Jacques Herzog

Foi truncado o debate entre Jacques Herzog e os arquitetos em São Paulo

Herzog apresenta seu projeto em São Paulo
Foi truncado o debate de Jacques Herzog com o meio arquitetônico paulistano e o público em geral, em São Paulo, acerca do projeto do Complexo Cultural Teatro da Dança, que a Secretaria de Estado da Cultura pretende construir na região da Luz. Além de um jantar na casa de Tomie Ohtake, o arquiteto participou de mesa-redonda na Bienal Internacional de Arquitetura (2/12/2009) e proferiu palestra na FAU/USP (3/12/2009). Para auditórios lotados, ele apresentou as diretrizes gerais do estudo preliminar recentemente concluído por seu escritório. A fim de preparar o terreno para o debate arquitetônico, Herzog utilizou imagens esquemáticas, diagramas de fluxo e referências a partidos que considera afins com o centro cultural paulistano, como a permeabilidade entre os espaços interno e externo no Estádio Olímpico de Pequim, na China.

Quando abertas as sessões de perguntas, no entanto, o público se ateve ao questionamento do possível caráter elitista do projeto e à análise de sua forma arquitetônica. Herzog se mostrou impaciente, retrucou dizendo que decisões políticas não faziam parte de suas atribuições, que sua arquitetura não é a do espetáculo - dirigindo-se a estudantes que sugeriram ser o projeto formalmente singelo - e que estava cansado das questões pouco criativas que ouviu naqueles dois dias, sobretudo relacionadas à relevância do programa cultural para aquele trecho da região central da cidade. Na bienal, o secretário da Cultura, João Sayad, chegou a manifestar-se na plateia, dizendo que “a questão nunca foi salvar o centro de São Paulo, mas definir o local de implantação do complexo cultural”, recaindo a escolha sobre a Luz porque “a região é um centro de confluência de transportes, espaço de convergência de diferenças”.

Herzog disse que preferia ter debatido arquitetura em sua apresentação pública em São Paulo, transcorrida um ano depois de iniciado o projeto para o governo estadual. Concordou que a condição de estrangeiro é um desafio para o êxito de sua arquitetura, mas emendou que até hoje a intuição dele não falhou. Leia ao lado as opiniões de Herzog sobre os principais temas abordados na entrevista coletiva realizada na FAU/USP.
Modernismo
“As revoluções sociais dos anos 1970 colocaram fim ao modernismo, ficou claro que não é mais possível definir tradições globais. Modernismo, pós-modernismo ou qualquer movimento se tornaram ferramentas de projeto, não teorias generalistas.”
“Utilizamos alguns vocábulos do modernismo de um modo inteiramente novo, não formal, porque o modernismo está morto. Os fluxos internos são estratégicos, queremos promover o encontro entre as pessoas, como fizemos no Laban Center.”
Arquitetura brasileira
“A principal contribuição da arquitetura moderna brasileira é o uso da escala generosa do país.”
“O modernismo está morto, a arquitetura não foi a chave para uma sociedade melhor. Mas, no Brasil, a herança moderna é ainda muito importante, especialmente no que diz respeito à integração dos edifícios com a natureza.”
“São Paulo é, para mim, um laboratório da linguagem moderna. Seríamos estúpidos se não utilizássemos essa herança, embora os estudantes estejam se referindo à nossa arquitetura aberta, feita com lajes, como algo frágil, sem impacto. Acho o contrário.”
Forma
“É óbvio que haverá forma, mesmo essas simples lajes são capazes de criar algo que se chama forma. Nossa arquitetura procura sempre ser rica e complexa, aberta a várias interpretações. Utilizaremos a cor nesse sentido, é isso que vimos praticando nos últimos anos.”
“Os estudantes aqui se mostraram fascinados pela forma, acho que esperavam que eu, um suíço cheio de novidades, defendesse a arquitetura egocêntrica, repleta de formas fantásticas. É isso o que querem? Se acreditarem que arquitetura é apenas forma, devo dizer que qualquer computador, qualquer iniciante, é capaz de criar superfícies mirabolantes. Isso é ultrapassado. Eu, ao contrário, trouxe aqui algo totalmente novo, que vocês nunca viram, radicalmente simples na forma, mas que usa as pessoas como atores principais.”
Contexto local
“A arquitetura é a arte de fazer algo extremamente simples e óbvio mas, ao mesmo tempo, responder a demandas complexas e por vezes contraditórias. Ela deve lidar com questões sociais, econômicas, espaciais, materiais, enfim, passamos um ano elaborando o estudo preliminar desse complexo cultural. Acho que está funcionando bem, até hoje a nossa intuição nunca falhou.”
Projeto da Luz
“Penso hoje que o maior desafio é que esse projeto aconteça. Será grande o impacto na vizinhança, há opiniões contrárias sobre sua relevância, mas nós, estrangeiros, temos a intuição de que é um bom projeto. Essa nossa intuição tem funcionado em muitos lugares.”
“Trabalhamos muito para fazer funcionar o arranjo complexo do programa desse projeto brasileiro. Achamos que está fazendo sentido.”
Método de trabalho
“Nossa arquitetura é a prova de que não existe mais nenhuma teoria generalista, nós a reinventamos em cada novo projeto. Cada trabalho é a resposta a uma questão específica, não existem questões prévias. O modernismo, o pós-modernismo, qualquer linguagem são apenas ingredientes da nossa arquitetura.”
Revitalização
“Eu disse na palestra que o projeto do Tate gerou a valorização da terra em seu entorno, mas não acho que o projeto daqui terá esse mesmo efeito de revitalização. São Paulo não é Londres, é muito maior e menos importante em termos econômicos. Lá, a dramática transformação econômica da cidade nos últimos 20 anos precisava de um local para acontecer. Aqui, tal transformação tem a ver com a vizinhança, as tensões entre condições saudáveis e precárias de existência.”
“Os governantes são obrigados a garantir condições saudáveis de existência para os desprivilegiados, a cuidar para que eles tenham boa perspectiva de vida. Mas devem, também, impulsionar transformações na cidade, causar impacto, posicioná-la economicamente. Seria estúpido pensarmos apenas em termos sociais, a microeconomia é certamente importante para o contexto desse projeto.”
Por Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 359 Janeiro de 2010