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| Alexandre
Wollner |
“Todo trabalho malfeito
deve ser criticado, porque
a sociedade aprende muito
com isso” |
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Alexandre Wollner,
nascido em São Paulo, em 1928, começou seus
estudos no Instituto de Arte Contempo-rânea, escola
criada por Pietro Maria Bardi no Masp. Sua passagem pelo
IAC garantiu-lhe a indicação a uma vaga
na Escola Superior da Forma de Ulm, Alemanha. A passagem
por Ulm, por sua vez, permitiu sua participação
na criação da Escola Superior de Desenho
Industrial (Esdi), no Rio de Janeiro. É autor de
célebres logomarcas, como a da Klabin, da Santista,
da Eucatex e do Itaú. Mantém escritório
em São Paulo |
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| Neste mês,
a criação da Escola Superior da Forma de
Ulm, Alemanha, completa 50 anos. E a Escola Superior de
Desenho Industrial (Esdi) comemora, em 2003, 40 anos.
A instituição alemã, que funcionou
até 1968, foi idealizada como uma espécie
de continuação da Bauhaus. Alguns brasileiros
lá estudaram. Entre eles, está Alexandre
Wollner, que também participou da criação
da Esdi, no Rio de Janeiro. Wollner - um dos mais importantes
designers gráficos do país - acaba de lançar
um “livro-objeto“, que faz um apanhado de sua carreira.
Ele recebeu PROJETO DESIGN em seu estúdio, em São
Paulo, para falar, entre outras coisas, sobre o livro,
seu aprendizado no IAC/Masp e em Ulm, sobre Max Bill,
a Esdi, os concretistas e a regulamentação
da profissão de designer no Brasil. |
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| Fale um pouco sobre o livro que
o senhor acaba de lançar. |
Todo livro tem que ser um objeto.
Muita gente não percebe a função
do livro. Não se pode fazer um livro de estudo
igual ao de lazer, para se ler no ônibus ou
deitado. O livro de estudo
tem uma função e o de lazer tem outra.
É como uma cadeira: a peça feita para
jantar não serve para o dentista, e vice-versa.
Com o livro é a mesma coisa.
Um livro de estudos tem características especiais.
Por exemplo, o tipo de letra: ele não pode
ser não serifado porque, com aquelas letras
regulares, fica-se com sono, é monótono.
Também não pode ser com papel brilhante,
porque o reflexo da luz incomoda a vista. Ele tem
que ser feito para que você possa ler o máximo
possível. O comprimento da linha, a entrelinha
e o corpo da letra também são importantes.
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| É como programar espaços? |
Isso; é como as manchas gráficas
são organizadas dentro do livro. Então,
a última parte do meu livro é um making
of. Ou seja, uma história do livro desde quando
ele é livro, em 1500, mais ou menos. As pessoas
se esquecem disso.
Então, ninguém faz design de livro,
faz capa de livro. Como era meu livro, eu quis dar
o exemplo de um livro-objeto, para ler e estudar.
Tem uma parte de biografia, uma parte de história
e outra dos trabalhos que realizei. Elas precisam
ter mais ou menos as mesmas características,
ser unitárias, e a leitura não é
muito difícil - não
sou um escritor, sou um designer -, quis
fazer uma coisa linear, o mais simples possível.
Esse livro dá para ler em meia hora.
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| Quanto tempo o senhor trabalhou nele
e como surgiu a idéia de fazê-lo? |
Três anos. A idéia surgiu
quando minha mulher insistiu para eu me inscrever
no Prêmio Vitae.
Disse a ela que meu trabalho não tinha nada
a ver com arte. Mas eu entrei e ganhei em uma categoria
especial, porque as categorias previstas são
teatro, artes cênicas, artes gráficas,
arte visual etc., mas não há categoria
de design.
Como eu tenho uma história e eles acham que
sou bacana, então deram duas bolsas fora do
contexto: uma para Nise da Silveira e outra para mim,
que também sou louco. Isso possibilitou que,
nos intervalos entre outros trabalhos, eu me dedicasse
ao livro. Por sorte, documentei toda minha obra: sempre
fiz questão de fotografar tudo. Existem fotos
de Ulm que só eu tenho.
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| O senhor poderia falar um pouco
da relação entre a arte concreta e o design
gráfico no Brasil? |
Quando surgiu a arte concreta eu
estava estudando gravura no Instituto de Arte Contemporânea,
o IAC. Achava que meu talento era para o desenho.
Nessa época, fazia os cartazes de cinema da
Filmoteca Brasileira do Museu de Arte Moderna, localizada
no mesmo prédio do Museu de Arte de São
Paulo, o Masp. Fazia os cartazes de terça e
sexta-feira. Eles eram muito parecidos com obras dos
artistas concretos, com Max Bill e Otl Aicher.
Geraldo de Barros, que tinha vindo de uma bolsa de
estudos em Paris, viu os cartazes no museu. Ele tinha
ganho o concurso do cartaz das comemorações
do quarto centenário de São Paulo e
foi convidado a desenvolver outros cartazes culturais,
de cinema etc. Como ele não tinha conhecimento
nenhum de gráfica, tipografia, ao ver meus
cartazes perguntou quem os fazia. Ele então
me perguntou se eu não queria auxiliá-lo;
disse que não podia me pagar, mas que poderia
me dar aulas de pintura.
Começamos a trabalhar juntos e nossos cartazes
são assinados assim: se meu nome está
em primeiro lugar, a idéia foi minha; do contrário,
foi Geraldo quem idealizou. Chegamos a esse acordo.
Assim eu entrei no grupo dos artistas concretos.
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| E como o senhor percebeu que queria
ser designer? |
Naquele tempo eu
queria ser um grande pintor. Só
quando fui para a Alemanha percebi que, se continuasse
a fazer pintura, falaria com no máximo cem
pessoas, e eu queria falar
com 5 milhões. E para isso preciso
da mídia, de divulgação.
Comecei a aprender que design
é uma coisa mais orgânica.
Então você faz coisas que todo mundo
admira, percebe e se surpreende com o novo. Fazia-me
voltar a 1500, quando Leonardo da Vinci desenhou aquelas
proporções humanas e tudo, com as praças,
que se baseavam nas proporções do homem.
Se a praça está vazia, ela está
proporcional, e se está cheia também.
Essa relação orgânica entre os
objetos que são usados pelo homem tem que funcionar.
E o homem fica adequadamente situado nesses lugares.
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| Como foi sua volta ao Brasil? |
Quando voltei para o Brasil, vi em
São Paulo a praça Roosevelt vazia. É
uma praça que irrita, não tem proporção,
não tem relação: não se
pensou no homem.
Tudo que é malfeito a própria população
quebra, rasga, suja. De coisas bem-feitas, como alguns
pontos de ônibus, as pessoas cuidam. As
coisas bem-feitas as pessoas respeitam. O design a
gente vê na rua. Tem design brasileiro na rua?
Não.
Alguém ofereceu para a prefeitura e puseram
uma lata de lixo em todas as ruas, até onde
não havia necessidade. O desenho é copiado
dos franceses. Porém, o material é péssimo,
uma porcaria, não fecha, então quebra:
todas elas estão arrebentadas. E não
é essa a intenção do design.
Temos que criar peças
como um complemento do homem: você usa, gosta
e respeita. Comecei a perceber isso na
Europa e pensei: quero participar dessa idéia.
E no Brasil nunca me ensinaram isso.
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| O curso de Ulm dava base científica? |
Dava, porque ele tentou ser a continuação
da Bauhaus, mas como se passaram 20 anos, de 1932
a 1952, com a guerra a tecnologia evoluiu, com armas
fabulosas, a bomba atômica etc. Não se
podia mais copiar um programa dos anos 1920, época
da Bauhaus. Havia necessidade de adaptação
às novas condições, às
novas exigências do mercado.
Ao preparar um profissional para esse mercado, não
se pode mais pensá-lo como artista. Tem que
existir o embasamento técnico, com o conhecimento
de materiais, física, semiótica, linguagem,
matemática e geometria. Tudo isso era ensinado,
ao contrário da Belas-Artes. Então,
Ulm era uma espécie de pós-graduação,
pois não se aprendia a desenhar.
É um absurdo que se vá a uma escola
profissional e se aprenda a desenhar.
Você aprende antes. Mas ainda hoje as escolas
estão ensinando a desenhar.
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| Quais são os outros problemas
nessa área, em sua opinião? |
Estão fragmentando o design
em, por exemplo, web design, design de embalagens
etc. Design de embalagens
não existe no Brasil. Embalagem
no sentido de fazer a forma de embalagens, e não
fazer só o rótulo. E não existe
design de embalagens aqui porque o consumo no Brasil
ainda é muito pequeno para se investir em uma
forma de embalagem, pois sai muito caro.
Veja o exemplo do perfume Chanel: o vidro é
muito mais caro do que o perfume. E não se
pode fazer uma Coca-Cola com preço exorbitante
só por causa da garrafa.
Então, o que fazemos é comprar desenhos
de outros países, onde há consumo muito
grande, praticamente global. Cervejas, por exemplo,
há várias cujas garrafas não
são desenhadas aqui, a matriz é trazida
e adaptada.
Não se pode, então, fazer um curso de
design de embalagens se aqui não há
a possibilidade de trabalhar. Não adianta.
Temos que fazer outras coisas. Por exemplo, agora
há um boom na agricultura. Então temos
que fazer equipamentos para agricultura, fabricá-los
e exportá-los. Dá lucro, pode-se investir
e não precisa do governo. Mas aqui se investe
em automóveis, iates etc.
Por isso falo que estamos
500 anos atrasados. Não saímos do lugar.
Fora a música, não temos uma imagem
brasileira.
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| O senhor acha que conseguiu criar
um design com características brasileiras? |
Não. Temos bons designers
brasileiros, mas sem características brasileiras
bem definidas. Temos características globais.
Quem deve criar características brasileiras
são as escolas, que são os laboratórios
da nova linguagem. Não digo que
não é possível fazer isso, mas
alguém tem que insistir nisso.
A Bauhaus e a Ulm, onde eu estudei, e mesmo a IAC,
eram escolas que tinham certo idealismo. Se eu quiser
fazer uma escola de design no Brasil, tenho que entrar
no esquema acadêmico e ser aprovado no Ministério
da Educação, que está 20 anos
atrasado.
A Bauhaus e a escola de Ulm também não
poderiam entrar no esquema acadêmico, pois eram
particulares e os diplomas não eram reconhecidos.
O aluno estudava lá
não para receber o diploma, mas para aprender
uma profissão. Todos os estudantes
dessas escolas eram praticamente profissionais, alunos-profissionais,
que estudavam o dia todo.
Não ficavam tomando chope.
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| Quanto tempo o senhor passou na Alemanha? |
Quatro anos na Alemanha e mais um
ano na Suíça, fazendo estágio
com Max Bill, que veio para cá em 1953, porque
havia ganho um prêmio da Bienal de Artes de
São Paulo, em 1951.
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| Com uma escultura, não? |
É. Ele foi convidado para
inaugurar o IAC. Mas não pôde vir, porque
já estava envolvido com a criação
da escola em Ulm. Mas em 1953 foi montada uma exposição
no Masp e ele fez algumas palestras.
Nesta passagem por São Paulo, ele fez uma palestra
na FAU/USP, na rua Maranhão; os alunos estavam
em greve, porque a reitoria não havia aceitado
Niemeyer como professor, pois ele era comunista. Max
Bill iniciou sua palestra na FAU com a seguinte frase:
“Estava passando pela Barão
de Itapetininga e vi uma galeria, entrei e pensei:
que merda é essa?”. Ele estava se referindo
à galeria Califórnia, desenhada por
Niemeyer.
Depois ele viu outros prédios, como o Copan,
que estava em obras. Ele esculhambou o Niemeyer, dizendo
que ele não faz arquitetura, mas escultura.
Estou convicto de que ele tinha razão: as
obras de Niemeyer viraram ruínas modernas,
por que ele só faz croquis e manda os outros
desenharem, não acompanha, não faz nada.
E não resolve os problemas sociais, que são
os problemas principais dos arquitetos.
Ele é um bom desenhista, um bom artista, mas
quando vamos falar com as pessoas que moram nos projetos
dele a coisa muda. Tenho um amigo que mora no edifício
Eiffel, na praça da República [em São
Paulo], e é terrível morar lá.
Aquelas duas orelhas canalizam todo o barulho da praça
para dentro dos apartamentos.
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| De que maneira os alunos reagiram
ao comentário de Bill? |
Foi um alvoroço.
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| E ele escreveu um texto sobre as
obras de Niemeyer? |
Ele deu uma entrevista para a revista
Manchete e para a revista do Bardi, a Habitat. E o
Bardi adorou.
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| O senhor foi aluno de Max Bill e
trabalhou um ano com ele. Como ele era pessoalmente? |
Ele era rigorosíssimo. Meus
colegas de Ulm que não freqüentavam as
aulas dele me perguntavam como eu agüentava.
Mas se não agüentasse, como iria aprender?
Também adotei certo rigor com meus amigos.
Acho que os bons professores são todos rigorosos.
Não se pode entrar no esquema do aluno.
Aqui no Brasil, o aluno faz
um acordo com o professor, que também não
quer dar aula. O importante é passar e ter
o diploma.
Em Ulm não era assim. Lá não
tinha nem prova:
a cada três meses os professores faziam uma
reunião e você era examinado. Se achavam
que você não estava acompanhando, era
convidado a sair da escola.
Tentamos fazer isso no Rio, na Esdi, que começou
em 1963, e os alunos protestaram. Com a ditadura,
a escola entrou em decadência, principalmente
quando a Carmem Portinho assumiu e a escola perdeu
aquela vitalidade que imaginávamos que devia
ter.
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| Fale-nos um pouco sobre a criação
da Esdi. |
A Esdi começou em Ulm. Niomar
Sodré Bittencourt era diretora do Museu de
Arte Moderna do Rio de Janeiro e esposa de Paulo Bittencourt,
diretor do Correio da Manhã, jornal muito importante
na época, contrário a Juscelino, que,
para obter apoio, prometeu ajuda dos ministérios.
Com a intenção de criar uma escola dentro
do museu, Niomar foi até Ulm e conversou com
Max Bill, que gostou da idéia e disse que ali
havia um aluno brasileiro que poderia ajudar. Estava
lá havia dois anos e ela conseguiu para mim
outra bolsa, que melhorou a minha vida. Então
ficou acertada minha participação na
criação da escola. Tinha um compromisso
com Geraldo de Barros de voltar para São Paulo
e montar um escritório.
Voltei para o Brasil e havia Juscelino com aquele
entusiasmo todo, dizendo que a Volkswagen viria para
o Brasil etc. Quando cheguei, eu e o Aloísio
Magalhães demos no MAM um curso de tipografia,
que era uma espécie de estágio para
a criação da escola. Não era
curso de tipografia técnica, mas de conceito,
para que servia, como era feito etc. Nesse ínterim,
o museu perdeu o apoio do governo.
Mas Carlos Flexa Ribeiro, que era diretor do museu
e se tornou secretário da Cultura do [então
governador do Rio] Carlos Lacerda, assumiu a direção
da escola. E formou um grupo, composto, entre outros,
por Maurício Roberto, Aloísio e eu.
Depois veio meu colega de Ulm, Karl Bergmiller, que
também participou dessas reuniões. Brigamos
muito, porque a maioria queria fazer uma escola de
artes aplicadas, no molde francês, com modelo
vivo etc. Mas os “alemães“ venceram.
E fizemos o programa. Depois, Tomás Maldonado
e Otl Aicher - um dos fundadores de Ulm e autor dos
logotipos da Olimpíada de Munique, da Lufthansa
e da Braun - estiveram aqui dando um seminário.
Todo mundo estava com medo de seguir o modelo alemão
no Brasil. Mas deu certo. Fizemos exame para admitir
30 alunos, sem requerer diploma universitário,
mas exigimos nível de habilidade em trabalhos
que poderiam ser em diversos materiais, como madeira,
gesso, plástico, tipografia. E não era
prometido diploma.
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| O curso demorava quanto tempo? |
Quatro anos. Havia um período
inicial, de um ano, que todos faziam para aprender
a linguagem do design. Depois o aluno escolhia entre
comunicação visual e desenho industrial.
A escola estava dando certo.
Depois entrou mais um colega, Edgard Decurtins, e
Décio Pignatari, algumas pessoas mais ou menos
entrosadas com design. Só não conseguimos
incorporar os técnicos e os semióticos
porque ninguém sabia o que era design.
A escola está funcionando até hoje,
mas não é mais como antes e foi por
isso que saí. Estão montando curso de
mestrado, mas sou contra esse negócio de doutorado
em design. Mas a Esdi se juntou à Uerj e necessita
entrar no esquema acadêmico.
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| O senhor também participou
da criação do curso de design do Mackenzie,
não? |
Os alunos da escola do Mackenzie
são muito especiais. Primeiro, porque são
pessoas que não conseguiram entrar em arquitetura,
então fazem vestibular para design e no próximo
ano tentam de novo arquitetura.
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| São alunos temporários. |
Eles estão sempre com um pé
na arquitetura, porque arquitetura dá status.
Inclusive há alguns designers formados em arquitetura
que nunca falam que são designers: falam que
são arquitetos.
No Mackenzie, as turmas eram
compostas por, mais ou menos, 80% de moças
grã-finas, de alto nível, que faltam
à aula para ir ao dentista. Então não
deu certo.
Eu era a única pessoa que tinha autorização
reconhecida como designer pelo Ministério da
Educação. Como eu havia vindo da Alemanha,
me deram esse título especial para criar a
Esdi.
O Salvador Cândia, que também tinha vindo
do IAC e era diretor do Mackenzie, me convidou para
organizar o curso. Assim que a escola foi reconhecida,
me retirei.
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| Em sua opinião, falta espírito
de classe entre os designers? |
Falta. No passado, achava que a profissão
deveria ser reconhecida. Mas, depois, consegui perceber
que isso seria negativo. Os arquitetos, que possuem
o reconhecimento da profissão, até hoje
não criticam o trabalho uns dos outros.
E essa crítica é absolutamente positiva.
Criticar o outro é negativo, mas o trabalho
tem de ser criticado. Todo
trabalho malfeito deve ser criticado, porque a sociedade
aprende muito com isso. E o arquiteto está
proibido de criticar. Mantenho sempre uma posição
crítica, escrevo bastante, tenho site, publiquei
uns livrinhos etc. Falo mal dos trabalhos, não
dos colegas.
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| Mas ainda há um movimento
buscando a regulamentação profissional. |
Mas está totalmente desvirtuado.
Há até um deputado que agora resolveu
reconhecer a profissão de quem faz web design.
O web design é um
fragmento do design. Não existe web designer.
Existe o designer que faz web. Ele tem
que aprender tudo, tipografia, fotografia etc. Senão,
ele não consegue fazer web. Não sei
como acontecem essas coisas. É um grupo de
pessoas que não quer deixar os outros fazerem.
Se você consegue fazer um trabalho bem-feito,
você se sobressai.
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| Hoje há no design gráfico
a influência clara da linguagem da Internet. O que
o senhor acha disso? |
Isso é uma influência
da MTV, na linguagem do clipe. Tudo se faz rápido,
o rap etc. Como linguagem de televisão eu acho
que ela não pegou: é muito fragmentada,
você não consegue entender nada, você
não vê seqüência.
O web design está
seguindo muito essas influências, de fragmentar,
de complicar. Ainda não acharam a linguagem
certa no web design. Todo mundo tem a tendência
de complicar. E no design você tem que descomplicar.
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Por
Fernando Serapião
e Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 283 Setembro de 2003 |
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