Sérgio Teperman
 
  O arquiteto Sérgio Teperman marcou sua passagem na imprensa de arquitetura pelo estilo peculiar. Autor de grande número de edifícios, que vão além do estigma da produção para as empresas de telecomunicações, ele se vangloria, no entanto, de nunca ter criado um estilo em sua obra construída: “Meu escritório procurou reproduzir em seus trabalhos a imagem do cliente, e não a do autor do projeto”, revela.
 
 
Irônico e sagaz, Sérgio Teperman é uma figura ímpar na arquitetura brasileira. Praticante de um humor irreverente, ele ainda se afirma um inventor: seria de sua autoria o sistema de triângulos, quadrados e círculos amplamente utilizado para indicar os acabamentos nos projetos executivos: “Realmente, fui eu que criei”, reforça. Isso teria ocorrido em 1973, “em função da extrema urgência para entregar dezenas de projetos à Telebrás”. Além disso, Teperman tem passagens por associações da categoria (foi diretor do Sindicato dos Arquitetos de São Paulo e presidente da Asbea) e participou, direta e indiretamente, de diversas publicações da área, como a esquecida revista A&C, o jornal Arquiteto, as revistas PROJETO e Arquitetura e Urbanismo. “O vírus do jornalismo ficou. Com muita honra, me considero parte do time”, relata ele, que é membro do Comitê Internacional de Críticos de Arquitetura (Cica).
 
Por que o senhor escolheu arquitetura?

Na época em que me formei, as escolhas eram medicina, engenharia ou direito. Meu pai era médico e minha mãe sempre sonhou que eu também fosse, mas eu não tinha idéia do que fazer. Um dia, passando pelo finalzinho da avenida Paulista, um prédio do MM Roberto [edifício Anchieta] chamou minha atenção. Fiquei olhando para a cobertura, com as caixas-d’água meio onduladas e pintadas de azul. Foi então que percebi o que queria fazer. No ano em que entrei na FAU/USP [1957], houve o concurso de Brasília, e a partir daí a arquitetura passou a ser uma profissão mais conhecida no país.

 
O senhor é um dos poucos formados nesse período que não se encantou pelo brutalismo. Por quê?

Exatamente porque é brutalismo.

 
Na época isso já o incomodava?

O brutalismo apareceu para mim na forma de uma casa que [Vilanova] Artigas havia feito, acho que no bairro do Sumaré. Eu gostei do espaço, mas olhei para aquele concreto e, visualmente, tive a sensação de obra inacabada. Depois, observando com mais critério, achei um absurdo fazer tremendas empenas e vigas enormes de concreto, para depois subdividir embaixo. Com um espaço desses, parece mais lógico usar uma estrutura espacial metálica. Depois também percebi que era um modismo: muitas coisas nem precisavam ser de concreto e eram. Na época eu já não gostava do espírito do acabamento mesmo. Algumas vezes usei concreto por ser obrigado, como nas agências do Banespa.

 
Era orientação do departamento de arquitetura do banco?

Era. Influenciado por Artigas, que sabia fazer as coisas, o pessoal propunha aquelas estruturas que não tinham sentido. Aí passei a entender melhor a obra de Artigas e ver que há concreto e concreto, expressões e expressões. E até hoje existe também o aspecto Paulo Mendes da Rocha, que é um certo despojamento do detalhe, a opção de fazer o mais simples possível. Se você não construísse em concreto aparente, era um arquiteto de segunda, não era progressista. Artigas tinha feito uma obra de concreto, e então o concreto passou a ser politicamente correto.

 
Esse aspecto político era perceptível na faculdade?

Não. O que havia na FAU era uma briga entre racionalistas e wrightianos. Tinha um grupo influenciado por um professor de desenho que adorava Frank Lloyd Wright. E o curioso é que wrightianos e racionalistas chegaram a quebrar o pau.

 
De tapa?

É. Engraçado ver o pessoal discutir arquitetura nesse nível. Mas, para se ter uma idéia, eu nunca era convidado para nenhuma exposição ou publicação nesse período.

 
Qual foi sua primeira obra publicada?

Eu nem lembro. Acho que foi quando comecei a trabalhar para a Telesp, para a qual fiz vários prédios de telecomunicações. Até porque, depois que me formei, fiquei só um ano aqui e depois passei muito tempo no exterior. Comecei a trabalhar no Brasil em 1967.

 
E o que o senhor fez antes de viajar?

Eu tinha um escritório com [o urbanista] Sérgio Zaratin. Trabalhei com Jorge Wilheim e como estagiário no escritório de [Henrique] Mindlin. Depois, ganhei uma bolsa da Olivetti e fui para a Itália. Passei um ano cursando desenho industrial em Florença. A seguir, ganhei outra bolsa e fui para a Inglaterra, trabalhar num escritório particular. Logo depois passei num concurso para a prefeitura de Londres. Naquela época se faziam as novas cidades. Eu era recém-formado, não sabia fazer nada e tive que projetar um bairro, que foi feito numa cidade pequena. Fiquei um ano na Inglaterra. Depois recebi uma bolsa para a França.

 
Como o senhor fazia? Ficava sabendo da bolsa e ia à embaixada?

Eu ia sem nem saber se tinha bolsa e falava com todo mundo. No fim, ganhei seis bolsas. Algumas eu consegui já na Europa. Ganhei uma bolsa da Unesco para a Finlândia, depois fui para a Áustria e passei férias em Portugal. Nessa época eu morava na Finlândia e fui contratado para editar no Brasil a revista Arquitetura & Construção (A&C), publicada por um grupo norte-americano.

 
Como foi esse contato?

Eu tinha um primo que trabalhava na área comercial da editora. Os americanos ficaram sabendo que eu era arquiteto, que queria voltar para o Brasil e que escrevia bem. Só que eu nunca tinha visto o trabalho de editar uma revista. Eu embarquei na Finlândia com 28 graus negativos, cheguei aqui de manhã e depois do almoço já estava de terno, pronto para começar a trabalhar, no Rio de Janeiro, com um calor de 38 graus. Foi um choque. Eu tinha ficado cinco anos fora do rasil e não agüentei, depois de um ano decidi partir de novo. Então eles me ofereceram passagens para eu entrevistar arquitetos americanos e fazer reportagens para a revista. Lá chegaram até a me propor emprego, mas eu voltei para a Escandinávia, onde vi num jornal a notícia sobre arquitetos contratados para fazer as embaixadas da Dinamarca e da Noruega em Brasília. Eu me apresentei, expliquei que era brasileiro e já havia trabalhado na Escandinávia. Eles me contrataram e assim fiquei oito anos na Europa.

 
O que exatamente o senhor fazia na revista?

Eu era tudo. A editora tinha boa estrutura, mas a revista não. Éramos só eu, um engenheiro, que depois virou editor da área de engenharia, uma arquiteta que desenhava as plantas e uma secretária.

 
Quanto tempo durou essa revista?

Durou dois anos e foram editados 16 ou 18 números. Eu trabalhei pouco mais de um ano e editei 12, mas depois que eu saí eles soltavam uma edição a cada dois ou três meses.

 
E como foi seu trabalho no jornal Arquiteto?

Quando [Alfredo] Paesani fundou o sindicato, chamou Vicente [Wissenbach], que era cunhado dele, para editar o jornal. Vicente lembrou que eu havia feito a revista nos anos 1960 e me convidou para ser diretor do sindicato a fim de tratar da publicação. Fábio Penteado deu seu nome como jornalista responsável, mas Vicente, Maria Helena [Flynn] e eu que fazíamos a publicação. O IAB não formalizava o contrato e criava caso. Até que cansamos e o jornal Arquiteto foi transformado na revista PROJETO. Na revista eu já não tinha muita participação. De vez em quando Vicente encomendava alguma coisa ou eu tomava a iniciativa de escrever, às vezes artigos de dez ou 20 páginas. Depois me chamaram quando começaram a AU [revista Arquitetura e Urbanismo]. [José] Wolf, que é uma pessoa bárbara, escrevia o que dava na cabeça dele. Eu também escrevia textos longos. Acabei me disciplinando quando fui contratado para escrever para a Casa Vogue.

 
O senhor fazia reportagens sobre projetos?

Não, eu escrevia sobre temas gerais. E me disciplinei a escrever no tamanho. A AU gostou disso e comecei a fazer entrevistas boas. Esporadicamente escrevi também para os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, para a [revista] Metrópole e até para um jornal da Finlândia.

 
Quando o senhor voltou pela segunda vez para o Brasil, havia um crescimento vertical em grande escala.

Trabalhei em uma incorporadora. Depois, ganhei a concorrência da Telebrás. Eu tinha trabalhado um pouquinho na área de telecomunicações na Suécia. Quando fundaram a Telebrás, chamaram a Promon e a Hidroservice, só que o pessoal dessas empresas nunca tinha visto um prédio de telecomunicações. Como eu já havia feito vários prédios para a Telesp, participei dessa concorrência e ganhei. Eu tinha quatro arquitetos no escritório e nós passamos os quatro anos seguintes, em especial os dois primeiros, fazendo 120 prédios de telecomunicações.

 
Como administrava isso?

Os prazos eram rigorosos. Tínhamos que começar o projeto no dia zero e entregar no nonagésimo dia. E nesse tempo era preciso visitar o terreno no Acre ou no Piauí, no meio do mato, sem telefone, fazer o projeto e orçar o executivo. Havia uma multa se eu atrasasse. Era uma roda-viva. Foi uma oportunidade profissional extraordinária e eu era muitíssimo bem-pago, pena que eu não soube administrar o que ganhei.

 
E o estigma de ser um arquiteto segmentado?

Esse foi o problema. Eu fui rotulado.

 
O senhor procurou outros trabalhos?

Sim, eu sabia que aquilo ia acabar. Só que as pessoas não me davam trabalho por achar que eu estava ocupado demais para atendê-las. A salvação foram os prédios que eu fiz pelo Brasil inteiro, porque o presidente da companhia de telecomunicações era amigo do presidente da companhia de energia elétrica e um acabava me indicando para outros. Tanto que boa parte do meu trabalho está fora de São Paulo.

 
Quando isso acabou?

No final da década de 1970. Eu continuei tendo projetos assim, mas em menor quantidade. E à medida que foi acabando procurei me integrar em outras coisas. O escritório ficou diversificado, o que é bom por um lado, mas não tão bom por outro.

 
A segmentação é mais confortável?

Não tem nem comparação. Quando o profissional atua num mercado segmentado, os outros já sabem disso e chamam quando precisam, como acontece, por exemplo, com os prédios de apartamentos.

 
Mas o mercado de edifícios de apartamentos agora piorou muito, não?

Piorou. Eu não estou nesse mercado, mas cheguei a fazer vários prédios de apartamentos.

 
Na época já existia o neoclássico?

Não, não existia. Em Higienópolis tem um prédio bem mais antigo que é neo-clássico, mas com certa linha. A loucura do neoclássico em São Paulo começou com [Adolpho] Lindenberg, que era da TFP [a organização religiosa Tradição, Família e Propriedade].

 
Hoje o senhor não faz nada para o mercado imobiliário?

Não, mas não porque não queira. E tem outra coisa: quando encomendam um prédio para Paulo Mendes da Rocha ou Eduardo Longo, todo mundo sabe que tipo de projeto virá. Mas aqui no escritório não. O que fazemos é tentar interpretar o gosto do cliente e isso não identifica um prédio como sendo nosso.

 
Isso é influência européia?

Isso vem de arquitetos que acho admiráveis, como [Eero] Saarinen. Ele tinha projetos extraordinários, um completamente diferente do outro. Ele tinha soluções que não se repetiam e isso me impressionou.

 
O que acha da nova geração que ressuscitou o concreto?

Continuo dizendo que o concreto não é boa solução construtiva e ambiental. Eu moro num prédio que eu adoro e detesto, no Butantã, desenhado por um colega de turma, Ruy Ohtake. O apartamento tem um miolo circular com os sanitários e é possível dividí-lo do jeito que se quiser. Ele tem uma área social magnífica. Porém, é inteiro de concreto e não tem veneziana por pura frescura arquitetônica. O problema é que meu apartamento é face oeste, não dá para chegar a um metro e meio da janela por causa do sol. Então posso dizer que tenho diferenças pessoais com o concreto. E também dei aulas na FAU/USP, que é um espaço construído maravilhoso, mas é insuportável passar o dia lá. No começo da minha carreira, eu tive o sonho de ressuscitar a arquitetura brasileira dos anos 1940 e 1950. Sem contar Brasília, foi essa arquitetura brasileira que se tornou famosa mundo afora. O mesmo acontece com esse pessoal jovem que está querendo ressuscitar o concreto.

 
 
Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 315 Maio de 2006
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