Marc Rubin
 
 Aos 74 anos, o arquiteto Marc Rubin continua em plena atividade: dirige um dos mais atuantes e longevos escritórios de arquitetura do país, constituído há mais de cinco décadas. Destacado desde o ínicio por projetos significativos, ali continuam a ser criados edifícios emblemáticos, como, por exemplo, o novo Landmark, a ser construído na marginal do Pinheiros, na capital de São Paulo.
 
 
Esportista nato, Marc Rubin desliza pela neve com a mesma facilidade com que acerta os buracos em um green. Essa desenvoltura também se percebe em seu trabalho: de sua cabeça saíram e saem edifícios marcantes, que vão de pequenas construções até obras com mais de 200 mil metros quadrados. Nascido na França, em 1931, ele é um dos titulares do escritório Botti Rubin há mais de 50 anos - o mais antigo estúdio de arquitetura do país em atividade com a mesma formação inicial. A dupla, de fato, possui atuação complementar: enquanto Rubin se diz mais “preocupado com a forma, o volume, a luz e a sombra”, Alberto Botti “sempre gostou de urbanismo”, além de atuar em entidades de classe. Autor de prédios célebres em São Paulo - o Plantar (1973), o Sesc Campestre (1976) e o Centro Brasileiro Britânico (1999) -, Marc Rubin prefere “fazer uma obra pequena, com possibilidade criativa, a criar mais um prédio banal, em que se tem que inventar algo na fachada para ficar diferente”.
 
O senhor veio para o Brasil com dez anos, mas o destino de sua família era Buenos Aires. Vocês moraram na Argentina?

Sim, por um ano. Meu pai era diretor da Philips e deveria participar da construção de uma indústria naquele país. Depois viemos para o Brasil, primeiro para o Rio de Janeiro e, em seguida, para São Paulo. Nós nos instalamos aqui e só voltei à França para fazer a escola secundária [atual ensino médio]. Achava que estava destinado a fazer o que os franceses chamam de matemática superior, para poder prestar o concurso da Escola Politécnica. Mas eu estava apavorado com a idéia de ficar em Paris, estudando feito um doido. Como meus pais continuavam em São Paulo, acabei ficando por aqui.

 
Depois disso o senhor retornou à França para prosseguir os estudos?

Não. Meu pai havia ajudado a fundar o ITA e era professor na parte de eletrônica. Ele faleceu lá, em 1964, e tinha uma casa no campus, na ala dos professores. Foi no ITA que me apaixonei por [Oscar] Niemeyer e comecei a me interessar por arquitetura. Nessa época, estava com 18 anos.

 
Cursar arquitetura no Mackenzie foi escolha sua?

Sim. Achava que o Mackenzie era mais prático que a FAU/USP. Naquela época, ambos eram novos. O Mackenzie era escola de engenharia, formava arquitetos-engenheiros. Tenho a impressão de que passou a ser faculdade de arquitetura dois ou três anos antes de eu entrar lá. A fundação da FAU foi concomitante. Todos nós que cursamos o Mackenzie naquela época fomos influenciados por Christiano Stockler das Neves. Nós nos interessávamos por arquitetura moderna, para poder ir contra Cristiano, que queria que fizéssemos a única arquitetura que valia para ele: a neoclássica.

 
Como eram as aulas naquele período?

No ensino de projeto de arquitetura no Mackenzie se passava muito tempo na prancheta, porque havia vários tipos de projeto. Havia o projeto 24 horas: era dado um tema e, no dia seguinte, o trabalho tinha que ser entregue. Tinha projeto de oito horas, tinha projeto do mês e do semestre.

 
No Mackenzie havia algum aluno que chamava a atenção de vocês?

Desde o início, [Alfredo] Paesani, Pedro Paulo [de Melo Saraiva], o próprio Paulinho [Paulo Mendes da Rocha] se destacavam. Eu não me destacava tanto assim. As coisas funcionavam da seguinte forma: eram 60 alunos, 30 em cada classe, e os projetos que fazíamos eram expostos nas paredes da sala de aulas. Os professores passavam e davam as notas. Logo percebemos que, para se destacar, era preciso um desenho diferente.

 
O primeiro concurso que o senhor ganhou foi junto com Alberto Botti e Pedro Paulo de Melo Saraiva, não?

Foi em 1949. Era um concurso de estudantes para um hospital em Registro. Da nossa equipe também participou o engenheiro Rubens Paiva, que depois foi deputado e foi assassinado durante o governo militar - ele era estudante de engenharia no Mackenzie. Naquela época, eu e Pedro Paulo éramos muito amigos e trabalhávamos em dupla. Precisávamos de mais gente, Botti apareceu e entrou. Depois, Pedro Paulo foi trabalhar mais com Rubens Paiva; eu consegui um projeto e chamei Botti para fazer. Ainda como esestudante trabalhei com Rino Levi, que foi importante para minha formação, e também com [Charles] Bosworth, para quem fiz algumas perspectivas, como a do Clube Samamabaia, no Guarujá.

 
 
A colaboração com Bosworth ocorreu antes de trabalhar no escritório de Rino Levi?

Depois. Rino não aceitava ninguém que não estivesse no terceiro ano. No [escritório] Rino fiquei dois ou três anos. Na verdade, era um escritório pequeno, meia dúzia de pessoas trabalhavam lá.

 
Quais são suas lembranças do período em que trabalhou no escritório de Rino Levi?

Rino era, de certa forma, um purista, no raciocínio e no traço. Hoje, pensando bem, não sei se gosto tanto de certas coisas que ele fez. Vou explicar a diferença entre [Vilanova] Artigas e Rino naquela época: Rino fazia telhados de Eternit com as madeiras aparecendo por baixo, a telha aparecendo; Artigas fazia uma platibanda e escondia o telhado, o que, para Rino, era um crime. Hoje, acho que Rino era um homem fantástico, mas faltava a ele um pouco de fantasia. Eu tive esse tipo de raciocínio: é preciso mostrar as coisas como elas são.

 
Alguns edifícios que os senhores construíram em São Paulo, na década de 1960, têm uma tipologia muito bem definida: o uso do concreto com as vigas de transição. Foram influenciados por alguém no uso desse material?

Rino não usava o concreto - o edifício Prudência, por exemplo, é todo revestido com cerâmica. Tenho a impressão de que o que aconteceu realmente foi uma grande coincidência. Naquela época, ninguém tinha feito edifícios altos em concreto. Quando começamos a fazer, Pedro Paulo fez, em paralelo. O primeiro prédio de concreto aparente é aquele da rua Piauí, esquina com a Itacolomi. Ao mesmo tempo, Pedro Paulo estava fazendo [o edifício Pedra Grande] na 9 de Julho [leia PROJETO DESIGN 303, maio de 2005].

 


Ainda como estudante, trabalhei no escritório de Rino Levi. Ele era um purista, tanto no raciocínio como no traço. Hoje, pensando bem não sei se gosto tanto de certas coisas que ele fez. Era um homem fantástico, mas acho que lhe faltava um pouco de fantasia

 
Por que vocês resolveram incorporar edifícios de apartamentos nos anos 1960?

Simplesmente não tínhamos muita opção. Quando aparecia alguma coisa, era com aquela pressão que hoje estamos de novo sentindo - do corretor, do marketing. Era menos sofisticado, mas era assim já naquela época. Alguns amigos nossos tinham terrenos. Resolvemos juntá-los e fazer uma troca de área construída por terreno, que é clássica. Nós fazíamos o projeto sem nenhuma intenção de ganhar dinheiro na construção ou na incorporação, mas para abrir uma perspectiva de trabalho. Um prédio como este [o edifício Plantar, na rua Hungria, onde fica a sede do escritório Botti Rubin] hoje não dá para fazer, porque não tem fôrma de concreto para isso. Fizemos isso porque era um grupo fechado. Aqui, há algumas soluções diferentes. Naquela época, só as grandes corporações tinham ar-condicionado central. Neste prédio, há um sistema que nós idealizamos, que não tem duto no forro.

 
Como funciona o processo de projeto do escritório? O senhor começa a desenhar à mão?

É um processo muitas vezes subjetivo. Eu projeto bastante na cabeça. No caso de um projeto em lote urbano, a primeira coisa a fazer - partindo do princípio de que você tem um programa - é seguir os parâmetros legais. Às vezes, temos escolha quanto à implantação. Obviamente me interesso mais por projetar num espaço totalmente aberto. Às vezes, as coisas saem na ponta do lápis; em outras faço, refaço. Eu desenho, peço para passar para o computador, se não gosto volto atrás.

 


Não tenho dúvidas de que a evolução também vem em função da tecnologia. Achar que se ganha espaço com estrutura metálica não é verdade. Hoje, conseguem-se com o concreto resultados mais econômicos, nesse ponto de vista, por causa dos protendidos

 
Como funciona a sociedade entre o senhor e Alberto Botti?

Para começar, há muitos anos não sentamos os dois com o cliente. Não dá certo. Nossos processos são um pouco diferentes. Ultimamente, Botti tem cuidado mais de shoppings e outras coisas que conhece bem. Ele sempre gostou de urbanismo. Eu sou mais preocupado com a forma, o volume, a luz, a sombra. Todos sofremos influências conscientes e inconscientes. Na verdade, nada se cria. Quando olhamos para fora percebese que tem muita gente fazendo coisas que a gente nem imagina realizar.

 
Hoje em dia o senhor se nutre de informações externas ou o próprio trabalho vai se alimentando?

As duas coisas. Não tenho dúvidas de que a evolução não vem apenas de você ver o que está acontecendo por aí ou só de trabalhar. Ela também vem em função da tecnologia que muda, dos novos materiais. Tudo isso permite novas soluções. Falando do concreto armado, por exemplo: o Centro Empresarial Nações Unidas são
três prédios principais, mais dois. Quando foi projetada a Torre Norte, o cálculo de concreto era totalmente diferente daquele feito para a Torre Oeste, depois de cinco anos. Havia outra maneira de calcular, novos aditivos do concreto. De repente você está bombeando o concreto a 150 metros de altura, um material de altíssima resistência. Achar que se ganha espaço com a estrutura metálica não é verdade. Hoje, conseguem-se com concreto resultados mais econômicos do ponto de vista do espaço, por causa dos protendidos. O avanço da tecnologia acaba dando a possibilidade de novas soluções.

 
 
O senhor diz que tem mais prazer em fazer uma obra com liberdade e espaço, em contato com a natureza. E como é trabalhar em um conjunto de 150 mil metros quadrados de área construída?

Uma área tão grande sempre dá a possibilidade de fazer alguma coisa. Prefiro fazer isso a uma casa. Hoje, faço poucas residências por razões óbvias - há alguns colegas que o fazem muito bem. Mas eu não tenho paciência, precisa ser um cliente muito especial para eu fazer uma casa, alguém com quem tenha diálogo. É obvio que prefiro fazer uma obra pequena com alguma possibilidade criativa a mais um prédio banal em que se tem que inventar algo na fachada para ficar diferente. Stockler das Neves, apesar de fazer arquitetura neoclássica, dizia que “ser diferente é bom, é melhor; querer ser, é pior”.

 
Pensando em retrospectiva, por quais de seus projetos o senhor tem mais apreço?

A Cultura Inglesa [Centro Brasileiro Britânico] é um deles. E também os edifícios de apartamentos em concreto e venezianas de madeira, como, por exemplo, o Antônio Augusto Pereira Galvão, na alameda Ministro Rocha Azevedo. Quem olhar com atenção verá que a viga de transição no térreo não é simétrica. De um lado, ela acaba no pilar, do outro acaba com balanço, porque ia continuar. Na verdade, eram três prédios.

 
O edifício Landmark - que acaba de ser premiado e será construído na marginal do Pinheiros - pode ser um deles?

Talvez. Não somos os primeiros a fazer um prédio com esse tipo de planta - há um do Philip Johnson, em Nova York. Veja como as idéias vêm. Talvez ela não chegasse se eu estivesse fechado numa sala, tentando fazer isso sozinho. Por uma questão de legislação, é possível fazer terraços em certa proporção, uma porcentagem da área do maior andar, que não são computáveis. No primeiro projeto que havíamos feito, era um um prédio de escritórios meio banal, comum. Havia intenção de querer fazer algo diferente, elegante. Em função disso, surgiu a idéia de um terraço estreito, saliente, com a mesma curva que morre dentro do volume geral, de tal maneira que pudesse criar luz e sombra. A graça desse projeto está no fato de ele ter essas saliências. No início, o pessoal queria terraços. Depois não, porque se perguntavam quem os usaria. Até convencê-los de que essa varandinha não era só elemento de arquitetura, mas também podia ajudar as vendas, demorou. Porque vão vender 18 conjuntos por andar e sempre vai ter gente que quer fumar. Mas, na verdade, eu estava mais preocupado com a luz e a sombra e com a parte plástica. No topo do prédio tem também um elemento que não é banal. Coloquei pé-direito duplo com sete metros de altura no último andar pra não ter casa de máquinas saliente, para fazer um teto plano lá em cima

 
 
Por Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 317 Julho de 2006
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