Paul Nakazawa

Combinando rigor acadêmico e visão empresarial, o professor da Universidade Harvard fala da arquitetura brasileira no cenário internacional

O universo acadêmico e o mundo dos negócios convivem bem na trajetória do norte-americano Paul Nakazawa. Bacharel em física pela Universidade de Chicago, ele tem pós-graduação em arquitetura pela Universidade Harvard, onde leciona desde 1996, na Graduate School of Design. Ao mesmo tempo mantém bem-sucedida carreira como consultor prático - “profissional que procura viabilizar bons trabalhos e lucro ao mesmo tempo”, define.
Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre sua formação em arquitetura.
Meu pai, Yosh Nakazawa, era arquiteto, e minha primeira noção de arquitetura vem do trabalho que ele fazia. Ele trabalhava na Pace Associates, firma que atuava como braço executivo de escritórios como os de Mies van der Rohe e Frank Lloyd Wright. Fazia a parte institucional dos trabalhos, incluindo documentação e supervisão das obras. Quando, posteriormente, formou-se pelo Illinois Institute of Technology, sua primeira tarefa foi na construção do 860 Lake Shore Drive e do Crown Hall, dois edifícios icônicos de Mies na cidade de Chicago, um na beira do lago, outro no novo campus do IIT.

Mas eu era muito pequeno então, e talvez minha primeira memória dele seja quando ele já trabalhava na General American Transportation. Era uma grande corporação, com um departamento de pesquisa que tinha contrato com o governo federal para desenvolver pesquisas para a missão espacial Apolo 5, por exemplo. Então, quando eu ia ao seu escritório, via modelos de espaçonaves, coisas assim. Aquilo me marcou muito. Desde cedo, para mim, arquitetura tinha a ver essencialmente com tecnologia, mais do que com estética.
E, sob esse ponto de vista, com trabalho em equipe
também, não?
Claro, porque meu pai não trabalhava sozinho, mas juntamente com muitos cientistas e engenheiros, e não se tratava de discutir autoria, e sim de resolver problemas. Não necessariamente problemas estéticos, mas ambientais, construtivos etc. Quando eu tinha mais ou menos nove anos meu pai abriu seu próprio escritório de arquitetura. Não era muito grande, contava com cerca de dez pessoas, inicialmente, e chegou no máximo a 45.

Mas eu passava os dias nesse estúdio, que ficava no Monadnock Building [famoso edifício de escritórios em Chicago, construído em 1893], muito antes de ir para a escola de arquitetura. Só me tornei arquiteto registrado em 1982, mas muito antes disso já trabalhava com arquitetura nesse escritório, onde fazíamos edifícios comerciais, escolas, laboratórios, hospitais e muitas instalações para o governo. Meu pai construiu um negócio de sucesso, não apenas uma prática de sucesso.
Um projeto a ser desenvolvido no entorno do Maracanã por alunos de arquitetura da Universidade Harvard trouxe ao Rio de Janeiro, em fevereiro, estudantes e o professor Paul Nakazawa, para um workshop realizado na PUC-Rio. “Em cerca de 40 minutos, ele não falou de arquitetura, mas apresentou uma visão macro do contexto brasileiro que incluiu dados sobre o crescimento da população, gráficos com custos do barril de petróleo e mapas da América Latina indicando a ligação do porto do Rio com a China, via Chile”, destaca a crítica de arquitetura Ana Luiza Nobre, que realizou a entrevista publicada a seguir.
“Atento ao cenário cada vez mais globalizado e competitivo que da arquitetura contemporânea, Nakazawa representa uma rara - e para nós ainda estranha - combinação de rigor acadêmico e experiência empresarial. Não por acaso, tornou-se, nos últimos anos, consultor de escritórios de arquitetura, aos quais já alertou: ‘Brazil is on the move’ [O Brasil vem aí].”
Isso foi no período em que o mundo vivia sob as tensões e polarizações da Guerra Fria?
Sim, e depois veio a globalização. Então todo o crescimento profissional desse período tem a ver com grandes transformações na sociedade americana, na tecnologia e na maneira como as cidades são entendidas. Meu pai nunca exerceu nenhuma pressão para me forçar a ser arquiteto, mas um dia ele me perguntou: “Que outra profissão vai lhe dar a chance de participar da história?”.
E como o senhor via a prática da arquitetura naquele momento?
Fazíamos edifícios que abrigavam as mudanças tecnológicas e éramos parceiros das pessoas que estavam, de fato, inovando. Mas a arquitetura, de maneira geral, estava atrás. Um dia, no começo da década de 1970, recebemos a visita de vizinhos do escritório, que tinham interesse em sistemas para laboratórios. Meu pai lhes mostrou seu trabalho de graduação, que tinha feito 20 anos antes, como aluno de Konrad Wachsmann [arquiteto modernista nascido na Alemanha, em 1901, e radicado nos EUA, onde morreu, em 1974, notabilizando-se por seus estudos com componentes construtivos] e vinha desenvolvendo desde então.

Só que Wachsmann estava voltado para painéis para casas, enquanto meu pai estava interessado em painéis e sistemas modulares para interiores, muito apropriados para laboratórios. Bom, eles eram responsáveis por novas instalações hospitalares na Arábia Saudita e imediatamente se interessaram. Nem sabíamos quanto cobrar, tivemos que orçar tudo rapidamente. E orçamos alto, mas eles não ligaram. Por isso sempre recomendo aos meus alunos que não joguem fora seus trabalhos de graduação, porque eles podem render muito.
Por causa desse trabalho o senhor teve que ir à Arábia Saudita? Qual foi sua primeira impressão
do pais?
Quando descemos em Riad [capital da Arábia Saudita] foi um choque: o aeroporto era só a pista e algumas barracas, nada mais. Mas esse foi o início do nosso negócio internacional. Eu já tinha me formado em física e tinha pós-graduação na Business School. Depois disso é que ingressei na pós-graduação em arquitetura, na Universidade Harvard. Mas veja bem: naquela época, em plena guerra do Vietnã e do Camboja, ou você estava na escola, ou era recrutado.
Como foi sua formação na pós-graduação de arquitetura?
Fiquei três anos e meio em Harvard, e logo me ocorreu que eu não seria um arquiteto projetista. Aprecio muito o projeto, mas meus interesses são muito variados e talvez eu na verdade não tenha talento para as atividades projetuais. Então dirigi o curso para aquilo que me motivava, procurando dar ênfase à tecnologia da construção. Naquela época os professores de Harvard não eram apenas acadêmicos, muitos tinham experiência prática. Enquanto eu estudava estrutura com [o engenheiro estrutural] William LeMessurier, por exemplo, ele estava projetando a Citicorp Tower, em Nova York.
Nesse período em que o senhor era aluno, como era o ambiente em Harvard?
Incrível. Como não havia muito trabalho para arquitetos nos Estados Unidos naquele momento, grandes profissionais iam para Harvard e tinham muito tempo disponível para os alunos, vinham para o ateliê à noite e ficavam por ali... Conheci pessoas como Jorge Silvetti, por exemplo, que deu aulas para mim no primeiro semestre e depois me levou de volta para Harvard como professor, e Rafael Viñoly, que naquela época era aluno.
Meu pai era arquiteto. Quando eu era pequeno e ia ao escritório onde ele trabalhava, via modelos de espaçonaves. Desde cedo, para mim, arquitetura tinha a ver essencialmente com tecnologia, mais do que com estética.
E, depois de Harvard, de que maneira deu prosseguimento a sua carreira?
Meu primeiro trabalho após o curso em Harvard foi com Edward Larrabee Barnes, um dos arquitetos mais atuantes de Nova York. Depois fui o primeiro arquiteto americano do escritório que Rafael Viñoly, recém-chegado da Argentina, estava abrindo nos Estados Unidos. Eu sabia que ele seria um profissional importante porque era totalmente devotado à arquitetura, além de muito confiante. E após seis meses trabalhando com Larrabee Barnes eu conhecia os melhores engenheiros e consultores de Nova York, então fui muito útil no estúdio de Viñoly.

Nos primeiros três anos eu trabalhava cem horas semanalmente, sete dias por semana. E se tivesse que fazer tudo de novo, faria, porque era muito divertido. Para Viñoly não se dissociavam a vida social e a arquitetura, era tudo uma coisa só. Trabalhávamos o dia todo, depois íamos ao Carnegie Hall, em seguida ele ia jantar com os clientes e eu voltava para o escritório. Nós dois ficávamos até as três da manhã, ele com os clientes e eu no escritório, com outras pessoas. Cada um tinha um papel, mas havia uma unidade.

Essa ideia de que você tem uma vida só, indivisível e centrada na arquitetura, é muito forte na maioria dos meus clientes hoje também. Todos eles compartilham uma espécie de devoção à arquitetura, que não tem nada de artificial. É como respirar. A arquitetura é a vida deles. E uma parte do meu trabalho como consultor está em entender isso. Porque eu não posso dizer que eles são loucos, que devem trabalhar apenas 40 horas por semana, em vez de 80. Se você não entende a intensidade com que eles trabalham, acaba destruindo sua base criativa. Pessoas criativas vivem nesse tipo de espaço, tanto mental quanto emocionalmente.
Um consultor administrativo examina todo o sistema de operação da firma: organização do trabalho, operações, recursos humanos, procedimentos, hierarquias etc. Um consultor prático examina como extrair resultados do que a empresa é.
Poderia citar alguns escritórios para os quais o senhor atua como consultor?
OMA, Morphosis, UN Studio, Machado & Silvetti, Coop Himmelb(l)au, SnØhetta, Enrique Norten, Yoshio Taniguchi, Martha Schwartz.
Entre eles não se encontra nenhum escritório brasileiro?
Não, nenhum ao sul do México.
O senhor admite prestar consultoria para um projeto específico?
Sim. No caso de Taniguchi, por exemplo, fui consultor especificamente para o projeto do Moma [Museu de Arte Moderna], em Nova York.
E para um concurso?
Também, mas o meu trabalho principal não é esse. Eu poderei fazê-lo eventualmente, se for para auxiliar o cliente a desenvolver sua empresa e chegar aos objetivos pretendidos.
Como e por que o senhor começou a exercer atividades na área de consultoria?
Por motivos pessoais, depois do período em Nova York, me mudei para uma pequena cidade na Carolina do Norte. Isso parecia a morte profissional, e normalmente teria sido o fim de qualquer carreira internacional. Mas em Charlotte encontrei um arquiteto de origem chinesa, cuja firma - Clark Tribble Harris & Li Architects - tinha acabado de abrir seu capital na Bolsa de Londres. Isso foi em 1986, e a empresa tinha cerca de 300 funcionários. Era a chance de usar meu conhecimento de arquitetura e negócios, e além disso eu precisava entrar de novo no jogo. Isso me levou de volta à arena internacional.

Uma das razões pelas quais sou consultor hoje é porque aprendi ali a administrar uma empresa de capital aberto, em que é preciso prestar contas aos acionistas. E a firma era muito mal administrada, então na verdade desenvolvi minha atividade de consultor a partir de uma situação crítica. No final, não tivemos êxito e a companhia faliu. Mas esse fracasso me ensinou bastante. Devo a essa experiência muito do meu conhecimento atual sobre o que pode dar certo ou errado numa empresa. Depois disso fui para o escritório de Moshe Safdie [arquiteto israelense radicado nos Estados Unidos] em Boston, onde fiquei três anos como administrador geral. Nós tínhamos escritórios em Boston, Montreal e Jerusalém. Mas houve uma recessão geral no início dos anos 1990 e perdemos muitos contratos. Deixei então o escritório e comecei a prestar consultoria administrativa.
E é essa atividade que o senhor continua exercendo agora?
Não, agora sou consultor prático.
Qual a diferença?
Um consultor administrativo examina todo o sistema de operação da firma: organização do trabalho, operações, procedimentos, hierarquias, recursos humanos etc. Um consultor prático, por sua vez, examina como o trabalho é feito. Ou seja, como extrair resultados a partir do que a empresa é. Digamos que ele procura meios para viabilizar bons trabalhos e lucro ao mesmo tempo. E enquanto o consultor administrativo parte de uma posição teórica sobre o que é uma boa prática, por exemplo, o consultor prático busca entender a história, a trajetória da empresa, seus valores e para onde ela se encaminha. Grandes empresas precisam de consultores administrativos, empresas menores não.
Como o senhor definiria o que é uma empresa menor?
Uma companhia com menos de 500 pessoas.
Então o senhor não trabalha com firmas maiores, mas apenas com o que seriam empresas menores?
Trabalho com empresas criativas. Elas podem ser pequenas ou grandes, não importa. Tenho como clientes empresas de mil funcionários. Mas o ponto de partida nos dois casos é diferente. Para uma empresa pequena, há sempre opções. E isso é muito importante se você pretende fazer um trabalho de ponta. É preciso ter mais flexibilidade, não se pode ser burocrático, impor métodos genéricos. Para um arquiteto como Rem Koolhaas, por exemplo, é fundamental não pisar duas vezes na mesma trilha. Então o escritório não pode ter uma estrutura rígida, porque se tudo é estável, nada muda.
As empresas para as quais o senhor trabalha são basicamente escritórios de arquitetura ou há companhias que atuam em outras áreas?
De arquitetura ou engenharia, desde que sejam criativas.
Como o senhor define uma empresa criativa?
Aquela que está sempre buscando a inovação ou novos territórios intelectuais. Uma empresa criativa é aquela que está orientada pelo desejo de fazer descobertas e explorar o desconhecido.
Esse perfil da empresa também implica correr riscos, não?
De certo modo, sim.
E é aí que o senhor entra, para limitar o risco?
Não. Algumas pessoas podem correr grandes riscos e ganhar, outras não. Qual a diferença? Pessoas que têm muito medo não devem correr riscos. A questão então não é limitar o risco, mas estar ciente dele, e poder lidar com ele.
Como o senhor poderia descrever, efetivamente, seu trabalho?
Trabalho sozinho, mas meu cliente é meu parceiro. Eu me torno parte do grupo, mas ao mesmo tempo sou um outsider. No escritório do SnØhetta em Nova York, por exemplo, sou presidente do conselho consultivo, então faço parte do escritório. Mas não trabalho lá todo dia, então estou fora. Isso me coloca numa posição muito especial, porque se você está sempre dentro, torna-se parte do problema, e se está sempre fora, não pode resolvê-lo.
Em algum momento o senhor acaba tendo envolvimento em alguma etapa do processo projetual?
Às vezes, quando o cliente me pede. Mas em geral é muito claro para mim que quando isso acontece eles querem me ouvir então como professor, e não como consultor. Como mantenho uma atividade acadêmica em paralelo, eles querem uma crítica, na verdade.
Esta é a primeira vez que o senhor vem ao Brasil?
Esta é minha nona viagem ao país. Desde 2003 venho uma ou duas vezes por ano, pelo menos. E desde a primeira visita percebi o gigantesco potencial do Brasil. Isso não tem nada de novo, muitas pessoas já disseram o mesmo séculos atrás. A primeira coisa que me impressionou foi encontrar uma cultura que vive mais no corpo que na mente. Para mim, que tenho a tendência de ser mais mental que corporal, foi um pouco chocante. Além disso, me impressionou a mistura de pobreza e riqueza, que eu só tinha visto igual na Cidade do México. E a terceira coisa foi o potencial para espaços democráticos que uma cidade como o Rio de Janeiro tem.

É claro que há clusters nas praias, mas há um aspecto simbólico que passa também pela imagem do Cristo Redentor abençoando a todos. Ao longo do tempo fui percebendo muitos outros sinais positivos, como a grande quantidade de jovens no país. E como também sou investidor, desde que vim aqui pela primeira vez comecei a comprar ações de empresas brasileiras. Hoje sou acionista da Petrobrás, da Vale e do Pão de Açúcar, por exemplo. No minuto em que o presidente Lula disse que mandaria uma delegação para a China, eu comprei milhares de ações da Vale, e com isso lucrei 400%. Agora estou pensando em comprar ações da Natura. Era claro para mim, já em 2003, que o Brasil estava crescendo. Em 2005 quase comprei um apartamento aqui, porque sabia que seria um ótimo investimento.
Quais são os meios a que o senhor recorre para se manter bem informado sobre o Brasil?
Leio as manchetes dos jornais na internet, algumas revistas, mas me informo sobretudo por meio dos relatórios das empresas das quais sou acionista. Se você quiser construir em algum lugar, tem que estar informado sobre a economia local, e uma boa maneira de manter-se atualizado nesse aspecto é sendo acionista de empresas de diversas áreas.
O que o senhor dirá aos seus clientes após esta viagem?
Em 2007 eu disse a todos os meus clientes que era hora de olhar para o Brasil. Nenhum deles me deu atenção. O jogo estava começando, não havia muitos estrangeiros aqui.
E agora?
Estão todos correndo para cá. Mas agora é tarde. Eles vêm pedir favores, mas deviam ter vindo antes para fazer amigos.
Por sua avaliação, parece muito claro que o jogo que hoje se desenrola é, na verdade, internacional.
Certamente.
Os arquitetos brasileiros não devem temer a concorrência e precisam participar mais de concursos internacionais. E a primeira ação, penso eu, é forçar o governo a incluir a arquitetura na agenda da política externa do país.
Não sei se isso é tão claro para nós, brasileiros. Em parte estamos dentro do jogo, porque temos potencial, mas em parte estamos fora, porque não estamos preparados. O que o senhor diria aos nossos estudantes, por exemplo?
O Brasil passou muito tempo procurando desenvolver sua própria cultura. E eu acredito que o país, assim como a China, tende a ter um caráter mais fechado e menos agressivo. O problema é que no Brasil há poucos jovens preparados. Eles têm que sair do país - podem voltar, mas têm que sair. E a arquitetura brasileira vai melhorar muito se os escritórios começarem a contratar estrangeiros. Isso vai aumentar a concorrência interna e elevar a qualidade. Os arquitetos brasileiros não podem ter medo da concorrência. E precisam participar de concursos internacionais. E a primeira ação, penso eu, é forçar o governo a incluir a arquitetura na agenda da política externa do país.
Por Ana Luiza Nobre
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 375 Maio de 2011