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Jacques
Herzog
arquiteto |
“Arquitetura é percepção, pensamento,
formas simples.
Questões estilísticas não me preocupam” |
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JACQUES HERZOG
"A arquitetura tem se tornado uma espécie
de grife. É bom, por um lado, porque atrai a
atenção do grande público. Mas,
por outro, significa muitas vezes entregar a escritórios
estrangeiros, maiores e mais conhecidos, e com resultados
nem sempre positivos, prédios
que deveriam ser projetados pela comunidade local de
arquitetos"
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| A arquitetura
tem se tornado uma espécie de grife. É bom, por um lado,
porque atrai a atenção do grande público. Mas, por outro,
significa muitas vezes entregar a escritórios estrangeiros,
maiores e mais conhecidos, e com resultados nem sempre
positivos, prédios que deveriam ser projetados pela comunidade
local de arquitetos (outro olho, se couber) Fomos os primeiros
a romper com o pós-modernismo de uma maneira radical,
apresentando algo realmente novo. Era previsível que,
passado algum tempo, estaríamos disputando o ranking dos
novos líderes da arquitetura internacional Jacques Herzog
e Pierre de Meuron são apontados pela imprensa internacional
especializada como expoentes da nova geração de arquitetos
europeus. Suíços, nascidos em 1950 e formados em 1975
pela ETH Zurique, onde foram alunos de Aldo Rossi, fundaram
seu escritório em 1978. De lá para cá, sua arquitetura
de linhas austeras, marcada pelo requinte do detalhamento
minimalista e que transpira materialidade, tem levantado
elogios de todas as partes. Em maio passado, estiveram
em Londres para receber o aperto de mão e os elogios da
rainha Elizabeth 2ª, na inauguração de um de seus trabalhos:
o prédio da Tate Modern, que vai abrigar uma das mais
importantes coleções de arte moderna e contemporânea do
mundo. No dia anterior a essa façanha, Herzog concedeu
esta entrevista a PROJETODESIGN, no terraço da
Tate Modern
(veja o projeto) |
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| O senhor saiu da escola numa época,
anos 70, de verdadeira euforia pós-moderna. Como vê hoje
aqueles momentos? |
Acho que toda geração precisa fazer
algo para se tornar visível. De fato, naquela época,
o pós-modernismo e o desconstrutivismo eram movimentos
muito fortes. Mas, na verdade, desde o nosso começo,
fizemos uma arquitetura que se opunha a tudo aquilo.
Nunca acreditamos no discurso pós-moderno e seu debate
estilístico. Achávamos que era um caminho errado e
procuramos outras opções. Naquela época começamos
aquilo que, mais tarde, seria chamado de minimalismo.
Procurávamos lidar com formas simples, volumes. Estávamos
muito mais interessados nas questões de percepção,
de espaço, do que nas de decoração.
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| Os senhores trabalharam durante um
bom tempo com um artista plástico, o alemão Joseph Beuys.
Isso influenciou de alguma forma sua arquitetura? |
Nossa biografia praticamente se confunde
com a de Joseph Beuys, e isso foi realmente importante.
Parece-me que as pessoas ligadas às artes plásticas
estão mais interessadas nos problemas da percepção
do que os arquitetos em geral. A arquitetura tradicional
se apóia muito mais nas questões da construção, e
dá mais atenção a elas do que àquelas relativas à
vida, a quem somos, onde estamos, para onde vamos.
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| E como o senhor define sua própria
arquitetura? |
Nossa arquitetura é baseada no processo
intelectual. Ela é muito mais pensamento, raciocínio
do que gesto. Arquitetura é percepção. É também, como
disse anteriormente, questionar quem somos, onde estamos,
para onde vamos. O que é esse prédio, o que é essa
cadeira, essa mesa? Repito: acho que as artes plásticas,
ou as obras de arte, estão muito mais fundamentadas
nisso do que a arquitetura normalmente está...
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| O senhor se considera um pioneiro
do minimalismo? |
Acho que fomos os primeiros a retomar
a discussão que levou ao minimalismo dos anos 60 e
70. O prédio da Schützenmattstrasse [edifício de apartamentos
em Basiléia, Suíça, 1984-1993], por exemplo, é o primeiro
exemplo de minimalismo criado pela minha geração.
Nunca achamos que devíamos nos preocupar com questões
estilísticas. Nossa abordagem é mais ampla. Nossa
preocupação foi sempre fazer algo mais substancial,
muito mais baseado em pensamento do que em citações
e estilo, como o pós-modernismo. Seu escritório está
localizado em Basiléia, uma pequena cidade na Suíça,
fora do eixo cultural europeu. Foi difícil conseguir
visibilidade no panorama da arquitetura internacional?
Fomos os primeiros a romper com o pós-modernismo de
uma maneira radical. Os primeiros a apresentar algo
realmente novo. Era previsível que, passado algum
tempo, estaríamos disputando o ranking dos novos líderes
da arquitetura internacional. O trabalho que realizamos
é a razão de estarmos onde estamos. Olhe nosso trabalho
e me responda: quem já fez o que fizemos nos últimos
20 anos? Álvaro Siza, Philip Johnson... Estou falando
da minha geração. Estes não são da minha geração.
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| Seu escritório tem participado de
várias competições internacionais. Isso é estratégia de
marketing? Uma fórmula para ganhar maior penetração no
mercado de trabalho internacional? |
Se você quer dar um conselho aos
arquitetos mais jovens, eu diria que não há fórmula,
nunca. E, se houver uma, será errada. Do que o senhor
gosta e do que não gosta na arquitetura contemporânea?
Gosto das coisas que nascem de um bom pensamento,
da pesquisa, da investigação. Não gosto de invenções
rápidas. Na verdade, existem poucas coisas que acredito
serem realmente interessantes hoje. Mas não vou citar
nomes, isso seria absurdo.
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| Qual é o papel do arquiteto nesta
tão falada nova sociedade globalizada, informatizada?
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O papel do arquiteto tem mudado bastante.
É muito curioso. Ao fazer um prédio como a Tate Modern,
automaticamente você se torna um agente da globalização,
um global player. Isso é muito excitante, mas é também
uma grande responsabilidade. Na verdade, o que fizemos
aqui foi ajudar esta cidade a atuar na cultura global,
projetando um novo espaço onde essa cultura vai ser
exibida, talvez produzida, durante o próximo século.
O problema é que oportunidades como esta só acontecem
para alguns poucos arquitetos. Acho que escritórios
de arquitetura hoje são uma espécie de grife, uma
marca. A arquitetura tem se tornado um pouco isso.
Por um lado, isso é bom porque a arquitetura tem conseguido
atrair mais a atenção do grande público. Por outro,
muitas vezes, prédios que deveriam ser projetados
pela comunidade local de arquitetos são entregues
a escritórios estrangeiros, maiores e mais conhecidos,
e os resultados nem sempre são positivos. Alguns jornais
londrinos criticaram a não-preservação do tijolo aparente
no interior do prédio da Tate Modern. Orgulhosos como
são de sua tradição construtiva, qualquer arquiteto
inglês o teria feito.
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| Não seria esse um caso de interferência
exógena na arquitetura local? |
Uma das principais questões que envolveram
o projeto deste prédio foi o fato de que ele não nasceu
do nosso esboço. Já o encontramos construído. Trata-se
apenas de uma conversão de uso. Não preservamos o
tijolo aparente no interior porque era muito feio.
Quando retiramos todas as máquinas e limpamos as paredes,
descobrimos que a trama dos tijolos internos era muito
ruim. Na área do Turbine Hall, por exemplo, havia
diversos tipos de tijolo, com diferentes colorações
- cinza, amarelos, vermelhos. Os ingleses também não
iriam gostar, não era algo que merecesse ser mostrado.
Decidimos preservar apenas a textura, pintando os
tijolos com um cinza-claro que não é branco - o que
pareceria muito com as paredes das galerias de arte
- nem escuro demais, o que seria meio assustador.
Basicamente, o que fizemos foi dar unidade ao espaço.
Ao final de uma obra deste porte, devem restar detalhes
que desagradam aos próprios autores... Não vou lhe
revelar esses detalhes. Você vai ter que descobri-los
sozinho. Precisamos começar a pensar as cidades como
um projeto de todos.
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| Como foi a experiência de trabalhar
sobre o prédio de sir Gilles Scott, um prédio tão decô,
com uma linguagem tão hermética? |
Não gostamos do prédio original.
Ele é grande, pesado. Para falar a verdade, gostaria
de ter projetado um prédio novo. Mas, ao mesmo tempo,
não começar do zero e ter que lidar com coisas que
já estavam aqui, para transformá-las, foi muito interessante.
Um desafio bem contemporâneo.
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| O que, então, os senhores fizeram
no prédio? |
Na verdade, a maneira como fizemos
é mais interessante do que o simples fato de termos
feito, ou seja, o modo como misturamos o novo e o
antigo de forma que não se consegue identificar exatamente
um e outro; a maneira como usamos vidro e metal. Repare
que o vidro na Tate Modern não é como o vidro moderno,
como Mies van der Rohe, por exemplo, o teria usado
- explorando apenas a transparência em contraste com
o concreto ou o aço. Neste prédio, algumas vezes,
o vidro é tão pesado quanto o metal; aqui ele é permeado,
misturado com o aço, como se fosse um “vidro sólido”.
Outras vezes, o que temos é a total transparência,
a luz, a vista que se abre para a cidade - esta vista
soberba! Na verdade, esse prédio hoje oferece ao londrino
e aos turistas uma nova percepção da cidade. É interessante
perceber que, ao contrário do que acontece no Beaubourg
[o Centro Georges Pompidou, de Paris], onde a transparência
se dá de fora para dentro, aqui ela se dá de dentro
pra fora. E nós gostamos muito disso. Isso tem a ver
com o que dissemos sobre trabalhar com um prédio já
existente, um prédio de que não gostávamos.
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| Que opções foram escolhidas para
agir sobre um prédio de que não gostavam? |
Nossa estratégia foi buscar utilizar
a energia do inimigo para derrotá-lo. Tínhamos um
prédio grande, imponente, bem localizado, às margens
do rio, com uma boa vista para a cidade. Internamente,
um amplo espaço aberto. Aproveitamos a imponência,
mantivemos a chaminé, como um marco, e acrescentamos
uma caixa de vidro que não só abriga os dois últimos
andares do prédio das galerias e fornece a vista,
mas também, à noite, funciona como uma espécie de
sinalizador luminoso, onde se anunciam as exposições
e eventos. Um elemento de comunicação com o público.
Ou seja, nos utilizamos da monumentalidade do prédio
existente para sinalizar a presença do novo e importante
endereço cultural na cidade. Já internamente, buscamos
quebrar essa monumentalidade. Talvez por isso o prédio
tenha sido chamado pela imprensa inglesa de “catedral
da arte moderna de Londres”. Nâo gosto da idéia de
catedral, onde se espera que um lado se renda e reverencie
o outro. A arte normalmente tem um pouco dessa função
religiosa em nossa sociedade, de perguntar quem somos,
para onde vamos. Mas isso é diferente. Não há dúvida
de que o prédio original pretendia ser uma catedral.
Fizemos várias coisas para respeitar essa intenção
de centralidade, de monumentalidade, para estabelecer
um contato com o público. Internamente, entretanto,
trabalhamos contra essa monumentalidade. Sem destruí-la,
mas somando-lhe novos elementos. Isso é bastante claro
no Turbine Hall, onde acrescentamos as caixas de vidro
e as trouxemos para a frente da estrutura de aço,
para que a verticalidade do desenho original fosse
perturbada. Isso foi algo muito interessante nesse
projeto. O conceito de “rua coberta” no interior do
prédio é também bastante distintivo aqui... Acho que
o conceito urbanístico está na base da arquitetura.
Urbanismo e arquitetura, e vice-versa. Queríamos que
as pessoas usassem este prédio, que passassem por
dentro dele, de norte para sul, de oeste para leste.
Assim concebemos seu acesso. Não é um edifício com
uma entrada e uma saída. Foi concebido como uma estrutura
permanente que se pode penetrar, transpassar. É a
melhor maneira de descobrir que este é um local para
a arte. Logo na entrada se percebe que ele tem cheiro
de arte - não é nem poderia ser como um shopping mall.
Nisso ele se parece com o Centro Georges Pompidou.
Tem o mesmo clima. O Pompidou é um espaço bastante
público, o que me agrada muito. Ele transformou toda
aquela área, todo o seu entorno, e de alguma maneira
mudou Paris. O mesmo vai acontecer com a Tate Modern.
Este prédio vai mudar Londres. Vai transformar esta
área da cidade.
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| Como será o museu do século 21? A
Tate já é um ensaio? |
Com sua fluidez, a Tate é uma antecipação
dessa idéia. Mas acho que museus são complementares.
Não devem competir ou brigar uns com os outros, mesmo
que tanto dinheiro esteja envolvido. O que posso dizer,
como arquiteto, é que gosto de ir a diferentes museus,
para ver suas coleções e constatar que eles são bons
para Paris, como o Beaubourg, para Nova York, como
o Guggenheim ou o Moma, para Tóquio ou São Paulo.
O interessante é buscar e encontrar soluções diferentes,
específicas para as coleções e os lugares onde vão
ficar. Acho que isso é o museu do século 21.
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| Por Ricardo Antônio |
| (Edição 245 - julho 2000) |
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