| |
| Arquiteto e professor
na Fundação Getúlio Vargas, onde leciona
a disciplina planejamento físico em saúde, e no
Centro Paulista de Economia em Saúde, da Universidade
Federal de São Paulo, na pós-graduação
de Economia e Gestão em Saúde, João Carlos
Bross dedicou sua vida profissional ao complexo segmento dos
edifícios voltados para a área de saúde.
Começou a trabalhar com projetos no setor logo após
formar-se, em 1956, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Como diretor da Bross
Consultoria e Arquitetura, que comemora 50 anos de vida com
trabalhos realizados no Brasil e em países latino-americanos,
comanda uma equipe de 12 arquitetos, quatro deles com MBA ou
especialização em economia e gestão da
saúde. Nesta entrevista a Cida Paiva, Bross fala dos
aspectos que envolvem projetos para edifícios hospitalares.
Entre eles, alguns relevantes, como a tendência à
humanização dos ambientes e a necessidade de o
arquiteto conhecer as tecnologias médicas que provocarão
impacto sobre a nova organização do prédio,
já antevendo situações de futuro crescimento. |
| |
| Quais os principais aspectos que envolvem
a arquitetura de edifícios médico-hospitalares? |
Primeiro, as demandas em forma de prestação
de serviços e remuneração deles. Segundo,
as questões ligadas à incorporação
de novas tecnologias médicas, que são exigências
não só dos profissionais, como também
do mercado. Por último, mas não menos importante,
os arquitetos precisam compreender primeiro o negócio,
para depois compreender o prédio. Um dos aspectos
que têm marcado a posição de nosso grupo
é procurar fazer exatamente essa interface entre
conhecer a conjuntura e entender e recomendar o negócio,
para depois cuidar do prédio.
|
| |
| São essas as principais abordagens? |
A maneira de abordar o edifício
não parte de um programa arquitetônico, mas
de uma definição da estratégia do negócio.
E o arquiteto tem que participar porque, entre outros aspectos,
os maiores investimentos são feitos tanto na área
de infra-estrutura do prédio como na tecnologia médica.
O edifício e a tecnologia médica e da informação
que vão dentro dele são os grandes capitais.
Como esses capitais precisam ser alocados, se não
houver viabilidade econômica fica comprometida qualquer
forma de financiamento. Isso está representando uma
mudança significativa na forma de os arquitetos abordarem
os edifícios de saúde.
|
| |
| Quais são essas mudanças? |
Quando nos referimos à arquitetura
hospitalar, é necessário que venhamos, progressivamente,
tirando o foco do hospital. Entende-se o hospital como um
local de longa permanência, quando, na realidade,
estão surgindo novos tipos de edifícios, voltados
para pacientes submetidos a procedimentos de baixo risco
e de curta permanência.
|
| |
| Há quanto tempo se tem notado essa
tendência? |
Ela surgiu há cerca de dez anos
e constrói uma rede hierarquizada de estabelecimentos
de saúde. De maneira geral, os hospitais são
compreendidos pelos usuários como o lugar que resolve
tudo. Não é tanto. Precisamos orientar as
populações no sentido de que há necessidade,
até sob o ponto de vista operacional e econômico,
de criar unidades que tenham uma progressão de complexidades.
Não podemos resolver problemas ortopédicos
simples em hospitais de ponta, por exemplo. Nestes serão
tratados os casos de alta complexidade, enquanto os de menor
grau ficarão a cargo da base da rede.
|
| |
| E essa dinâmica envolve a arquitetura
hospitalar? |
Sim. Uma tendência futura é
os hospitais se unirem em rede, operacionalmente. Ou seja,
surgirão novas atribuições, que permitirão
ao usuário caminhar dentro de uma rota entre hospitais,
por níveis de complexidade - clínicas, policlínicas,
ambulatórios. Alguns hospitais de São Paulo
já têm seus satélites. O Albert Einsten
tem um em Alphaville. Outros estão procurando adotar
essa estratégia, para que essa complexidade tenha
seus resultados maximizados, atendendo a procedimentos de
curta permanência e baixo risco, como as cirurgias
plásticas, tratamentos nutricionais, endocrinológicos,
problemas bucomaxilares. Uma pessoa que tenha de fazer um
exame endoscópico, por imagens e gráficos,
não precisa ir para o hospital. Com isso, haverá
alívio progressivo da utilização do
hospital, que se distribuirá para outras unidades.
Grandes laboratórios de São Paulo já
têm unidades diagnósticas. A proposta é
que o atendimento esteja fisicamente mais próximo
do usuário.
|
| |
| Além da tecnologia médica,
os sistemas de transmissão de informações
também interferem na concepção dos edifícios
de saúde? |
Todas essas mudanças procuram criar
uma visão, por parte do usuário, de que os
sistemas público e privado precisam atuar mais na
promoção da saúde e na prevenção
da doença. Ou seja, não deixar acontecer a
hospitalização. Isso envolve não só
um novo arranjo para o edifício, como também
a possibilidade, que se faz a cada dia mais latente, de
contar com a telemática, que é a telecomunicação
de dados individuais sobre casos clínicos ou cirúrgicos.
É a telemedicina. O médico pode estar numa
posição geográfica e consultar um paciente
a 30 ou 300 quilômetros de distância. Os impactos
desses avanços vão se dar não diretamente
sobre o prédio, mas sobre a nova organização
do prédio.
|
| |
| De que forma essas mudanças atuam
nas antigas edificações hospitalares, concebidas
para atender a outras solicitações do mercado? |
Estamos muito próximos de observar
rearranjos que são feitos dentro dos prédios.
A oferta de camas, por exemplo, diminuirá progressivamente,
uma vez que o tempo de internação é
mais curto. O período de internação
está diminuindo e a taxa de ocupação,
aumentando. Ou seja, com o mesmo número de leitos
é possível atender mais pacientes. Isso, de
certa forma, levará grandes hospitais a uma reciclagem,
porque vão produzir mais com menor número
de leitos. A tecnologia médica e a da informação
estão caminhando entrosadas, o que permitirá
a tomada de decisões mais rápida e com mais
competência. Em vez de se coletar uma série
de exames em laudos escritos, esse trabalho já é
feito virtualmente.
|
| |
| Nesse caso, qual o papel do arquiteto? |
Ele precisa estar junto do processo de
estabelecimento da estratégia da empresa, para também
definir o seu trabalho. Ou seja, “o que vou fazer, para
quem vou fazer e como vou fazer”. O “como vou fazer” representa
uma incorporação de tecnologia de espaços
para que se faça melhor, mais e a menor custo. A
compreensão do arquiteto no que se refere ao edifício
de saúde precisa ter um aprimoramento maior e incorporar
um conhecimento muito grande. Por isso é importante
que o profissional participe dos estudos que, tecnicamente,
se chamam de tendências. Qual a tendência da
engenharia genética sobre o futuro dos edifícios
de saúde? Qual a tendência da incorporação
da telemática nesses edifícios? Qual o impacto
do relacionamento com outros estabelecimentos de saúde,
formando uma rede?
|
| |
| Diante desses progressos, cada vez mais
rápidos, quais as estratégias utilizadas pelo
projeto arquitetônico para incorporar expansões
e alterações de uso? |
Vamos tomar como referência dois
aspectos. Primeiro, há espaços físicos
ainda muito grandes para guarda de prontuários de
pacientes. Esse documento passará, progressivamente,
para arquivo digital e, em conseqüência, essa
área terá outra destinação.
Existem as atividades-fim, que atendem aos pacientes através
da competência dos médicos. E também
um conjunto de atividades-meio - suprimentos, administração,
serviços gerais -, que estão sendo terceirizadas.
Portanto, dentro da logística de suprimentos, não
é mais necessário que a cozinha fique próxima.
Isso indica a necessidade de examinar a terceirização
das atividadesmeio, o que representará um impacto
muito grande: se as áreas-meio forem transferidas,
haverá locais nos hospitais existentes que poderão
ser ocupados com atividades-fim. E edifícios que
não têm espaço territorial para crescer
para fora têm que encontrar mecanismos de rearranjos
internos. Esse rearranjo depende de toda uma estratégia
em que o arquiteto é o comandante. Não é
possível reformar meio centro cirúrgico e
também o hospital não pode deixar de operar.
|
| |
| Como isso deve ser resolvido? |
Essa progressiva reformulação
interna, ou mesmo expansão, tem que ser uma atribuição
muito firme do arquiteto, junto com as engenharias e até
com a própria construtora. O hospital que não
adequar constantemente seus espaços está fadado
ao insucesso, pois ficará senil. A abordagem do projeto
de hoje exige do arquiteto um ensaio, uma modelagem do que
podem ser tendências de alteração interna,
como a incorporação de novos equipamentos
ou serviços. Essa abordagem se faz necessária
para manter a excelência e a vantagem competitiva.
Se o prédio não for projetado para receber
algumas adequações, terá cerceada a
sua oferta. Estabelecida a estratégia da empresa
que ocupa o edifício, o arquiteto precisa discutir
com os dirigentes e os estrategistas da companhia quais
as áreas que ele entende serem passíveis de
alterações.
|
| |
| É possível trabalhar com
modelos para o desenvolvimento da arquitetura hospitalar, assim
como ocorre, por exemplo, com os edifícios administrativos? |
A concepção não consolida
um prédio. Ela oferece o edifício para uso
naquele momento, mas já antevendo algumas situações
de futuro crescimento e acréscimo de novas tecnologias.
Não existe um modelo. É necessário
analisar os processos e atividades que ocorrem dentro daquele
espaço. Uma das propostas é que, definida
a expectativa do empreendedor, faça-se um modelo
teórico do hospital. Uma das abordagens é
que se realize estudo de viabilidade do negócio,
daquilo que será feito dentro do prédio, para
verificar a consistência de retorno do capital investido.
Antes de tomar essa decisão, é preciso ter
a garantia de que o que será feito dentro do prédio
liberará recursos para o retorno do capital. Como
o valor investimento e o valor tecnologia são os
capitais mandatórios, muitas vezes o arquiteto precisa
estar consciente da necessidade de adequação
de seu projeto e adequação do valor do investimento
à disponibilidade financeira.
|
| |
| E de que maneira a tecnologia da construção
é aplicada nesse processo? |
O hospital precisa de uma ossatura, uma
estrutura, e fechamentos que permitam constante flexibilidade.
É necessário organizar as instalações
e estruturas de tal forma que se possam adequar, com certa
facilidade, os ambientes internos. Algumas adequações
podem ser previstas. É possível ter uma área-fim,
que no futuro exigirá expansão, colocada ao
lado de uma área-meio passível de ser remanejada,
como, por exemplo, a administração. Há
uma grande diferença dos edifícios convencionais.
Por isso chamamos de instalações prediais
e instalações especiais aquelas diferenciadas
pela utilização de determinados equipamentos.
A modulação do edifício em 1,25 metro
é adequada a todos os padrões dimensionais
de fechamentos, revestimentos etc. No momento em que o arquiteto
compreender o partido, a volumetria do prédio, ele
tem que interagir com os engenheiros e apresentar algumas
antevisões ligadas a prováveis rearranjos
internos, dentro de possíveis expansões.
|
| |
| E a questão plástica da
edificação? |
A questão ambiental é muito
importante porque estudos feitos no Brasil e em outros países
mostram que o espaço físico é um componente
na recuperação dos pacientes. O termo hospitalização,
por exemplo, está sendo substituído por hospedagem.
O desenho baseado em evidências mostra claramente
que há uma certeza de que o paciente se sente melhor,
menos estressado, psicologicamente mais relaxado. O emocional
do usuário precisa ser atendido. Não é
só a chamada humanização, que se faz
através dos profissionais, mas a ambientação
que participa e contribui para ela. Os hospitais de última
geração já estão considerando
esse aspecto com muito entusiasmo. A idéia é
tirar do paciente aquela imagem de edifício cheirando
a formol e cheio de azulejos e oferecer a ele um prédio
com ambientes mais aconchegantes.
|
| |
| Trata-se de uma vantagem competitiva para
as empresas do setor hospitalar? |
Sim. Imagine dois estabelecimentos em igualdade
de condições, de competência e de tecnologia,
mas um deles oferece uma nova opção, o ambiente,
um prédio moderno, recém-construído.
É um componente do processo de qualidade e da própria
estratégia empresarial que hoje começa a tomar
corpo, até punindo empresas que ainda não
assumem essa postura. O arquiteto já precisa partir
dessa visão, pois há uma exigência de
procedimento nesse sentido por parte dele. Em nosso escritório
existem 16 profissionais de nível superior, dos quais
seis já são titulados e quatro profissionais
arquitetos com MBA em economia e gestão da saúde.
O estabelecimento oferecer requisitos humanísticos,
além daqueles de caráter técnico, não
se trata de uma questão mercenária, mas de
foco.
|
| |
| |
Publicada originalmente
em FINESTRA
Edição 45 Abril de 2006 |
|