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| Evaldo
Bezerra Coutinho |
“A expressão ‘Deus é
arquiteto’ mostra a
importância da concepção da
arquitetura” |
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EVALDO BEZERRA COUTINHO
diplomou-se em ciências jurídicas e sociais
em 1933, pela Faculdade de Direito da Universidade Federal
de Pernambuco, mas logo se dedicou ao estudo da filosofia,
direcionado para as artes em geral e, mais especificamente,
para a arquitetura. A partir de 1938, passou a lecionar
teoria e filosofia da arquitetura na Escola de Belas-Artes
do Recife. Foi o primeiro diretor da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da UFPE. Atualmente com 92 anos, Coutinho
é considerado um dos mestres que forjaram o pensamento
arquitetônico da chamada escola do Recife |
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Advogado e
filósofo por formação, Evaldo Bezerra
Coutinho é, há mais de 60 anos, a grande
referência do ensino da arquitetura pernambucana.
Responsável pela criação da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de
Pernambuco (1959), da qual foi o primeiro diretor, Coutinho
dedicou sua vida à formação de gerações
de arquitetos.
Seu pensamento filosófico está reunido em
oito volumes, entre os quais se destaca O espaço
da arquitetura (Perspectiva, 1970). Ele iniciou sua atividade
didática na Escola de Belas-Artes do Recife, quando
assumiu, em 1938, a cátedra de teoria e filosofia
da Arquitetura. |
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| Qual é sua formação? |
Concluí o curso de direito
em 1933, com 22 anos, e durante algum tempo trabalhei
em advocacia, mas não tinha grande entusiasmo.
O que me dava realmente prazer era o estudo da filosofia.
E é isso que tenho feito durante todos esses
anos.
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| A partir de seu interesse pela filosofia,
como o senhor chegou à arquitetura? |
Todas as formas de produção
artística sempre me interessaram, e a arquitetura
em particular. A partir de 1938, passei a lecionar
teoria e filosofia da arquitetura na Escola de Belas-Artes
do Recife. Aliás, comecei substituindo um grande
amigo, Joaquim Cardozo. Ele não tinha mais
tempo para lecionar e pediu que eu ficasse com a cadeira.
E fiquei até me aposentar, em 1971.
O ensino me proporcionou
não só o prazer de me dedicar a algo
de que gostava, mas também a oportunidade gratificante
de estar junto aos alunos, de formar futuros profissionais.
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| Em que ano teve início o curso
de arquitetura da Escola de Belas-Artes? |
O curso foi criado em 1932. Como
na época não havia ainda arquitetos
formados em Pernambuco, era grande a escassez de professores
para a área e tínhamos que contar com
os que chegavam de outros estados ou do exterior.
Nesses primeiros tempos, tivemos nomes bem importantes,
como o arquiteto italiano Palumbo, que projetou vários
edifícios residenciais; e Heitor Maia Neto,
que não era diplomado em arquitetura mas construía
muito e impulsionou o ensino prático da arquitetura
na cadeira de composições.
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| Como o senhor conheceu Joaquim Cardozo? |
Ele era engenheiro civil e o conheci
quando eu era estudante de direito, antes da Revolução
de 1930. Cardozo era um grande poeta e uma pessoa
admirável. Convivemos muito enquanto ele morou
no Recife. Depois ele foi para o Rio, montou seu escritório
e trabalhou com os grandes nomes da arquitetura da
época.
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| Por que ele se transferiu para o
Rio? |
Por questões políticas.
Paraninfo de uma turma da Escola de Engenharia, durante
a cerimônia ele criticou o sistema de ensino
no país e toda a estrutura da política
social brasileira. Como vivíamos sob uma ditadura
rigorosa, ele foi transferido para o sertão
de Pernambuco, onde deveria trabalhar na execução
de estradas de rodagem. Mas um intelectual como ele,
que vivia entre seus livros, não conseguiria
ficar isolado. Pediu demissão e seguiu para
o Rio.
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| O senhor ia sempre ao Rio? |
Gosto muito do Rio e cheguei a morar
lá certo tempo. Em 1946, pedi licença
da Escola de Belas-Artes e fui para o Rio, onde casei
e passei quatro anos. Voltei ao Recife em 1950 e reassumi
minhas funções de professor. Em 1971
me aposentei da Faculdade de Arquitetura da Universidade
Federal de Pernambuco, mas continuei a lecionar literatura
na Faculdade de Letras até 1981.
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| Em que momento resolveu escrever
sobre arquitetura? |
Isso me ocorreu quando eu desenvolvia
minha visão do universo, meu sistema filosófico.
Lembro que estava exatamente refletindo sobre o fenômeno
da repetição no tempo, pois a vida se
processa ao compasso da repetição. E
a arquitetura me pareceu, então, um exemplo
admirável para esse pensamento. Concluí
que o tema poderia ser tratado em um livro independente
do sistema, mas ligado a ele. Foi quando comecei a
escrever O espaço da arquitetura.
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| O tema desse livro sempre foi uma
preocupação recorrente em seus estudos,
não? |
Para mim,
o ambiente interno parece ser o ponto verdadeiramente
filosófico na questão da arquitetura.
Em geral, as pessoas vêem a arquitetura por
meio de sua volumetria, das fachadas, do teto, do
edifício todo. Mas a arquitetura
à qual me reporto é o ambiente interno,
que se vale da escultura para ter sua existência.
É preciso não confundir a escultura
com o vazio interno. O arquiteto se vale da escultura,
que são as paredes da construção,
para projetar o interior.
Os livros mostram sempre belas fachadas, mas pouco
apresentam do espaço interno, porque ele é
irrepresentável. Quem quiser conhecê-lo,
terá de ir a ele. A arquitetura tem essa singularidade.
Já a pintura, não. Podem-se ver fotos
tão perfeitas de uma obra de Goya quanto as
que estão em um museu. O mesmo ocorre com a
escultura, que pode ser evidenciada por uma fotografia.
A importância do espaço interno é
que ele é projetado para o convívio
de pessoas.
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| A fachada, então, teria valor
escultórico e não arquitetônico? |
A escultura encerra o que, para mim,
é a arquitetura propriamente dita. O fato de
estarmos sentados numa sala, conversando no mesmo
lugar onde outras pessoas estiveram anteriormente,
fazendo a mesma coisa - e onde outras ainda estarão
depois -, é uma repetição no
tempo, proporcionada pelo invólucro, que é
a escultura.
Toda arquitetura firma uma
repetição no tempo. Quando entramos
num edifício gótico, medieval, nos fazemos
medievais, porque passamos a obedecer aos mesmos percursos
góticos projetados pelo arquiteto daquela obra.
Minha concepção de que os indivíduos
se repetem dentro dos espaços da arquitetura
tem a seu favor o princípio filosófico
da universalidade de aplicação, uma
vez que é válida tanto para um mocambo
quanto para uma gruta, para um palácio ou para
uma casa contemporânea. Quantas pessoas já
não passaram pela mesma entrada, se debruçaram
à mesma janela? Há, portanto, uma unidade
no tempo firmada pela arquitetura.
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| Essa era a base do curso que o senhor
ministrava na faculdade de arquitetura? |
Sempre procurei passar aos alunos
a idéia de que a arquitetura é um gênero
artístico autônomo, cujos valores estão
nos espaços internos, onde elementos como luz,
sombra, temperatura, ruído e silêncio
são fundamentais.
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| Diante desse pensamento, como se
pode encarar uma intervenção no espaço
construído? |
Toda adulteração do
projeto original é uma violação
do trabalho do arquiteto. Filosoficamente, é
inaceitável. Mas muitas vezes essas mudanças
são necessárias, são exigências
do progresso.
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| Como o senhor vê a intervenção
de profissionais da área de interiores em obras
contemporâneas de arquitetura? |
Esse profissional deve atuar como
colaborador do autor do projeto, levando em conta
a idéia que este teve para aquele ambiente.
Nem sempre o trabalho do arquiteto inclui os interiores,
mas ao projetar ele tem em mente como deve e precisa
ser ouvido numa eventual intervenção.
De nenhuma maneira o profissional de interiores deve
interferir abusivamente, derrubando paredes ou abrindo
janelas e portas, por exemplo.
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| Contemporâneo dos arquitetos
que introduziram o movimento moderno em Pernambuco, de
que maneira o senhor lembra esse período? |
A questão do estilo não
era importante para minha área de estudos,
mas foi um período muito movimentado e se discutia
muito a arquitetura. Luís Nunes trouxe o modernismo,
o funcional, do Rio para o Recife. Ele tinha sido
contratado pela Escola de Belas-Artes do Recife, e
foi aqui que deu os primeiros passos em direção
à arquitetura moderna.
Antes já existia uma reação à
tradição, que foi o ecletismo, quando
surgiu o movimento denominado protomoderno, com Heitor
Maia Filho, que limpou a parte plástica do
edifício, eliminou os enfeites. Determinou
o fim do bolo de noiva. Joaquim Cardozo, apesar de
engenheiro, também teve muita influência
entre esses primeiros arquitetos, pois acompanhava
tudo o que ocorria no mundo em matéria de arte
e arquitetura.
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| Ele foi o autor da famosa caixa-d’água
de Olinda, não? |
Desse e de muitos outros projetos
para a prefeitura do Recife, como o prédio
para o Serviço de Medicina Legal - que depois
de muitos anos abrigou o departamento regional do
Instituto de Arquitetos do Brasil -, o Hospital da
Polícia Militar e várias escolas públicas.
Ele trabalhava na Diretoria Municipal de Arquitetura
e Construção, juntamente com Antônio
Baltar e muitos outros profissionais da vanguarda
da arquitetura na época. O cálculo estrutural
da caixa-d’água foi de Joaquim Cardozo. No
entanto, com o Estado Novo, a diretoria foi extinta
e Luís Nunes foi embora.
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| Nunes introduziu no Recife a estrutura
de concreto livre da alvenaria, não? |
O racionalismo estabelecia que a
estrutura deveria ser independente das divisórias.
As paredes funcionavam só como vedação.
Depois, a estrutura passou para dentro, para liberar
a fachada. A fachada livre fazia parte do receituário
racionalista.
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| Fala-se que a arquitetura do Recife
é muito peculiar, que resiste aos modismos e respeita
o entorno e as condições climáticas
da região. Essa arquitetura seria resultante do
pensamento da chamada escola do Recife? |
Depois das obras de Luís Nunes,
começou-se a construir de maneira muito semelhante.
Era como se houvesse uma receita para a arquitetura.
Isso fez com que os edifícios ficassem todos
muito semelhantes do ponto de vista plástico.
Mas nessa época,
também sob o ponto de vista estético,
a arquitetura feita no Rio de Janeiro era muito semelhante
à que se praticava no Recife. Na verdade, tratava-se
de uma arquitetura moderna, racionalista. Não
posso dizer que houve no Recife uma escola de pensamento,
uma ação coletiva.
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| Mas, ao contrário da arquitetura
de outros pontos do país, a do Recife ainda apresenta
características que refletem a preocupação
com a qualidade, com o conforto ambiental. |
Talvez porque os arquitetos formados
em Pernambuco continuem fiéis ao receituário.
Isso, sem dúvida, foi resultado da influência
dos mestres que prepararam os primeiros arquitetos,
como o italiano Mário Russo; Antônio
Baltar, que era um engenheiro muito interessado em
arquitetura; Acácio Gil Borsoi, que chegou
do Rio para lecionar com todo o cabedal de conhecimento
transmitido por Lúcio Costa e pela vanguarda
da arquitetura carioca, entre outros.
Então, o pessoal do Recife continuou respeitando
todo aquele ensinamento e toda aquela forma de conceber
e resolver a arquitetura. Eles não se distanciaram
disso, não quiseram fazer uma coisa diferente.
Mas era uma arquitetura racionalista, nessa linha
de racionalidade imposta pelo movimento que surgiu
no início do século 20, na Europa. A
obra de Mário Russo era muito racionalista.
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| A obra de Mário Russo no
Recife não estaria mais próxima da arquitetura
que já se praticava na cidade, com os cuidados
relativos a insolação e ventilação? |
Essas questões entraram como
dados importantes na concepção arquitetônica
dos primeiros modernistas que chegaram ao Recife.
Eles absorveram muito da arquitetura tradicional de
Pernambuco - como as casas dos engenhos -, da forma
de se proteger do excesso de luminosidade, procurando
aproveitar o máximo da ventilação
natural em função das altas temperaturas
da região. Foram dados relevantes na elaboração
dos projetos de edifícios construídos
na cidade. Todos eles levaram isso em conta, tanto
Luís Nunes quanto Russo, Borsoi e os outros.
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| Qual a origem da Faculdade de Arquitetura
da UFPE, fundada pelo senhor? |
A origem da faculdade foi o curso
de arquitetura da Escola de Belas-Artes do Recife.
Durante uma reunião da congregação
universitária, no final da década de
1950, defendi a conversão do curso em faculdade,
o que foi aceito. Além de fundador, fui seu
primeiro diretor, com apoio unânime dos professores.
Dirigi a faculdade entre 1959 e 1963, talvez mais
um pouco. Recentemente, o ensino da arquitetura retomou
suas origens, e passou a ser um curso do Centro de
Artes da Universidade Federal de Pernambuco.
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| Como filósofo, de que maneira
o senhor vê a profissão de arquiteto? |
Considero-a
de importância extraordinária. Essa circunstância
de imaginar e criar ambientes para o viver, de figurar
no elenco dos criadores de espaço, portanto,
de participar da repetição do tempo,
de um momento de divinização. Aliás,
a expressão “Deus é arquiteto” já
mostra a importância, inclusive metafísica,
da concepção da arquitetura.
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Por Éride
Moura
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 286 Fevereiro de 2004 |
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