SIEGBERT ZANETTINI
A arquitetura deve ser holística e sistêmica
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- 01 de Março de 2007. Visitas: 13.932
Seu nome está associado à arquitetura com aço, mas sua prática profissional vai muito além. Quais são seus conceitos sobre arquitetura?
A questão do aço não é algo específico. O que existe é a arquitetura, cada vez mais holística e sistêmica, envolvendo todas as áreas de conhecimento. Todas as disciplinas vêm concorrendo, cada vez mais, para a definição de arquitetura, envolvendo experiência acumulada, evolução científica. Nada se faz hoje na construção civil, seja no âmbito urbano ou da edificação, se não for com base científica. As decisões são apoiadas sobre o que as ciências construíram nas áreas de humanas, biológicas, ambientais, econômicas e exatas. Se a arquitetura não tiver cada uma de suas questões colocadas nesse complexo de conceito humanístico e holístico, ela não representa a contemporaneidade - que é a diferença existente na arquitetura até o período moderno, quando era basicamente unidimensional e se refletia muito em função da estética.
Esses conceitos já começam a ser aplicados?
Penso que sou um dos primeiros a refletir dessa forma, que a transformação será pluridimensional, e não mais unidimensional. A passagem, que ainda é de forma, estilo ou estética, será uma passagem de dimensão. Antes a questão ambiental tinha pouca importância, pois o homem sempre destruiu o espaço com a postura de tomar posse da natureza. Agora percebemos que não se trata de posse, mas de interação com a natureza. Com isso, começam a mudar profundamente os conceitos. A passagem deste momento para um novo é a visão holística da arquitetura. Esta envolve, de um lado, todo o mundo racional, tudo aquilo que o homem construiu através do conhecimento, que sempre foi evolutivo, sistemático; e, de outro, o mundo sensível, da emoção, invenção, ousadia.
Trata-se, portanto, de uma diferença de dimensão?
Sim. Não basta que a arquitetura se resolva no âmbito da razão. Ela é uma arte habitável e, portanto, tem que atender o homem em suas condicionantes físicas, psíquicas, estruturais. O ser humano é a grande referência do centro de gravidade da arquitetura, pois ele habita, usa. Não é algo que ele observe, como um quadro ou uma escultura. Aí ela se completa enquanto mundo racional. Mas é arquitetura? Não, pode ser uma excelente construção. A arquitetura dará um salto qualitativo quando também incorporar o mundo sensível. Ela é a reunião equilibrada e harmônica entre este e o mundo racional.
Como é esse mundo sensível?
Emoção, coração e mente. Não se constrói arquitetura se não houver emoção, se não se inventarem coisas, se não existir ousadia para superar o status quo, magia, mistério, surpresas, espanto, paixão, encantamento, sonho. Sem isso, não se faz arquitetura. E podemos buscar, também, os elementos da música - harmonia, melodia, contraponto, dissonância, pausa, movimento. Isso faz o mundo da criação, das idéias. A arquitetura é feita para o homem e não como ponto-de-venda. Isso é construção, e não arquitetura. Faz-se construção para se vender mais metros quadrados. Só haverá a dimensão de arquitetura, como obra de arte que ela é, na medida em que atender às condições de arte, sem esquecer todo o mundo racional, sem o que ela não estará cumprindo seu papel.
Qual a relação da arquitetura com o ambiente construído?
Uma arquitetura feita agora tem que ser do século 21 e não do século 19, como esses prédios neoclássicos que existem por aí. A qualidade é a adequação à cultura, aos usos e costumes de cada época. Uma coisa é fazer arquitetura no Brasil, um país de clima tropical, e outra é fazer para países de clima frio. As condições climáticas, culturais, de insolação são diferentes. Portanto, é necessário entender a arquitetura no contexto em que ela está, considerando o ambiente natural e o construído. A obra não pode destruir o que já está feito, e sim somar, validar e avalizar. E uma obra pode melhorar profundamente um lugar ou uma cidade. Quem falava em Bilbao antes do Museu Guggenheim? Essa obra transformou a cidade num centro turístico que recebe milhões de pessoas.
A arquitetura transforma?
Sim, tem um poder impressionante de transformação. Portanto, não deve ser apenas uma reprodução do status quo ou uma reprodução retronostálgica. Deve considerar a evolução científica, tecnológica, estética, a satisfação das necessidades econômicas, a razão e a emoção. E deve ser feita para todas as classes sociais. A habitação popular deve ter qualidade. Hoje estão trabalhando numa forma de reprodução que é a mais burra possível, fazendo uma transformação quase sempre retronostálgica e enganadora. Uma coisa é uma coluna grega, no período grego, com o mármore a possibilitar aquela solução estrutural, e outra coisa é fazer isso em gesso. Isso é tudo cenário e daqui a 20 anos estará obsoleto.
A formação humanística faz falta aos arquitetos?
Passamos por um momento evolutivo muito grande - cinema, pintura, fotografia, televisão. A formação mais ampla do conhecimento da arte, da técnica é uma evolução contínua. A arquitetura tem várias dimensões. Primeiro, temos que definir a arquitetura sem adjetivos, seja hospitalar, esportiva, de edifícios administrativos ou de projetos voltados para outras áreas. Os profissionais que trabalham com obra, seja de arquitetura ou de engenharia, separaram a formação humanística da tecnológica.
Mas parece que estão ocorrendo mudanças no meio acadêmico, com o programa de dupla formação da USP...
Nos meus últimos anos de universidade conseguimos fazer essa aproximação entre a FAU e a Poli, na USP, com o curso de dupla formação. O arquiteto deve ter conhecimento humanístico e também técnico e tecnológico, saber construção, gerenciamento, gestão de obra, fiscalização. De outro lado, tem que criar, ter emoção e fazer com que essa obra seja uma evolução.
A escolha do material retoma essa questão da razão e da sensibilidade?
Sim, vamos escolher com a razão aquilo que está identificado com as condicionantes que envolvem o projeto, sejam elas espaciais, ambientais, geográficas ou climáticas. Projeto com qualquer material, em qualquer condição, em qualquer lugar. O projeto se apropria do material nas condições corretas do lugar onde está inserido, da tecnologia, das heranças culturais, e aí se produz arquitetura de excelente qualidade e contemporânea. Já fiz obras em concreto, madeira, solocimento, adobe, tijolo.
Como teve início sua história com a arquitetura do aço?
Em 1968, quando projetei a primeira obra com aço, fiz algumas experiências com trilhos. Naquela época comecei a experimentar mais uma tecnologia, pois já fazia em madeira, concreto ou qualquer outro material. A Companhia Siderúrgica Nacional passou a produzir, na década de 1950, para a indústria automobilística. Deixou de fazer perfil soldado para a construção civil e passou a fornecer para a indústria automobilística e de eletrodomésticos. Eu não me conformava. Por que não usamos isso? Nos Estados Unidos, no Japão e em boa parte da Europa os edifícios têm estrutura de aço. Não tenho nada contra o concreto, mas sempre questionei por que a tecnologia do aço permaneceu estagnada. Porque implicava uma decisão política, que transformava o tipo de tecnologia suja em tecnologia limpa. Foi decisão dos generais, em 1964, que se fizessem obras no Brasil com mão-de-obra desqualificada.
Nessa época o senhor começou a estudar as propriedades do aço?
Quando comecei a pensar o aço, demorei para entender como ele funcionava. Comecei a experimentar com galpões, até compreender a questão do vazio e da tridimensionalidade do material, que tem importância brutal, na concepção espacial - a geodésica, por exemplo, com vãos de 50 metros - e em detalhes. É possível, por exemplo, pegar quatro perfis de duas polegadas e meia e, em vez de juntos, eles serem separados e unidos com anéis, distribuindo a carga, diminuindo a linearidade e indo a favor da flambagem. Essa é a linguagem do vazio, que pode se dar no detalhe e na concepção espacial.
Seu curso de graduação foi logo após a FAU desmembrar-se da Poli?
Eu entrei logo após o desmembramento, no final da década de 1940. Então nós tínhamos os grandes professores da Poli - os melhores do país, num momento em que a engenharia civil e a estrutura tinham muita importância. Já a arquitetura era incipiente. Havia alguns arquitetos importantes, mas em termos de produção era quase inexistente. Tive essa formação de base em engenharia e gostava muito disso, de conhecer e entender a fundo. Isso é importante num projeto como o da Petrobrás, uma das empresas mais exigentes do país, que apresentou pilhas de normas a serem obedecidas, atendendo às condições de habitabilidade, segurança, eficiência.
Ter estudado nessa fase de transição foi importante em sua formação?
Sim, muito. Mas algumas pessoas que estudam minha obra dizem que é minha herança de formação de marceneiro. Meu pai era um grande marceneiro e trabalhei com ele por muitos anos. Aprendi a questão do detalhe, dos encaixes, da relação muito íntima com a matéria, que me influenciou no trabalho com o aço nesse esplendor a que ele chegou. Por que o japonês não usa prego em suas obras? Porque com o sistema de encaixe ele resolve toda a obra. O prego é a má tecnologia da madeira. Essa indagação, essa inquietação constante, essa invenção do pesquisador sempre estiveram em mim.
Na Europa, arquitetos fazem uso das estruturas metálicas em vários tipos de obras, incluindo megaedifícios administrativos. Por que isso não ocorre aqui?
É uma mentira quando se fala que o aço é mais caro que o concreto. Depende de como o projeto é concebido. Toda vez que um empresário vem ao escritório e apresenta a proposta de um prédio em concreto, dizendo que deseja calcular o custo em aço, eu respondo que temos de fazer outro projeto. A concepção do aço é tridimensional. Essa é a grande diferença, que pouca gente no mundo inteiro sabe, a não ser arquitetos como Santiago Calatrava, Richard Rogers, Norman Foster ou Renzo Piano, entre alguns nomes. E todos eles são engenheiros, conhecem a estrutura. Eles sabem unir a arquitetura e a tecnologia disponível, com maestria. São homens que entendem profundamente de tecnologia, estudam aerodinâmica, ventilação natural. A separação de que o engenheiro é um quadrado e o arquiteto é o gênio que cria não existe.
Qual o material mais interessante para trabalhar, aço ou concreto?
Para uma obra que trabalha muito a compressão, o concreto será material excelente. Já o aço trabalha melhor a flexão, a torção ou a tração. Muitas vezes fazemos obras mistas, com pilares de concreto pré-moldado e o vigamento metálico. Assim, aliamos o bom desempenho de dois sistemas construtivos e nos apropriamos daquilo que cada um tem de melhor. Fiz casas com madeira composta na década de 1970, com sarrafos de pinho, vigas laminadas. É se apropriar do material de maneira correta. É óbvio que não vou cortar uma árvore de 200 anos para fazer uma viga. Isso é contra minha visão de sustentabilidade.
Nesse caso pesa a formação humanística?
Muita gente acha que sou muito mais humanista do que arquiteto. Mas se trata da convivência com a vida universitária, com a reflexão, com todas as teses que fiz de doutorado, de docência. Sempre projetando, sempre ligando teoria e prática. Agir e pensar junto, sempre. Muitas vezes refletindo, repensando. Nunca existiu diferença entre o papel de professor e o de arquiteto. Aquilo que eu ensinava na escola fazia no escritório. Mas a universidade é retrógrada, segura o avanço. Ela é reprodutora de conhecimento, e não produtora.
O senhor é insatisfeito com a acomodação?
Sim. Deve ser minha origem de avô anarquista, que veio para o Brasil fugido da Itália. É o homem, o cidadão, indignado com a situação brasileira. Mas estou indignado construindo, tentando transformar. Tenho plena consciência do meu papel. Em 1964 fiz quatro cursos de pós-graduação. Um deles de metadesign, quando nem se falava nisso. Isso tudo foi construindo uma teoria com concepções de conhecimento. Ao mesmo tempo em que eu lia esses textos, lia romances. Era uma formação global, que resultou nessa diversidade que me permite projetar hospitais, escolas, habitações populares, usando concreto, aço. Minha obra não tem adjetivos. É arquitetura.
A obra do Cenpes é uma referência desses conceitos?
É uma nova referência com conceitos de sustentabilidade, tecnologia limpa, obra planejada e industrializada. No projeto do Cenpes entraram 32 disciplinas, das mais variadas áreas de conhecimento, como, por exemplo, o cálculo dos gases que sairão das chaminés e como evitar que eles contaminem o ar.
A indústria do aço está preparada para atender à construção civil?
Nos últimos dez anos, a indústria do aço registrou mudança significativa. Na década de 1970 formaram-se as associações, a Abcem [Associação Brasileira da Construção Metálica] e, mais recentemente, o CBCA [Centro Brasileiro da Construção em Aço]. Nas escolas não se falava em aço. Era um problema seríssimo. No meu livro de ensino eu escrevi: a resistência dos materiais é uma mentira. Pois se falava da resistência do material - o concreto. Formamos gente muito boa em concreto, em todas as áreas. Os primeiros cursos que fiz em aço foi junto com o pessoal da Poli. Falávamos sobre processo siderúrgico, estruturas e arquitetura. Eram cursos optativos, procuradíssimos.
E hoje, como está a área de ensino?
Na década de 1990 eu tinha orientado, no quinto ano, um ou dois alunos com trabalhos em aço. Quando saí da FAU, há dois anos, havia mais de 50%. Está num processo dinâmico, mas é preciso estudar. Não se fazem projetos em aço como um travestimento do concreto. Aço é aço, é uma linguagem de vazio que não é a mesma do cheio das alvenarias, do concreto.
Essas mudanças é que permitiram a concretização de um projeto como o da Petrobrás?
Sim. Lá no Cenpes eu usei porcentagem muito grande de perfis laminados, porque já existem no Brasil indústrias que os produzem. Nossa tradição de trabalhar em aço, nos últimos 30 anos, era com perfis soldados. Agora os perfis já saem prontos. Quando se usa o perfil soldado, há três tipos de chapas que são cortadas longitudinalmente, aparelhadas, soldadas e depois usinadas. Todo esse trabalho para fazer um perfil I. No Cenpes todos os perfis de dez metros que se repetem são laminados. Todos os perfis para vãos grandes, e que portanto saem fora da bitola-padrão, são perfis soldados. Todas as peças que ficarão em contato com o solo são perfis dobrados com banho de oxidação.
Haveria muita diferença de custos se os edifícios do Cenpes fossem construídos de forma tradicional?
Não é muito diferente. Há o custo/benefício e, muito mais que isso, é a importância que tem a Petrobrás em fazer um edifício que qualifique o processo arquitetônico. Dificilmente haverá outro cliente que possibilite pesquisas como as que foram feitas. Sempre fazemos pesquisas parciais. Lá nos cercamos dos melhores profissionais do país em todas as áreas. É um projeto coletivo. É a visão multidisciplinar da arquitetura. Esse é o grande salto qualitativo desse projeto. Será um edifício pronto para ser instalado, um processo de montagem, das estruturas aos fechamentos. Tem 5.180 documentos; 4.200 pranchas A0. Não há nada para ser resolvido na obra. É um exemplo de tecnologia limpa, planejamento, tudo extremamente preciso, milimétrico, que permite negociar todos os insumos da obra, favorecendo a composição de custos. É um exemplo para desmistificar todas as mentiras que se falam.
Por Cida Paiva
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 47 Dezembro de 2006

