Décio Tozzi
“A arquitetura não pode ficar respondendo a essa realidade histórica com um predinho e seu pilotis”
 
  “O caráter experimentalista nunca existiu
na arquitetura moderna. Existe, sim,
um movimento de mudança que representa
um salto em toda a proposta modernista e que, na arquitetura, teve seu centro em São Paulo”
   
 
  “Estamos num momento do pós-indústrial,
de uma economia molecular, que congrega, centraliza e superpõe funções. E essa é a
nova arquitetura da metrópole. A arquitetura não pode ficar respondendo a essa realidade histórica com um predinho e seu pilotis”
 
O meio-campo do Corinthians talvez tenha perdido um jogador de futuro. Em compensação, o ataque da arquitetura brasileira teria sido menos expressivo caso Décio Tozzi tivesse escolhido o esporte como profissão - na década de 1950, ele foi convidado a atuar nas divisões de base do clube paulista.

Criado num ambiente culturalmente rico, Tozzi optou pela arquitetura e formou-se pela FAU/Mackenzie em 1960. Criador de trabalhos como o parque Villa-Lobos, em São Paulo, ele é autor (junto com Karla Albuquerque) do Fórum Trabalhista Ruy Barbosa, complexo jurídico recém-inaugurado na capital paulista.

O arquiteto recebeu PROJETODESIGN em seu apartamento, em São Paulo, onde falou, entre outros temas, sobre a escola paulista, a arquitetura como uma nova proposta e solução espacial para a sociedade pós-industrial metropolitana e o método que o ajudou a desenvolver o projeto da sede do TRT. “Acho que [o prédio do fórum trabalhista] é um sopro bom no momento arquitetônico brasileiro”, ele avalia.
 
ESCOLA PAULISTA
 
Em entrevista recente a PROJETO DESIGN, o arquiteto Fábio Penteado questionou a propriedade da expressão escola paulista para designar uma corrente arquitetônica. O senhor concorda com ele?

Certamente, escola paulista não quer dizer uma exclusividade de São Paulo como manifestação de determinado momento da arquitetura brasileira. Ocorre, porém, que, em toda a etapa modernista, jamais foram questionadas as relações espaciais como correspondentes a relações sociais antiquadas.

E, encerrado o ciclo da arquitetura moderna - do qual Brasília talvez seja o cume -, existia um enfoque que mergulhava exatamente no questionamento das estruturas espaciais existentes na casa, na escola e nos diversos edifícios, diretamente ligado à antropologia, ao modo de vida da sociedade.

Acredito que foi o grupo de São Paulo, liderado por Vilanova Artigas e outros, o difusor dessa preocupação, logo seguida pelas novas gerações, como as de Joaquim Guedes, Carlos Millan e Paulo Mendes da Rocha, e, mais recentemente, por minha geração. O questionamento das relações espaciais, da correspondência entre arquitetura e sociedade, é um grande mérito do grupo de São Paulo.

 
Essa preocupação não existia em outras cidades ou estados?

Não vimos esse tipo de questionamento em nenhum estado do Brasil, no período moderno. O enfoque era para a difusão da nova arquitetura em termos de técnica, de forma.

Mas esse levantamento de programa, da correspondência entre nova sociedade e nova arquitetura, surgiu no movimento liderado pelo grupo de São Paulo, que foi onde se desenvolveu o caráter interdisciplinar no sentido mais vivo, mais questionador. Se esse movimento não é paulista, é porque toda a cultura brasileira estava sendo questionada.

 
A tentativa de renovação não repercutia na arquitetura brasileira?

O caráter experimentalista nunca existiu na arquitetura moderna.

Quando se propõe uma relação espacial nova, está-se experimentando e afirmando que a relação existente não é uma verdade definitiva. Esse experimentalismo é interessante e deve estar sempre presente na arte.

Então existe, sim, um movimento de mudança que representa um salto em toda a proposta modernista e que, na arquitetura, teve seu centro em São Paulo.

 
Passados 40 anos, como deve ser avaliada a produção dos arquitetos que participaram desse momento?

Cada um deu um salto compreendendo o momento histórico e foi evoluindo de acordo com as possibilidades de mudança da sociedade. Aquele foi um período de armação.

Veja a diferença que representa sair do pilotis com pastilha, com a veneziana que corre - e a elegância da escola carioca é muito interessante nesse sentido -, e encarar francamente os materiais, com as possibilidades de abrir seu repertório para experimentar.

Aquele momento serviu a todos os arquitetos como aprendizado do ofício. E tanto mais se aprende o ofício quanto mais é verdadeira a arte e francos os materiais, como as propostas daquele tempo. O método é que fica.

Os arquitetos que se impregnam teórica e esteticamente desse método o levam até o fim da vida. É o mesmo método que obriga, em cada tema que se adentra, a procurar os significados no tempo, fazer seleções e então propor um conceito. Porque não acredito que haja desenho sem conceito. A forma pela forma exaure a si mesma, ela só pode vir de um conceito.

 
O questionamento da correspondência entre a espacialidade e as relações sociais teve continuidade?

Houve um corte em todo esse processo quando o desenvolvimento da pesquisa esbarrou em obstáculos intransponíveis, como a ditadura militar, que obturou todos os canais de pesquisa e afastou toda e qualquer hipótese de questionamento.

Em seguida, houve um período de grande consumo, falso, economicamente bastante furado, mas que ocorreu e levou a outros caminhos. Mas, como eu disse, o método fica. No meu caso, o TRT é um exemplo.

 
FÓRUM TRABALHISTA
 
Quando e como o senhor foi contratado para projetar o fórum trabalhista?

Em 1992, fomos chamados pela Incal Incorporadora para participar com eles da concorrência, cujo edital foi publicado no Diário Oficial, para a implantação do fórum. A proposta tinha que ser apresentada em 30 ou 40 dias.

Em primeiro lugar, fomos pesquisar os fóruns existentes e vimos que estavam um desastre, funcionando em condições extremamente precárias, em prédios adaptados. Escolhemos então o local e partimos para o projeto.

 
Não existia um terreno definido para o projeto?

Não. Era uma concorrência integrada e uma das notas no julgamento referia-se à escolha do terreno. As empresas podiam participar com terreno limpo e projeto, prédio iniciado mostrando as adaptações, estruturas existentes ou prédios prontos adaptados. Eles aceitavam qualquer proposta, que seria avaliada no final.

Foi escolhido o terreno da Barra Funda - e muito bem escolhido - em função do nó intermodal de transportes.

 
Como o senhor aplicou no projeto do fórum o método a que se referiu anteriormente?

A questão que se colocava dentro daquele método era a seguinte: o que seria, na sociedade de massa, democrática, centralizada e metropolitana, um fórum? Os modelos anteriores obedeciam aos Grand Prix de Rome, seguidos por nossa arquitetura positivista, como o fórum da praça da Sé [projeto de Ramos de Azevedo].

Os fóruns eram edifícios de caráter autoritário, cuja suntuosidade não procurava nenhum contato com a massa. O que os caracterizava era o hall solene, majestoso, com materiais extremamente ricos denotando o caráter autoritário da Justiça - que, na verdade, correspondia ao caráter autoritário da própria sociedade.

 
Qual a repercussão dessas reflexões no desenho do edifício?

Deveríamos encontrar um desenho que pudesse corresponder a uma nova visão da Justiça. Essa idéia de novo significado nos interessava porque estava dentro de nossa linha de trabalho.

Em contraponto ao caráter solene, majestoso e suntuário da arquitetura desses edifícios, queríamos encontrar um desenho - mesmo com a escala que ele tem e que também era instigante para nós - que desse um novo sentido ao fórum.

A primeira coisa que pensamos foi exatamente por causa da característica do modelo weberiano de sociedade industrial, que coloca a centralização como um dos pilares da urbanização. Pensamos então numa verticalidade que não fosse apenas a elevação em altura sem uma nova expressão formal.

 
PARTIDO ADOTADO
 
Como se chegou ao partido adotado?

Não nos interessava apenas a verticalização, o aumento brutal de área, do fluxo de pessoas, sem uma nova disposição espacial, uma nova leitura do edifício. Era importante a verticalização, como resposta direta à centralização da sociedade pós-industrial e metropolitana. Mas também era importante que essa verticalização trouxesse hierarquização de funções.

Isso tornou o desenho muito instigante. Tínhamos que encontrar um partido que significasse a nova forma de organizar um fórum em uma sociedade centralizada.

Conceituado como vertical e hierarquizado em funções, o antigo hall solene passou a ser tratado como uma praça urbana integrada à cidade da maneira mais franca possível. E, existindo a possibilidade de um grande espaço, a tecnologia moderna permitiu que todos os andares verticais hierarquizados se debruçassem sobre ele.

Surgiu daí uma escala extremamente fácil de leitura do prédio, que não tem o caráter da monumentalidade e suntuosidade do antigo órgão autoritário da Justiça.

 
Essa abordagem teve reflexo na organização interna do complexo? Como ela ocorre?

Temos os espaços de equipe e direção, os espaços operacionais e os de serviços compondo a hierarquização dos volumes verticalizados. Os espaços de apoio para todos os andares estão na periferia, importante para a flexibilização do conjunto.

Colocamos então quatro prédios de serviços, organizados dois a dois, com as linhas das lajes livres. É interessante que esses blocos sustentam e travam essas lajes. Temos então uma síntese estrutural. Não é mais o pilar e a empena, mas os predinhos que servem de travamento. A escala aumentou. Isso foi mais instigante para o desenho.

 
A praça da Justiça, coberta, é o grande momento do projeto. O senhor concorda com essa percepção?

Consegui formular esse espaço trazendo o elemento da renda na cobertura de vidro. Temos uma praça de 50 x 50 metros, coberta de vidro a 70 metros de altura.

A praça é efetivamente da cidade, não apenas simbólica, porque de um lado há uma agência bancária e do outro uma área de alimentação. Abaixo dela há um auditório para 500 pessoas. Na praça temos livraria, posto de correio e telefônico.

Qualquer pessoa pode entrar, comer, ir ao banco, comprar um livro, ir aos postos telefônicos, ao correio etc. Enfim, é uma praça da cidade, só que não chove, não venta e dá para ver o céu. Há uma integração não só com a cidade, com prolongamento do piso, mas também com relação à atmosfera. É uma praça interessante, uma proposta que outros empreendimentos podem adotar.

 
Essa solução pode ser aplicada em qualquer tipo de edifício?

Hoje não devemos mais pensar no predinho isolado, típico da economia atomizada. Estamos num momento pós-industrial, de uma economia molecular, que congrega, centraliza e superpõe funções. E essa é a nova arquitetura da metrópole.

Através de um tema, pode-se metaforizar para que se criem novas idéias ou pelo menos provocar uma discussão que se possa entender como a estética franca do concreto, do vidro. Não precisa ser só a lajinha e o vidrinho.

Pode-se ter um novo conceito e uma proposta nova de apropriação e solução espacial para uma nova realidade, a da sociedade pós-industrial metropolitana. A arquitetura não pode ficar respondendo a essa realidade histórica com um predinho e seu pilotis.

Um complexo como o do fórum poderia ter mais quatro blocos e ficaria um espaço igualmente bonito. Quanto mais vertical, mais bonito. Poderia ter residências, comércio, serviços. E se o metrô chegasse embaixo, maravilha. Já saía na praça.

Uma praça pública, uma grande obra, mas ao mesmo tempo confortável. É a nova cidade. Ela permite pensar tudo isso.

 
A praça é o elemento articulador do espaço, mas os blocos também se comunicam por rampas. Isso era uma necessidade do programa?

Um dos grandes problemas desse projeto, que tem caráter macro, é a afluência de público. Do meio-dia às cinco da tarde, entrarão e sairão desse conjunto de 15 mil a 20 mil pessoas. É como se uma pequena cidade do interior chegasse e saísse em cinco horas. Há 20 elevadores de alta velocidade.

Como os advogados participam de várias audiências num mesmo dia, dificilmente conseguiriam chegar em todas a tempo se dispusessem apenas dos elevadores. Então, o conjunto de rampas cruzadas foi fundamental.

O fórum foi um desafio muito grande a que, felizmente, conseguimos responder com o desenho, porque foi conceituado com todo esse raciocínio, essa meditação, que é o método.

 
A história da construção esteve envolvida em escândalo de desvio de verbas. O senhor teme estar associado a uma obra que tem essa fama?

Um fato diz tudo sobre isso. No dia da inauguração, havia de 4 mil a 5 mil pessoas presentes. Simbolicamente, nos dois níveis de rampas estavam os operários uniformizados.

Além da comunidade jurídica e arquitetônica, o povo também estava lá, porque foi uma cerimônia aberta. Durante os discursos, dois grupos foram aplaudidos de pé: arquitetos e operários.

 
O fato de a construção estar associada a um escândalo prejudica um pouco a leitura da qualidade da obra?

Em termos vulgares, até pode ser. Mas não é a primeira vez que isso acontece na história da arquitetura brasileira.

Aqui em São Paulo, tivemos dois casos notáveis: a Assembléia Legislativa e o Memorial da América Latina, que está sub judice. Mas em nenhum desses fatos está a mão do arquiteto. Por quê? Porque o arquiteto faz o projeto. Uma vez ele feito, e sendo bom, é o contratante que adquire a obrigação de construí-lo.

A participação do arquiteto nesse processo todo não é em nenhum momento ligada a essas coisas. No fórum não há nenhum problema em relação à arquitetura nem com a engenharia, muito bem executada tanto pela Incal como pela OAS, que concluiu a obra.

 
 
Por Adilson Melendez e Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 291 Maio de 2004
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