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Kisho
Kurokawa
Arquiteto |
| "A missão
dos arquitetos é realizar a arquitetura contemporânea
por meio do diálogo entre as identidades
locais, as tendências globais e a História" |
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Kisho Kurokawa é doutor em arquitetura
pela Universidade de Tóquio
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Nakagin Capsule Tower, em Tóquio,
1972:
um edifício de módulos habitàveis
Fotos: Tomoi Ohashi
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Museu de Arte Contemporânea de
Wakayama, Japão, 1994: diálogo com a História
Foto: Tomoi Ohashi
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Anexo do Museu Van Gogh, em Amsterdã,
1998: espaço intermediário constrói
a relação simbiótica com o antigo
edifício, projetado por Rietveld
Fotos: Sels Clerbout
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Detalhes do Aeroporto Internacional
de Kuala Lumpur, na Malásia,1998: pilares cônicos
simplificam a solução estrutural
Fotos: Tomio Ohashi
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Maquete de Astana, a nova capital do
Kasaquistão. O projeto foi selecionado em concurso
internacional em 1998
Foto: Tomio Ohashi
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Nascido em Nagoya,
em 1934, Kisho Kurokawa era apenas um debutante no mundo
da arquitetura quando fundou o grupo Metabolista, em 1959,
e iniciou seus experimentos formais com os planos da Cidade
hélice para Tóquio, ou da Cidade flutuante para Kasumigaura,
também no Japão. Logo depois lançou a proposta dos edifícios-cápsula,
montados com elementos pré-fabricados, idéia colocada
em prática na Expo 70, em Osaka e na Nakagin Capsule Tower,
construída em Tóquio, em 1970.
A partir daí, manejando com eficiência as ferramentas
do desenho e do marketing pessoal, Kurokawa colecionou
premiações e títulos honoríficos em todos os continentes,
dedicando-se a projetos de edifícios, museus, estádios
esportivos, aeroportos, habitações, mobiliário e mesmo
cidades inteiras.
Convidado para o Seminário Internacional do Docomomo realizado
em Brasília, no final de setembro de 2000, Kisho Kurokawa
expôs suas críticas aos resultados do urbanismo moderno
e apresentou a proposta das "EcoMedia cities", como seu
projeto para Astana, a nova capital do Casaquistão. Nesta
entrevista, concedida no Hotel Nacional, em Brasilia,
Kurokawa fala de seu processo de trabalho, explica a sua
"Filosofia da Simbiose" e analisa os reflexos da globalização
econômica na arquitetura de seu país.
Veja também o site de Kisho Kurokawa www.kisho.co.jp. |
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| O sr. ficou muito conhecido depois
da fundação do Grupo Metabolista e da construção de suas
casas e edifícios formados por cápsulas nos anos 60 e
70. Trinta anos depois, seus conceitos para a arquitetura
e a vida avançaram para a Filosofia da Simbiose. Poderia
explicar o significado de metabolismo e simbiose? |
A idéia de simbiose é mais antiga, as raízes dessa
idéia se fixaram quando eu ainda fazia o curso médio
em minha cidade natal, Nagoya, numa escola muito especial,
fundada há 110 anos. Antigamente esta escola era exclusiva
para a formação de monges budistas, agora é uma escola
aberta, embora seu diretor seja ainda hoje um filósofo
budista. E durante aqueles anos eu absorvi idéias
sobre a coexistência de contrários. Evidentemente,
naquela idade eu não tinha uma visão muito clara do
que era a filosofia. Antes de decidir pela carreira
de arquiteto, me interessei pela Biologia e
num dos livros que li, encontrei o conceito de
simbiose, que em síntese, significa a interdependência
de dois seres vivos, cada um tirando partido de alguma
característica do outro.
Depois que me formei, já na Universidade de Tóquio,
em 1958, fiz a minha primeira viagem ao exterior,
passando pela Europa, União Soviética e América. Então,
exatamente quando o movimento dos CIAM (Congressos
Internacionais de Arquitetura Moderna) estava acabando,
eu começava minha carreira na Arquitetura. Foi um
início dramático, em meio a uma situação caótica.
Então, quando de fato comecei a trabalhar, em 1959,
eu e meus colegas nos perguntávamos: "O que há
de novo depois do colapso do CIAM?" Saíamos da
era da máquina, como ditava o movimento moderno, para
algo ainda difuso. E, de repente, um dia, tive uma
antevisão, que daquele momento até o século 21 uma
nova era estava surgindo... e resolvi chamá-la de
era da vida. E, em 1960, fundamos o Grupo Metabolista.
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É fácil perceber simbiose olhando as imagens do Museu
de Arte Contemporânea em Wakayama, porque ele está localizado
em um sítio histórico, ao lado do Castelo de Wakayama.
Já não é tão fácil compreender a simbiose no Aeroporto
de Kuala Lumpur, apesar de algumas referências à cultura
islâmica. Mas é muito difícil entender onde está a simbiose
num projeto como o do anexo do Museu Van Gogh, em Amsterdã.
Como ler cada um desses projetos? |
O anexo do Museu Van Gogh,
em Amsterdã, é o resultado da simbiose entre a cultura
européia e a cultura japonesa. E que cultura européia
naquele lugar? Justamente a da geometria, porque o
prédio principal do museu foi desenhado por Gerrit
Rietveld, um dos fundadores da arquitetura
contemporânea holandesa. E uma das principais características
de sua arquitetura é a composição geométrica, que
ele trouxe da pintura de Mondrian. Talvez sua obra
mais conhecida seja a casa "Schröder", em Utrecht,
que é quase uma tela de Mondrian colocada em 3 dimensões.
Então, ao projetar o anexo, eu também procurei partir
da geometria, mas usei curvas e elipses que foram
rotacionadas para gerar uma assimetria no volume principal,
visível especialmente na cobertura. E aí está a tradição
japonesa, na assimetria (hitaisho), que vem
de milhares de anos. Nós não fazemos arquitetura simétrica.
É importante lembrar que o novo edifício está abrigando
o acervo de pinturas japonesas ukiyoe que Van Gogh
colecionou e que exerceu grande influência em seu
trabalho. No projeto do museu Van Gogh procurei trabalhar
também em simbiose com o sítio, que é um parque muito
importante na cidade de Amsterdã. Então, apenas 25%
da área construída são visíveis externamente. A maior
parte do prédio é subterrânea e a ligação entre os
dois edifícios é feita abaixo do nível do solo, por
meio de um jardim de águas, que se reporta aos jardins
tradicionais do Japão. Logo ao entrar no anexo, a
primeira coisa que os visitantes vêem é a água, também
um elemento muito importante para a cultura da Holanda.
O importante nessa relação simbiótica é a criação
desse espaço intermediário (em japonês se diz
Ma), de ligação, que transita de uma cultura para
outra. A beleza do canto, na música tradicional japonesa,
se localiza exatamente nesse intervalo de transição
de um som para o outro. É um lugar de ligação entre
diferentes, entre corpo e espírito, entre sim e não,
um espaço virtual ou físico onde as pessoas podem
mudar sua sensibilidade em relação ao mundo. Então
o anexo do Museu Van Gogh não é uma cópia da arquitetura
japonesa, mas o espírito japonês está lá presente
e pode ser sentido por todos que o visitem.
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SINTAXE DA ARQUITETURA |
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| E em relação ao Museu de Wakayama? |
Para explicar, vou fazer uma analogia
com a escrita. Nós temos as letras fonéticas ocidentais,
a,b,c,d etc. E uma letra só tem sentido se combinada
com outras para gerar palavras e significados. Por
outro lado, temos as letras chinesas, que são ideogramas.
Por exemplo, meu nome Kurokawa....o ideograma kawa
vem da representação de um rio, das linhas que representam
a água correndo. Não é um signo fonético, é um símbolo.
O ideograma chinês Opá, que significa pássaro, deriva
do desenho de um pássaro. Então, uma letra chinesa
sozinha tem um sentido completo... Na cultura européia
clássica pode-se usar elementos geométricos (cones,
cubos, esferas, prismas) como fonemas que compõem
um discurso, um eixo urbano, por exemplo.
Na cultura japonesa, o mesmo conjunto de volumes seria
disposto de forma assimétrica para formar outro discurso,
contemporâneo, mas baseado na tradição. É um simbolismo
abstrato criado com formas, texturas e cores.
Mas há um outro tipo de simbolismo, que toma como
referência a forma de um objeto, da mesma maneira
que o ideograma Opá lembra a forma do pássaro que
ele quer representar. No caso do Museu de Wakayama,
a obra "dialoga" com o castelo tradicional ao tomar
certas formas, como a dos telhados: invertemos os
telhados, criamos algumas asas de alumínio que lembram
suas formas. E quem olha para o museu sabe que se
trata de uma obra japonesa. Então, eu tenho duas
formas de trabalhar com o simbolismo abstrato:
uma utiliza os elementos geométricos comuns a todas
as culturas, formando uma linguagem arquitetônica.
Uma simbiose entre o passado e o futuro. Como a pirâmide
de vidro colocada por Pey em frente ao Louvre. Em
Paris, um outro exemplo interessante é o Grand Arche
(La Defénse). Sua forma é muito simples, remete ao
clássico Arco do Triunfo, mas não é uma cópia, é um
símbolo abstrato. O Museu de Wakayama resulta da simbiose
entre a História e o Contemporâneo pela abstração
da forma. No caso do Anexo do Museu Van Gogh, ocorre
a simbiose entre duas culturas, graças à justaposição
e movimentação de forma geométricas simples, que fazem
parte da linguagem arquitetônica clássica.
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| Em seu livro mais recente, "Each
One a Hero", o sr. faz uma crítica negativa ao modelo
de urbanismo preconizado pelo CIAM e concretizado em Brasília,
Chandigard (Índia) e em algumas intervenções realizadas
em espaços urbanos de vários países ao longo do século
20. Parece-me que o sr. considera a proposta da arquitetura
e do urbanismo moderno demasiadamente racional, permitindo
apenas uma "leitura" e, de alguma forma impedindo o devaneio
humano... Uma obra como a Catedral de Brasília não permite
essa leitura múltipla, comum às verdadeiras obras de arte? |
No centro do Movimento Moderno está
(Walter) Gropius, que trabalhava com muita rigidez
na Bauhaus. E as idéias de Le Corbusier, incluindo
o conceito urbano do "dominó" nasceram também no centro
do Modernismo. Mas Corbusier, que viajou pelo mundo,
conheceu arquiteturas e arquitetos de várias partes
do mundo, estendeu o conceito do Movimento Moderno
para bem além disso: a igreja de Rochanp é um ótimo
exemplo de um expressionismo que se afasta da ortodoxia
do modernismo. Corbusier avançou para a periferia
do Movimento Moderno, onde estão nomes como Oscar
Niemeyer e Alvar Aalto. Acho que Niemeyer conseguiu
realizar uma simbiose entre o International Style
e o Barroco brasileiro. Alvar Aaalto já começou a
trabalhar nessa periferia do Modernismo e aí se manteve.
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| Vamos falar sobre sua forma de trabalhar.
Como o sr. inicia um novo projeto? Os primeiros passos
são feitos com computadores, com lápis, ou "na cabeça"? |
É muito simples. Primeiro eu procuro
ouvir o cliente e esta é a etapa mais importante.
Gasto a maior parte do meu tempo de trabalho conversando
com o cliente, tomando notas e procurando entender
exatamente o que ele necessita, qual é sua cultura
arquitetônica, que imagens ele deseja encontrar no
projeto. A partir daí, passo a desenhar, faço esboços,
centenas de esboços até amadurecer as idéias que vão
surgindo.
Mas a maior parte do trabalho eu realizo em minha
cabeça, durante cerca de um dois meses. Durante
esse tempo, todos os dias eu "caminho" através dessa
arquitetura que está surgindo e vou mudando a localização
das janelas, das escadas, experimento vários materiais,
enfim vivencio aquela arquitetura que estou fazendo.
Vou imaginando todos os detalhes da obra, na verdade
procuro construir as estruturas em minha cabeça
antes de começar a desenhá-las. Quando eu noto
que o projeto está bem resolvido, que é possível construí-lo
sem dificuldades, faço uma apresentação das idéias
para a minha equipe. Nessa etapa é possível checar
a consistência das soluções que desenvolvi. Assim
que tudo estiver claro, passamos a detalhar o projeto
nos computadores e especificar os materiais.
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| Esse processo mental serve até mesmo
para uma obra complexa, como um aeroporto? |
Sim. No aeroporto de Kuala Lumpur,
na Malásia, a partir das discussões com o cliente,
eu decidira fazer uma cobertura abobadada que tivesse
referências nas construções islâmicas. Imaginando
a estrutura, notei que usar pilares cilíndricos traria
sérias complicações construtivas para o travamento
da estrutura. Então, imaginei um pilar em tronco cônico,
capaz de absorver melhor os esforços horizontais da
cobertura. Quase simultanemente notei que aquele formato
funcionaria bem para a condução do ar refrigerado
desde o subsolo, onde estariam as máquinas, até o
último pavimento, o de embarque.
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| Falando sobre urbanismo, sua proposta
para as cidades do século 21 sugere uma diluição das fronteiras
entre rural e urbano através da construção de novos centros
capazes de receber as mais novas tecnologias de informação,
construção, transporte, comunicação, conservação de água
e energia, paisagismo e engenharia florestal. Essas "EcoMedia
cities" são realmente viáveis? |
A EcoMedia City pode ser entendida
como uma NetWork city, na qual todas as atividades
estarão acontecendo de forma orgânica, numa simbiose
entre os processos industriais e naturais. Nessas
cidades que concebi há uma grande disponibilidade
de florestas naturais ou plantadas, para garantir
a qualidade do ambiente urbano, há um aproveitamento
dos resíduos para reciclagem ou produção de combustíveis,
bem como a aplicação de modernas técnicas para conservação
e reciclagem de água, conservação e autogeração de
energia.
Para tudo isso funcionar adequadamente, é necessária
uma rede de dados que permita a troca de Informação,
uma rede sem fios, que evite as interferências do
cabeamento em postes ou no subsolo das cidades. A
primeira delas foi projetada para a região entre Kuala
Lumpur e o novo aeroporto, em meio a uma floresta
tropical e entre dois corredores de transporte, com
trens de alta velocidade. O objetivo é receber ali
as empresas de alta tecnologia, na área de computação
e também na indústria de biotecnologia, para aproveitar
a biodiversidade oferecida pela floresta naquela região.
A partir dessa proposta, desenvolvi o projeto Amagasaki
para a prefeitura de Hyogo, no Japão. Trata-se da
revitalização da costa marítima da cidade, com a construção
de 2000 unidades residenciais, um museu ecológico,
centro de compras, hotel e museu de arte, com um parque
linear cruzando toda a área de 56 hectares. Esta cidade
experimental vai funcionar com água captada da chuva,
energia solar e energia do lixo. Agora estou trabalhando
no projeto de Astana, a nova capital do Casaquistão,
que também será baseada nos mesmo conceitos.
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| Como o sr. sabe, o ambiente urbano
está gravemente enfermo em cidades como São Paulo, México,
Jacarta, Bombaim e várias outras metrópoles de países
pobres. O sr. acredita na possibilidade de rehabilitação
desses lugares a partir de uma abordagem ecológica, como
a proposta da Eco Media City? |
Cada caso exige um estudo específico.
Neste momento, estou tentando desenvolver o conceito
de EcoMedia City em Tóquio, que também é uma metrópole
cheia de problemas. Desenhei dois canais num lugar
onde há 400 anos haviam inúmeros canais que foram
sendo gradativamente aterrados. Sobre esses aterros
nasceram novos bairros da cidade. Minha idéia é
repensar a relação simbiótica entre a água e a cidade,
recriando o canal, que daria nova dinâmica ao lugar,
criando uma agradável parque de convivência entre
as pessoas e a água, com barcaças e barcos de transporte
coletivo. É uma área muito valorizada, de forma que
seria impossível ao governo desapropriá-la para se
fazer um canal.
Assim, criaríamos uma ilha artificial no centro
da Baía de Tóquio, utilizando resíduos de demolição,
permitindo a criação de bairros novos, com mais espaço,
um parque, e uma linha de metrô ligando a nova área
ao centro da cidade. Imaginei que o proprietário de
um terreno de 100 m2 desapropriado para a construção
do canal, pudesse receber como compensação uma área
de 300 m2 na nova ilha. O mais interessante é que
esse novo canal permitiria que a água do mar circulasse
mais velozmente pela Baía, purificando suas águas,
hoje muito poluídas.
Outro dado importante: o canal seria um recurso eficiente
de combate aos incêndios, especialmente quando ocorrem
terremotos. Tóquio já sofreu três grandes incêndios
e o maior deles consumiu em perto de 20% da cidade.
Desta forma, mesmo cidades como México City ou São
Paulo podem ter seus problemas equacionados. Mas
é necessário pensar a longo prazo, planejar para
cem anos. Parece muito tempo, mas lembre-se do
que era São Paulo há cem anos...
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| Falando da arquitetura japonesa...Existe
ainda uma arquitetura de tradição japonesa ou o processo
de globalização está apagando essas marcas culturais nas
novas obras construídas? |
Sim, estamos enfrentando esse problema.
Mas lembro que quando começamos a Era Meiji, que foi
uma fase de modernização, tudo mudou, inclusive a
arquitetura, A Era Meiji foi o momento em que os japoneses
se voltaram para a Europa e a arquitetura feita naquele
período significou uma cópia das obras européias.
Mas a essência da cultura não se perdeu naquele momento.
Você pode ver e identificar a pintura japonesa, o
paisagismo, a técnica de jardinagem, o artesanato
etc. Mas a maior parte da tradição japonesa é invisível:
é o pensamento, a leitura, a filosofia, a estética,
a forma de comunicação entre as pessoas.
Veja, a cidade de Tóquio foi inteiramente destruída
por bombardeios na 2a Guerra Mundial. Era possível
as montanhas e cinco ou seis edifícios de concreto,
que resistiram. Nada mais. Tóquio foi reconstruída
com materiais modenos, concreto, aço, vidro e então
alguém pode dizer que a cidade parece Los Angeles,
ou Chicago, mas se esta pessoa ficar por alguns anos
na cidade, vai entender que Tóquio é uma cidade
japonesa, uma cidade tradicional japonesa. Na
aparência a cidade é global, mas o modo de vida é
completamente diferente do de Londres, Paris, ou qualquer
outra cidade do mundo. Nós trabalhamos para concretizar
a simbiose entre os padrões internacionais e as culturas
locais. Acredito que a missão dos arquitetos seja
a de realizar a arquitetura contemporânea por meio
dessa conversa entre as identidades locais, as tendências
globais e a História.
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| E qual é o status da arquitetura
no Japão de hoje? |
Como em qualquer outro lugar do mundo,
95% de tudo o que se constrói no Japão está orientado
para o Business, não para a Arte. São raras as obras
projetadas por arquitetos como Toio Ito, Isozaki,
Tadao Ando, profissionais que como eu se preocupam
com a Cultura. As grandes construtoras, Takenaka,
Kajima...têm seus próprios corpos de arquitetos, que
realizam obras de qualidade, mas voltadas para os
interesses exclusivos do mercado, não para a fruição
da sociedade. Infelizmente, o interesse pela arquitetura
ainda é muito restrito.
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Texto integral da entrevista concedida
a Marcos de Sousa
(Uma versão resumida foi publicada em PROJETO DESIGN
Edição 249 - Novembro 2000) |
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