Peter Cook
“Nos últimos 15 anos, o Brasil se tornou menos maluco, mais parecido com o resto do mundo”
 
  Peter Cook nasceu em 1936, na cidade costeira de Southend-on-Sea, Inglaterra. Estudou no Bournemouth College of Art de 1953 até 1958 e concluiu o curso na Architectural Association de Londres, em 1960.

Atualmente, Cook é professor titular da Bartlett School of Architecture, da University College of London. Desde o fim do grupo Archigram, em 1976, atua como professor e teórico da arquitetura e desenvolve projetos com Colin Fournier no escritório Spacelab.

Em 2002, o Archigram recebeu a Medalha de Ouro concedida pelo Royal Institute of British Architects (Riba)
   
 
   
 
 
O arquiteto inglês Peter Cook influenciou gerações de arquitetos e planejadores urbanos com a revista Archigram, criada em 1961 para divulgar as idéias do grupo de mesmo nome, formado, além de Cook, por Warren Chalk, Dennis Crompton, David Greene, Ron Herron e Michael Webb.

Com tiragem de apenas 300 exemplares, a primeira edição da revista defendia a idéia de que a transformação da sociedade não se consegue a partir do projeto de arquitetura, mas da maneira de pensar a arquitetura. Os limites de investigação do grupo e da revista eram o relacionamento entre as cidades e as novas tecnologias de informação, movimento e percepção.

Nesta entrevista feita em São Paulo, onde esteve para participar da 5ª BIA, Cook fala de arquitetura e de suas impressões sobre o Brasil.
 
FORMAÇÃO
 
Quando o senhor se formou?

Formei-me em 1960 na Architectural Association School [AA], em Londres, com 23 anos, porque já tinha começado meus estudos de arquitetura aos 16, na escola de artes do condado de Bournemouth. Então, trabalhei por dois anos, depois cursei a AA. Quatro anos depois, voltei para lecionar lá, onde fiquei por mais de 25 anos.

Também fui professor na Alemanha, em Frankfurt, e em 1990 me tornei chefe da Bartlett School, de Londres. Mas várias pessoas da AA juntaram-se a mim desde então.

 
Qual a influência de Buckminster Fuller e Peter Smithson em sua obra?

Buckminster Fuller influenciou-me por sua maneira de entender a economia da tecnologia, as possibilidades de mobilidade e o uso de estruturas leves.

De Smithson, a influência vem principalmente por seu modo norte-europeu de entender o território, o emprego de paredes e das minúcias da arquitetura.
Ele foi meu professor e meu orientador de graduação de curso.

 
ARCHIGRAM
 
E como surgiu o grupo Archigram?

Éramos, na verdade, dois grupos: o mais jovem, do qual eu fazia parte com Michael Webb e David Greene, e o mais velho, com Ron Herron, Warren Chalk e Dennis Crompton. Nós, do grupo mais jovem, começamos a divulgar o Archigram, e arrebanhamos as outras pessoas, que estavam ganhando concursos. Eles já tinham construído coisas, e nós não.

Então, o grupo de seis pessoas era na verdade uma mistura muito complexa de talentos e idades diferentes; nenhum de nós tinha freqüentado a mesma escola de arquitetura.

 
O Archigram pode ser relacionado ao movimento pop art?

As pessoas dizem que sim. Não tenho tanta certeza de que esteja mais relacionado a ele do que a Buckminster Fuller e aos grupos experimentais alemães dos anos 1920.

Acho que a arte pop estava lá, mas creio que não conhecíamos suas propostas. Encontramos alguns artistas pop, mas geralmente mais tarde, quando já éramos conhecidos.

 
O que mudou desde que o senhor começou com o Archigram?

Houve mudanças técnicas, e uma das mais óbvias é que a tecnologia dos computadores tornou possíveis construções como o meu novo prédio na Áustria. Eu poderia tê-lo projetado há 20 anos, mas não seria exatamente assim, teria sido como no começo do Archigram. Seria uma construção muito cara. Imagine as pessoas fazendo os desenhos, calculando as superfícies, as folhas. Ganhamos a competição há três anos e o prédio foi erguido em dois. Antes, teria levado dez anos para ficar pronto.

A Ópera de Sydney, projetada ainda no início da era da informática, foi uma obra muito complicada, e poderia ser feita com mais facilidade nos dias de hoje. Essa é a maior mudança, a mais óbvia. E não é uma mudança no modo de pensar, mas na possibilidade de realizar, economicamente, o que se pensa.

 
ARQUITETURA E TECNOLOGIA
 
Qual sua opinião sobre tecnologia e arquitetura?

Uma das coisas que me fascinam sobre certo tipo de tecnologia, por exemplo, é um dos dois outros projetos nos quais eu estou interessado. A idéia de janelas capazes de mostrar informações, que são muito difíceis de desenhar, e as luzes que possibilitariam essas coisas, também muito difíceis de desenhar. Por exemplo, estou carregando no meu bolso uma câmera digital.

 
Suas fotos.

É diferente de uma máquina com rolo de filme, que também não se parece com nada. Mas isto [apontando para a câmera digital], especialmente, não se parece com nada. E pode conter música, um livro, fotos. É preciso até colocar símbolos para nos lembrar do que fazer com isto. Você está carregando essa coisa preta [o gravador], e eu estou carregando esta coisa preta. Eu poderia estar me barbeando com ela, poderia estar ouvindo rádio, olhando ou tirando fotos, poderia estar fazendo várias coisas.

Carregamos plástico conosco o tempo todo, pode ser um filme, uma câmera, ou uma calculadora, ou uma coisa preta, e eu acho isso fascinante, porque em certo sentido a arquitetura ainda é baseada em as coisas se parecerem com algo. Isso parece alguma coisa [apontando para a marquise do parque Ibirapuera, projetada por Oscar Niemeyer], vemos a grande alça, aqui temos um buraco, coloca-se isso aqui.

Mas esta caixa não se parece com nada, e eu estou fascinado por isso, ainda estou falando sobre objetos formais, e eu gosto de objetos formais; acho que marquises são maravilhosas, o símbolo do urbanismo, o símbolo do homem interagindo com a natureza.

 
Como o senhor vê a obra de Niemeyer?

Eu era fã de Niemeyer quando tinha 17 anos. Estava lendo algo de Le Corbusier em uma biblioteca pública quando descobri o trabalho de Niemeyer. Roberto Burle Max foi um herói para mim. Quando eu estava no segundo ano da escola, conheci seu trabalho.

E a reputação deles é como a maré, sobe e desce. Somos muito famosos no começo, depois saímos de moda, e então, se permanecemos ativos por bastante tempo, voltamos a estar na moda. E esperamos viver o suficiente para poder tirar fotos dos nossos projetos, construídos.

 
E sua atividade de projeto, como está?

Estou fazendo um trabalho corporativo. Já o pessoal do Archigram e a maioria de nossos amigos sobreviveram como acadêmicos. Quando se é um acadêmico, recebe-se o patrocínio de uma escola, e então começa-se a lecionar e a escrever livros. E, de certo modo, enquanto não se está projetando construções, projetam-se pessoas.

Geralmente os professores de arquitetura lhe dizem o que você não deve olhar, quem você não deve ouvir, onde você não deve ir, o que você não deve ler e o que você não deve desenhar. Eu faço o oposto.

Muitos de meus alunos escrevem coisas das quais eu não gosto, mas acho que isso é bom. Deixo chegar a mim aquilo de que eu gosto, deixo isso transparecer no meu trabalho e nos meus comentários, mas também gosto de ir além, mesmo que os alunos gostem de coisas que acho terríveis; talvez eles saibam coisas que eu não sei.

 
De quais trabalhos o senhor não gosta?

Por exemplo, eu não gosto muito dos projetos dos arquitetos suíços, acho-os muito chatos. Às vezes, os suíços fazem projetos muito bem, mas não são para o meu gosto. Gosto mais dessas coisas [apontando novamente para a marquise].

Acredito que Zaha Hadid também é uma grande fã de Niemeyer; nós conversamos sobre ele há vários anos, quando estivemos juntos no Brasil e o conhecemos. Em Londres, quando inauguraram o pavilhão da Serpentine Gallery, eu e Zaha falamos sobre Niemeyer. Ela é mais nova que eu e eu sou mais novo que ele, nós éramos fãs, fomos filhos do mestre, e quando venho aqui ainda acho ótimo.

A idéia de pegar um parque e colocar uma mão em cima dele, com tentáculos, é maravilhoso, tão simples - isso em um país quente, num país frio talvez fosse feito algo diferente. É como a proposta do museu, o Pavilhão da Bienal, onde basicamente há uma caixa e então fazemos assim [executa um movimento circular com as mãos]; é tão simples e, ao mesmo tempo, é muito difícil ser simples.

Gosto de falar de um prédio dos correios, em Graz, na Áustria, que é basicamente um diagrama simples, e é interessante. Quando vejo as propostas de outros arquitetos para esse prédio, percebo a diferença. Os outros arquitetos propuseram prédios mais complicados, que muitas vezes têm aparência exótica, quando o plano básico deveria ser muito simples.

Eu e você nos encontramos no prédio da Bienal, ao lado de rampas e então circulamos por elas e pelas galerias. Não é complicado, e eu gosto disso. É a maneira como você manipula a proposta organizacional formal.

 
Como o senhor se classifica, em relação às correntes arquitetônicas?

Ainda sou um funcionalista. Estou fazendo um projeto para um concurso, uma sala de concertos. Ouço muita música, por isso estou familiarizado com esses espaços. Meu ponto de partida é definir onde fica a orquestra, a platéia, as saídas e a rua principal etc.

Então, começo a pensar sobre o lugar específico da sala de concertos - ela fica em uma cidade engraçada, pobre, muito triste, na costa do mar Báltico. Tem certas particularidades diferentes de Londres ou de São Paulo. Mas eu diria que esse tipo de cidade é mais diferente de Londres do que Londres é diferente de São Paulo. É algo engraçado de dizer, de certo modo são cidades grandes e muito similares. Mesmo com o clima um pouco diferente, elas são similares. Uma pequena cidade báltica, que esteve sob o domínio dos comunistas por muitos anos e passou por bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial, isso define o elemento urbano.

É muito mais fácil fazer uma sala de concertos em São Paulo ou em Londres, onde há gente circulando, tudo funciona e é um lugar feliz. Uma tranqüila cidade báltica não é assim, é como um desafio, mesmo diferente do prédio em Graz, porque Graz é uma cidade pequena mas é movimentada. Há pessoas nas ruas, paradas de ônibus, cafés, gente em volta do prédio, pessoas tocando música na rua.

 
Quais são suas áreas de interesse?

Uma pessoa pode ser funcionalista e ao mesmo tempo estar observando a vida. Eu me interesso muito por pessoas, e a vida dos teatros, adoro observar o que acontece no cinema, o que acontece no pub da aldeia. Depois, quando estou fazendo arquitetura, uso esse tipo de informação, tanto quanto uso informações como o local para a saída de incêndio e qual o melhor lugar para a escada de emergência.

O importante é como as pessoas agem no prédio, que tipo de gente vive nessa cidade, e como eles podem se comportar, isso é muito interessante. Eu sou meio behaviorista.

 
Seu trabalho pode ser considerado continuidade ou oposição ao movimento moderno?

Em certo sentido, isso é como uma criança que quer bater nos pais. Creio que somos modernistas em relação a certos períodos pós-modernos. O modernismo foi o momento em que surgimos, e de certo modo pode-se argumentar que ele nunca terminou, mas acho que há várias pessoas que fazem prédios que são modernistas, mas não são realmente modernos.

Acho que somos muito modernos, que o que fazemos é muito moderno, quer dizer, nós continuamos o progresso, não importa se os detalhes são modernos. Mas há muita gente na Inglaterra fazendo prédios que têm aparência mais ou menos moderna, mas não são prédios de pensamento moderno, são prédios normais.

As mesmas pessoas que fizeram os prédios pós-modernos de repente acham que isso ou aquilo é arte, e passam a fazer dessa forma. São as mesmas pessoas, e elas põem o elevador no mesmo lugar. Acho que isso é besteira.

 
Pode-se dizer que o trabalho de Norman Foster e de Rem Koolhaas foram influenciados por suas idéias? O que o senhor pensa sobre o trabalho deles?

Não acho que eles sejam parecidos um com o outro. Koolhaas é muito inteligente, eu o conheço desde que ele era estudante. E ele mora em Londres parte do tempo. Embora muito inteligente, acho que agora ele corre o perigo de deixar a arquitetura para trás, mas, de algum modo, a área de interesse dele está melhorando. Quando ele se concentra, pode ser muito bom, como a casa em Bordeaux.

Foster agora é quase uma corporação, uma corporação gigante.

 
BRASIL
 
Qual a sua impressão sobre São Paulo e sua arquitetura?

São Paulo faz parte de uma certa categoria de cidades chamada crazy cities. Há algum tempo, usei São Paulo e Tóquio como exemplos desse tipo de metrópole.

Agora já conheço mais cidades malucas. Estive no Cairo, que é provavelmente muito mais maluca. Não gosto do Cairo, há um grau de loucura que vai além. Minha mulher vem de Tel-Aviv, que em alguns aspectos é maluca. Eu já estive em Atenas, que é uma cidade maluca, assim como Taipei, em Taiwan, e Osaka, no Japão. E talvez se devesse fazer mais cidades malucas. São Paulo até tem um nível normal de loucura.

Talvez as cidades européias, anglo-saxônicas, sejam apenas uma categoria, talvez a norma sejam as cidades malucas, e as outras seriam cidades quadradas, conservadoras. Provavelmente Londres é uma cidade maluca em comparação com Hamburgo. Depende de qual é o seu referencial.

Estou gostando mais de São Paulo, desta vez. Houve mudanças nas pessoas, aqui. Nesses 15 anos, desde a última vez em que estive aqui, o Brasil se tornou mais normal, um pouco menos maluco, um pouco mais parecido com o resto do mundo.

 
O senhor esteve no Brasil depois da ditadura, nos anos 1980, no começo da democracia. O que mudou?

Muita coisa, até mesmo em termos de horário. Agora tudo é mais pontual, naquela época tudo atrasava duas, três horas, tudo mudava. Agora as pessoas estão mais organizadas.

Temos uma garota brasileira trabalhando para nós, e ficamos impressionados com a organização dela. E eu, antes, acreditava que essa moça fosse apenas uma exceção
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Por Fabio de Paula e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 285 Novembro de 2003
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