|
|
 |
 |
|
 |
|
| Fábio
Penteado |
"Como paisagem urbana,
São Paulo é de uma
tristeza absoluta" |
|
|
 |
 |
| |
 |
| |
Nascido
em Campinas, em 1929, Fábio Moura Penteado formou-se
em 1953, na Faculdade de Arquitetura Mackenzie. Entre
seus principais trabalhos em arquitetura estão
ainda o Centro de Convivência Cultural de Campinas
(1967) e o Hospital-Escola da Santa Casa de Misericórdia
(1968), transformado há poucos anos em fórum. |
| |
|
| |
 |
| |
|
| |
 |
| |
Na tela de Gontran Guanaes
Netto, os retratos de Fábio Penteado e Vilanova
Artigas se superpõem ao Monumento de Playa Girón,
em Cuba. Penteado ficou em segundo lugar
no concurso realizado em 1962 para
o projeto desse marco |
| |
|
| |
 |
| |
|
| |
 |
|
 |
 |
| |
Aos 75 anos,
Fábio Penteado não perde a veia crítica
moldada ao longo de anos dedicados à imprensa de
arquitetura, à prancheta (é autor de célebres
projetos, como a sede da Sociedade Harmonia de Tênis,
em São Paulo, 1964) e à ativa militância
em entidades da categoria. Ele continua questionando verdades
cristalizadas - como a expressão "escola paulista".
Entre 1956 e 1962 foi editor da coluna de arquitetura
da revista Visão, onde escreveu cerca de 150 artigos.
De 1966 a 1968 foi presidente do IAB/DN. Em 1993, presidiu
a 2ª BIA. É quase certo que os anos de trabalho
na Visão - considerada a mais importante revista
de informação do país nos anos 1950
e parte da década de 1960 - tenham influenciado
sua formação intelectual. Anos depois, ele
fez parte do grupo que deu início à revista
PROJETO, origem da atual PROJETODESIGN.
Para tratar desses e de outros temas, Penteado recebeu
PROJETO DESIGN em sua residência, um apartamento
em prédio projetado por ele há 45 anos. |
| |
| ESCOLA PAULISTA |
| |
| Há 20 anos, o senhor pôs
em xeque a expressão escola paulista. Hoje é
pertinente falar em escola paulista e escola carioca de
arquitetura? |
Não. Também não
sei se seria há 20 anos, porque tudo que se
possa falar de arquitetura nasceu e se desenvolveu
no Rio de Janeiro, que foi sede do Império
e capital da República. A cidade sempre teve,
além do espaço aberto para o mar e o
contato com a natureza, palácios, praças
e espaços públicos diferenciados. Ao
contrário de São Paulo.
Com a arquitetura já se aproximando da modernidade,
o Rio teve muita sorte de contar com pessoas como
Lúcio Costa e Gustavo Capanema, que participava
das discussões e tomou parte na formação
do patrimônio histórico. Havia convivência
de pessoas de altíssimo nível que se
interessavam em discutir as coisas da arquitetura.
|
| |
| Em que momento isso se perdeu? |
O Rio de Janeiro sofreu grande abalo
com a transferência da capital para Brasília.
O desenvolvimento da cidade levou um baque enorme
e a arquitetura ficou meio congelada. A implantação
da nova capital provocou impacto não só
na mídia brasileira, mas em todo o mundo.
|
| |
| O senhor disse que o Rio tem espaços
públicos diferenciados. E São Paulo? |
Como paisagem
urbana, São Paulo é de uma tristeza
absoluta. O parque Ibirapuera, por exemplo, era quase
três vezes maior do que hoje. Durante várias
gerações de políticos, qualquer
um que pedisse um pedaço daquela área
recebia. Os mais recentes contemplados foram o Exército
e a Assembléia Legislativa.
A praça Roosevelt é um exemplo clássico
da tragédia urbana paulistana. A própria
obra do quarto centenário, no parque Ibirapuera,
muito bonita como arquitetura, ninguém sabia
para que serviria quando ficou pronta.
As sedes de governo em São
Paulo brincam com o ridículo. Nunca
houve um espaço público que pudesse
representar condignamente, em termos de arquitetura,
o governo de uma cidade. Essa é a história
de São Paulo. Ao contrário do Rio, que
sempre teve natureza e espaços arquitetônicos
interessantes, São Paulo nunca os apresentou.
|
| |
| O baque sofrido pela arquitetura
carioca, a que o senhor se referiu, se deveu ao problema
econômico da transferência do poder para Brasília
ou ao próprio esgotamento da escola carioca? |
Difícil dizer que ela se esgotou.
O que ocorreu foi uma interrupção. Depois
desse baque, houve um enfoque direto para Brasília.
Os arquitetos mais jovens da época eram de
uma geração que parou. E a geração
seguinte não tinha bem para onde ir. Talvez
ela buscasse se referenciar em Brasília, mas
sem ter um campo de atuação profissional
no Rio. Houve uma redução notável
do processo de crescimento na cidade.
|
| |
| Nessa época, o que ocorria
em São Paulo? |
Quando aconteceu
Brasília, São Paulo dormia no assunto
arquitetura. E essa época eu conheci.
Eu me formei em 1953, e em 1956 comecei a conviver
no IAB de São Paulo, onde cinco ou seis homens
notáveis davam parte do tempo de suas vidas
para discutir arquitetura, para levá-la para
as ruas e transformá-la em profissão.
|
| |
| Quem compunha esse grupo? |
Ícaro de Castro Mello, Eduardo
Kneese de Melo, Luís Saia, Vilanova Artigas,
Oswaldo Bratke e alguns outros. Eles faziam um esforço
tremendo, mas com resultados muito pequenos. Era um
esforço - como escreve Mônica Junqueira
de Camargo - que o arquiteto fazia para começar
a vender projeto, vender papel. Porque mesmo esses
que estou citando, pouco antes desse período,
exerciam a profissão construindo. E, geralmente,
não faziam arquitetura moderna, mas o que o
mercado solicitava.
|
| |
| Em que momento a arquitetura paulistana
despertou? |
Em São Paulo, nessa mesma
época, ou logo depois, o governo de Carvalho
Pinto [1959/63] fez um plano de ação
e num só ano contratou 400 projetos de arquitetura.
Obviamente, houve uma enxurrada de projetos improvisados,
porque não havia cultura de conhecimento nem
informações.
Tanto que, das centenas de trabalhos realizados, um
balanço equilibrado vai constatar que uma soma
enorme de dinheiro foi empregada em projetos duvidosos
quanto a sua importância como obra pública.
Aí já começava a surgir a geração
mais jovem, que, na minha opinião, também
não sabia fazer esses projetos.
Brasília gerou uma
expectativa entre os arquitetos, principalmente os
mais jovens. O próprio presidente Juscelino
Kubitschek costumava dizer: “Ousai, ousai, ousai”.
Então, por falta de experiência, projetaram-se
algumas tragédias arquitetônicas. Isso
tudo foi consertado aos poucos.
|
| |
| Então a chamada escola paulista
foi “inspirada” pelo governo? |
Ela aconteceu dessa maneira devido
a uma explosão da demanda de obras por parte
do governo. No entanto, ela estava muito ligada a
uma interpretação duvidosa, que era
a predominância do uso do concreto.
|
| |
| Por que duvidosa? |
Porque passou a ser uma forma caipiríssima
de interpretar. Tudo era concreto aparente: coisas
medíocres e medonhas, só porque eram
de concreto aparente, estavam dentro dessa escola.
Nos concursos de arquitetura, os trabalhos já
eram desenhados em concreto aparente, que virou um
dogma. Imagine uma seqüência de tudo em
concreto, capenga, brutalista.
No grande conjunto dessa arquitetura
chamada paulista, há pouquíssimas coisas
com começo, meio e fim. Acho que é essa
diferença entre o Rio de Janeiro e São
Paulo.
|
| |
| Na escola em que o senhor estudou
não se falava em arquitetura moderna? |
Estudei no Mackenzie, que é
uma escola fantástica, mas onde qualquer modernidade
era vetada. O diretor, Christiano Stockler das Neves,
proibia que fossem citados os nomes de Le Corbusier
e Oscar Niemeyer. Para ele, o que os dois faziam era
arquitetura comunista.
Mais tarde, depreendi que, na verdade, o professor
Cristiano não manifestava sua idéia,
mas representava o grupo dominante da cultura paulista.
Na FAU/USP havia professores
mais atualizados e já se discutiam aspectos
da modernidade.
|
| |
| Entre os alunos do Mackenzie havia
essa discussão? |
Até certo ponto. Porque, quando
eu estava no terceiro ano, um grupo de colegas que,
como eu, entendia que eram notáveis aqueles
homens do IAB se reunia na sala de desenho artístico,
para desenhar, conversar, discutir e ler revistas.
Faziam parte dele Jorge Wilheim, Telésforo
Cristofani, Roberto Aflalo, Alfredo Paesani, Pedro
Paulo de Melo Saraiva, Paulo Mendes da Rocha e, principalmente,
Carlos Millan.
Considero esse grupo tão interessante, em termos
de geração, como aquele do IAB. No Mackenzie,
esses estudantes foram de importância fundamental.
Esse contato me despertou interesse para o que devia
ser um cotidiano que nunca tinha visto.
|
| |
| Nesse sentido, os estudantes foram
mais importantes que os professores? |
Em certo instante, sim. Como a escola,
com seu critério, não dava todas as
informações, teríamos nos formado
sem conhecimento. Isso foi muito importante para mim
também depois, como professor e dirigente da
entidade dos arquitetos. Sempre discuti na linha do
que tinha aprendido, com a absoluta obrigação
de conhecer os opostos.
|
| |
| JORNALISMO E
ARQUITETURA |
| |
| Pouco tempo depois de formado o
senhor foi convidado para escrever na revista Visão.
Como isso ocorreu? |
Nahum Sirotsky, diretor da revista,
expôs no IAB a idéia de modernizar a
revista, criando quatro seções: arquitetura
e urbanismo, agricultura, energia atômica e
medicina. Quando Sirotsky terminou seu discurso, fiz
uma pergunta.
Mais tarde ele me telefonou, fui a seu encontro e
ele me convidou para ser o editor de arquitetura.
Eu lhe disse que não entendia nada de arquitetura
nem de jornalismo, e ele respondeu que era isso mesmo
que queria. Foi um desastre para mim, mas me obrigou
a falar com arquitetos e a escrever sobre arquitetura,
principalmente traduzindo-a em uma linguagem fácil
de ser compreendida por leigos.
|
| |
| Como o senhor desempenhava essa
atividade? |
Só aceitei o trabalho porque
aquela turma do IAB me permitiu que o fizesse como
representante da entidade. Era como copiar o modelo
daqueles arquitetos notáveis para divulgar
a arquitetura. Se aparecesse um projeto com alguma
qualidade, em qualquer lugar do Brasil, eu publicava.
Isso me fez conhecer, ler muito e, principalmente,
interpretar. Acho que desenvolvi um bom trabalho.
|
| |
| Anos depois, o senhor voltaria a
se ligar a uma publicação, com a criação
da revista PROJETO. Em que circunstâncias isso ocorreu? |
Em 1975, Vicente Wissenbach ia editar
um jornal chamado Arquiteto. Ele precisava de um diretor
que fosse jornalista e arquiteto e me convidou. Perguntei
o que ganharia e o que perderia. Ele disse que eu
não ganharia nada, e, se alguém fosse
preso, seria eu. Aceitei.
No jornalismo, é fundamental o respeito a datas
e prazos. Mas como havia o direito do IAB, que era
o proprietário do título do jornal,
eles atrasavam. Ia tudo muito mal. Propus a Vicente
um truque que eu já conhecia: dentro do Arquiteto
foi criado um módulo chamado PROJETO, que começou
a captar anúncios, enfraquecendo a base do
IAB, até sair sozinho como o jornal PROJETO
e depois se transformar em revista, da qual fui diretor.
|
| |
| O senhor participava do dia-a-dia
da revista? |
Fui diretor, mas, na verdade, não
trabalhava. A publicação tinha uma proposta
diferente. Se eu escrevesse na revista, teria que
comentar projetos de colegas, enquanto na Visão
minha função era comunicar a arquitetura
a outro público. Nunca tive vocação
para fazer crítica arquitetônica.
|
| |
| Como arquiteto/jornalista, qual
sua avaliação das publicações
brasileiras de arquitetura? |
Avalio pelo que é apresentado.
E tem havido avanço de qualidade na divulgação
e na informação da arquitetura. Claro
que isso depende da produção que existe
e da qual se pode dispor para comunicar.
|
| |
| OBRAS REALIZADAS |
| |
| O senhor é autor de obras
emblemáticas. Algumas estiveram envolvidas em paralisações
ou outras polêmicas. O clube Harmonia, por exemplo,
parece ter sido salvo pelo tombamento. |
Não sei se foi salvo. O Harmonia
é muito fechado e pretensioso. Aquele edifício
é a negação de tudo que o clube
desejava para sua sede. Mas houve um concurso, em
1958, e meu grupo ganhou. Porém, foi encomendado
outro projeto, mais de acordo com a linha de pensamento
predominante no clube.
Em 1964, quando já haviam implantado parte
desse projeto e iam começar a sede, constataram
que ele era impraticável. Fiquei sabendo disso
por meio de um conselheiro que era meu amigo e o convenci
a distribuir entre os membros do conselho - mais ou
menos cem pessoas - dez exemplares da revista Acrópole
que tinha meu projeto na capa. Houve surpresa, porque
ninguém conhecia o trabalho.
Esse meu amigo propôs então que eu fosse
convidado a participar novamente. Houve confusão,
porque já existia até candidato a fazer
tudo. No final, fizeram um novo concurso, do qual
participaram o autor do projeto que tinha parado,
Anhaia Melo, e eu.
|
| |
| O senhor desenvolveu um novo projeto? |
Aproveitei a idéia anterior
e fui detalhar meu projeto escondido, no escritório
de Eurico Prado Lopes, na avenida Paulista, porque
houve ameaças e tive que fechar meu escritório.
O júri me deu a vitória, mas era, novamente,
uma proposta que não representava o pensamento
do clube. Não foi fácil, mas a diretoria
conseguiu construir. Depois de pronto, sempre surgiam
tentativas de alterá-lo.
Eu era sócio do Harmonia e em determinada época
solicitei a relação de associados, para
me manifestar contra as alterações que
pretendiam fazer. Não só não
me mandaram a lista como ainda entraram com uma ação
contra mim, que, aliás, eu ganhei. Então
um grupo de amigos começou a solicitar o tombamento
do prédio, o que consolidou toda a coisa.
|
| |
| O projeto do hospital da Santa Casa,
de sua autoria, transformou-se em fórum criminal.
Como o senhor avalia a modificação? |
A obra era para atender a população
pobre de São Paulo. Não a mais pobre,
mas a da pobreza absoluta. Isso faz mais de 30 anos.
A Santa Casa havia recebido o terreno em doação,
corria o risco de perdê-lo, e precisava apresentar
uma proposta em prazo muito curto. Uma das pessoas
que orientava a instituição e me conhecia
pediu um estudo, que devia ser realizado em 40 dias.
Já no estudo levantei a questão do atendimento
àqueles que não têm nem documento
para entrar numa fila do INSS. Nasceu então
a idéia de um hospital horizontal, que não
despertasse medo nas pessoas. Adotamos ali proposta
semelhante à de uma pequena cidade.
|
| |
| Por que a obra foi interrompida?
|
O dinheiro para começar a
obra veio do governo federal, mas o fluxo de verbas
se interrompeu e a construção parou.
A edificação esteve para virar hospital
municipal e em certa época - me disse o provedor
geral da Santa Casa - a TFP [a organização
religiosa radical Tradição, Família
e Propriedade] quis comprá-la para fazer ali
uma universidade. Por fim, tornou-se fórum
criminal. Amigos meus fizeram essa adaptação.
|
| |
| O senhor visitou o prédio
depois de ocupado pelo fórum? |
Uma vez. A sensação
foi terrível.
|
| |
| Qual sua opinião sobre a
criação do Colégio Brasileiro de
Arquitetos? |
O colégio é uma pretensão
da classe há mais de 50 anos. Existe na Espanha,
por exemplo, mas lá o arquiteto é responsável
pela obra. No Brasil a adoção desse
modelo seria problemática, pois envolveria
a massa dos arquitetos formados nas quase duzentas
escolas hoje existentes. Ao mesmo tempo, o Confea
e o Crea são entidades inadequadas, que arrecadam
dinheiro para todas as finalidades, menos a de desenvolver
a profissão do arquiteto.
O colégio pode vir a ser implantado, mas isso
não deve acontecer muito facilmente, porque
o Confea tem fortes lobbies no Congresso Nacional.
Além disso, será preciso uma liderança
muito positiva, que leve o Colégio Brasileiro
de Arquitetos a propiciar o desenvolvimento e aprimoramento
da profissão.
|
| |
| Quais projetos o senhor desenvolve
atualmente? |
Há um projeto importante,
que é a restauração da biblioteca
Mário de Andrade.
|
| |
Como está sendo trabalhado
esse espaço?
O senhor terá oportunidade de tratá-lo de
forma diferente? |
Não. Fui contratado para uma
parte do projeto, que era abrir a biblioteca para
a praça. Eu sonhava com a idéia de que
as pessoas pudessem ler jornal e tomar um café
na praça; a prefeitura poderia entrar em acerto
com a Galeria Metrópole para fazer do local
uma praça de cultura, com muitos barzinhos
em volta. Mas as limitações são
totais. Há o tombamento do edifício
e da praça.
Com isso, a ampliação do depósito
de livros foi feita junto à rua da Consolação,
em quatro subsolos. Se isso é adequado? As
informações que tenho quanto à
adequação são satisfatórias.
Estamos cumprindo aquilo que foi possível.
|
| |
| |
Por Adilson
Melendez e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 290 Abril de 2004 |
|
|