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| Nas últimas semanas,
Paulo Mendes da Rocha esteve no centro das atenções:
nunca foi tão requisitado, por uma avalanche de jornalistas,
do Brasil e do exterior, ávidos por ouvir o grande premiado
de 2006. PROJETO DESIGN não poderia fazer diferente:
em uma tarde no início de maio, no escritório
situado no prédio do IAB/SP, encontramos o Pritzker 2006.
A longa entrevista transcorreu, nas palavras do próprio
arquiteto, na linha da “crônica urbana”. Isso porque,
além da retórica que qualifica seu pensamento,
ele foi convocado a contar alguns episódios de sua vida,
lembrando a presença do pai em sua trajetória,
o ambiente do Mackenzie, o contato com Artigas, além
de prosaicos momentos de sua carreira. “Agora posso contar”,
ele admitiu. Longe de querer invadir a privacidade ou incorrer
no famigerado culto às celebridades, o intuito era clarear
as influências de sua formação, desmitificar
o ambiente arquitetônico a que ele pertence e, talvez
, revelar seu lado mais humano. Foi quase uma conversa de botequim. |
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| Em diversas ocasiões, o senhor
recorda a importância para sua formação
que teve a observação atenta do trabalho de seu
pai. Quando o senhor adquiriu consciência desse fato? |
Quando convoco esse tipo de lembrança,
recordo da formação e da educação
não pelo lado afetivo da paternidade. Eu estava perto
de um engenheiro muito ativo em sua especialidade, e vi
muita coisa porque ele me levava. Tanto que depois, muito
mais tarde, quando ele se tornou diretor da Escola Politécnica,
aprendi que questões delicadas sobre o que fazer
se resolvem em serenas e demoradas reflexões. Essa
engenharia girou na minha casa e na minha vida. E era interessantíssima,
porque, no caso brasileiro, em particular, são 8
mil quilômetros de costa e de uma rede fluvial riquíssima,
belíssima, com duas bacias extraordinárias,
a amazônica e a do Prata. Os engenheiros conversavam
sobre tudo isso. Meu pai era uma espécie de consultor
na área de navegação, portos, rios
e canais, e trabalhava no Brasil todo. A construção
dos portos, a apropriação de técnicas
delicadas e as últimas novidades, ele estudava porque
lhe era solicitado isso, para fazer um porto - enfrentar
mar, marés, correntes marítimas. Percebi nessas
conversas, pela opinião e visão de grandes
engenheiros, que os moviam urgentes necessidades de transformações,
para fazer de uma bacia inundada um canal navegável.
Transformar cidades impaludosas, inundadas, insalubres,
em território firme, cais de porto. Objetivamente,
o que eu vivi é que esse grande amigo meu, meu pai,
engenheiro, desde menino me levava para fora da barra, para
ver dragas, rebocadores, tubulão pneumático
para cravar no porto de São Sebastião etc.
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| O senhor possui registros dessas “viagens”
educacionais? |
Há uma fotografia belíssima
com algumas pessoas num píer, como se estivessem
abandonadas, cujo horizonte é o mar, fotografadas
em São Sebastião, inaugurando o primeiro trecho
de cais que foi feito, acredito, em 1936. Há alguns
senhores, uma mulher interessantíssima com um grande
chapéu e uma echarpe voando no vento e dois meninos.
Um deles era eu. Os homens são meu pai e Henrique
Lage, empresário do grupo que tinha construído
aquilo tudo. A mulher era Gabriela Besanzoni Lage, uma espécie
de Maria Callas da época, uma contralto que nessa
ocasião já não cantava, mas acompanhava
o marido nessas cerimônias. Vi tudo isso. Agora, você
pode ver e não estar vendo nada. Posso dizer, como
virtude minha, que eu prestava muita atenção
e me comovia com a maravilha daquelas realizações.
Navios, cais de porto e tudo isso. Assim, acompanhei muitas
obras importantes no Brasil. Uma ocasião, o Departamento
de Obras da Secretaria de Viações e Obras
Públicas aqui em São Paulo, onde meu pai passou
a trabalhar lá pelas tantas, antes de fazer concurso
para a Escola Politécnica, fretou um navio que ficou
à disposição do governo como um escritório
de engenharia, e percorremos os pequenos portos da costa
brasileira, do Sul do país até Santos, principalmente
os do estado de São Paulo. O que se pretendia era
revitalizar, com novas construções, e modernizar
esses pequenos portos. E nunca se fez isso com os pequenos
portos para navegação de cabotagem e particularmente
para amparar a pesca. Até hoje, o Brasil sofre com
isso: uma frota sai pescando e se tem a sorte de encontrar
grandes cardumes precisa voltar para Santos ou Paranaguá
para se reabastecer de gelo e desembarcar aquilo, por falta
de um constante apoio nessa costa, onde tudo é possível.
Fiquei 20 dias dentro desse navio com os engenheiros. Imagine
que aventuras nós não passamos com tudo isso,
os meninos. Eu devia ter por volta de 12 anos.
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| Essa educação parece ter
sido mais marcante para o senhor do que a escola formal. |
A escola é uma coisa muito importante.
Falo tudo isso não para exibir um privilégio,
mas para dizer como são pobres as nossas escolas
e como se ensina mal desde criança os nossos futuros
empreendedores. Talvez por isso as cidades sejam um desastre.
As pessoas não compreendem que a responsabilidade
e a decisão são absolutamente nossas. E, portanto,
os ideais de beleza devem refletir a beleza que teríamos,
ou não, nós mesmos. A porcaria de São
Paulo, que tanto se comenta, os desastres urbanísticos
daqui pesam mais. Estou dizendo isso para ver se convoco
os senhores que mandam em tudo isso - industriais, comerciantes,
empresários, políticos - a uma visão
de dignidade, de que a coisa não pode ser assim porque
não faz bem para nós. Quem sofre é
nossa visão de cultura e, principalmente, a escola
que vai educar nossos meninos. O ensino de maneira geral
está muito atrasado porque há uma distância
enorme entre o que se diz e, como abstração,
o que se pretende ensinar e para que serve aquilo.
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| Como o senhor transportou essa visão,
basicamente de engenharia, de domínio da natureza, para
a arquitetura? |
Não há contradição
nenhuma: engenharia é arquitetura e arquitetura é
pura engenharia. Esses falados altos ideais que aparecem
nos antigos palácios hoje são balela, porque
as questões comoventes não são mais
essas liturgias das cerimônias ou a empostação
como monumento, a coisa construída. O que é
monumental hoje é o desejo humano e a consciência
sobre a cidade. Se todos desejam as cidades, eis aí
a razão dessa população imensa em cidades
do Brasil e da América Latina. A visão de
riqueza está nas cidades. Abandona-se tudo para vir
para a cidade. Em princípio, como primeiro movimento,
não é mau - é uma manifestação
de inteligência e de conceito de urbanismo. É
uma consciência sobre as virtudes da vida nas cidades.
No entanto, o realizar dessas cidades é um desastre.
Esse monumento estaria hoje na realização
dessas cidades para todos. Não sabemos como fazer,
mas tínhamos que dirigir a política para dizer
isso que teremos de fazer: a habitação na
área central, junto a transporte público etc.
Nenhum país tem futuro se a coisa continuar assim.
A parcela fundamental da população, a mais
digna - por razões históricas deu-se isso,
entre nós -, é a mais pobre. Se você
quiser olhar a excelência da engenharia e da arquitetura
em alguns exemplos isolados, vai conseguir destacar. Só
que vai descobrir, fatalmente, que todas as virtudes postas
ali são de conhecimento universal e até um
tanto banais. Calcular uma viga, uma ponte, é belo,
é interessante, mas é banal. O que não
é banal é a força do povo que construiu
aquilo. Então, os heróis de uma obra notável
são os operários. Mas, se eles não
têm onde morar,
não progridem. Quem trabalha não tem esperança
de progredir dentro do ofício, e isso é uma
lástima. Os erros são de locação,
como se fosse um jogo de xadrez. As coisas têm, por
razões inexoráveis de nossa condição
na natureza, lugar certo ou lugar errado. Se você
puser em lugar errado, não adianta fazer de ouro.
Esse é o drama da arquitetura contemporânea.
Você aplica uma fortuna no edifício como fato
isolado, ele brilha mais do que seria conveniente, chega
a incomodar o vizinho e não significa nada. Ao contrário:
é uma espécie de pedra no caminho da cidade.
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Esses falados altos ideais que aparecem nos antigos palácios
hoje são balela, porque as questões comoventes
não são mais essas liturgias das cerimônias
ou a empostação como monumento, a coisa construída.
O que é monunental hoje é o desejo humano
e a consciência sobre a cidade
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| Há uma versão de que o senhor
escolheu estudar no Mackenzie em virtude de seu pai ter sido
diretor da Escola Politécnica. Essa foi uma escolha consciente? |
Não sei o que dizer. Se você
aceitar nessa entrevista um tanto de brincadeira, eu nunca
fiz análise. Eu achava talvez - também não
posso garantir, mas tenho essa impressão - que eu
não valia grande coisa. Minha vida de estudante sempre
foi muito livre. Mesmo com certo êxito, eu estava
chegando no fim de um período para ingressar numa
universidade, mas era muito à minha moda. E não
queria absolutamente invadir a escola do meu pai, digamos
assim. Naquela época - e eu não estava entendendo
muito o que se passava - arquitetura ainda era um curso
da Politécnica. Havia na escola um amigo meu - Abelardo
Gomes de Abreu, que depois foi presidente do IAB e é
um belíssimo arquiteto - que disse que ia fazer exame
para arquitetura no Mackenzie. Fomos para o Mackenzie e
fui muito feliz. Pensei: estou livre e não vou aborrecer
meu pai. Tive a liberdade de escolher minha escola, e ele
não interferiu em nada.
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As coisas têm, por razões de nossa condição
na natureza, lugar certo ou lugar errado. Se você
puser em lugar errado, não adianta fazer de ouro.
Você aplica uma fortuna no edifício como fato
isolado, e ele se torna uma espécie de pedra no caminho
da cidade
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| Como era o ambiente no Mackenzie e quais
professores o senhor considera os mais importantes? |
O Mackenzie é uma excelente escola.
Fui aluno de Christiano Stockler das Neves, Elisiário
Bahiana e Pedro Corona. Havia também, acrescente
aí, o Roberto Rossi Zuccolo, o homem que introduziu
o concreto protendido no Brasil. Ele tinha inclusive representação
da Freyssinet no país. Estudei com esses homens,
portanto estudei muito bem. Zuccolo tem uma história
maravilhosa, ele que foi um ilustre engenheiro do século
20, indispensável para todo o desenvolvimento das
técnicas construtivas no país. Ele foi uma
espécie de Eugène Freyssinet. Nós tínhamos
uma reverência enorme por ele. Na ocasião,
estava realizando as
primeiras experiências com o concreto protendido e
fazia o seguinte: entrava em concorrência com o projeto
já esboçado, como era permitido, e desenvolvia
uma variante para apresentar depois. Ele ganhava a concorrência
e mostrava a variante, que custava metade do preço,
feita com concreto protendido. Fez, assim, várias
pontes e viadutos, com êxito empresarial.
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| Nessa época Zuccolo era muito jovem,
não? |
Era jovem, e morreu muito jovem.
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| Pela postura política dele, não
havia conflito com Stockler das Neves? |
Mas não havia essa contradição
entre um e outro. Stockler das Neves tinha uma consciência
muito clara e, como é sabido, uma fixação
um tanto acadêmica pela arquitetura de estilo. Mas
isso era, antes de mais nada, um ensaio, porque obrigava
a fazer projetos dirigidos enfocando a arquitetura grega,
greco-romana e coisas assim. Mas se aprendia literalmente
a importância da história como experiência.
E sempre nós víamos, num templo grego, que
seria o mais clássico, um sistema construtivo belíssimo.
O Mackenzie era uma escola que não obrigava a engolir
uma visão formal daquelas coisas. Era o simples exercício
de um prédio existente, a visão de há
quanto tempo existiu e progrediu para o concreto armado
e outros materiais. E isso é muito mais útil
do que você sempre pensar que a coisa da sua época
é uma novidade total - que é o que hoje ocorre,
a ponto de se designar algo como pós-isso ou pós-aquilo.
O homem não pode ser pós-nada. Nós
somos sempre.
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| Mas no Mackenzie se destacava um grupo
de estudantes interessados na arquitetura moderna. Como o senhor
percebia isso? |
Com muita clareza. Você vê,
inclusive como se fosse o cultivo no sentido da palavra,
os frutos gerados: Pedro Paulo Saraiva, Carlos Millan, Eduardo
Corona. O Mackenzie tinha inclusive técnicas pedagógicas
excelentes. Os trabalhos de projeto, por exemplo, iam para
a parede e a nota era dada pelo professor da disciplina
e dois ou três professores convidados das outras aulas.
Uma coisa dentro da escola, sem cerimônia, mas de
um cotidiano muito rico, muito estimulante. E, já
naquela ocasião, quando um de nós dizia para
o outro: “Olha, pregaram os trabalhos do quarto ano” - nós
estávamos no terceiro -, todo mundo ia ver o trabalho
de Carlos Millan.
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| Millan já se destacava entre os
alunos? |
Sim, sem dúvida nenhuma. Ele fez
uma casa, que era o tema, toda à mão, croqui.
Com certeza não teve nota grande, mas o projeto era
uma maravilha. Nós brincávamos, no bom sentido,
no sentido intelectual da palavra, dentro da própria
escola. Você fazia, com grande habilidade, o que o
nosso querido Christiano pretendia, no primeiro trabalho,
e tirava nove, dez. E depois fazia outros trabalhos com
mais liberdade. Você não ia tirar zero, de
qualquer maneira, e, na média, cinco dava para passar.
Eu cheguei a fazer qualquer coisa que tinha capitéis
trabalhados e um frontão. Mas era tudo macaco, arara,
papagaio, um floral amazônico. O grêmio da faculdade
também, pela mão desses colegas ilustres que
se dedicavam à política estudantil, possuía
uma exposição anual de trabalhos e arquitetos
de fora eram convidados para julgar. Lembro que no quarto
ano, ou talvez no quinto, ganhei quase todos os prêmios,
tendo no júri Rino Levi e outros convidados.
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| Continua... |
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