
O projeto reproduzia formas wrightianas e era belíssimo.
As obras concorrentes não tinham nenhuma expressividade,
então achei que iria ganhar tranqüilamente.
Mas levei uma cacetada de que custei a me recuperar,
porque o júri não gostou.
O primeiro choque foi horrível, mas depois
parei e pensei: se o prédio é bonito
e todo mundo acha, qual é o problema?
O primeiro edifício que desenhei depois disso
era muito semelhante a um dos trabalhos premiados,
todo fechadinho, sem nenhuma brasilidade, nenhuma
liberdade. O projeto foi aprovado, mas logo em seguida
rasguei e fiz outro do jeito que achava que deveria
ser. E até hoje ele está lá na
Barata Ribeiro.
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| A partir daí, como prosseguiu
sua carreira? |
A partir do insucesso do concurso,
levei dez anos para descobrir o que era arquitetura
para mim. Nesse período, participei de 11 premiações
seguidas, com dez prédios e uma casa, sempre
discutindo arquitetura com o júri através
de seus pareceres.
Discutia, principalmente, os princípios que
impediam a expressão da diversidade cultural
na obra. Se a pintura de Di Cavalcanti, a música
de Heitor Villa-Lobos e a literatura de Monteiro Lobato
podiam fazer o moderno com visão brasileira,
por que a arquitetura não teria um gesto brasileiro?
Cheguei até a discutir o prédio do Ministério
da Educação, que considero extraordinário,
mas trata-se de modelo europeu. Pilotis em locais
de chuvas e ventos muito fortes não funcionam.
No caso do ministério, o uso deles é
só monumentalidade. Depois, fiz um livro sobre
esse período que foi até premiado pelo
IAB.
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| O
RIO DE JANEIRO HOJE |
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| Como o senhor vê a arquitetura
da cidade atualmente? |
Quando dava aulas na faculdade, dizia
para meus alunos terem muito cuidado, porque arquitetura
exige responsabilidade. Depois de pronta, a arquitetura,
assim como a tatuagem, não tem mais jeito.
O objeto arquitetônico faz parte da paisagem,
a qualidade da cidade é a qualidade dos seus
prédios.
A Barra da Tijuca foi esse desastre porque as pessoas,
infelizmente, pensam comercialmente. Copacabana, por
sua vez, teve a vantagem de seus prédios serem
juntos uns aos outros, de maneira que a própria
edificação fez o urbano.
Na Barra nem isso, tem aqueles vazios enormes sem
nenhum significado.
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| O computador foi facilmente assimilável
no seu trabalho? |
Para mim, o computador é um
fator robotizador de culturas. Uma máquina
criada para atuar como instrumento no meio econômico-financeiro
que, de repente, começou atuar em todas as
outras áreas e a mudar o comportamento das
pessoas.
Claro que é de muita utilidade nos escritórios
de arquitetura. Uma obra como a do Guggenheim de Bilbao,
na Espanha, jamais poderia ter sido feita sem as imagens
e os cálculos do computador.
No urbanismo, nas obras para a prefeitura, como o
Rio-Cidade, eu o utilizei como instrumento para os
projetos de renovação urbana. A responsabilidade
de interferir no espaço público é
muito grande, sobretudo porque se trata de área
já constituída e com sua história.
Quando passei a trabalhar em urbanismo, comecei a
pensar em como fazer um trabalho de intenções.
Não era mais a forma bela nem o design que
me interessavam, mas o bem-estar das pessoas; as questões
estéticas chegam como complemento.
No Projeto Cidade Ipanema, em nenhum momento pensei
na forma. Compusemos a equipe com sociólogos
e filósofos para discutir como interferir no
espaço urbano.
Cheguei à conclusão de que, se o homem
não vai para a rua conhecer sua diversidade,
morre como robô dentro de casa, onde a televisão
e o computador só dão mensagens absolutamente
estandartizadas. As pessoas precisam se apoderar da
sua língua, de seus costumes, de sua vizinhança,
sob o risco de perder a identidade.
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| Entre seus projetos de interesse
social, quais os mais importantes? |
No Cidade Bangu, observei que os
trilhos do trem do subúrbio passam lá
com quase dez metros de altura, secionando todas as
ligações de vizinhança. Os moradores
subiam toda aquela altura para pegar o trem e, para
ir para o outro lado, tinham que subir e descer as
escadarias sob um calor infernal.
Como solução, criei duas passagens principais
cobertas e protegidas por microgotejadores, que umedecem
e reduzem a temperatura em até sete graus.
E para facilitar a locomoção há
escada rolante e elevador para paraplégicos.
A forma só foi pensada depois.
Há também os parques de vizinhança,
com a finalidade de criar espaços de lazer
para as famílias da periferia. Ao todo, projetei
cinco, e o primeiro, em Deodoro, está sendo
concluído agora. Os outros são em Jabu,
já licitado, e em Vista Alegre, Machado de
Assis e Lins.
No parque há uma grande piscina, com areia,
vestiários, restaurante, lanchonete, grande
salão para as festas comunitárias, pequena
cozinha, áreas para churrasco e para futevôlei.
E tudo isso orientado por profissionais treinados.
É um projeto de alcance social maior que outros
que tenho feito.
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| E além desses? |
Fiz ainda a Cidade das Crianças,
em Santa Cruz, que está dividida em três
partes contíguas:
a cidade, uma área para esportes e uma pequena
fazenda. A cidade tem teatro, sala de exposições,
biblioteca, lojas para vender produtos fabricados
nas favelas, lanchonetes, duas ilhas temáticas
para espetáculos de Ziraldo e Regina Casé,
playgrounds e local para piquenique. Na parte de esportes,
há espaços para skate, futebol, tênis
e piscina. E a fazenda é o lugar onde a criançada
pode conhecer os animais de perto. Uma ciclovia e
um trenzinho circulam pelos três ambientes.
Ganhei também o concurso para revitalização
do centro, na área da praça 15, que
dará continuidade ao projeto de intervenção
na área do cais, onde Jean Nouvel fará
o museu [Guggenheim].
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| Por falar em Nouvel, qual sua opinião
sobre esse controvertido projeto? |
Pode-se não concordar com
o projeto, mas ele partiu de uma referência
antecipada.
E é fundamental para a revitalização
do centro, abandonado.
Há a tentativa de combater o governante pelo
preço. Eu pude estudar as várias propostas
apresentadas para o cais, mas nenhuma teve os mesmos
cuidados do trabalho de Nouvel. De um lado, fica a
área do gasômetro, totalmente sucateada,
e do outro a praça Mauá, tombada sem
o cuidado de manter os moradores.
É preciso mudar o vetor de crescimento do Rio,
que até agora tem acompanhado a montanha e
o mar - Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon
- e tornar o centro novamente habitável.
A área do cais do porto representa umas três
Copacabanas ou mais, e a revitalização
econômica do Rio proporcionará aumento
tão expressivo na arrecadação
de impostos que o custo do Guggenheim desaparecerá.
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| Na arquitetura brasileira, que nomes
o senhor considera mais importantes atualmente? |
Oscar Niemeyer, sem dúvida,
e também Paulo Mendes da Rocha e Joaquim Guedes,
em São Paulo. E, na Bahia, Assis Reis. No momento,
não me ocorrem outros nomes.
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| E entre os estrangeiros? |
Álvaro Siza é maravilhoso,
e também Rafael Moneo. Gostaria de ver Siza
restaurar a Lapa para moradia. Tenho certeza de que
ele faria isso muito bem e sem nenhum gesto de agressão
ao meio. Se bem que às vezes a agressão
dá certo, como o Beaubourg, em Paris.
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Por Éride
Moura e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 282 Agosto de 2003 |
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