Francisco Vasconcellos

O termo desenvolvimento sustentável vem sendo empregado de forma indiscriminada

Meio ambiente no dia a dia da construção
O impacto ambiental provocado pelos resíduos gerados pela construção civil, a eficiência energética das edificações e o uso racional da água e de madeira legal são temas que vêm sendo tratados pelo Sinduscon/SP, o sindicato paulista da indústria da construção, através de sua Vice-Presidência de Meio Ambiente. À frente do cargo, o engenheiro Francisco Vasconcellos afirma que o termo desenvolvimento sustentável vem sendo empregado de forma indiscriminada. “O homem, de forma geral, desenvolve atividades produtivas em que o viés do lucro é só o que conta. No caso da construção civil há uma característica importante: insumos como aço, cimento, argamassa, areia e pedra são grandes consumidores de recursos naturais. A discussão em torno da sustentabilidade deve trazer as dimensões humana e ambiental para o cerne dos debates”, diz Vasconcellos, nesta entrevista a Ledy Valporto Leal.
Que resultados práticos a Vice-Presidência de Meio Ambiente do Sinduscon/SP já alcançou?
Essa vice-presidência foi criada há dez anos e ocupo o cargo desde 2000. Ao longo desse tempo foram muitas as ações e vários os resultados. Atuamos fortemente na área de resíduos e representamos a Câmara Brasileira da Indústria da Construção junto ao grupo de trabalho que desenvolveu a resolução 307 do Conama [Conselho Nacional de Meio Ambiente], que trata especificamente dessa questão. Participamos também com a Agência Nacional de Águas e a Fiesp [federação paulista das indústrias] da elaboração de um manual de uso racional da água na construção civil. Também estivemos junto com a Eletrobrás no processo de etiquetagem de edifícios comerciais e de serviços [selo Procel], estendido agora a prédios residenciais. Estamos focados ainda em temas variados, como eficiência energética, utilização racional de água, de madeiras e na questão do verde. Acabamos de firmar um protocolo com o WWF-Brasil e a Fundação Getúlio Vargas para a realização de pesquisas relativas ao uso de madeira na construção civil. Vamos desenvolver o programa Madeira Legal, madeira de origem conhecida, controlada e legal, que muda o centro de discussão do uso do material na construção civil e está servindo de modelo para o Brasil inteiro.
Dessas ações, quais trouxeram resultados práticos?
Eu citaria, como um resultado prático, o reconhecimento do Sinduscon, em vários fóruns nacionais, como um dos principais protagonistas na área de meio ambiente no Brasil. Participamos, por exemplo, da resolução 307 do Conama, que, ao definir regras, mudou o tratamento do resíduo da construção no Brasil. Sua publicação resultou numa metodologia de gestão de resíduos em canteiro de obra, que é usada em todo o Brasil.
Do que trata a resolução 307 do Conama?
Ela determina o que tem de ser feito por parte de todos os envolvidos na gestão de resíduos na construção civil, ou seja, qual a responsabilidade do poder público e das construtoras. Define ainda o que é resíduo na construção, como eles são divididos, que ações devem ser empreendidas no sentido de minimizar sua geração. Cria, enfim, uma série de regras e estabelece parâmetros para a gestão desses resíduos, enquanto não há uma legislação específica.
Qual o perfil das responsabilidades?
Ela define, por exemplo, que quem gera o resíduo é responsável por ele. Distingue dois tipos de geradores: o chamado grande gerador, aquele que produz resíduos de forma constante, caso das construtoras; e a figura do pequeno gerador, aquele que empreende, por exemplo, uma reforma em sua residência ou no seu banheiro. No primeiro caso, o gerador precisa ter um plano de gestão de resíduos; no segundo, entra em cena o município, ao qual cabe criar um mecanismo que possibilite fazer o encaminhamento correto do resíduo.
O que caracteriza o desenvolvimento sustentável de toda a cadeia produtiva?
Tenho sobre o assunto uma visão da qual muita gente discorda. Acho que isso está sendo usado de forma indiscriminada. No fundo, o que quer dizer desenvolvimento sustentável? É o que você faz de acordo com os parâmetros de sustentabilidade, ou seja, uma ação que não gere um grau de modificação no ambiente capaz de acarretar problemas para o futuro. No entanto, o homem, em geral, desenvolve atividades produtivas em que o viés do lucro é só o que conta. Penso então que a grande discussão em torno da sustentabilidade deve trazer duas outras dimensões - a humana e a ambiental - para o cerne do debate.
Ter os três vieses no mesmo patamar?
Sim. Mas observe que isso não é uma questão só da área da construção; envolve todo e qualquer setor da atuação humana. No entanto, o setor da construção tem uma característica importante: os insumos são grandes consumidores de recursos naturais, como aço, cimento, cerâmica, argamassa, areia, pedra etc.
Qual o ganho de importância do assunto sustentabilidade ao longo dos anos?
Isso é visível. A grande discussão começou com a Eco 92, no Rio de Janeiro. Antes disso, ela se limitava à área acadêmica. Eu diria que daí até o ano 2000 essa discussão permaneceu ainda bastante restrita. A partir de então o mundo começou a se manifestar no sentido de que as coisas fossem pensadas e feitas de forma diferente. Nesse período, houve uma mudança radical no comportamento do empresário da construção civil.
As empresas já adotam uma política de gestão de resíduos?
Elas estão preocupadas com a questão da eficiência energética, pois o comprador quer saber quanto vai pagar de condomínio, qual o consumo de água e de energia. Tudo isso passou a fazer parte do dia a dia do empresário da construção. O que precisamos agora é separar o joio do trigo.
Em português bem claro...
Hoje, o tema tem grande presença na mídia. Mas de nada adianta uma empresa ir a público e dizer que construiu um prédio sustentável quando na verdade não é nada disso. Isso é green wash, ou seja, uma mera pincelada verde que é vendida na mídia como sustentável.
“Um prédio considerado sustentável algumas vezes é apenas um green wash, ou seja, recebeu uma mera pincelada verde”
Isso seria então um modismo?
É marketing mesmo, para atingir o consumidor final. Temos que separar as coisas: tem muita gente fazendo um trabalho sério, mas há outros aproveitando a onda. A nossa preocupação é divulgar trabalhos de excelência, sérios, com capacitação técnica, que apontem caminhos a serem seguidos. Ao mesmo tempo, precisamos pressionar para que as políticas públicas sejam implementadas de forma adequada.
Como o setor está se preparando para atender aos padrões de eficiência energética em edifícios comerciais, conforme estabelicido pelo Procel-Edifica?
Essa é a típica política pública que apoiamos integralmente. Primeiro, porque ela é inteligente. O consumidor não admite que determinado prédio comercial seja inaugurado e já defasado tecnologicamente. O custo do desperdício de energia será pago indiretamente por toda a sociedade. Segundo, porque propõe, antes de se transformar em lei, um período de cinco anos de adaptação voluntária do setor. Ela é inteligente também porque foi montada por um grupo do qual participaram a academia, o governo, as construtoras, os arquitetos. O Sinduscon está divulgando o processo de etiquetagem de eficiência energética. Não se trata de certificação, mas de um processo de avaliação voluntária no qual determinado edifício pode ganhar uma etiqueta A, B ou C. Mas a partir de 2012 todo edifício comercial ou de serviços deverá apresentar uma eficiência mínima. Caso contrário, serão aplicadas sanções.
Existe também a certificação do Leed. Como funciona isso?
No Brasil estão atuando três certificações: o Leed, norte-americano; o Aqua, baseado no processo francês; e o Breeam, do Reino Unido. O Leed é o mais conhecido, mas isso se deve à velha questão do marketing. Quem investe mais em marketing é mais famoso.
Qual o significado dessa certificação?
Significa assegurar que determinada empresa seguiu os parâmetros estabelecidos pela certificadora, mas não quer dizer que esses parâmetros são bons ou ruins. No caso da qualidade, há o sistema ISO, que é internacional. Portanto, alguém define um parâmetro; quem seguiu as regras pode ser certificado. Mas o fato de o edifício ser certificado não significa necessariamente que seja sustentável. Só para termos uma idéia, o Leed hoje está fazendo uma adaptação de seus parâmetros ao Brasil. Quem se certificou até hoje seguiu as normas americanas. Faz algum sentido ser certificado no Brasil tomando por base o parâmetro americano?
Para ser sustentável é preciso ter o Leed?
O que se faz no Brasil é uma confusão tremenda. Raciocina‑se que para ser sustentável é preciso ter o Leed. Isso é um erro muito grande. Há empresas no Brasil com prédios altamente sustentáveis e que não têm certificação. O Leed não é uma certificadora, é um negócio. Que negócio ele faz? Certifica. E para isso você precisa pagar. E paga bastante. Portanto, é muito importante separar as coisas. A sustentabilidade está acima de qualquer negócio. Acima até de uma entidade como o Sinduscon. A certificação é apenas uma certificação e ponto final.
Então pode ser que um edifício certificado pelo Leed não atenda aos padrões do Procel-Edifica?
Perfeitamente. Pode ser que ele tenha um certificado do Leed e uma classificação relativamente baixa do Procel-Edifica. Até porque, enquanto não houver uma adaptação à realidade brasileira, a chance de ter um edifício com certificação máxima no Procel é nenhuma. Entre outras razões, porque a realidade do clima nos Estados Unidos não tem nada a ver com o do Brasil.
“O Procel-Edifica é uma política pública inteligente, montada com a participação da academia, do governo, de construtoras e arquitetos”
Houve dificuldades na adaptação das normas americanas à nossa realidade?
Isso não foi conseguido até hoje. Mas mesmo assim será uma adaptação. Edifício certificado pelo Leed é ruim? Não, longe disso. É pior que um edifício não certificado? Não necessariamente. Mas, de alguma forma, demonstra que o proprietário do prédio ou a construtora se preocupou com a questão da sustentabilidade. Isso, em princípio, já é bom; é um passo importante, que, porém, não garante nada.
O grande vilão desse processo da sustentabilidade dos edifícios ainda é o ar-condicionado?
Não é bem assim. O Procel-Edifica classifica quatro grandes itens a serem analisados no edifício comercial: cobertura, fachada, ar-condicionado e iluminação. São esses elementos que vão definir o padrão de eficiência
energética do edifício. Há outras exigências, mas de menor importância.
Por que o gesso é considerado gerador de um tipo de resíduo que requer tratamento especial?
Isso decorre de uma classificação dada pelo Conama. O gesso tem determinadas características físico-químicas que o tornam um material não facilmente degradável. Por isso o Conama colocou em uma relação de materiais cujos resíduos precisam receber um tratamento específico. O mesmo acontece com materiais de impermeabilização, como o asfalto.
Qual o balanço que o senhor faz sobre as atividades da Vice-Presidência de Meio Ambiente do Sinduscon/SP?
É muito positivo. Há alguns anos, quando se fazia um evento sobre a área ambiental, a presença era limitada. O tema não era considerado prioridade. A partir de 2003/2004 ele experimentou um crescimento muito grande. Essa reação do empresário brasileiro se deve à capacidade de se adaptar rapidamente às novas exigências. No entanto, quando começamos a trabalhar essa questão no Sinduscon/SP, o principal objetivo era colocar o tema meio ambiente na pauta do dia a dia dos empresários. Eu pensava que se conseguíssemos isso já teríamos dado um passo enorme no sentido de começar a tratar do assunto. Hoje, tenho certeza de que conseguimos alcançar esse objetivo de forma bastante eficiente.
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 58 Setembro de 2009
Engenheiro civil e arquiteto formado pela Universidade de São Paulo, Francisco Vasconcellos assumiu no ano de 2000 a
Vice-Presidência de Meio Ambiente do Sinduscon/SP. Nesses nove anos, mudanças significativas ocorreram e a entidade passou a atuar efetivamente no trato de questões relacionadas à construção civil e à política nacional de meio ambiente.