Miguel Juliano
“O arquiteto precisa conhecer as pessoas: ninguém telefona para lhe dar um projeto”
 
  Miguel Juliano, nascido em Rio Verde, Goiás, em 1928, formou-se na FAU/Brás Cubas, em Mogi das Cruzes, SP, em 1973. Desde 1966 possui escritório próprio. Lecionou na FAU/Mackenzie e foi presidente da Fundação Vilanova Artigas
 
Autodefinido como ítalo-goiano - “porque nasci em Rio Verde, Goiás, e tenho ascendentes italianos” -, Miguel Juliano trabalha com arquitetura desde a adolescência, mas formou-se aos 45 anos de idade, depois de ter projetado edifícios célebres, como o Quinta Avenida, na avenida Paulista, com Pedro Paulo de Melo Saraiva, e o Parque Anhembi, com Jorge Wilheim, ambos em São Paulo.

Há pouco mais de um mês, duas importantes obras suas foram concluídas na capital paulista: o Holiday Inn Select Jaraguá e o Holiday Inn Anhembi. O arquiteto recebeu PROJETO DESIGN em seu escritório, em São Paulo, para falar sobre sua trajetória.
 
Fale um pouco sobre sua opção pela arquitetura.

Minha família participou da construção de Goiânia: meu tio, que tinha 29 anos, foi secretário da Fazenda na época da mudança da capital. Por decisão da minha mãe, fui morar com ele, em 1936. Dessa forma, assisti à construção e fui tomando gosto por aquilo. Desde 1934, Attílio Corrêa Lima já estava contratado para fazer o plano da cidade.

Goiânia tinha 15 casas, todas mais ou menos iguais, com dois dormitórios: eram chamadas de casas funcionais e se destinavam aos funcionários do Estado. Além das casas, estavam prontos o Palácio do Governo e a Secretaria da Fazenda. Achava - e ainda acho - aqueles prédios muito bonitos. O Palácio do Governo é horizontal, revestido com um material que aqui em São Paulo se chamava cirex, uma massa raspada com mica.

 
Esse convívio influenciou sua decisão de ser arquiteto?

Sim, pois eu presenciava as conversas, e só se falava de via Perimetral, via Radial etc. Um dos construtores de Goiânia, Jerônimo Coimbra Bueno, também era rio-verdense. Ele morava no Rio de Janeiro e foi um dos responsáveis por contratar o carioca Attílio Corrêa Lima, que é membro do grupo dos grandes projetistas brasileiros: fez, por exemplo, a estação de hidroaviões do Aeroporto Santos Dumont. Bueno foi buscar o melhor.

Depois foi contratado outro arquiteto, Agache, que fez o Setor Sul. Há cerca de cinco anos, quando comecei a preparar um livro sobre minha obra, decidi fazer uma parte autobiográfica e descobri que esse período nunca se apagou da minha mente.

 
Depois o senhor foi estudar em Uberlândia?

Meus pais mudaram-se para Uberlândia por razões econômicas. Lá, estudei em um colégio onde havia uma exposição anual de desenho, da qual sempre participei. Uberlândia, naquela época, era o refúgio da esquerda, era chamada de Moscou brasileira. Até o padre era comunista.

Entre esses refugiados, chegou um arquiteto de Belo Horizonte, João Jorge Cury. Ele foi até o colégio para procurar um desenhista e me escolheu junto com Eurípedes Santos, que também se tornou arquiteto. Ele me escolheu por causa do desenho de uma espiga de milho com folhas verdes e tinta nanquim. Eu estava no primeiro científico. Assim, posso dizer que sou arquiteto por causa da espiga de milho.

 
Ele era um erudito?

Não, era meio confuso, mas me ensinou a desenhar. Ele fazia umas casinhas estranhas. Naquela época, todos os projetos conhecidos tinham murais do Portinari. Ele arrumou um pintor para fazer murais nas casas que projetava. Mas os murais eram uma pândega. Em uma das residências, tinha pombos e retirantes. Lembrava o quadro Os retirantes, de Portinari, mas, em vez de urubus, tinha pombas brancas.

Era um homem ingênuo, mas sabia calcular, marcar ferragens. Trabalhei com ele durante um ano e meio. Éramos eu, Eurípedes e Lauro Mendes. Ele não aparecia. Nós pegávamos o trabalho, fazíamos, entregávamos e recebíamos. Depois tirávamos nossa parte e dávamos o resto para ele.

 
E ele fazia o quê?

Tomava cerveja, discutia, fazia reuniões secretas, andava atrás das mulheres. Em 1964, por exemplo, depois do golpe, prenderam muitas pessoas. E ele apareceu com uma mala no quartel. O sentinela lhe disse que ele não estava na lista, e Cury respondeu: “A lista com meu nome vai chegar”. E, de fato, no dia seguinte chegou.

 
Quando o senhor veio para São Paulo?

Cheguei em São Paulo pouco antes de completar 18 anos. Lauro estava aqui, trabalhando com Eduardo Kneese de Mello. Nós tínhamos sido tão bem treinados em Minas que Lauro mandava no escritório de Kneese.

Ele não podia me empregar, mas me indicou para Gregori Warchavchik, e este me contratou no mesmo dia. Mas era um escritório que mais cuidava das propriedades da família dele, casas alugadas etc. Fiquei lá um mês e não tinha nada para fazer. Nesse período, vi Warchavchik apenas duas vezes.

 
Isso foi em que ano?

Em 1946. Então vi um anúncio pedindo desenhista para trabalhar no Banco Nacional Imobiliário. Peguei meus desenhos e fui lá. Quem me entrevistou foi Otávio Frias de Oliveira, que era diretor do BNI. Lá trabalhavam alguns engenheiros, entre os quais Roberto Zulccolo - o maior calculista que já tivemos - e João Domingos de Toledo Piza, que estava no quarto ano.

Piza era colega de turma de Plínio Croce, do Helcer que depois foi dono da construtora Auxiliar - que construiu aqueles prédios de [Franz] Heep em Higienópolis -, de Roberto Monte, que foi diretor do Mackenzie durante muitos anos. E eles tinham todos vinte e poucos anos. Eu fui trabalhar no banco meio período e estudava de manhã.

 
Foi esse banco que construiu o Copan?

Foi. Naquela época, o edifício Esther, que é projeto de Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho, era o melhor prédio de São Paulo. Aquilo era fantástico, bonito de planta e com uso misto: boate no subsolo, lojas no térreo, escritórios nos andares baixos, depois apartamentos simples e em seguida apartamentos dúplex, e lá em cima as coberturas. Hoje ele está degradado, pois retiraram o revestimento de vidro preto depois que uma placa caiu e matou uma professora.

Com o sucesso do Esther, o BNI chamou Vital Brazil para fazer um prédio na Major Sertório, que não vendeu bem. E aí um publicitário do banco, muito evoluído para a época, defensor da idéia de valorizar o projeto de arquitetura, sugeriu chamar Oscar Niemeyer. Se o prédio de Vital Brazil tivesse vendido, ele teria feito todos os projetos de edifícios que Oscar fez em São Paulo. Todos no banco foram contra, mas Frias achou que era o nome certo.

Oscar tinha ganho o concurso para o centro da aeronáutica, em São José dos Campos [interior de São Paulo], mas os militares deram o projeto para os irmãos Roberto. Eles foram tão decentes que assinaram o contrato e passaram o projeto para Oscar desenvolver.

Foi no meio dessa encrenca que ele foi chamado pelo banco para fazer três prédios: o edifício Montreal, na avenida Ipiranga; o Eiffel, na praça da República; e o edifício Triângulo, no centro velho. Depois veio o Copan.

 
O senhor acompanhou o projeto do Copan?

Sobre o Copan, me lembro de um episódio interessante. Nessa época, Zanine Caldas tinha se mudado para São Paulo. Lauro o conhecera por intermédio de Lina Bo Bardi e nos apresentou. Zanine tinha inventado o processo brasileiro de fazer maquetes com compensado de madeira. Antes, só se usava gesso.

Ele tinha um escritório de paisagismo e maquete, perto do Mackenzie, onde vi Oscar pela primeira vez. Um dia, fui até o ateliê e lá estava a maquete do Copan, prontinha. Mas os brises eram na vertical. Já estavam vendendo as unidades no plantão com aquele desenho. Oscar disse: “Nós vamos mudar esses brises”. Fez um croqui e começou a arrancar os brises da maquete.

 
Os primeiros projetos que o senhor fez foram para o banco?

O banco era uma espécie de grande Caixa Econômica, que financiava obras com uma caderneta chamada Canguru Mirim. Eles chegaram a fazer uma cidade, denominada Engenheiro Goulart. E eu fiz dezenas de casas em Santo Amaro, de acordo com os clientes: normanda, colonial, moderna etc. Mas devo muito da minha carreira ao Partido Comunista.

 
Como assim?

Quando cheguei de Uberlândia fui até o Hoje, que era o jornal do Partidão. Lá estavam Clóvis Graciano e Jorge Amado, entre outros. Mostrei meus desenhos e eles me levaram para almoçar. Na volta me disseram: “Você vai trabalhar nas finanças”.

Pensei que ia ser ilustrador do jornal, mas minha função era passar o chapéu, pedir dinheiro para quem eles mandavam: Jânio Quadros, o tio e a mãe do [jornalista] Boris Casoy, Thomas Farkas, da Fotóptica, entre outros. Eram os chamados aliados da burguesia nacional, gente bem de vida, simpatizantes ou que tinham medo de passar por reacionários. Naquela época, tirando Alceu Amoroso Lima - o Tristão de Athayde -, não existia intelectual no país que não fosse de esquerda. Assim, o Partidão me abriu portas.

Na verdade, um arquiteto precisa gostar de arquitetura, ser criativo, ter controle da obra. Mas precisa conhecer as pessoas. Ninguém telefona para lhe dar um projeto. Eu consegui o projeto do Jaraguá no telefone, pois o cliente é meu amigo há 20 anos.

 
E depois de trabalhar no banco?

Fui para a Caixa Econômica, também em emprego de meio período. Lá conheci um engenheiro, para quem projetei uma casa. Depois abri meu primeiro escritório, com meu nome e o Crea dele. Em seguida tive outros sócios, peguei muitos trabalhos, ganhei concursos...

 
Quais concursos?

Ganhei, com Pedro Paulo de Melo Saraiva, em 1955, o concurso do edifício Quinta Avenida, organizado pelo IAB/SP. Foi sensacional. É um dos primeiros prédios do mundo em concreto protendido. Ficou muito esbelto. Ele só tem dois alinhamentos de pilares com balanços grandes.

Até aquela época, isso não era considerado estável, precisava ter três linhas de pilares. Zulcco, que foi o calculista, disse que controlaria a estabilidade com a espessura da laje. Na época, até o titular da cadeira de resistência da Escola Politécnica foi contra.

 
E sua parceria com Jorge Wilheim?

Entre o final dos anos 1950 e início dos anos 1960, meu escritório ia de vento em popa. Jorge tinha um estúdio de médio porte. Ninguém tinha escritório grande: só Rino Levi, Hélio Duarte e Warchavchik. Jorge começou a me assediar, pois eu já tinha ganho alguns concursos. Ele me convidou para o concurso de um hotel no Guarujá, que ganhamos mas não levamos, pois não foi construído. No escritório dele trabalhavam várias pessoas, mas ninguém sabia fazer planta. Eles estavam projetando o Center 3, mas não conseguiam sair do zero.

Jorge me convenceu a me tornar seu sócio em 1960, mas pouco mais de um mês depois ele disse que eu teria que ser empregado, por causa da falta de registro no Crea. Fiquei até 1966 no escritório, onde eu fazia de tudo: anteprojetos, perspectivas, contrato, cobranças. Fui eu, por exemplo, que briguei pelo projeto da Hebraica, e consegui também quatro escolas públicas.

Mas eu tinha um complexo terrível por não ser formado. E me dediquei a estudar coisas teóricas com muito mais afinco: preparei-me para não precisar me formar.

 
E quando o senhor se formou em arquitetura?

Eu me formei em 1973, em Mogi das Cruzes. Foi interessante, pois troquei idéias com pessoas mais jovens. Newton Mesquita foi meu colega de turma. Pegava carona com meus professores: Marlene Yurgel, Eduardo Corona e outros.

 
A partir de 1970, o que o senhor acha mais significativo em sua obra?

Nessa época, realizei vários projetos, pois a economia andava bem. Gosto muito do prédio da Sharp. Fiz também projetos para o governo, como a sede da Fundacentro, em Pinheiros, e, por último, o prédio da Faria Lima, de que gosto muito. Recentemente, fiz o Jaraguá, consegui retomar a obra do Anhembi e estou com duas unidades do Sesc, em São Paulo.

E desfrutei de muitas alegrias profissionais, como ter uma obra minha estudada na FAU/USP. Sempre tive a maior admiração pela instituição. Todos os meus amigos davam aula lá, como Paulo Mendes da Rocha, Pedro Paulo, Artigas, Joaquim Guedes.

E a cadeira de tecnologia da construção escolheu a obra do Sesc Santana como exemplo para os alunos. Como atualmente é muito difícil levar os estudantes para o canteiro de obra, a escola filma. Eles estão acompanhando a obra semana a semana.

 
O senhor está cursando o doutorado na FAU/USP, não?

Comecei agora. Terei algumas regalias pela minha idade e experiência, mas preciso cumprir todos os créditos.

 
E sua ligação com Artigas?

Ele foi uma espécie de pai cultural. Desde que vim para São Paulo, fiz amizade com ele, que era também do Partidão. Ele nunca ligou para o fato de eu não ter diploma. Quando lhe falei que ia para faculdade, respondeu: “Você poderia fazer outra coisa...”.

Meus detratores diziam que eu era ex-desenhista de Artigas. Só fiz um croqui para ele, no projeto do estádio do Morumbi. Artigas estava montando a perspectiva de outro ângulo. E ele ganhou o concurso por causa desse croqui.

 
Quem o senhor admira na arquitetura brasileira atual?

Tenho um compromisso de geração, uma ligação com o grupo que Artigas liderou: Paulo Mendes da Rocha e Pedro Paulo de Melo Saraiva, entre outros. Gosto muito do trabalho de Marc Rubin e de João Walter Toscano. Décio Tozzi é um ótimo arquiteto. Admirava a arquitetura do Telésforo Cristofani. Também gosto muito do que Guedes faz: ele é uma pessoa mal interpretada, um artista especial, que tem uma obra original e não admite concessões. Do pessoal mais novo, gosto de Carlos Bratke.

 
E na arquitetura internacional?

Eu a acompanho na medida do possível. Não deixo de gostar de Renzo Piano, de Richard Rogers. E Frank Gehry tem uma proposta original.

 
O que o senhor acha da expansão de São Paulo?

A oferta imobiliária é refém de um grande descontrole. Na Vila Olímpia, por exemplo, construíram muitos prédios de escritórios e grande parte está desocupada. Agora começaram a construir edifícios de apartamentos. Mas Vila Olímpia é um ponto de diversões noturnas: você imagina morar aqui?

 
Falando em edifícios residenciais, o que o senhor acha dos projetos denominados neoclássicos?

Essa palavra é muito generosa para definir esses prédios. Eu chamaria de neoclássico o prédio dos Diários Associados, a Biblioteca Municipal, ambos de Jacques Pilon. Artigas, por exemplo, é um clássico da arquitetura moderna.

Esses prédios atuais não copiam nada clássico: é uma coisa absurda fingir que têm uma mansarda. Essa palavra saiu da cabeça de um publicitário. São coisas escandalosas.

 
 
Por Fernando Serapião e Silvério Rocha
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 289 Março de 2004
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