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| Nestor
Goulart dos Reis Filho |
“Arquitetura não é
goiabada; sou contra adotar o sistema
de tombamento no varejo” |
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Nestor Goulart dos Reis
Filho formou-se arquiteto pela Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade de São Paulo em 1955.
Foi pró-reitor de cultura e extensão universitária
da FAU/USP, onde ainda leciona, na pós-gradução,
e trabalha no Laboratório de Estudos sobre Urbanização,
Arquitetura e Preservação (LAP); foi vice-presidente
da Empresa Muncipal de Urbanização de São
Paulo (Emurb) e autor de diversos livros sobre história
da arquitetura, entre os quais se destaca Quadro da arquitetura
no Brasil (1978) |
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O arquiteto
e professor de história da arquitetura Nestor Goulart
dos Reis Filho nasceu em 1931 e, além de acompanhar
a história arquitetônica brasileira e internacional,
ao longo de meio século, também ajudou a
construí-la. Professor aposentado da FAU/USP, Goulart
dos Reis optou pelo trabalho teórico, “praticamente
desde o início da vida acadêmica”.
No ano em que a cidade em que nasceu completa 450 anos,
ele está concluindo um livro que conta a história
de São Paulo, de seus primórdios até
os tempos atuais. “Só falta o patrocinador”, diz.
Nesta entrevista, Goulart dos Reis fala sobre essa e outras
histórias da arquitetura. |
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| Por que razão o senhor resolveu
estudar arquitetura? |
Quando separaram a FAU/USP da Politécnica,
eu me entusiasmei em fazer o vestibular. Havia muito
poucos arquitetos. Formavam-se dois, três por
ano, no Mackenzie e na Poli.
Aí, fundaram arquitetura no Mackenzie, e no
ano seguinte a FAU/USP. Foi quando nossa profissão
começou a ganhar ibope. Quando me formei, o
IAB tinha 120 sócios. A profissão era
pouco presente.
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| Depois, na faculdade, como o senhor
foi levado a trabalhar mais com a história da arquitetura
do que com projeto? |
A questão que, naquele tempo,
preocupava o grupo ao qual eu pertencia é que
todo trabalho teórico de base acadêmica
tinha naufragado na arquitetura. E precisávamos
construir outro arcabouço teórico que
norteasse nossos trabalhos.
Nossos mestres na FAU eram
todos arquitetos modernos, mas desenvolveram seus
trabalhos nos escritórios, rompendo com a visão
acadêmica na qual foram formados.
Nenhum deles teve a oportunidade de fazer um trabalho
teórico maior.
Esse vazio foi preenchido em parte pelos arquitetos
do Instituto do Patrimônio Histórico,
que, naquele tempo, era Serviço de Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional. Eles
tinham que elaborar uma perspectiva teórica,
porque precisavam olhar a arquitetura moderna e a
arquitetura colonial, com uma visão não-acadêmica.
Então, Lucio Costa à frente, Mário
de Andrade no aspecto teórico geral, Rodrigo
de Mello Franco e quase todos os arquitetos diretores
de serviços de patrimônio pelo Brasil
afora fizeram um trabalho teórico para compreender
a arquitetura brasileira como nunca tinha sido feito.
Em um artigo chamado “Algumas raízes” expliquei
que eles eram obrigados a elaborar um modelo teórico
para explicar os edifícios, inclusive os descaracterizados,
para procurar construir modelos de explicação.
Pois não éramos acadêmicos.
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| Então a educação
de seu grupo passou pela leitura dos textos dos arquitetos
do patrimônio. |
Líamos os artigos da revista
do patrimônio e os textos de Walter Gropius,
sobre o ensino de arquitetura, formação
de arquitetos, era a tradição da Bauhaus.
Recentemente, Rubens Mariano, que foi meu sócio,
lembrou que eu disse, ainda no primeiro ano de faculdade,
que seria historiador da arquitetura. Eu me lembrei
desse dia. Estávamos na biblioteca e eu tinha
nas mãos um livro de Bannister Fletcher. “Um
dia vou fazer um livro como esse”, eu disse. Só
que não fiz na tradição acadêmica
de Fletcher, mas na de Lucio Costa, que era a maior
figura da arquitetura moderna e da parte de arquitetura
colonial, o maior teórico brasileiro.
Então, acho que só posso explicar o
que fiz da minha vida a partir dessa origem.
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| Como foi seu início na docência? |
Um mês depois de formado fui
indicado para assistente da disciplina arquitetura
no Brasil, na FAU. E vi que não conhecia o
Brasil adequadamente para fazer esse trabalho. Então,
fui fazer o curso de ciências sociais. Eu era
professor de dia e aluno de noite.
Foi daí que desenvolvi meu trabalho, e fui
obrigado a entrar em tempo integral, senão
seria impossível dar conta de tudo. Sorte que
eu parei de projetar em 1958 ou 1960. Fiz minha carreira,
e depois da diretoria da FAU/USP fui vice-presidente
da Emurb. Não podia ficar em tempo integral
na universidade e voltei a trabalhar como profissional.
Depois de alguns anos afastado, voltei à universidade
em tempo integal. Em 2001 me aposentei, e voltei a
trabalhar.
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| Essa visão inicial dada pelo
Iphan, por Lucio Costa, ainda é válida? |
É a base, mas estamos ampliando-a.
Eu me situo na tradição
da arquitetura dita construtiva. Numa sociedade democrática,
o desperdício não é aceitável.
A arquitetura não é decoração,
ela tem que percorrer o processo construtivo.
Quando eu me formei, notei que não havia história
do urbanismo no Brasil e comecei a me dedicar a isso.
Em 1962, quando Lourival Gomes Machado ia ser diretor
da FAU, fui indicado para professor de história
da arquitetura contemporânea. Isso não
existia em curso de graduação no Brasil;
e aproveitei para colocar ali um hífen, e ficou
história da arquitetura contemporânea
- evolução urbana, que era uma disciplina
de pós-graduação em urbanismo
no Rio de Janeiro. Porque nós éramos
obrigados a seguir o padrão federal, não
podíamos inventar disciplinas.
Começamos a contar a história da evolução
do urbanismo sob uma visão completamente diferente.
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| De que forma? |
Abordando tudo da evolução
de uma cidade. Abrimos essa perspectiva, que não
existia na arquitetura e dá uma visão
muito mais ampla. O Iphan nunca fez isso.
A velha geração dizia que não
havia projetos urbanísticos, ignorava o trabalho
dos engenheiros militares, os edifícios históricos
da arquitetura oficial. E ela não queria estudar
o século 19, começo do 20.
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| Por preconceito? |
É, eles tinham preconceito
contra a arquitetura desse período. E muita
gente da minha geração rompeu com isso.
Fizemos uma continuidade; para
nós, o moderno é parte de um processo
de longa duração, que também
vai ao colonial, mas é uma perspectiva diferente,
mais ampla.
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| O arquiteto Carlos Lemos disse que
Victor Dubugras é o melhor arquiteto que passou
por São Paulo em todos os tempos. O senhor concorda
com essa opinião? |
Não tenho essa idéia
de dizer quem é o melhor. Mas se citarmos três
ou quatro, certamente ele estará em primeiro
lugar. E durante sua vida, sem dúvida ele foi
um grande arquiteto em São Paulo.
Ele foi o precursor do movimento
moderno na América Latina, em 1906, com a estação
de Mairinque, quando Auguste Perret estava começando
a fazer os primeiros projetos modernos em Paris. Ele
fez coisas em concreto armado aqui na região
de São Paulo, entre 1906 e 1912. Depois, assim
como os outros, afastou-se disso.
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| O pessoal do Iphan via no modernismo
uma ligação com a arquitetura colonial mas
tirava esse elo com o século 19? |
Nós estabelecemos continuidade
onde eles viam ruptura, porque vinculavam muito o
modernismo com a figura de Le Corbusier. Não
fizemos isso, até porque era grande nosso respeito
pela arquitetura alemã, que antecede Corbusier.
Essa visão da continuidade está em todos
os historiadores da arquitetura moderna, como Leonardo
Benevolo. Os grandes mestres mundiais da história
da arquitetura vão buscar o racionalismo no
século 18, o que também fizemos. Não
foi só Dubugras, que era racionalista, que
fez isso por São Paulo. Ele formou um grupo
de arquitetos racionalistas, entre 1905 e 1907.
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| E o grupo do Iphan não teve
sensibilidade para perceber isso? |
Não, porque quando chegou
1914, 1915, com o movimento nacionalista, essa gente
aderiu ao neocolonial, e achou que estava sendo inovadora.
A racionalidade construtiva persistiu, inclusive na
luta pelo concreto armado.
Terminei um livro sobre Dubugras, no qual procuro
mostrar que os alunos dele na Escola Politécnica
eram os engenheiros, chamados de engenheiros civis
e arquitetos, e se diziam arquitetos. E eu os chamo
de engenheiros-arquitetos e civis, o que torna as
coisas mais claras.
Na área de edificações, a liderança
ficou com São Paulo até 1930, nas mãos
dos engenheiros-arquitetos e civis, porque eles tinham
uma visão, a partir de Dubugras, profundamente
renovadora em relação a isso. Eles criaram
o Grêmio Politécnico, a revista Politécnica,
o uso do concreto armado, criaram o IPT [Instituto
de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São
Paulo].
Teoricamente, trata-se do
seguinte: quem não tem noção
de projeto não consegue fazer boas normas técnicas.
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| Voltando à história
do desenvolvimento urbano de São Paulo, parece
que há dados que o senhor vai revelar no livro
que está concluindo? |
Minha prática de pesquisa
envolve o uso de imagens, trabalhos de caráter
fotográfico, artístico, desenhos e fotografias
antigos. Não temos preocupação
de guardar os desenhos, os objetos. Temos preocupação
de guardar o documento.
Então fotografamos, e várias gerações
de fotógrafos passaram por aqui. Num trabalho
de pesquisa, publicamos o livro Imagem de todas as
cidades no Brasil colonial. Mostramos a riqueza do
trabalho dos engenheiros militares no período
colonial. E aprofundamos um estudo sobre São
Paulo.
Estamos com um livro pronto
sobre a história de São Paulo, até
agora tem a fundação, e na parte colonial
encontramos uma série de desenhos originais
que nos permitiram até fazer uma revisão
dos desenhos que estão aí, conhecidos.
Com isso conseguimos escrever um trabalho sobre as
formas da cidade, a vila de São Paulo foi cidade
no período colonial.
Encontramos alguns desenhos que mostram o esquema
de uma igreja, que certamente foi a igreja dos jesuítas,
aquela que ficou pronta em 1556.
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| É a imagem que foi publicada
em jornal? |
Sim. Mas não é só
aquela. Outro desenho muito mais completo tem exatamente
o mesmo esquema. Ele corresponde aos desenhos das
igrejas portuguesas até meados do século
16, que eram muito simples, anteriores ao Concílio
de Trento, e não semelhantes às que
conhecemos hoje. Fica muito claro que os desenhos
estão certos: eles mostram exatamente o mesmo
que os desenhos portugueses do começo dos anos
500.
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| Eram as igrejas que se faziam na
época... |
Afonso Brás projetou e dirigiu;
os mestres-de-obras da época e os seminaristas,
Anchieta inclusive, ajudaram na construção,
carregaram terra nas costas para fazer a taipa. Como
diz Carlos Lemos, a primeira obra em taipa foi aqui
em São Paulo, taipa de pilão.
O primeiro edifício
aqui em São Paulo era considerável para
1554. Era uma coisa feia, enorme e desmanchava em
dois anos, coberto com folhas de palmeira, não
era nem sapê. Mas a de 1556 não,
foi a primeira construção de taipa em
São Paulo. E assim continuou até meados
do século 17, encontramos isso em desenhos.
Vale a pena contar que em 1954 trabalhamos, três
alunos da FAU, em um ensaio no qual discutimos se
saberíamos ou não como era São
Paulo. E encontramos desenhos que nos permitem saber
qual é a forma da cidade nos séculos
17 e 18.
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| Onde estavam esses documentos? |
Espalhados em arquivos em diversos
lugares do Brasil e em vários países
do mundo. Quando publicarmos o livro, tudo estará
localizado, com análise técnica. Porque
em geral esses desenhos não eram assinados
nem data- dos, o que exige uma análise muito
cuidadosa. São hipóteses que nós
levantamos sobre isso tudo, mas com dados técnicos
que confirmam.
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| São Paulo teria sido, no
início, uma cidade murada? |
Sim. Todas as cidades ao sul de Salvador,
depois da fundação desta, tinham muros
de taipa de pilão e baluartes na artilharia.
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| Taipa no muro não desmancha,
não precisa de uma cobertura? |
Eles tinham cobertura. Os muros eram
mais complexos do que parecem à primeira vista.
Os historiadores antigos, do século 19 e 20,
achavam que podiam ser de pau-a-pique. Era uma fantasia,
assim como é um desvario imaginar que o triângulo
inteiro que era a cidade estava com muros.
Aquilo que se vê na
Internet como sendo os muros de São Paulo é
duas vezes maior do que Salvador no fim do século
16. Aquele perímetro que dizem ser murado em
1560 coube no começo do século 19, para
cerca de 7 mil pessoas. E os portugueses que chegaram
aqui, somando os jesuítas, eram no máximo
30, mais uns 30 mamelucos que vieram junto. Dava 60
homens. A vila era minúscula, a muralha era
muito pequena. Mas era tudo murado.
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| Em que momento o muro foi derrubado
para dar forma ao triângulo? |
Os muros novos foram adicionados
por volta de 1580. Em 1592 houve o último ataque
indígena. Em 1599, o governador geral, dom
Francisco de Souza, mudou para São Paulo. Quando
descobriram ouro no Jaraguá e ferro no Morumbi,
ali onde é o centro empresarial, ele achou
que ia conseguir criar um Peru em São Paulo.
A partir daí, com gente com outro padrão
de cultura e organização militar, eles
dominaram totalmente o território. Os índios
foram rendidos aqui, como em Salvador e Recife; eles
se entregavam sem guerra.
Então, a partir daí não é
preciso mais muros. Ninguém sabe o ano certo,
mas acredito que possivelmente o desmancharam então.
Mas tenho certeza de que, a partir daí, começaram
ruas novas, além dos muros. Tem até
registros em atas que confirmam isso.
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| Depois desse período inicial,
a cidade ficou estanque durante mais de dois séculos? |
Não, ela sempre cresceu, embora
tenha ficado um pouco parada na primeira metade do
século 18. E mesmo naquele período a
vila cresceu lentamente. Ela contava com 60 pessoas
em 1560, 120 em 1580, e em 1590 já havia 180
habitantes. No final do século 17, eram cerca
de mil habitantes e por volta de 2 mil em 1765, quando
se restaurou o sistema de capitanias.
São Paulo crescia,
e ainda cedia população para outras
regiões. Primeiro iam fundando todas as vilas
- Mogi das Cruzes em 1611, Parnaíba em 1625.
Depois cresceu mais e cedeu para Minas - antes de
se separarem, a capitania era São Paulo e Minas,
e ia até o rio São Francisco.
Os paulistas vão para Cuiabá, depois
para Goiás e para o chamado Mato Grosso, região
próxima de Rondônia, eles chegam até
o centro do continente. São Paulo povoou todas
as outras regiões durante muito tempo.
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| Teve um crescimento constante. |
Um crescimento quase constante. Depois
de 1711, a população cresce menos e
fica mais ou menos estável até 1765.
Lá por 1740, extinguiram o sistema de capitanias,
o que tira a força dos paulistas. Naquele período,
criaram Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina,
uma parte do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás,
tudo isso saiu de São Paulo. Mas em 1765 restauram-se
as capitanias e a cidade começa a aparecer.
Cresce lentamente, mesmo com a estrada de ferro, inaugurada
em 1867, até o começo da República.
Em 1890, São Paulo
tinha 65 mil habitantes, três anos depois tinha
130 mil.
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| Essa expansão ocorreu devido
às estradas de ferro? |
Ao começo das estradas de
ferro, do regime republicano e da imigração.
O governo do Estado estimulava. De 1890 a 1893, os
republicanos financiavam a imigração.
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| Mas tudo isso motivado pelo café? |
Sim. O objetivo era atender à
demanda de mão-de-obra nas frentes do café,
cuja produção aumentava rapidamente.
O café paulista era um sucesso no mundo inteiro,
então o crescimento foi muito rápido,
até o chamado Encilhamento. Em 1894 ou 1895
começa a saturação, e até
1904 estivemos em crise.
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| E com o café chegou o tijolo? |
Com a estrada de ferro. As fazendas
de café, no estado de São Paulo, usavam
o tijolo. A fazenda da Barra, em Piraçununga,
hoje uma base da Aeronáutica, é um exemplo
perfeito dessa mudança: era toda de tijolos,
não mais taipa de pilão e pau-a-pique.
E era mecanizada em boa parte. Mesmo na região
de Campinas, já era assim. Todo o Oeste paulista
se moderniza, começa a criar escolas. Essa
gente é que fez a República.
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| Como se deu a transição
da taipa para o tijolo? |
Quando chega a estrada de ferro,
as técnicas todas começam a mudar. A
estrada traz cal em barris, cimento, e traz imigrantes
também. Na construção da estrada
de ferro era proibido usar escravos, para não
desviar da lavoura.
Houve momentos em que havia 5 mil pessoas trabalhando
na construção da Santos-Jundiaí,
o mesmo número de trabalhadores empregados
na construção de Ilha Solteira.
Imagine uma cidade com 19
mil habitantes ter 5 mil pessoas trabalhando na construção
de uma estrada. Isso mudou completamente o mercado
de trabalho em São Paulo.
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| É aí que ocorre a mudança? |
É nesse momento que começam
a fazer construções em tijolos. Os irmãos
Peixoto constroem em Campinas a primeira olaria mecanizada.
Para isso era preciso ter estrada de ferro, para trazer
as máquinas.
Com a estrada de ferro chegou
o trilho do bonde, que era pesado, não podia
vir de burro nem de carroça. Então,
muda o transporte urbano. A partir daí, podia-se
ter acesso a qualquer máquina. Da Europa para
o porto, do porto para o trem, do trem para o bonde,
e do bonde para qualquer ponto da cidade.
Isso começa a facilitar a industrialização
e a mecanização das atividades, leva
a uma mudança, à madeira serrada, às
grandes serralherias, muda a construção
civil necessariamente.
O mercado é aberto a um contato inovador, assim
como em 1808 o contato com a Europa é aberto
apenas no plano comercial. Com a inauguração
das ferrovias, temos quase uma linha direta, até
telegráfica, com a Europa. A partir daí,
tudo se comprava pelo correio. Estávamos em
contato com o mercado mundial, e isso ocorre em função
da ferrovia, mais do que dos portos, que só
foram mecanizados no início do século
20.
Portanto, foi só a ferrovia que fez isso, mas
ela muda internamente a cidade. Com o bonde de burro,
apesar de ser tração animal, havia transporte
sobre trilhos. E a imigração
começa lentamente até a República,
que a financia, e a partir daí é uma
loucura. O Império foi muito resistente à
modernização urbana; foi um atraso nessa
área.
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| A taipa, em certo momento, era símbolo
de atraso. A sociedade, nesse período do tijolo
e depois do concreto, se envergonhava desse passado? |
Necessariamente. A partir de 1808,
começam as medidas da classe dominante para
tirar o caráter tradicional da arquitetura
e assumir caráter europeu. Era uma negação
das raízes.
A classe dominante brasileira
sempre pensa que é européia, ou representante
da civilização européia nos trópicos.
E, simultânea e paradoxalmente, pensa sempre
com raízes rurais, o que se explica pela raiz
escravista.
Então, encontramos filhos de imigrantes alemãos,
italianos, japoneses, que ganham dinheiro e constroem
casas com estilo neocolonial. Eles querem realmente
viver em uma fazenda.
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| Isso é justificativa para
a cidade ter sido devorada? |
O melhor símbolo disso é
a Faculdade de Direito do largo São Francisco.
Os tradicionalistas paulistas destruíram o
velho convento franciscano, que era extremamente pobre,
era só parede de taipa, mas extremamente bem-construído,
e construíram um bolo de noiva, uma arquitetura
neocolonial que nunca existiu no Brasil, é
arquitetura portuguesa.
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| Em nome da tradição? |
Aquilo é uma falsificação
do ponto de vista arquitetônico. Eles destruíram
um símbolo do passado de pobreza e austeridade
e construíram o símbolo de uma história
de riqueza e esplendor que não tem nada a ver
com nosso passado.
Os estudantes que se formaram no século 19
naquela faculdade eram muito austeros. A cidade de
São Paulo foi pobre até o começo
da República, e a província de São
Paulo foi muito pobre.
As terras ricas de São Paulo estão no
interior, e as do Nordeste estão no litoral.
O nordestino, depois que esgotou o litoral, ficou
pobre. São Paulo, depois que esgotou o litoral,
ficou rico. Mas demorou. Quando as ferrovias
chegaram às terras do interior, São
Paulo enriqueceu. Aí, criou o falso passado
de riqueza.
Os homens que destruíram a arquitetura colonial
- Washington Luís e todos os seus amigos -
fotografaram e estudaram a arquitetura colonial no
passado, e criaram o neocolonial como uma falsificação.
A mesma geração que destruiu os vestígios
de São Paulo colonial destruiu a igreja dos
jesuítas, a Sé, destruiu todas as igrejas
antigas, tirando a de São Francisco.
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| A atual onda de neoclássicos
é a repetição de um fenômeno? |
É mais uma crise de decorativismo.
Isso sempre vem nos momentos conservadores ou ultraconservadores.
O sonho dos conservadores
é esse. Isso não tem nada a ver com
a sociedade democrática, que não pode
endossar essas coisas. Banqueiro é que gosta
disso.
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| Essa história da cidade que
se destrói e se reconstrói sempre é
fenômeno típico paulistano, brasileiro ou
é mundial? |
Precisamos entender que, em 1954,
há 50 anos, São Paulo tinha 3 milhões
de habitantes, e hoje a região metropolitana
tem mais de 17 milhões. Não há
a menor possibilidade de se manter isso desse jeito.
Até porque as cidades, no fim dos séculos
18, 19 e início de 20, tinham poucas partes
bem-construídas, bem-equipadas. Foi uma pena
destruírem as partes bem-equipadas.
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| Algumas coisas deveriam ter sido
destruídas? |
É muito comum as pessoas acharem
que seu bairro não deve se verticalizar. Minha
resposta é sempre a mesma: somos todos imigrantes,
com os mesmos direitos. Não dá para
pôr 17 milhões onde moravam 3 milhões
sem reciclar a cidade.
Agora nós estamos estabilizados, temos que
parar e rever. Mas não se esqueçam:
Paris em 1850 era uma das piores cidades da Europa,
e em 1875 já era a Cidade-Luz, considerada
a mais bela do mundo. Nunca perdi a esperança.
Claro que não vamos
ter uma paisagem linda como a do Rio de Janeiro, mas
o Rio, com toda aquela paisagem, no fim do Império
era uma cidade lamentável. Os republicanos
construíram o belo Rio de Janeiro, que conheci
na minha mocidade e hoje está em decadência
porque as pessoas destroem. As cidades passam por
ciclos desse tipo.
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| E o que se preserva hoje merece
ser preservado? |
Estão querendo tombar coisas
demais. O instituto de tombamento está fundamentado
legalmente na excepcionalidade; é preciso usar
relativa prudência. Hoje temos os órgãos
municipais, os órgãos estaduais, e isso
é muito positivo porque ajuda a população
a ter consciência da questão do patrimônio.
Nos últimos 30 anos, a inconsciência
era muito grande.
Mas teríamos que fazer trabalhos que nos permitissem
estabelecer uma visão de conjunto orientadora,
como fizeram os que iniciaram o Iphan, que elaboraram
um levantamento do que era importante.
Estamos aprendendo, pela primeira vez, a tombar locais,
e tombar edificações destinadas ao trabalho,
habitações de conjunto, que correspondam
a projetos urbanísticos ou arquitetônicos
interessantes.
Na Vila Maria Zélia, a arquitetura é
muito feia, mas como conjunto é interessante,
tem vegetação e o conjunto de prédios
possui certa dignidade urbanística. Isso na
zona leste de São Paulo, que sempre foi maltratada
do ponto de vista arquitetônico e urbanístico.
É importantíssimo o tombamento da Vila
Maria Zélia, porque é uma solução
urbanística em um bairro operário e
um dos pontos altos dessa modalidade de moradia em
São Paulo.
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| Por que alguns desses lugares conseguiram
ser preservados? |
Em geral por outras razões,
como a vila de Paranapiacaba, na cidade de Santo André.
A reação dos primeiros conservadores
foi dizer que é uma arquitetura estrangeira
e, como tal, não deve ser preservada. Aconteceu
algo desse tipo com relação à
estação da Luz, há uns 25 anos.
Se é assim, vamos
passar um arame farpado no meio do vale do Paraíba
e separar o sul, porque somos somos todos imigrantes.
De 18 milhões, quase ninguém pode dizer
que os pais e avós eram daqui. Mas a questão
não é só se a arquitetura é
importada, mas se trata-se de um documento do conjunto
urbanístico arquitetônico.
E a geração seguinte teve dificuldades
de lidar com isso, porque estava discutindo estilo,
não estava discutindo visão urbana,
visão cultural mais ampla. E não tombaram
fábricas, deixaram que se destruíssem
os melhores exemplares fabris de São Paulo,
como a Antártica, cujo núcleo inicial
é de 1888.
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| Ficava onde? |
Na Água Branca, e a família
Matarazzo demoliu. Poderiam ter conservado a
fábrica e feito coisas lindíssimas,
preservando. Lina Bo Bardi, como boa italiana, conseguia
trabalhar com o passado e o futuro com elegância
insuperável.
Sou contra o sistema do tombamento no varejo. Acho
que se deve ter visão de conjunto, uma seleção
geral, para depois entrar em casos raros. Senão,
isso não tem fim, cada indivíduo vai
propor o tombamento de uma coisa, como nos velhos
armazéns de secos e molhados: os fregueses
entravam e pediam de sal a goiabada, e o armazém
precisava ter tudo.
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| São Paulo foi uma cidade de
taipa de pilão, depois do tijolo, do concreto atualmente.
No futuro, como será São Paulo? |
A minha previsão é
que vamos trabalhar cada vez mais com materiais que
permitam arriscar. Sempre existirão materiais
mais refinados de acabamento, as condições
de estruturação dos edifícios
serão mais ágeis. Os empreendimentos
imobiliários serão, talvez, mais velozes.
Já são muito rápidos com relação
ao que eram há 30 anos. Um ou outro trabalha
com componentes pré-fabricados, não
quero dizer que seja para fabricação
pesada, de mau gosto.
A diferença entre a fabricação
francesa dos anos 1960 e 1970 e a inglesa deu-se nos
projetos; os ingleses trabalhavam com componentes
melhores e investiam mais nos projetos. Produziam
arquitetura de base industrial. Os norte-americanos
trabalham com catálogos, compram os componentes
e fazem aquilo que bem entendem.
Acho que vamos tender a isso, porque tem de haver
certa agilidade na construção. Éramos
muito lentos na maneira de trabalhar. E esse setor
é o primeiro a sofrer com as altas e baixas
do mercado, e o risco dos empresários é
muito grande, por causa da demora na tomada de decisões
e na entrega do produto.
Por isso, acredito que este seja o caminho, seja qual
for o material de estrutura, que muda, dependendo
da escala do empreendimento. Não existe um
material universal para todos os tipos de construção.
Em certa escala de produção, podemos
mudar os detalhes, produzir componentes novos. E hoje,
com a informática, é muito mais fácil
fazer a modelagem.
Sou otimista, as possibilidades
são tão vastas que eu não cometeria
a asneira de dizer que o único caminho é
este. A minha convicção é que
a indústria tende à diversificação.
O industrial tende à redução
das alternativas para aumentar o seu lucro. O pesquisador,
o homem da tecnologia, o homem do projeto, tende a
explorar cada vez mais a diversificação,
e o mercado vai pedir mais isso. O caminho da industrialização
é a diversificação, não
a padronização total.
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Por Adilson
Melendez e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 287 Janeiro de 2004 |
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