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| Sylvio
de Podestá |
“Em arquitetura, quando criticamos
um projeto
ou uma situação, parece que criticamos
a pessoa” |
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Sylvio Emrich de Podestá
nasceu em Rio Verde, GO, e formou-se em arquitetura pela
UFMG, em 1983. Professor da PUC/MG e autor de diversos
livros, venceu vários concursos no Brasil e tem
escritório próprio de arquitetura desde
1974. É sócio, com Gaby de Aragão,
da editora AP, pela qual editou as revista Pampulha e
AP |
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O arquiteto
Sylvio de Podestá acostumou-se com a polêmica
desde a época em que tinha sociedade com Éolo
Maia e Jô Vasconcellos, que constituíam,
nos anos 1980, o que hoje poderia ser denominado “núcleo
duro do pós-modernismo caipira”.
Em setembro último, Podestá inaugurou mais
uma controvérsia, de caráter nacional, ao
criticar, em carta publicada no jornal O Cometa, e posteriormente
distribuída pelo IAB/MG, a proposta do governador
mineiro Aécio Neves de transferir o Centro Administrativo
do governo para uma região periférica de
Belo Horizonte, chamando o arquiteto Oscar Niemeyer para
desenvolver o projeto.
Nesta entrevista, concedida em Belo Horizonte, Podestá
fala desse tema e de como vê a arquitetura atual. |
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| Gostaria que o senhor falasse sobre
sua carta a Niemeyer, sobre a mudança do Centro
Administrativo do governo mineiro da praça da Liberdade. |
A carta resultou de uma atitude pessoal.
Ela foi feita para o jornal O Cometa, de Belo Horizonte,
editado por um pessoal de esquerda. Inicialmente ele
era publicado em Itabira, MG, e estão começando
a editá-lo na capital.
Eles me deram o maior apoio, quando lançamos
[com Éolo Maia e Jô Vasconcellos] a revista
Pampulha. Fazíamos uma troca de amabilidades
editoriais, e eles me convidaram para escrever sobre
arquitetura no jornal. Não pretendia fazer
isso de forma técnica.
Já escrevi em alguns jornais de Belo Horizonte
e do interior mineiro, explicando para leigos o que
é arquitetura. Tudo baseado no que Sílvio
Vasconcelos fazia na época em jornais daqui,
explicando o que é goteira, o que é
solo etc.
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| Aquelas explicações
básicas, técnicas? |
Eu preferia escrever sobre coisas
que sempre me incomodaram muito, sobre os monopólios
culturais no Brasil - João Gilberto na música
e Oscar Niemeyer na arquitetura, por exemplo. Queria
discutir essa problemática de maneira geral,
ampla.
Quem é culpado por esse monopólio?
Acredito que a arquitetura é uma dessas manifestações
culturais que deve passar por intervenções
locais. Quer dizer, sabemos sobre o mundo inteiro
e transmitimos esse conhecimento através do
nosso olhar.
Por isso que, há muito tempo, desde a época
em que eu fazia a revista Pampulha, sempre bati na
tecla de que existia uma arquitetura mineira, ou paulista,
ou de qualquer outro lugar do Brasil, e se ela estivesse
sendo feita no Ceará, por exemplo, seria o
olhar de um paulista ou mineiro no Ceará. Ao
menos deveria ser assim, embora às vezes apenas
se transponha um arquiteto para um lugar, e ele concebe
o projeto desligado do contexto.
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| Quando, na verdade, deveria haver
coerência com o local, não? |
Pois é. Um exemplo é
o Triângulo Mineiro, que é o centro de
distribuição da região central
do Brasil. Dali, desce Sidônio Porto para São
Paulo, faz arquitetura bem conveniente para o estado.
E sobe Severiano Mário Porto, que vai interpretar
a arquitetura da Amazônia. Creio que esse é
um enfoque interessante. Mas não é dessa
forma que o mundo rola na visão arquitetônica.
A gente já tinha Burle Marx, fazendo jardins
sem nunca ter visto o lugar, ou mesmo fazendo passeios,
por exemplo. Era a estrutura dele que elaborava essas
coisas, uns passeiozinhos, todo aquele grafismo era
muito bonito, mas não me parecia coerente com
o discurso que essas pessoas tinham e, alguns, ainda
têm.
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| Voltando à carta, quando
o senhor a escreveu? |
Há um mês e meio. Na
época, o IAB/MG estava defendendo o direito
ao concurso de um centro administrativo que o governo
mineiro pretendia fazer aqui. Nem é
o caso principal da carta.
O foco central eram dois concursos de arquitetura,
um em Uberlândia e outro em Belo Horizonte,
em que os projetos desenvolvidos, prontos para ser
começados, foram substituídos politicamente
por trabalhos de Niemeyer.
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| Quem eram os autores desses projetos? |
Paulo Vilela, em Uberlândia,
e Luís Lanza, que ganhou o concurso do terminal
urbano de Belo Horizonte.
A substituição é que preocupa.
Se o político quer chamar Niemeyer, Jean Nouvel
ou quem quer que seja, não tenho nada com isso.
É claro que vamos reclamar um pouquinho, porque
poderia ser realizado um evento mais dinâmico,
inclusive com a participação de arquitetos
estrangeiros, como [Norman] Foster e [Renzo] Piano.
Por que só no Brasil não pode acontecer?
A principal questão, para mim, é a substituição
pura e simples de projetos já consagrados por
concurso. Minha carta alerta: “Ô caro colega,
se você não está vendo isso, preste
atenção, pois está acontecendo”.
É claro que o Brasil é de uma paixão
fantástica, recebi cartas totalmente apaixonadas.
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| A maioria contra ou a favor? |
Como o Cruzeiro, por enquanto estou
ganhando. Não tinha essa intenção.
Mas também não era minha intenção
ser chamado de ser desprezível, “não
mexa com esse ser intangível”, coisas desse
tipo. Não escrevi
a carta para responder a ninguém. É
uma carta aberta, de uma pessoa que é mais
ou menos pública, para outra pessoa que é
superpública e está coberta de nota.
Não vou ficar preocupado por ter sido chamado
de desprezível, de corajoso, dependendo do
ponto de vista.
Então, a carta fez muito mais barulho pelo
que não é do que pelo que deveria ser.
Nós estamos mais acostumados com críticas
de cinema, de teatro, até derrubando mitos.
Um crítico fala mal de uma peça, ninguém
vai. Em arquitetura, quando criticamos um projeto
ou uma situação, parece que criticamos
a pessoa.
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| Qual o contexto em que surgiu essa
questão do Centro Administrativo? |
Quando assumiu, a secretária
de Cultura de Belo Horizonte, Celina Albano, me chamou
a seu gabinete e me perguntou o que poderíamos
fazer. Eu disse que seria interessante a construção
de um museu, já que aqui não há
prédios especialmente feitos para isso.
Temos o museu da Pampulha, que é o cassino
adaptado, muito mais obra de arte do que muitas obras
que contém. Para ele receber uma exposição,
é preciso tapar todos os vidros e, assim, quase
não se vê a arquitetura, que é
belíssima. Uma das obras mais fantásticas
do Niemeyer. Um anexo do teatro, do cassino, atual,
seria fantástico. Mas um concurso mesmo, de
porte internacional, que pudesse tornar visível
para o mundo inteiro o que foi a Pampulha. E
o edital poderia ser escrito por Niemeyer, mostrando
como ele gostaria que sua obra convivesse com a vizinhança.
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| Mas em sua carta há uma espécie
de convite à aposentadoria de Niemeyer, não? |
Niemeyer até pode continuar
em atividade, mas também não precisa
construir tudo. Há uns cinco anos existia um
questionamento: quem vai substituir Niemeyer, é
Ruy Ohtake? Esse tipo de coisa não tem nada
a ver.
Hoje sou mais Paulo Mendes
da Rocha do que Niemeyer. Paulo Mendes é o
intelectual da arquitetura, ele carrega essa bandeira.
É uma figura de humor sarcástico.
Fui a uma conferência sobre pré-moldados
em São Paulo, na qual ele era um dos palestrantes.
Ele mostrou três projetos; nenhum dos três
era em pré-moldados.
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| Em sua carta está dito que
o governador Aécio Neves articulou essa proposta
talvez porque passeie mais pelo Rio do que fica em Minas.
É uma crítica política? |
A gente até criticava o governador
sobre o fato de ele ir para o Rio de Janeiro. Mas
então surgiu no jornal a informação,
lançada por uma pessoa ligada a ele, de que
o Centro Administrativo seria transferido da praça
da Liberdade para um antigo aeroporto, um lugar que
está sendo pleiteado.
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| Onde fica esse aeroporto? |
Fica na zona nordeste de Belo Horizonte.
É um aeroclube antigo. E ali se faria o novo
Centro Administrativo, junto com a iniciativa privada.
Seria uma espécie de nova cidade. Antes, o
Centro Administrativo atual, que ocupa prédios
antigos no centro da cidade, seria transferido para
locais provisórios. Só que da cidade
até esse aeroporto antigo não há
nem vias adequadas.
Há muito tempo, houve
o concurso BH Centro, organizado pelo IAB/MG. Era
uma espécie de revitalização
do centro. O mundo inteiro estava realizando
intervenções em suas zonas centrais,
e aqui nós fazíamos cada vez menos.
Nunca tivemos uma grande intervenção
nessa área.
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| São Paulo e Rio, pelo menos,
estão tentando também. |
É, mas São Paulo está
tentando faz tempo. O Rio também. A idéia
[do IAB] era o centro, muito novo, muito bem construído.
E com bastante exemplares da época modernista,
inclusive de Niemeyer, de Álvaro Vital e de
outros arquitetos daqui. Era um projeto para revitalizar
a cidade.
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| Mas qual seria a idéia? |
Uma das coisas que o IAB está
discutindo, na minha opinião de modo muito
pertinente, é que devagar o campus da UFMG
está sendo transferido para a Pampulha. A última
transferência grande e pesada foi a da escola
de engenharia, que é um complexo imenso, em
um quarteirão de não sei quantos prédios.
São alguns edifícios antigos, outros
novos, alguns foram transformados em centros culturais,
bibliotecas, outros estão fechados.
Prédios representativos de uma época
da cidade, em um local fantástico, de frente
para uma das poucas áreas vazias do centro,
na antiga rede ferroviária, junto ao casarão
chamado Casa do Conde. Lá acontecem grandes
eventos atualmente, ligados à praça
da estação, que se transformou no Museu
de Artes e Ofícios, junto à estação
do metrô e à via do Contorno. Ali era
o início de uma grande área, do lado
de uma antiga fábrica da Antártica.
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| O Centro Administrativo poderia
ser instalado ali e ser um fator de revitalização
do centro de Belo Horizonte? |
Exato. E não sou só
eu que penso assim. A transferência
[proposta pelo governo estadual] foi articulada para
ser feita por Niemeyer para que ninguém fosse
contra, pois assim se calariam todas as vozes.
Como foi feito, por exemplo, com o Memorial da América
Latina, em São Paulo - sobre o qual, aliás,
Edson Mahfuz fez uma crítica muito pertinente,
sem ter sido crucificado por causa disso. Quando
ele disse que Niemeyer usa oito variações
do mesmo tema, e também quando se fala agora
que falta detalhamento em suas obras, ninguém
diz nada. Quando eu falo que Niemeyer tem que ficar
quieto e deixar a gente trabalhar, muita gente critica.
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| Qual o seu método para projetar? |
Eu faço algo que acho que
todo arquiteto deveria fazer: o olhar do lugar, do
cliente, da conjuntura, da época, do momento
em que essas pessoas se encontram, para que a arquitetura
seja feita para o momento devido.
Na minha maneira de ver a
arquitetura, o arquiteto é um tradutor de seu
tempo, de seu cliente, de sua postura econômica,
de sua região, clima.
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| O que o senhor citaria como exemplo
de sua obra, de sua visão de arquitetura, de sua
visão de mundo? |
Quando eu recupero um prédio
em Congonhas, e reconstruo o que foi demolido, para
fazer um prédio da Coca-Cola, estou exatamente
contra todos os cânones modernistas, que partem
da terra devastada, do nível zero. Considero
a cultura arquitetônica do lugar e vejo como
ela pode ser reposicionada. Essas premissas
também foram adotadas na casa do arcebispo
de Mariana (leia PROJETO 116, novembro de 1988).
E o outro lado é quando analisamos o que estamos
fazendo hoje, como os dois campi estruturados em aço
portante, em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri,
e outro no Vale do Aço, perto de Ipatinga.
Os dois são para a Fundação Educacional
de Caratinga, uma instituição privada,
que começou com o Colégio Presbiteriano,
há alguns anos.
Esses dois edifícios estão procurando
sustentabilidade, meio ambiente. Todas essas coisas
que já foram definidas há muito tempo
e que não estão sendo literalmente aplicadas
na arquitetura - basta ver esses últimos prédios
feitos no Brasil, principalmente em São Paulo.
São cacos de vidro, e depois vem o que os
arquitetos espanhóis estão chamando
de força bruta. Inventam um erro e o corrigem
com força bruta.
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| Esses projetos educacionais têm
concepção sustentável, então?
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Eles têm até tratamento
de esgoto, água, tudo o que você pode
imaginar de sustentabilidade. Então, a
arquitetura pode não ser a mais exuberante
do mundo, não estamos usando grandes vãos
ou coisas do tipo.
Mas estamos considerando no projeto todo o sítio,
uma região com sessenta e poucas lagoas. Será
em metal e eucalipto, pois ali é uma área
com muito eucalipto. Vai ter bambu, telha de aço,
telha de barro. Cada edifício terá sua
representatividade e sua forma de ser abordado. Fizemos
uma proposta filosófica e o cliente topou.
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| Qual sua opinião sobre a
proliferação de escolas de arquitetura no
Brasil? |
Não concordo que existam escolas
demais de arquitetura. Acho até que deveria
haver mais faculdades de arquitetura. Ruim por ruim,
eu prefiro um punhado de escolas de arquitetura a
um punhado de escolas ruins de direito, de medicina.
Porque o arquiteto tem formação gerencial.
Então, esse eventualmente ruim arquiteto tem
muito mais condição de prestar um serviço
qualificado como gerente de obras, dono de restaurante,
trabalhar com moda, fazer música etc. Porque
a arquitetura tem, ou deveria ter, uma formação
múltipla. O arquiteto
teoricamente malformado é menos nocivo do que
um médico ou um advogado malformado.
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Por Silvério
Rocha
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 286 Dezembro de 2003 |
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