Paulo Mendes da Rocha
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Pouco tempo depois de formado o senhor ganhou o concurso do Paulistano, em São Paulo. Fale um pouco sobre isso.

O Paulistano foi uma oportunidade interessante, pois em concursos você se inscreve e faz o que quiser. Esse nível de liberdade do concurso é muito interessante, porque você emite uma opinião e não tem que se preocupar se é de época ou não. Lembro que não recorri a modelo nenhum, ao contrário. Essa é uma regra que eu uso, aliás, acabou sendo constante: antes de dizer o que quer fazer, você tem que saber muito bem o que não quer fazer. Aquele espaço estava na rua Augusta, já uma rua de comércio considerada interessantíssima. Imaginei que as construções fechadas que se usam para esses ginásios cobertos - no caso do ginásio particularmente, porque o concurso era para a revisão de toda a área - não cabiam ali. Tinha que ser algo festivo, que pudesse conviver com a alegria daquela rua. Isso é que induziu a procura por uma forma que tivesse esse ar de varanda sobre a plataforma, com uma solução necessariamente muito sutil por causa da escala. Daí o surgimento daquela frente inesperada. A frente parece um teatro, um espetáculo de certa grandiosidade, por exemplo, um desfile que não acaba nunca. Há uma porta para dentro do ginásio e outra para a rua. É um enorme espaço vazio. Imaginei a possibilidade de um embasamento que sustentasse a configuração de praça, uma grande marquise, para que não precisasse ter porta, inclusive no recinto interno, já que é esportivo. Então, uma proteção baixa e larga - 12 metros a 2,10 metros -, aquilo mergulha um tanto para dentro do território e consegue suspender uma leve cobertura. Devo esse projeto, mais uma vez, à engenharia. A concepção estava muito boa, mas para definir aquilo com clareza, para a minha sorte, surgiu a figura do engenheiro Tulio Stucchi, que orientou o cálculo definitivo junto comigo. Devo a ele a finura de compreender a beleza do desenho e a razão fundamental daquelas formas de modo nítido, desfrutando até o limite a dimensão de cabo, peso, articulação de tudo. O projeto é todo articulado, pousa no chão em seis pilares e o que assegura a estabilidade é um grande anel de concreto e depois o anel de aço, de onde partem os cabos para sustentar a cobertura metálica que não se apóia na marquise. Os apoios são articulados, delicados, só para efeito de vento. É muito interessante o projeto e aprendi muito detalhando aquilo, junto com a engenharia, mecânica de solos, escavações etc. O lençol lá é muito superficial e estive quase no limite de desistir daquilo tudo para não enfrentar muito a sobrecarga, a subpressão do lençol freático. Foi um projeto em que trabalhamos com a engenharia desde a concepção original enquanto idéia de forma, que é uma estrutura capaz de realizar aquela espacialidade, uma questão de gentileza urbana, enfim, de adequação. Aprendi desde logo que a grande virtude da arquitetura, se ela tivesse que ter uma só, é ser oportuna, no lugar, na cidade.

 
 
João Eduardo de Gennaro contou-me que vocês fizeram o concurso no seu apartamento na rua Lisboa. É isso mesmo?

Ninguém tinha dinheiro. Eu me inscrevi no concurso e teria que fazer sozinho. Esse companheiro foi meu colega de turma, uma figura que me amparou em todo o começo, e eu o convidei para fazermos juntos. Nós dois desenhamos 12 pranchas enormes, e como não havia onde desenhar, com as dificuldades de um escritório na cidade, levamos as pranchas para o meu apartamento. Trabalhávamos lá sem dormir, noite e dia, durante a última semana.

 
Nessa época vocês tinham escritório no centro de São Paulo?

Sim. No edifício Filizola. Fizemos uma coisa que acho interessante. Era um condomínio, com cinco ou seis arquitetos, e cada um pagava uma parte. A quem entrasse parecia um escritório só. Padronizamos o mobiliário, eu desenhei uma mapoteca muito bonitinha. Trabalhavam lá Djalma Macedo Soares, grande arquiteto, eu, João de Gennaro e outros. Alguns entravam e saíam. Os mais constantes eram João, Djalma e eu.

 
Depois vocês se mudaram para o Conjunto Nacional?

Ganhamos muito dinheirinho com o Paulistano e um corretor muito simpático, por iniciativa dele, foi nos procurar. Disse que tinha uma coisa para nós, que teríamos que comprar: eram os conjuntinhos do Conjunto Nacional, então em construção. Ele nos mostrou um plano que nós poderíamos de fato cumprir. Comprei duas salas, João comprou outras duas, juntamos tudo e fomos para a avenida Paulista. Doze metros de frente para a avenida; uma maravilha. Nesse escritório, de onde participei do concurso para o Pavilhão do Brasil em Osaka, fiquei até por volta de 1970.

 
Foi da avenida Paulista que o senhor se mudou para o edifício do IAB/SP?

Vim para cá porque tínhamos um sonho. Naquela altura, essa história de crachá e segurança para entrar no Conjunto Nacional já tinha começado - quando mudamos não havia isso. O prédio do IAB tinha esse encanto: você tinha a chave da porta. Antes mesmo de mudar, comíamos no restaurante do IAB todos os dias. Havia uma figura extraordinária, um nordestino que explorava o restaurante - nós o chamávamos de Xaxá -, que era de uma dignidade fantástica. A ponto de servir de sobremesa mamão à Frank Lloyd Wright - ele ouvia nossas conversas e inventava. Era um homem muito inteligente. Um dia, na época do governo militar, viemos todos para o restaurante, preocupados com as perseguições e ele disse: “Doutor, fique tranqüilo: aqui não entra ninguém”. Abriu o casaco e estava com um 38 na cintura. Fábio [Penteado] e eu tivemos um problema enorme para, delicadamente, tirar a arma dele e dizer que ele não poderia fazer aquilo. Veja quem era esse caboclo. Um dia, estou lá no meu escritório do Conjunto Nacional e ele me ligou: “O senhor queria um escritório aqui? Pode comprar. O fulano disse que vai vender”.

 
Quem era o arquiteto?

Eram Ariosto Mila e João Cacciola. Eles resolveram vender. Se não me engano, um deles tinha morrido. Não é uma história alegre, mas, enfim, estava para vender e eu comprei no andar do Artigas, o que achei que seria conveniente. Comprei e passei a ter o meu escritório. Veja a nossa formação: nunca tive casa e comprei logo um escritório, apesar de já ter três ou quatro filhos. Para nós, o trabalho era fundamental, inclusive para sustentar o resto todo. Essa idéia mesma do condomínio [no edifício Filizola], que é uma forma de você ter um belo escritório na cidade, mostra que éramos formados como homens urbanos. Essa consciência nós tínhamos.


Minha segunda formação foi Artigas, pela visão nítida de que engenharia e filosofia - ou seja, técnica e crítica - são a essência da arquitetura. Suas aulas eram maravilhosas. Porque ele punha o raciocínio e a reflexão como questão primordial, para depois você ver que decisão tomar

 
Logo depois do concurso do Paulistano, Artigas convidou o senhor e Pedro Paulo de Melo Saraiva para assistentes dele na FAU/ USP. Vocês já tinham, antes, algum contato?

Eu o conhecia, digamos assim, de apertar a mão, quando ele me convidou para ser assistente. Era uma coisa fácil de compreender: as vagas estavam abertas e os professores podiam propor nomes. Você tinha que apresentar seus títulos para ser aprovado e se tornar professor. Todo mundo conhece a minha passagem pela USP. A minha segunda formação foi o Artigas, por essa visão nítida de que engenharia e filosofia - ou seja, técnica e crítica - são a essência da arquitetura. Você deve imaginar o que foi para mim, como amadurecimento da minha formação, a presença de Artigas e a convivência com ele. Suas aulas eram daquelas que iam se enchendo de estudantes. Os alunos dos outros anos pouco a pouco iam invadindo os recintos, sentando por ali. Eram aulas maravilhosas. Porque ele punha o raciocínio e a reflexão como questão primordial, para depois você ver que decisão tomar.

 
O senhor dava aulas ao lado dele?

Os auxiliares de ensino ficavam ali como monitores. Mas com o golpe militar, que não fechou a escola da noite para o dia, nem nos cassou de imediato, Artigas afastou-se de São Paulo. Esteve fora do Brasil devido à perseguição feroz. E, pela dignidade da própria escola, o diretor, que, na ocasião, era um matemático, cujo nome esqueci, chamou Millan, Pedro Paulo e eu e disse: “Pelo estatuto da universidade, o professor não precisa ser substituído por outro professor do mesmo título. Vocês, que são assistentes de Artigas, podem, se quiserem, tomar conta do quinto ano”. Eu e Pedro Paulo ficamos tomando conta do quinto ano por um ano ou dois. Lembro que nessa ocasião, no trabalho final - naquela época o trabalho de graduação interdisciplinar, o TGI, estava se esboçando -, a escola determinava o mesmo assunto para todos. Eu e Pedro escolhemos como tema a barragem de Urubupungá, com a proposta de urbanizar seu entorno. Um aluno fez um trabalho belíssimo, de que não me esqueço: as eclusas no lado alto da barragem com o navio entrando, a barragem se fecha, a água escoa, o navio como que naufraga e sai lá embaixo - uma maravilha. Outro tema foi o porto de São Sebastião. Lembro que Jorge Caron fez algo lindíssimo, inclusive com um estádio de futebol quando acabava o porto, na frente do canal, e uma área para regatas com arquibancadas de um lado só. E desenhou alguns engenhos, naturalmente copiados, similares, mas via-se que tinha alguma invenção, para guindastes e coisas assim, equipamentos do porto, suscitando nos estudantes a imaginação para além da questão do edifício como fato isolado. É preciso ver que, à época, Brasília era recente. Na nossa formação, a questão do espaço e da espacialidade da cidade pela mão da coisa construída, transformação da própria geografia, sempre foi a essência da arquitetura.

 
A época da sua saída da FAU/USP, durante o governo militar, foi a fase mais difícil de sua vida profissional?

Foi o período mais difícil e mais triste de minha vida, sem dúvida nenhuma. Porque todos nós, além de ameaçados, estávamos humilhados, indignados e constrangidos. Nossos colegas estavam sendo mortos, como Rubens Paiva, meu grande amigo. Então, a dor era imensa, além de qualquer idéia de dificuldade. Mas, nesse lado da questão, a figura de Artigas também é muito importante. Porque ele sempre foi muito estimulante quanto à idéia de reagir com dignidade. Ele voltou depois, submeteu-se a julgamento e esteve preso num quartel do parque D. Pedro. Mas nós conseguimos conviver com tudo. Há, inclusive, coisas que não se sabe e que agora posso dizer: fui cassado duas vezes. Na primeira lista, fui demitido da USP, junto com tantos professores, como todos sabemos. Mas, 15 dias depois, numa segunda lista, saí eu, mas nem todos aqueles outros, não sei com que critério. Eu fui literalmente impedido de trabalhar. Conheço de cor o decreto: “Proibido de trabalhar para o governo da República, de forma direta ou indireta, empregatícia ou não”. Veja a habilidade da redação, coisa de jurista. Mas meus colegas me ampararam, pouco a pouco, e fui trabalhando por fora, sem aparecer. Eu não podia fazer nada, ninguém ia me empregar. Eu não podia trabalhar para empresas, mas, de qualquer maneira, eu também nunca trabalhei para nenhuma. Sempre consegui, apesar de tudo isso, manter um pequeno estúdio. Um projeto aqui, outro ali, e eu me virava.

 
E quais eram os projetos dessa época?

Eu fiz algumas coisa que não se sabia, mas agora posso contar. Eu pintei porta de loja na rua Augusta. Fazia caricaturas, coisas que serviam de enfeite, feitas com pastel e protegidas com verniz. Há algumas coisas que inventei: fiz um mural num andar alto do edifício Conde de Prates, para a empresa de navegação Hamburg Süd, no qual havia navios e carregadores com sacos na cabeça. Eu fazia de tudo porque tinha filhos. Comecei a trabalhar com um cidadão italiano muito interessante, que tinha uma loja de decoração na rua Augusta. Ali fiz essas cadeirinhas de aço que até hoje estão por aí. Perspectiva para outros arquitetos, para vender prédios, para estande de vendas, fiz várias.

 
O senhor chegou a registrar alguns desses trabalhos?

Eu não documentava nada. Lembro de uma lojinha que eu fiz, na rua Augusta, coisa de moda. A porta era toda pintada e havia uma senhorita, uma mulher com uma piteira, uma correntinha e um cachorrinho peludo - uma coisa um tanto Toulouse Lautrec. Besteiras que eu não sei como engoliam e me pagavam. Mas eu desenhava bem, desenharia qualquer coisa mais ou menos. Então passei a fazer isso para sobreviver. Lembro que muitas vezes, quando tinha escritório no edificio Filizola e morava num apartamentinho da rua Lisboa, travessa da Rebouças, eu precisava decidir: ir para casa de ônibus ou comprar um maço de cigarros Lincoln e ir a pé? Fiz esse trajeto a pé várias vezes.

 
O senhor morou no edifício Copan? Como foi essa experiência?

Morei bem mais tarde. Se você quer continuar nesse tom de crônica da cidade, morar no Copan foi uma maravilha, como usuário. Porque lá você põe uma sandália qualquer, veste por cima do pijama uma capa de chuva e vai comprar jornal na avenida São Luís, no domingo, numa boa. Fiquei muito amigo de uma figura extraordinária, um espanhol que tomava conta de toda a parte de comida do Hilton [hotel hoje desativado, situado vizinho ao Copan]. Eu tinha um arreglo com ele: atravessava a rua, aos sábados e domingos, ia para a sauna e para a piscina do Hilton. Nadava e ficava por lá, de frente para o meu apartamento, que estava na mesma cota. Tomava meu gim tônica e depois ia para casa almoçar. Uma vez recebi em São Paulo um primo que não sabia onde eu estava morando. Ele veio jantar comigo. Convidei-o para tomar um aperitivo no bar do Hilton. Ficamos ali bebendo e, lá pelas tantas, o barman - que estava de frente para o meu apartamento - me avisou: “Olhe, já estão chamando para o jantar”. Tomamos o último gole, chamei meu primo, atravessamos a rua e fomos jantar, e então ele conheceu a minha casa. Havia um sinal combinado entre mim, a cozinheira e o barman, um contínuo piscar de luzes, que anunciava que a comida estava pronta. Morar na cidade é desfrutar de tudo isso.

 
Há algum tempo, li uma entrevista em que o senhor questionava a inexistência de um Ministério das Cidades...

Agora existe. Mas não basta existir um ministério. A demagogia faz isso, uma espécie de cala-boca. Agora existe, mas não faz nada. Esse ministério nunca exibiu com clareza, como forma de educação, uma política, um horizonte. Então fica administrando a miséria. A miséria não pode ser administrada, ela tem que ser execrada.


[a saída da FAU/USP] foi o período mais difícil e mais triste de minha vida, sem dúvida nenhuma. Porque todos nós além de ameaçados, estávamos humilhado, indignados e constrangidos. Nossos colegas estavam sendo mortos. Então, a dor era imensa, além de qualquer idéia de dificuldade
 
Para terminar: e o Pritzker? Essa premiação, que vez ou outra concede um prêmio como o seu, participa da arquitetura-espetáculo do nosso tempo. Como o senhor vai se esquivar disso tudo, daqui para a frente?
Numa situação dessas, devemos nos obrigar a encarar uma Fundação Pritzker no âmbito da dimensão política, da presença da arquitetura como forma de conhecimento. Louvo essa instituição e, com isso, assumo um compromisso de responsabilidade. Não é algo para se vangloriar de modo individual. Em primeira
instância, mostra que nós temos boa formação. Eu admito que só se possa fazer esses prêmios como um exemplo. Estamos sendo contemplados com essa manifestação clara de que o nosso discurso tem algum interesse para o conhecimento universal. Esse conhecimento reflete a possibilidade das justas transformações que todos desejamos. Qualquer cidade do mundo, hoje, enfrenta o problema de não saber o que fazer com os outros, que não são invasores, mas são indesejáveis. As massas trabalhadoras, aqueles que vêm da Argélia, de Bornéu, de Sumatra - a Europa toda está passando por esse problema -, não encontram a hospitalidade que esperavam, e não se trata simplesmente de abrigar e viver bem. Há que se desfrutar de um futuro, inclusive de escolas, formação, convivência. Temos que abrir os espaços do mundo para os habitantes do planeta.
 
 
Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 316 Junho de 2006
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