Solano Benitez

Destaque da nova geração de arquitetos paraguaios, Benitez fala sobre sua obra experimental, feita com poucos recursos

Um a um, os projetos apresentados pelo paraguaio Solano Benitez, um dos grandes arquitetos latinoamericanos da atualidade, foram criando um vínculo mútuo, quase que de encantamento, entre a estrela da noite e a jovem plateia que lotou o auditório da FAU/USP na palestra sobre sua obra ocorrida no final de março. “São Paulo é um lugar especial para mim. Tenho um vínculo antigo com os arquitetos brasileiros”, afirmou.
Sua palestra comoveu estudantes, arquitetos e até mesmo o senhor. A que se deve tal identificação?
Quando tentamos mostrar que nosso trabalho é nossa vida e, ao mesmo tempo, pode amparar a vida das pessoas, abre-se um caminho intenso, uma relação estreita. Todos nós sonhamos com a possibilidade da transcendência, de nos vincularmos uns aos outros e de percebermos que assim melhoramos coletiva e individualmente. Penso que algo assim ocorreu na palestra.
O senhor costuma visitar São Paulo com frequência?
Não tanto quanto gostaria, mas venho bastante. É um lugar especial para mim, muitos amigos estão aqui.
Como vocês se conheceram?
Há 15 anos tenho amizade com Angelo [Bucci] e com Álvaro Puntoni. Quando Lisboa foi declarada capital da cultura ibero-americana de 1994, fazia parte da programação um evento para arquitetos com menos de 30 anos. Boa parte dos brasileiros selecionados para aquela mostra, como Luciano Margotto e muitos outros, estava na minha palestra. Eu tinha sido designado representante do Paraguai e instantaneamente fiquei instigado pela produção dos outros países, pelas possibilidades de crescimento que ela representava, pelo entendimento das diferenças entre nós. Tenho, assim, um vínculo antigo com esses amigos brasileiros.
Vocês costumam trocar idéias sobre arquitetura?
Frequentemente. Costumo dizer que o mais importante são as transformações que esses amigos do Brasil conseguiram realizar na minha vida. Eles são fundamentais para mim.
Que transformações?
Como jovem arquiteto formado no Paraguai, havia muitas coisas relacionadas à produção brasileira que eu simplesmente desconhecia. Eu tinha até certa referência histórica, sobre Vilanova Artigas, por exemplo, mas ser convidado para conhecer a casa de Artigas às duas da madrugada de um domingo, guiado pelo próprio filho dele, Julio Artigas, me fez perceber que outras pessoas estavam tentando me mostrar uma forma de enriquecer meus conhecimentos. Foi um ato de grande generosidade, desses que provocam transformações.
A seleção dos projetos que o senhor mostrou na palestra revela uma dedicação intensa ao canteiro de obras. Como chegou a esse tipo de atuação?
Temos, no Paraguai, uma reputação muito negativa em relação à pirataria, aos direitos intelectuais dos projetos, que simplesmente não existem. Tínhamos feito alguns projetos que considerávamos bons, mas por um motivo ou outro a construção não dava certo. Então transformamos nosso escritório em um lugar que desenvolve apenas projetos que serão efetivamente construídos. Se não há claramente essa intenção, não aceitamos o trabalho. E quanto mais tempo se dedica a um trabalho mais ele melhora, o que nos fez aprender a usar não somente as ferramentas digitais de desenho, mas também uma ampla gama de recursos. Utilizamos bastante o Excel, fazemos muitas planilhas, e ampliamos também o tempo disponível para o desenvolvimento do projeto. O desenho não para com o início da obra, continua sendo criado durante a execução. E só quando acaba a construção é que fazemos o as built, documentando todas as alterações que ocorreram ao longo da obra. Esse é o documento que vai para o cliente, foi esse o projeto que ele nos encomendou. Acho bobagem negar a possibilidade de reflexão crítica sobre o trabalho durante a execução, e talvez essa seja uma marca distintiva da nossa atuação. Mais do que a presença do arquiteto no canteiro, o que acho imprescindível é entender que a obra é um processo e que ainda durante a execução o projeto continua sendo modificado.
Qual foi o contexto de sua participação no BSI Swiss Architectural Award, em 2008, do qual o senhor saiu vencedor?
Foi uma loucura. O Ministério da Cultura suíço, a Faculdade de Arquitetura de Mendrisio e o banco da região de Ticino constituíram uma fundação de apoio à arquitetura. Determinaram a criação de um prêmio e, para distingui-lo de outros, como o Pritzker, propuseram que se fizesse uma seleção mundial de arquitetos com menos de 50 anos de idade que estivessem contribuindo para o desenvolvimento da arquitetura. Convidaram 13 personalidades do setor e pediram que cada uma nomeasse até três candidatos. Um dos jurados era Paulo Mendes [da Rocha], que foi quem me indicou. Depois da escolha inicial, um segundo júri, com sete pessoas, totalmente diverso e também constituído de nomes importantes como Mario Botta, Emilio Ambasz, Zhi Wenjun e David Croff, entre outros, analisou três obras de cada selecionado. Tínhamos enviado para a Suíça um projeto pequeno, um médio e um grande, escolhidos com muito cuidado. Cada jurado deveria eleger novamente três candidatos. Pois bem: nosso escritório estava presente pelo menos uma vez nas indicações de três jurados, e nas dos outros quatro éramos o único selecionado. Na decisão final, então, tivemos a totalidade dos votos.
O fato o surpreendeu?
Eu não esperava nem a indicação do Paulo. Isso já era um privilégio, ganhar então nem passava por nossas cabeças. O prêmio nos deu uma bolsa importante, um prêmio em dinheiro [100 mil francos suíços]. Foi muito bom para o escritório.
Tínhamos feito alguns projetos bons, mas a construção não dava certo. Então transformamos nosso escritório em um lugar que desenvolve apenas projetos que serão construídos. Se não há claramente essa intenção, não aceitamos o trabalho
A receptividade à sua obra mudou depois disso?
Sim, mas isso é um pouco complicado. Nosso trabalho é de pesquisa, estamos desenvolvendo coisas o tempo todo. As revistas e os meios digitais têm um papel importante como agentes de comunicação, mas também podem converter nossa produção em um bem de consumo, sabe? Há o risco permanente de resumirem a obra do Gabinete de Arquitetura como aquela que utiliza tijolos, simplesmente, e todo um trabalho vai sendo esquecido. Essa exposição é um problema. Queremos continuar fazendo pesquisas; ao mesmo tempo, é necessário começar a mostrar às pessoas nosso trabalho, sem esquecer do cuidado com que ele é feito. O prêmio lançou um duplo olhar: por um lado tivemos o reconhecimento; por outro, nos vimos diante de uma grande expectativa.
Quais foram os outros dois indicados por Paulo Mendes?
Não sei. Bom, vou contar, sim. Ele não indicou outro, o que para nós foi incrível.
Vocês já se conheciam antes disso?
Paulo tinha ido ao meu escritório. Eu o conhecia porque fomos um dos cinco finalistas do Prêmio Mies van der Rohe em 2001, que ele ganhou com o projeto da Pinacoteca [do Estado de São Paulo]. Ele teve a generosidade de ir a Assunção e conhecer nosso trabalho.
Que projeto seu concorreu nesse prêmio?
Era uma colônia de férias do sindicato de trabalhadores da estatal paraguaia de eletricidade.
Enquanto contínuo processo de pesquisa, quais as referências de boa qualidade tomadas por sua arquitetura?
Imagine um corte da Ville Savoy, de Le Corbusier. Veja a pequena espessura da parede, a inércia da janela e outros detalhes que são como receitas de boa arquitetura. Para mim, a grande descoberta, no entanto, foi compreender isso não como um repertório para simplesmente ser utilizado, mas como um momento de reflexão sobre a nossa realidade local. Como esse tipo de solução poderia ser utilizado no contexto pobre do Paraguai? Angelo me levou para conhecer a praça do Patriarca, em São Paulo [que tem cobertura de Mendes da Rocha]. Quando vi aquilo meu coração começou a bater forte. Na época eu estava fazendo a casa da minha mãe e aquele arco tem quase as dimensões do vão da casa dela. Então, não tem nada a ver uma coisa com a outra, ou tem tudo a ver? Um é de aço, o outro é de tijolo, mas as dimensões, o pensamento estrutural são da mesma natureza. Como disse na palestra, eu venho do Paraguai, que é uma parte da Argentina que fica no Brasil - estamos sempre muito atravessados por todas essas presenças estrangeiras. Sinto que a influência da arquitetura paulista, em particular, é muito forte na América Latina. Por sorte, são todos arquitetos amigos meus. É incrível a transformação que causaram na minha obra.
O meio cultural arquitetônico no Paraguai é muito escasso. O arquiteto passou a disputar o campo do bom gosto, é como se o seu território se resumisse a isso. Só que a condição do bom gosto é ruim, porque é uma banalidade apenas.
Quais são as maiores dificuldades enfrentadas por sua arquitetura?
As legislações, porque os indicadores quase nunca são bons para os projetos. O índice de resistência do tijolo, de 7 kg/cm2, veio da constatação de que ele quebra aos 70 quilos, um número muito maior. É uma taxa de segurança enorme, um desperdício imenso da resistência do tijolo por motivos irreais. Temos que revisar esse tipo de coisa, mas para isso nós, arquitetos, precisamos encontrar um caminho. O prédio que estamos construindo agora no Paraguai me faz pensar nos sertanejos erguendo Brasília, com aquelas fôrmas de madeira, improvisando no meio do mato, batendo concreto no chão. Estamos fazendo tudo isso ainda, mas, ao mesmo tempo, temos a possibilidade de extrapolar o primitivismo e entrar no campo da sofisticação dos recursos disponíveis.
As universidades são parceiras no experimentalismo em canteiro?
Agora sim, tanto no Paraguai quanto no Equador. É interessante, porque o tijolo e o solo são distintos de um lugar para outro, mas, fazendo pesquisas e quebrando as antiquadas margens de segurança, teremos uma base certa para calcular nossos projetos em um território compatível.
Como é o meio cultural arquitetônico no Paraguai?
É muito escasso. Há uma presença muito forte da revista PROJETO DESIGN. Mas o arquiteto passou a disputar o campo do bom gosto nos últimos tempos, é como se o seu território se resumisse a isso. Só que a condição do bom gosto é ruim, porque é uma banalidade apenas. Por esse critério tudo se torna descartável. Como temos tantos meios de comunicação e pesquisa à nossa disposição hoje em dia, é fácil fazer um desenho de bom gosto. Com um pouco de esforço, pode-se fazer uma mistura das dez melhores casas de São Paulo num projeto só, e então não há diferença entre o que é concebido pela proprietária, pelo engenheiro, pelo arquiteto, todos têm as mesmas informações. O lugar do arquiteto, portanto, não é claro. Mas se ele tiver algo a apresentar, algo que pode ser construído, que utilize menos material sem perder segurança, cuja disposição espacial permita morar melhor, estará colaborando para que a sociedade se desenvolva, para que a América Latina prospere em termos de qualidade de vida, de qualidade urbana. Esse é o arquiteto importante para a sociedade, ele é capaz de dar vida às cidades, por mais pobres ou isoladas que elas sejam. Nenhuma sociedade é boa por si só. Os cartéis são parte dela, a máfia também é, então para que a sociedade seja boa seus componentes devem ser bons. Numa sociedade como a nossa, muito corrompida, é pouco provável pensar que o arquiteto tenha uma participação de destaque, positiva, embora isso não nos livre da responsabilidade de tentar transformar as relações ruins, com a motivação e a certeza de que conseguiremos melhorar a situação. Temos que lutar por um mundo melhor para todos.
Fala-se que o senhor exerce grande influência nos jovens arquitetos paraguaios. É verdade?
Trabalho somente com gente jovem, porque para fazer pesquisa sem conhecimento prévio não se necessita de professores. Precisamos de mestres enquanto mentores do processo, mas não de pessoas com experiência. Se estamos fazendo algo de que ninguém sabe, não existe experiência. Por isso que considero interessante e necessário trabalhar com os jovens. Nesse sentido, acho que se justifica esse comentário sobre mim.
Fale um pouco sobre os mecanismos de desconto que o consagraram vencedor do concurso fechado para projetar a sede dos escritórios da Unilever no Paraguai, em 2000/2001.
A gerência fechou primeiro os custos, comparando a proposta mais barata com a mais cara. Então, sem mudar nada, deu 15% de desconto nominal para as propostas que julgaram as melhores em termos de funcionalidade, seguido de outra rodada de 15% de desconto por outro critério. Surgiram assim, sequencialmente, dois novos rankings de custos para os mesmos projetos, o que nos fez ganhar também em valores, mesmo que, inicialmente, houvesse um projeto cerca de 30% mais barato que o nosso. Ou seja, foi um julgamento baseado em uma relação matemática, ponderada por critérios de qualidade.
Que importância teve esse projeto para a sua carreira? Era o de maior escala que o senhor já tinha desenvolvido até então?
Não sei que importância teve, mas aquele foi um momento interessante. Para ganhar o concurso apresentamos um projeto um pouco mais tranquilo, que, no entanto, teve que ser pensado novamente na hora da execução. Fizemos tudo de novo. Mas foi interessante a Unilever, que já tinha uma unidade com cara de international standard lá no Paraguai, convidar arquitetos locais para criar sua sede própria.
Como definiria a fase atual da sua carreira? Há desafios novos, já venceu alguns?
Não, não venci nada. Sempre penso que estamos começando tudo, que essa é a maravilha: estar sempre no momento inaugural. Isto é muito importante.
O senhor insistiu, em sua palestra, no poder de transformação da América Latina. Explique isso um pouco melhor.
Eu me refiro ao fato de as pessoas se conscientizarem, desde a pequena escala, que são importantes agentes de transformação do território; de entenderem que podem, através da experimentação e da pesquisa, da atuação nos aspectos essenciais para a qualidade das suas vidas, participar da construção do ambiente em que vivem, tentando melhorá-lo mesmo que seja precário o material de que dispõem para isso. O sonho é contagiar as pessoas. Fizemos o projeto de uma casa para o carteiro que entregava nossas cartas no período em que estávamos construindo o nosso escritório. Ele demonstrou ter gostado muito da obra. Com o nosso projeto, então, ele ia aos sindicatos pedir crédito. Só que o orientavam a pleitear um valor maior para uma casa menor, porque achavam que aquilo que tínhamos planejado para ele não ia dar certo. Não acreditavam numa casa boa a um preço tão menor do que o de costume.
A arquitetura enfrenta, então, um problema sistêmico?
Exatamente. Mas nós sabíamos das novas oportunidades que o nosso trabalho abre, e, enfim, todos os que trabalham conosco acabam como agentes divulgadores dos desafios e das barreiras que devem ser quebradas. No momento em que todo mundo quer ter uma vida tranquila, sem muitos questionamentos, nós a problematizamos, tentamos outorgar soluções que, no final, são bandeiras da possibilidade de transformação da sociedade, de mudança da situação vigente. Nossos clientes se tornam entusiastas da nossa obra, assim como aqueles que trabalham conosco na construção. Os mestres estão sempre muito desconfiados porque a todo momento surge uma nova forma de construir, o que transforma sua realidade, outorga-lhes mais responsabilidade, dignifica seu trabalho.
O senhor falou sobre a dificuldade com relação à propriedade intelectual no Paraguai. Já tentou patentear algum sistema construtivo?
Não, imagine. No Paraguai isso não existe. Nossa tática é fazer mais e mais daquilo. É bom que as pessoas vejam o que fizemos até agora e nos dêem a possibilidade de continuar pesquisando. Então não ficamos aflitos com a técnica, com a cópia; nos afligimos porque temos que produzir mais.
Que arquitetos o senhor admira?
Sou permeável a muitas coisas, minha relação com a história é intensa. Sem dúvida alguma Le Corbusier foi o início de tudo, seu livro [Por uma arquitetura] foi um começo muito forte também. Daí em diante, tudo o que consegui pegar da obra de Le Corbusier, de Mies van der Rohe, foi pouco. Sempre estou buscando mais. O arquiteto que consideramos mais próximos de nós na condição de mestre é o Paulo. Não na condição de professor, mas como mentor, uma pessoa capaz de transmitir estímulos para que novas gerações façam o trabalho que devem fazer, de transformação. Lina Bo Bardi também foi muito importante. Li bastante sobre ela. Lelé é um colosso, Reidy tem uma obra sensacional. Joaquim Guedes também era um bom arquiteto.
O arquiteto que consideramos mais próximos de nós na condição de mestre é o Paulo [Mendes da Rocha]. Não na condição de professor, mas como mentor, uma pessoa capaz de transmitir estímulos para novas gerações.
Já desenvolveu algum projeto fora do Paraguai?
Estamos em vias de fazê-lo com muita vontade, inclusive para o Brasil. Tive já algumas parcerias com Angelo, com Rafael Iglesias, fiz concursos para a Venezuela, outros para o Equador. Até agora nada fora da América do Sul, felizmente.
Por quê?
Tenho o coração aqui. Quando as pessoas especularam que eu mudaria de país depois de ter ganho o prêmio na Suíça, disse logo que isso era impossível. A magia está em ir para outro lugar, outro continente ou país, trabalhar e voltar, projetar lá e cá. Mas, no final, cada pessoa pertence a um lugar. Embora, como diz Milton [Braga], eu seja o arquiteto mais brasileiro do Paraguai.
Por Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 352 Junho de 2009
Para Benitez, apresentar-se no “auditório do Artigas”, como ele diz, e ter sua obra comentada por aquele que considera um mentor - Paulo Mendes da Rocha - foi um dos momentos especiais de sua carreira. No dia seguinte, no escritório de Angelo Bucci e ainda em clima de enlevo, Benitez concedeu a entrevista que publicamos a seguir.
Ele falou sobre as especificidades de sua obra experimental, feita no canteiro e com poucos recursos, repleta de inventividade, conforto e expressividade plástica; sobre os desafios e potencialidades da América Latina; e sobre sua admiração pela arquitetura moderna brasileira. Benitez é sócio do escritório Gabinete de Arquitetura, sediado em Assunção, no Paraguai. Foi finalista do 2° Prêmio Mies van der Rohe para a América Latina, em 2001, com o centro de lazer em Ytú, no Paraguai, e vencedor do BSI Swiss Architectural Award em 2008. Ele se formou em 1986, pela Faculdade Nacional de Arquitetura de Assunção.