Massimiliano Fuksas
curador da Bienal de Veneza
“A bienal de arquitetura deveria ser um evento popular, com a participação de artistas como Madona”
 
  Massimiliano Fuksas é arquiteto formado pela Universitá La Sapienza, em Roma. onde nasceu, em 1944. É professor da Akademie der Bildenden Kusten, de Viena, e consultor das comissões urbanas de Berlim e Salzburgo. Fuksas é autor de obras de vulto, como os complexos esportivos de Anagni e Paliano, o cemitério de Acuto, a Prefeitura de Cassino, na Itália, e a entrada da Caverna de Niaux, na França.
   
 
  "Até hoje a mostra só interessou arquitetos e profissionais ligados à área. Despertar a atenção das pessoas para a arquitetura É ajudá-las, educá-las, fornecer-lhes um meio de comunicar-se. A linguagem normalmente usada na arquitetura é um dialeto incompreensÌvel para a maior parte das pessoas"
 
As dimensões físicas e a longa duração (de 15 de junho a 31 de outubro) não são as únicas inovações introduzidas na Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza pelo curador-geral Massimiliano Fuksas. O arquiteto, nascido em Roma em 1944 e conhecido por suas múltiplas atividades e projetos inovadores, “democratizou” a mostra por meio de página na Internet www.labiennale.org, onde as discussões e propostas puderam ser acompanhadas um ano antes da abertura do evento. Nesta entrevista, realizada em seu estúdio em Roma, Fuksas fala da mostra de arquitetura de Veneza e das políticas urbanas atuais.
 
O que mudou na 7ª Mostra de Arquitetura da Bienal de Veneza em relação às anteriores?

A bienal já existe desde o ano passado por meio da página na Web. Essa experiência foi muito interessante, porque a Internet se tornou, de fato, a aldeia global, o que, obviamente, se refletiu no resultado da bienal. Em nosso site temos a exposição on-line, o fórum de idéias, as videoentrevistas e o concurso de projetos, cujo tema - Menos Estética, Mais Ética - é o mesmo da bienal. Recebemos para o concurso, pela Internet, cerca de 1 500 propostas de várias partes do mundo. As mais interessantes estão expostas em Veneza. As outras bienais se limitavam a apresentar arquitetos convidados. Na mostra de arquitetura de 1996, por exemplo, Hans Hollein escolheu 36 arquitetos famosos e, em seguida, convidou outros 30 ou 40 menos conhecidos e os colocou no pavilhão da Itália. A edição deste ano é a maior já feita, ocupando toda a parte histórica da Veneza antiga. Tem as dimensões físicas da bienal de artes plásticas e a mesma duração, de quatro meses e meio.

 
O senhor manifestou o desejo de que os arquitetos jovens participassem efetivamente da bienal, bem como os profissionais da Ásia e da América do Sul...

Cerca de 70% dos participantes são jovens e há uma presença efetiva de arquitetos asiáticos, mas da América do Sul são poucos. É muito difÌcil descobrir e compreender a América do Sul, mas precisamos encontrar um meio de conhecer o que está acontecendo ali. Outro ponto importante É o tema da bienal: Menos Estética e Mais Ética. Anteriormente havia no tema a palavra “cidade”, mas ela foi suprimida. Por quê? Porque se sabe que a cidade é o palco dos grandes conflitos e dos grandes problemas, portanto sua presença já está implícita. A ética a que o tema se refere, porém, seria o maior empenho dos arquitetos para melhorar o futuro, no que se refere a meio ambiente, tecnologia, pobreza, falta de água e tantas outras questões. O arquiteto não resolve todos esses problemas, mas pode participar de sua solução. Sabemos também que, se um local é mal construído ou mal planejado, ele não funciona. Portanto, a proposta da bienal é pedir aos arquitetos atos de generosidade, para conseguirmos mudar alguma coisa.

 
Uma das coisas mais interessantes da página da bienal na Internet são as câmeras que transmitem imagens ao vivo de grandes centros urbanos...

Exato, porque minha intenção é transformar a bienal em um lugar de encontro e confronto de inteligências, e não apenas um local onde se fala das calamidades e dos dramas. Na Corderie - um belíssimo corredor de 300 m, com três naves - há 39 projetores de vídeo contando a história das cidades. São grandes imagens, com 300 m de comprimento e 5,5 m de altura. Em alguns momentos, esses 39 projetores produzirão uma imagem única. Há também entrevistas com arquitetos, imagens das cidades, as crises, as cidades em guerra. Há ainda filmes específicos de dez localidades.

 
Pode-se dizer que essa mostra busca aproximar as pessoas da arquitetura e a arquitetura da realidade das pessoas?

Exatamente. Gostaria que ela falasse ao grande público, e penso que a primeira coisa a ser feita é torná-la popular. Outra idéia que gostaria de colocar em prática, mesmo que pareça estúpida, é convidar artistas como Sting e Madona para participar da mostra de arquitetura. Porque até hoje ela só interessou arquitetos e profissionais ligados à área. Despertar a atenção das pessoas para a arquitetura É ajudá-las, educá-las, fornecer-lhes um meio de comunicar-se. A linguagem normalmente usada na arquitetura é um dialeto incompreensÌvel para a maior parte das pessoas, impedindo a participação efetiva da sociedade. Por isso, este ano optamos pelo uso intensivo de modelos e imagens para apresentar os projetos.

 
A realidade social conflituosa existente hoje na Europa ocidental, devido aos diversos movimentos migratórios provenientes, principalmente, da África e do Leste europeu, influenciou na escolha do tema da mostra?

Sim. E mostrou-se um fato importante para aproximadamente 50% dos projetos. Esse é um dos problemas mais abordados pelos arquitetos jovens.

 
Como o senhor acha que os países europeus enfrentarão esse problema?

O país mais avançado nessa questão é a França, onde existe o problema da imigração árabe iniciada há 40 ou 45 anos. Na França vivem aproximadamente 5 milhões de árabes e africanos. Eles foram quase todos trazidos para trabalhar na indústria, como mão-de-obra de baixo custo, em lugar dos operários franceses sindicalizados. Foram construídos para esses imigrantes, nos anos 60 e 70, bairros monstruosos, horríveis. Além disso, com a crise do emprego, o fenômeno da especialização e da nova economia, essas pessoas foram expulsas definitivamente do mercado de trabalho. O Estado francês decidiu ajudá-las e criou uma lei para sustentar os desempregados, o que não foi suficiente para resolver o enorme conflito econômico, social e urbano na organização do território francês.
A Itália encontra-se no ponto de partida desse problema, ou seja, agora precisamos construir as casas para os imigrantes. O drama agora começa no território italiano. Que resposta a Itália deve dar a essa questão? Seremos capazes ou não de projetar, para os refugiados e para os novos imigrantes, casas que componham partes de uma cidade, lugares, bairros? Serão lugares onde se pode viver ou serão guetos? Alguma coisa deve ser pensada e feita, do contrário a Europa não suportará esse problema.

 
Como o senhor vê a influência de tecnologias de comunicação como a Internet nos centros urbanos?

A Internet não é um novo meio de trabalhar, mas um meio de controlar a informação. O problema não são as informações em si, mas seu controle. Com a Internet, um grupo pequeno de pessoas pode gerir uma infinidade de informações e de relações. Descobriu-se também que a informação é mais importante que a produção. Há uma grande demanda por ela em todo o mundo e é nesse sentido que devemos dar uma resposta. Com o site que construímos para a bienal, recebemos 600 mil contatos por mês. Até agora, tivemos cerca de 13 milhões de conexões. Coloquei a bienal na rede porque acredito que a Internet também pode ser usada democraticamente.

 
Quanto ao controle e à democratizaçãdo do acesso à informação, como o senhor avalia a situação atual?

Nós nos encontramos, no início do século 21, em situação semelhante à que estávamos no começo do século 20, quando tínhamos, pela primeira vez na história, muita tecnologia disponível e podíamos usá-la de forma positiva ou negativa. E, após 15 anos, decidiram fazer uma guerra mundial. Hoje, podemos usar a tecnologia de modo a dar informação a qualquer pessoa no mundo, e assim educá-la, ajudá-la. Democracia, hoje, é informação. Ofereceremos aquilo que sabemos e os recursos que temos à maior quantidade de pessoas possível ou continuaremos a restringir esse conhecimento à minoria? Não podemos mais beneficiar a elite, porque se passou um século, somos uma sociedade de massa, a globalização é um fato e temos que enfrentar seriamente o problema, caso contrário seremos vencidos por ele. Não há escapatória. O problema urbano originado na revolução industrial não foi resolvido e nós o adiamos com as guerras, mas ele deve ser resolvido agora. As guerras já não são suficientes para contê-lo, apenas o agravam, e o tempo é muito curto. Não se pode bombardear a Iugoslávia e pensar que nada ocorrerá: as pessoas abandonam seu país, milhares de iugoslavos migram para a Áustria e o partido fascista austríaco assume ao poder.

 
Há alguma solução urbana específica que o impressionou particularmente?

A primeira coisa a ser aceita é o princípio de que uma sociedade deve ser multiétnica, e portanto multilingüística, multirreligiosa, multirracial. Aceitando esse princípio, vemos que as cidades começam a ser interessantes. Em Tóquio, por exemplo, às 5h da tarde todos os empregados saem de seus trabalhos, afrouxam a gravata, desabotoam o colarinho da camisa e vão beber juntos nos diversos bairros, nas partes alta e baixa da cidade. Passa-se de uma escala muito grande a uma escala muito pequena, que é constituída de moradias de madeira tradicionais, circundadas por edifícios altos e moderníssimos. Essa cidade nova que convive e coincide com a cidade antiga é uma das coisas que mais me fascinaram em Tóquio. O sistema de transportes, fundamental para o bom funcionamento de uma cidade, também É muito eficiente lá.

Um segundo fato primordial é que hoje vivemos em sociedades sem identificação com sua história e sua geografia. Hoje, a maior parte dos habitantes de uma cidade não nasceu ali nem conhece sua história. Deve-se, por isso, proteger tanto o lugar do habitante como o habitante do lugar. O lugar deve ser protegido pois quem não o conhece não se identifica com ele e o destrói. Mas é necessário também proteger esse habitante da dominação do lugar. Existem, É claro, casos que deram certo. Nova York É, atualmente, uma das cidades que funcionam melhor no mundo. Creio que isso é consequência do fato de a cidade ter adquirido uma história própria. Ou seja, Nova York tornou-se um local onde as pessoas se sentem em casa. Quando conseguirmos fazer as pessoas se sentirem pertencentes à cidade onde vivem, teremos dado novamente a esse lugar uma geografia - essa é uma palavra importante. E, às pessoas, teremos dado um lugar onde possam viver.

 
Por Cristiana Saboia
(Edição 246 - agosto 2000)
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