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| Khaled
Ghoubar |
À espera de parcerias
com o setor privado |
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Khaled
Ghoubar formou-se pela FAU/USP em 1973, e já
no ano seguinte foi contratado pelo Departamento de Tecnologia
da Arquitetura, no qual trabalhava como estagiário |
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Criado em 1964,
o Departamento de Tecnologia da Arquitetura, da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São
Paulo (FAU/USP), teve como seu primeiro diretor o engenheiro
calculista e professor José Carlos Figueiredo Ferraz,
que deu ao órgão uma estrutura cuja prioridade
era a tecnologia da construção.
Hoje, quase 40 anos depois, o departamento ainda prioriza
a construção de edificações,
mas tem estrutura bem maior. Sob a direção
do professor Marcelo Romero, especialista em conforto
ambiental e conservação de energia, começa
a ampliar seus campos de pesquisa, mesmo tendo de enfrentar
diversas dificuldades.
Nesta entrevista à revista Finestra, o professor
Khaled Ghoubar, que substitui Romero, em férias,
fala sobre as atividades do departamento, as pesquisas
programadas e em andamento e o isolamento em relação
ao setor privado. Ghoubar formou-se pela FAU/USP em 1973,
e já no ano seguinte foi contratado pelo Departamento
de Tecnologia da Arquitetura, no qual trabalhava como
estagiário. Conhece, portanto, a fundo sua história. |
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| Em quase 40 anos de existência,
o que mudou no Departamento de Tecnologia da Arquitetura?
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Os princípios são os
mesmos. A idéia é orientar o conhecimento
da tecnologia, principalmente da construção
de edifícios, já que é a demanda
socialmente mais numerosa que os arquitetos têm.
A demanda de equipamentos urbanos, desenho urbano,
comunicação visual, desenho industrial
e paisagismo se fortaleceu a partir da década
de 1970. A presença dos arquitetos passou a
ser cada vez mais intensa nessas áreas, apesar
de continuar maior na área de edificações.
Por essa razão, a
estrutura principal do Departamento de Tecnologia
da Arquitetura era e ainda é mais voltada para
edificações.
Na reforma que vamos passar a implantar a partir do
próximo ano, teremos uma disciplina obrigatória
dedicada à construção
urbana - antes optativa - que discutirá
mercado imobiliário, gerenciamento de obras,
custos da construção dos empreendimentos,
políticas públicas e setoriais da construção
civil etc. A disciplina fará parte da grade
horária do quarto ano, exatamente para contemplar
alunos que já têm crítica maior,
dúvidas e alguma experiência de trabalho.
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| A questão do conforto ambiental
merece atenção especial do departamento?
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Claro, essa é uma questão
muito importante para a tecnologia. Temos três
grupamentos de disciplinas: o mais antigo é
o de construção,
depois o de conforto ambiental
e o mais recente, criado na década de 1980,
é o de metodologia,
que fornece subsídios para as disciplinas de
construção e de conforto. É um
grupo de pesquisa que, ultimamente, tem recebido a
contribuição de novos professores, o
que trouxe nova dinâmica. Por causa disso, a
orientação das pesquisas no Departamento
de Metodologia tem se fortalecido.
As questões ambientais do edifício -
como os isolamentos das paredes, por exemplo - e do
ambiente urbano - qualidade do ar, orientação
solar, áreas de sombreamento - são objetos
de pesquisa. Hoje, as preocupações do
conforto ambiental extrapolam o edifício, estão
cada vez mais próximas da questão urbana.
Esses assuntos têm
sido atendidos por nossas pesquisas temáticas,
orientadas por professores altamente especializados.
Temos professores que fazem pesquisas nas áreas
de isolamento acústico, desenho de caixilhos,
de térmica, de iluminação artificial
e natural, entre outras. Isso atende a estrutura das
disciplinas, mas o fortalecimento da pesquisa está
muito mais a cargo do professor.
Nós ainda não temos uma política
departamental de pesquisas totalmente formatada. Ainda
não definimos para os professores quais as
pesquisas que interessam realmente ao departamento.
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| Qual a razão disso? |
Estamos esboçando isso já
há muitos anos, mas temos tido dificuldades
em implantar. As pesquisas nunca são feitas
por uma indicação das chefias ou por
alguma demanda em potencial que estamos vislumbrando.
E isso porque, se pedirmos ao professor para efetuar
determinada pesquisa, ele vai perguntar qual o recurso
de que vai dispor para viagens, pagamento de bolsistas,
compra de equipamentos etc. E aí vamos ter
de dizer que não temos. Porque essas coisas
devem estar vinculadas às políticas
da faculdade, da universidade, dos institutos de fomento.
As demandas, quando vêm, são picadas,
as empresas pedem para que as universidades apresentem
propostas, nos chamam e acabamos tendo uns projetos
temáticos interessantes, mas não se
sabe se terão continuidade.
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| Como são definidos os currículos
das matérias de tecnologia? |
Temos uma tradição
de conteúdos, isto é, as disciplinas
têm um programa que pode ser transformado com
o tempo. Na sala de aulas, a experiência do
professor vai encaminhá-lo para os temas que
interessem mais aos alunos ou para os quais eles tenham
mais sensibilidade, para o que poderá resultar
em maior envolvimento do estudante. Então,
aos poucos, as disciplinas acabam se adaptando à
situação do grupo de alunos.
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| Os temas de interesse do mercado
profissional são levados em conta? |
Não, a menos que o professor
seja profissional do mercado ou consultor.
Ninguém do mercado chega na FAU, pergunta
o que estamos desenvolvendo em determinada área
e diz que uma empresa está interessada em nos
propor parceria.
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| Mas a escola pode entrar em contato
com as entidades das categorias para saber por quais temas
elas se interessam. |
Elas nunca entraram em contato conosco.
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| A iniciativa não pode partir
da FAU? |
É que nós não
temos essa cultura. A demanda externa é uma
pressão a mais nas nossas atividades. Ninguém
está com tempo de sobra.
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| E, depois, são funcionários
públicos... |
Pois é, por que arranjar mais
encrenca? É esse o raciocínio. Mas quando
há uma demanda é bom, porque ficamos
sabendo quais são as necessidades, os custos,
as políticas. E sempre respondemos positivamente.
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| Como a escola vê a questão
da conservação de energia nas edificações? |
Essa é uma linha nova para
o departamento, mas não para seu atual chefe,
o professor Marcelo Romero. Ele tem uma pesquisa sobre
o tema e desenvolve trabalho de consultoria junto
aos órgãos federais na área de
energia.
E, além disso, tem um curso de extensão
de um ano - Curso de Especialização
em Conforto Ambiental e Conservação
de Energia, o Cecace - sempre com grande
número de alunos. Mas ele desenvolve isso porque
o assunto lhe interessa; se amanhã ele não
quiser mais, vamos ter dificuldade, porque não
temos mais ninguém.
O departamento não tem uma política,
não existe infra-estrutura para isso. Se tivesse,
saía um professor e entrava outro.
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| Há estudos que levam em conta
a eficiência energética das fachadas? |
Temos um grupamento novo, interdisciplinar,
formado por professores que trabalham em regime de
dedicação exclusiva, e esse é
um dos itens estudados.
Com a climatização, os brises
praticamente desapareceram das fachadas envidraçadas,
mas achamos importante recuperar esses elementos,
que fazem parte do repertório do projeto. É
importante mostrar a economia que eles propiciam,
uma vez que reduzem o consumo de energia imposta pela
refrigeração dos ambientes. Além
disso, tem a plasticidade que a originalidade desses
elementos permite, por serem bastante flexíveis
em termos de desenho.
O grupo está desenvolvendo pesquisas sobre
o tema e suas disciplinas são voltadas para
essa discussão. As pesquisam visam diagnosticar
a causa do abandono dos brises e argumentar acerca
da importância de sua reintrodução
em nossas fachadas norte e oeste, que sofrem com a
insolação mais forte. Os projetos estão
montados e agora estamos tentando recursos institucionais,
mas a expectativa é bastante otimista.
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| Essas pesquisas farão um estudo
comparativo dos diversos tipos de fachada, para saber
qual o que proporciona mais economia? |
Não temos ainda amparos técnicos
que comparem os vários tipos de fachada, gastos
com o investimento inicial e sua manutenção,
escala de economia resultante etc. Mas sabemos que
o prédio com sistema de ar condicionado, caso
tenha brises, apresenta demanda de energia para o
sistema de refrigeração bem menor. Então,
a pesquisa terá de fazer essa proporção,
com o ar-condicionado e também sem ele.
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| Mas alguns vidros especiais reduzem
atualmente os problemas de insolação. |
Não totalmente. Toda luz que
penetra no ambiente vai provocar seu aquecimento,
mesmo que o vidro seja espelhado. E, depois, os desenhos
dos caixilhos desses vidros deixam as fachadas lacradas,
não podem ser abertas. São janelas ou
ambientes com ventilação dual, artificial.
A tendência dos edifícios
hoje é pela ventilação artificial.
Mas não precisava ser assim, podiam ter uma
fachada de brises, com caixilhos que abrem e possibilitam
a troca do ar. Do contrário, fica só
o ar viciado dos sistemas de ar condicionado, o que
não é saudável.
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| Para alguns, o brise-soleil morreu
com a arquitetura moderna. |
É, ficou esse international
style, do interesse das grandes corporações
internacionais, e simplesmente se descartaram os brises.
Mas na universidade temos de mostrar outras opções.
Se depois o aluno não quiser usar na vida profissional,
tudo bem. Mas não vai deixar de usar porque
não sabe. As escolas precisam mostrar aos alunos
as vantagens do emprego dos brises.
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| Mas a universidade mostra só
aos alunos, não vai ao mercado discutir as vantagens
e desvantagens de determinados elementos. |
Não, porque não conseguimos
ter visibilidade no mercado. Talvez um dia, se esses
assuntos ganharem espaço na mídia especializada.
Mas nós não saímos atrás
de publicar numa revista de arquitetura um assunto
que não está formatado como artigo,
estamos desenvolvendo esses estudos de forma acadêmica
e às vezes não dá um artigo.
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| É, mas o mercado reclama que
não consegue aproximação com as escolas
de arquitetura. Eu acredito que a Politécnica já
tenha uma tradição nesse sentido. |
Sim, a Poli tem setores organizados
para fazer esses contatos, mas não dispomos
de instrumentos para isso aqui na FAU. Todos os nossos
vínculos são com outros departamentos
ou institutos da própria universidade, muito
pouco com o setor externo.
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| Os arquitetos recém-formados
chegam hoje ao mercado sem conhecer os vários tipos
de janelas e fachadas, sendo que nos últimos tempos
houve evolução muito grande nesse segmento.
Por que isso está ocorrendo? |
Vãos ou esquadrias é
um item que faz parte da estrutura da análise
do edifício e a informação é
obrigatoriamente dada no início do curso. Só
que sem a conseqüência do desenho, então
o assunto entra por um ouvido e sai pelo outro e o
aluno não registra.
O que nós precisamos
ter são os manuais de tecnologia para arquitetos,
que nós também não produzimos.
Um manual que registrasse o assunto tecnicamente correto
e completo, mostrando projetos. E um manual dessa
responsabilidade não poderia deixar de incluir
os desenhos dos caixilhos do Rino Levi ou do Artigas,
que são excelentes.
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| O Departamento de Tecnologia da
Arquitetura mantém algum tipo de relacionamento
ou intercâmbio com o setor privado? |
O relacionamento é bem menor
do que gostaríamos que fosse. Na medida em
que não temos laboratórios exatamente
de tecnologias, a função fica mais difícil.
Em sua grande maioria, essa demanda se dirige à
Politécnica. Nossa demanda externa é
bem mais do setor público; são pesquisas
dirigidas para áreas de conhecimentos especializados.
Quando somos chamados para o setor privado é
sempre no nível de consultorias, não
temos projetos voltados para empresas privadas.
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| Existe a preocupação
de mostrar ao aluno a importância do conhecimento
da tecnologia na hora de projetar? |
A resposta automática deveria
ser: claro que sim. Mas não, nós temos
algumas dificuldades de ordem metodológica.
A maturação dos conhecimentos de tecnologia,
da história, da área de projeto - sobretudo
as relações entre forma e função
- é desafio do Departamento de Projeto. Os
nossos são desafios do conhecimento dos modos
de fazer as coisas; isso numa definição
bastante simplória. E o desafio do Departamento
de História é explicar o porquê
de se fazer as coisas, quais são suas origens.
Na cabeça dos alunos, esses três conhecimentos
têm uma unidade, mas para os departamentos ganham
muita particularidade.
O enfoque no Departamento
de Tecnologia é que podemos fazer as relações
com os departamentos de História e de Projeto,
mas não temos obrigações de fazê-las.
Não temos obrigação regimental,
essa obrigação programática de,
ao falar da tecnologia, falar da arquitetura. Porque,
na verdade, nós temos pouco tempo para falar
da tecnologia. Quando falamos de arquitetura é
de modo muito superficial.
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| Não há entrosamento
entre as cadeiras dos vários departamentos? |
Programaticamente, não. O
que existe são iniciativas isoladas de determinados
professores, por afinidades de programas ou de conteúdo.
Algumas disciplinas de Tecnologia se aproximam do
Departamento de Projeto, na medida em que discutem
a tecnologia a partir da análise do projeto.
É o caso, por exemplo,
da relação pós-ocupação,
que é uma linha de pesquisa muito importante
no nosso departamento.
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Publicada originalmente
em FINESTRA
Edição 34 Julho de 2003 |
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