Silvio Burratino Melhado

Nesta entrevista, o professor da Poli fornece subsídios para os escritórios que querem sair do estágio de ateliê

Do ateliê à gestão profissional
A administração das empresas de projeto começa a sair de uma fase artesanal para outra mais profissional, na busca de melhores resultados. O professor Silvio Burratino Melhado, do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Poli (PCC), abraçou a causa e trabalha para que o segmento desenvolva uma gestão mais eficiente.
Qual a importância de um bom sistema de gestão nas empresas de projeto, seja de arquitetura, seja outras áreas na contrução de edificações?
Para um projeto - de arquitetura, de engenharia ou de qualquer outra especialidade - atingir seus objetivos, é importante que ele seja produzido em um ambiente organizacional favorável. Isso pressupõe domínio sobre os processos, com reflexos positivos sobre a satisfação dos colaboradores, clientes e parceiros. A empresa precisa possuir maior controle sobre o planejamento de atividades e resultados financeiros. Em outras palavras, a gestão serve como elemento facilitador para que os projetistas atinjam sempre o melhor da sua performance como profissionais, evitando que problemas internos se reflitam sobre os produtos [projetos] gerados pela empresa.
O conceito de gestão engloba quais aspectos? Muitos acreditam que a gestão é para grandes empresas. Isso procede?
A gestão envolve todos os processos e sistemas que contribuem, direta ou indiretamente, para os resultados da empresa de projeto, desde o planejamento estratégico até a avaliação de resultados, passando pelo processo de projeto e incluindo as gestões financeira e comercial. Sem falar dos sistemas de informação e da gestão da qualidade, hoje cada vez mais importantes.
O que uma boa gestão pode trazer de positivo para as empresas de projeto? Quais são os resultados alcançados?
As empresas de projeto que se desenvolvem em gestão aprendem a tornar mais naturais e mais fáceis as tarefas do dia a dia da produção de projetos. Isso significa que a empresa sai do estágio de ateliê de projetos para uma configuração mais consistente e mais produtiva. Significa, também, que ela passa a ser vista pelos colaboradores, clientes e outros projetistas como uma estrutura mais definida e mais confiável.
Na Poli/USP, o senhor vem coordenando o programa de desenvolvimento gerencial de empresas de projetos. Como ele funciona?
Hoje, esse programa, que teve início em 2006, é restrito a dez empresas colaboradoras. Isso permite ao grupo obter condições para o desenvolvimento de métodos e sistemas de gestão inovadores, apropriados às características particulares das empresas de projeto. O exemplo mais recente desse trabalho é a aplicação de um sistema de gestão da qualidade específico para essa área. Esse sistema, aliás, é o mesmo que deu base ao atual Sistema de Avaliação de Conformidade de Projetos - o Siac-Projetos -, do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Hábitat, o PBQP-H. Em 19 de junho de 2009, realizaremos um evento para comunicar os resultados obtidos. A partir de julho, o programa
deverá passar por uma reformulação, pois queremos encontrar parceiros em outras cidades, e, se houver condições, será expandido para atender a um número maior de empresas, o que dependerá de apoio institucional. Por isso, temos procurado envolver as entidades setoriais, tais como Asbea, IAB, Abece, Abrasip, além de Secovi, Ademi e Sinduscon.
Como o debate da iniciativas para melhoria da gestão, por meio da apresentação de casos reais, ajuda o empresário de projeto a entender seus problemas?
A apresentação de casos traz a gestão para questões concretas, encontráveis na sua empresa, e ele pode ver como foram resolvidas nos casos que são mostrados. Assim, por exemplo, a criação de modelos de planejamento, de planilhas de controle e a aquisição de softwares tornam-se mais habituais. Os avanços obtidos foram interessantes nos aspectos da gestão comercial, da gestão do processo de projeto e da capacitação de colaboradores.
Quais são os principais problemas e qual postura deve ser adotada para resolvê-los ?
Os problemas são muitos, já que esse tipo de empresa, em geral, não reúne pessoal nem recursos suficientes para desempenhar uma boa gestão. Há dificuldades com apropriação de custos - por projeto e por etapas de projeto -, controle de documentos e gestão de subcontratações de projetos, apenas para citar alguns mais comuns. As consequências, em termos práticos, são a baixa confiabilidade, com reflexos nos prazos - ou seja, atraso - e na qualidade dos projetos, entregues com número inaceitável de erros e de omissões. Além disso, as empresas de projeto perdem valiosas oportunidades de mercado por não entenderem as necessidades dos clientes e têm dificuldades para acompanhar a flutuação da demanda. Tentamos torná-las mais bem preparadas para esses desafios, a começar pelo aumento da capacidade de autodiagnosticar e de planejar suas atividades.
A experiência vem ajudando na conscientização da importância do projeto no setor da construção civil?
Temos conseguido pequenos avanços quanto a essa conscientização, mas há ainda um longo caminho a ser percorrido. Sobrevivem muitos paradigmas a serem quebrados, como a mística criada em torno da ISO 9001, por exemplo, que é erroneamente associada à padronização; ou a ideia de que gestão e criatividade não combinam, dentre outros.
“Simplicidade e flexibilidade são fundamentais para a boa gestão no ambiente de produção de projetos de arquitetura e engenharia”
Quais as técnicas gerenciais mais indicadas para as empresas de projeto?
Quanto às técnicas gerenciais, não há como responder satisfatoriamente em poucas linhas, mas podemos adiantar que as palavras-chaves são simplicidade e flexibilidade, fundamentais para uma boa gestão no ambiente de produção de projetos de arquitetura ou de engenharia, em que não pode haver burocratização dos processos. Portanto, o programa se propõe a formar gestores e não burocratas da gestão, usando a criatividade natural do projetista a favor do desenvolvimento de controles mais leves e saudáveis, sem complicar desnecessariamente a gestão da empresa ou seus processos.
Quais são as principais dificuldades de implementação das técnicas de gestão adequadas? Como ocorrem as melhorias e a avaliação dos resultados?
As duas maiores dificuldades são a rejeição por parte das próprias atividades gerenciais e a pouca disponibilidade de recursos para implementação. A rejeição, que acontece muito mais por preconceito cultural, é rapidamente superada. Já a escassez de recursos, que também pode ser contornada, exige um pouco mais de criatividade por parte das empresas. Tentamos ajudá-las a se livrar dessas dificuldades, motivando os profissionais a desenvolver as tarefas de gestão, sem perturbar a produção dos projetos. Porém, uma dedicação mínima será sempre necessária. Pois as mudanças só ocorrem quando realmente as desejamos e trabalhamos para que aconteçam.
“Tentamos tornar as empresas preparadas para os desafios, a começar pela capacidade de autodiagnosticar e de planejar suas atividades”
A gestão de projetos é essencial para a racionalização dos custos das obras e para a qualidade e sustentabilidade da construção civil?
Sem dúvida, pois o projeto é fator fundamental para a racionalização e para a sustentabilidade. A gestão é um facilitador que visa melhorar o desempenho dos projetos. Assim, as empresas de projeto que possuem uma boa gestão estarão sempre mais aptas a vencer os desafios de racionalização e de sustentabilidade, bem como de outras questões que surgirem pela frente.
Qual a formação adequada para gerir uma empresas de projeto? Como o dono pode se capacitar para isso?
No mundo inteiro são raros os casos em que a gestão é feita por profissionais com formação específica. Os próprios profissionais de projeto, arquitetos ou engenheiros, devem se capacitar para isso. Não existe um perfil específico para essa atividade. Nós incentivamos que seja feita uma distribuição de atribuições e responsabilidades entre os colaboradores. Na Poli/USP, estamos preparando um curso de pós-graduação com esse foco, de modo que os responsáveis pela gestão das empresas de projeto possam se capacitar. O curso deverá estar disponível a partir de 2010. Algumas das principais disciplinas serão gestão de empreendimentos [project management] e gestão de projetos [design management]; planejamento de projetos; legislação e contratos; sustentabilidade ambiental; escopo da coordenação de projetos; integração, concepção, projeto, execução; concepção e análise estrutural de edificações e tecnologia de informação aplicada à gestão e coordenação de projetos, entre outras.
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 57 Junho de 2009
Silvio Burratino Melhado
O Programa de Desenvolvimento Gerencial de Empresas de Projeto, da Poli/USP, foi criado em 2006. Desde então, seu coordenador, o professor Silvio Burratino Melhado, do Departamento de Engenharia de Construção Civil (PCC), trabalha para que o segmento se desenvolva em um ambiente organizacional favorável. E os problemas são muitos, já que esse tipo de empresa, em geral, não reúne pessoal nem recursos suficientes para desempenhar uma boa gestão. Há dificuldades com relação aos custos por projeto e por etapas de projeto, ao controle de documentos e à gestão de subcontratações, entre outros. Segundo Melhado, essas empresas precisam de maior controle sobre o planejamento de atividades e resultados financeiros. Para ele, a gestão serve como elemento facilitador para que os projetistas atinjam sempre o melhor da sua performance, evitando que problemas internos se reflitam sobre seus projetos. Isso pressupõe domínio sobre os processos, com reflexos positivos na satisfação dos colaboradores, clientes e parceiros. “As empresas aprendem a tornar mais naturais e fáceis as tarefas do dia a dia da produção de projetos. Saem do estágio de ateliê para uma configuração mais consistente e mais produtiva”, diz Melhado. O programa realiza seminários, reuniões e visitas às empresas. Dessa maneira, são debatidas as iniciativas para melhoria da gestão, por meio da apresentação de casos reais e das soluções adotadas. As dificuldades de gestão, o estudo dos principais processos, a implantação de melhorias e avaliação dos resultados são analisados de forma sistemática. Hoje, as dez empresas participantes colhem frutos da adoção de técnicas gerenciais que lhes renderam domínio sobre o processo.