| Por que o senhor escolheu arquitetura? |
Na época em que me formei, as escolhas
eram medicina, engenharia ou direito. Meu pai era médico
e minha mãe sempre sonhou que eu também fosse,
mas eu não tinha idéia do que fazer. Um dia,
passando pelo finalzinho da avenida Paulista, um prédio
do MM Roberto [edifício Anchieta] chamou minha atenção.
Fiquei olhando para a cobertura, com as caixas-d’água
meio onduladas e pintadas de azul. Foi então que
percebi o que queria fazer. No ano em que entrei na FAU/USP
[1957], houve o concurso de Brasília, e a partir
daí a arquitetura passou a ser uma profissão
mais conhecida no país.
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| O senhor é um dos poucos formados
nesse período que não se encantou pelo brutalismo.
Por quê? |
Exatamente porque é brutalismo.
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| Na época isso já o incomodava? |
O brutalismo apareceu para mim na forma
de uma casa que [Vilanova] Artigas havia feito, acho que
no bairro do Sumaré. Eu gostei do espaço,
mas olhei para aquele concreto e, visualmente, tive a sensação
de obra inacabada. Depois, observando com mais critério,
achei um absurdo fazer tremendas empenas e vigas enormes
de concreto, para depois subdividir embaixo. Com um espaço
desses, parece mais lógico usar uma estrutura espacial
metálica. Depois também percebi que era um
modismo: muitas coisas nem precisavam ser de concreto e
eram. Na época eu já não gostava do
espírito do acabamento mesmo. Algumas vezes usei
concreto por ser obrigado, como nas agências do Banespa.
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| Era orientação do departamento
de arquitetura do banco? |
Era. Influenciado por Artigas, que sabia
fazer as coisas, o pessoal propunha aquelas estruturas que
não tinham sentido. Aí passei a entender melhor
a obra de Artigas e ver que há concreto e concreto,
expressões e expressões. E até hoje
existe também o aspecto Paulo Mendes da Rocha, que
é um certo despojamento do detalhe, a opção
de fazer o mais simples possível. Se você não
construísse em concreto aparente, era um arquiteto
de segunda, não era progressista. Artigas tinha feito
uma obra de concreto, e então o concreto passou a
ser politicamente correto.
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| Esse aspecto político era perceptível
na faculdade? |
Não. O que havia na FAU era uma
briga entre racionalistas e wrightianos. Tinha um grupo
influenciado por um professor de desenho que adorava Frank
Lloyd Wright. E o curioso é que wrightianos e racionalistas
chegaram a quebrar o pau.
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| De tapa? |
É. Engraçado ver o pessoal
discutir arquitetura nesse nível. Mas, para se ter
uma idéia, eu nunca era convidado para nenhuma exposição
ou publicação nesse período.
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| Qual foi sua primeira obra publicada? |
Eu nem lembro. Acho que foi quando comecei
a trabalhar para a Telesp, para a qual fiz vários
prédios de telecomunicações. Até
porque, depois que me formei, fiquei só um ano aqui
e depois passei muito tempo no exterior. Comecei a trabalhar
no Brasil em 1967.
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| E o que o senhor fez antes de viajar? |
Eu tinha um escritório com [o urbanista]
Sérgio Zaratin. Trabalhei com Jorge Wilheim e como
estagiário no escritório de [Henrique] Mindlin.
Depois, ganhei uma bolsa da Olivetti e fui para a Itália.
Passei um ano cursando desenho industrial em Florença.
A seguir, ganhei outra bolsa e fui para a Inglaterra, trabalhar
num escritório particular. Logo depois passei num
concurso para a prefeitura de Londres. Naquela época
se faziam as novas cidades. Eu era recém-formado,
não sabia fazer nada e tive que projetar um bairro,
que foi feito numa cidade pequena. Fiquei um ano na Inglaterra.
Depois recebi uma bolsa para a França.
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| Como o senhor fazia? Ficava sabendo da
bolsa e ia à embaixada? |
Eu ia sem nem saber se tinha bolsa e falava
com todo mundo. No fim, ganhei seis bolsas. Algumas eu consegui
já na Europa. Ganhei uma bolsa da Unesco para a Finlândia,
depois fui para a Áustria e passei férias
em Portugal. Nessa época eu morava na Finlândia
e fui contratado para editar no Brasil a revista Arquitetura
& Construção (A&C), publicada por
um grupo norte-americano.
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| Como foi esse contato? |
Eu tinha um primo que trabalhava na área
comercial da editora. Os americanos ficaram sabendo que
eu era arquiteto, que queria voltar para o Brasil e que
escrevia bem. Só que eu nunca tinha visto o trabalho
de editar uma revista. Eu embarquei na Finlândia com
28 graus negativos, cheguei aqui de manhã e depois
do almoço já estava de terno, pronto para
começar a trabalhar, no Rio de Janeiro, com um calor
de 38 graus. Foi um choque. Eu tinha ficado cinco anos fora
do rasil e não agüentei, depois de um ano decidi
partir de novo. Então eles me ofereceram passagens
para eu entrevistar arquitetos americanos e fazer reportagens
para a revista. Lá chegaram até a me propor
emprego, mas eu voltei para a Escandinávia, onde
vi num jornal a notícia sobre arquitetos contratados
para fazer as embaixadas da Dinamarca e da Noruega em Brasília.
Eu me apresentei, expliquei que era brasileiro e já
havia trabalhado na Escandinávia. Eles me contrataram
e assim fiquei oito anos na Europa.
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| O que exatamente o senhor fazia na revista? |
Eu era tudo. A editora tinha boa estrutura,
mas a revista não. Éramos só eu, um
engenheiro, que depois virou editor da área de engenharia,
uma arquiteta que desenhava as plantas e uma secretária.
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| Quanto tempo durou essa revista? |
Durou dois anos e foram editados 16 ou
18 números. Eu trabalhei pouco mais de um ano e editei
12, mas depois que eu saí eles soltavam uma edição
a cada dois ou três meses.
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| E como foi seu trabalho no jornal Arquiteto? |
Quando [Alfredo] Paesani fundou o sindicato,
chamou Vicente [Wissenbach], que era cunhado dele, para
editar o jornal. Vicente lembrou que eu havia feito a revista
nos anos 1960 e me convidou para ser diretor do sindicato
a fim de tratar da publicação. Fábio
Penteado deu seu nome como jornalista responsável,
mas Vicente, Maria Helena [Flynn] e eu que fazíamos
a publicação. O IAB não formalizava
o contrato e criava caso. Até que cansamos e o jornal
Arquiteto foi transformado na revista PROJETO. Na revista
eu já não tinha muita participação.
De vez em quando Vicente encomendava alguma coisa ou eu
tomava a iniciativa de escrever, às vezes artigos
de dez ou 20 páginas. Depois me chamaram quando começaram
a AU [revista Arquitetura e Urbanismo]. [José] Wolf,
que é uma pessoa bárbara, escrevia o que dava
na cabeça dele. Eu também escrevia textos
longos. Acabei me disciplinando quando fui contratado para
escrever para a Casa Vogue.
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| O senhor fazia reportagens sobre projetos? |
Não, eu escrevia sobre temas gerais.
E me disciplinei a escrever no tamanho. A AU gostou disso
e comecei a fazer entrevistas boas. Esporadicamente escrevi
também para os jornais Folha de S.Paulo e O Estado
de S. Paulo, para a [revista] Metrópole e até
para um jornal da Finlândia.
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| Quando o senhor voltou pela segunda vez
para o Brasil, havia um crescimento vertical em grande escala. |
Trabalhei em uma incorporadora. Depois,
ganhei a concorrência da Telebrás. Eu tinha
trabalhado um pouquinho na área de telecomunicações
na Suécia. Quando fundaram a Telebrás, chamaram
a Promon e a Hidroservice, só que o pessoal dessas
empresas nunca tinha visto um prédio de telecomunicações.
Como eu já havia feito vários prédios
para a Telesp, participei dessa concorrência e ganhei.
Eu tinha quatro arquitetos no escritório e nós
passamos os quatro anos seguintes, em especial os dois primeiros,
fazendo 120 prédios de telecomunicações.
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| Como administrava isso? |
Os prazos eram rigorosos. Tínhamos
que começar o projeto no dia zero e entregar no nonagésimo
dia. E nesse tempo era preciso visitar o terreno no Acre
ou no Piauí, no meio do mato, sem telefone, fazer
o projeto e orçar o executivo. Havia uma multa se
eu atrasasse. Era uma roda-viva. Foi uma oportunidade profissional
extraordinária e eu era muitíssimo bem-pago,
pena que eu não soube administrar o que ganhei.
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| E o estigma de ser um arquiteto segmentado? |
Esse foi o problema. Eu fui rotulado.
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| O senhor procurou outros trabalhos? |
Sim, eu sabia que aquilo ia acabar. Só
que as pessoas não me davam trabalho por achar que
eu estava ocupado demais para atendê-las. A salvação
foram os prédios que eu fiz pelo Brasil inteiro,
porque o presidente da companhia de telecomunicações
era amigo do presidente da companhia de energia elétrica
e um acabava me indicando para outros. Tanto que boa parte
do meu trabalho está fora de São Paulo.
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| Quando isso acabou? |
No final da década de 1970. Eu continuei
tendo projetos assim, mas em menor quantidade. E à
medida que foi acabando procurei me integrar em outras coisas.
O escritório ficou diversificado, o que é
bom por um lado, mas não tão bom por outro.
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| A segmentação é mais
confortável? |
Não tem nem comparação.
Quando o profissional atua num mercado segmentado, os outros
já sabem disso e chamam quando precisam, como acontece,
por exemplo, com os prédios de apartamentos.
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| Mas o mercado de edifícios de apartamentos
agora piorou muito, não? |
Piorou. Eu não estou nesse mercado,
mas cheguei a fazer vários prédios de apartamentos.
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| Na época já existia o neoclássico? |
Não, não existia. Em Higienópolis
tem um prédio bem mais antigo que é neo-clássico,
mas com certa linha. A loucura do neoclássico em
São Paulo começou com [Adolpho] Lindenberg,
que era da TFP [a organização religiosa Tradição,
Família e Propriedade].
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| Hoje o senhor não faz nada para
o mercado imobiliário? |
Não, mas não porque não
queira. E tem outra coisa: quando encomendam um prédio
para Paulo Mendes da Rocha ou Eduardo Longo, todo mundo
sabe que tipo de projeto virá. Mas aqui no escritório
não. O que fazemos é tentar interpretar o
gosto do cliente e isso não identifica um prédio
como sendo nosso.
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| Isso é influência européia? |
Isso vem de arquitetos que acho admiráveis,
como [Eero] Saarinen. Ele tinha projetos extraordinários,
um completamente diferente do outro. Ele tinha soluções
que não se repetiam e isso me impressionou.
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| O que acha da nova geração
que ressuscitou o concreto? |
Continuo dizendo que o concreto não
é boa solução construtiva e ambiental.
Eu moro num prédio que eu adoro e detesto, no Butantã,
desenhado por um colega de turma, Ruy Ohtake. O apartamento
tem um miolo circular com os sanitários e é
possível dividí-lo do jeito que se quiser.
Ele tem uma área social magnífica. Porém,
é inteiro de concreto e não tem veneziana
por pura frescura arquitetônica. O problema é
que meu apartamento é face oeste, não dá
para chegar a um metro e meio da janela por causa do sol.
Então posso dizer que tenho diferenças pessoais
com o concreto. E também dei aulas na FAU/USP, que
é um espaço construído maravilhoso,
mas é insuportável passar o dia lá.
No começo da minha carreira, eu tive o sonho de ressuscitar
a arquitetura brasileira dos anos 1940 e 1950. Sem contar
Brasília, foi essa arquitetura brasileira que se
tornou famosa mundo afora. O mesmo acontece com esse pessoal
jovem que está querendo ressuscitar o concreto.
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