Tadao Ando
Arquiteto enfatiza o essencial de sua arquitetura e os diálogos com Jean Nouvel, Frank Gehry e Renzo Piano nos anos 1970
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- 13 de Agosto de 2012.
Tadao Ando é uma figura enérgica. Dizem que não gosta de ser fotografado sem consentimento. E, de fato, munido de uma câmera de bolso em sua passagem por Milão, em abril, o septuagenário e consagrado arquiteto japonês direcionou seu flash para cada fotógrafo intruso que identificou nas cerca de sete horas de apresentações para a imprensa, como quem devolve na mesma moeda um ato invasivo.
O senhor menciona a ideia do belo, do espaço sagrado, desde o início da sua carreira. O que considera belo, depois desses anos de atuação?
O belo existe mesmo onde não se vê, é a atitude de esmero em se fazer algo. Em todas as áreas, há pessoas atentas ao mínimo detalhe de seus trabalhos. Considero, estando aqui em Milão [na semana de design], que arquitetura e moda são vizinhas nesse sentido, igualmente preocupadas com a perfeição.
Independente do contexto, do lugar?
Há diferenças não só de país, mas de tipo de projeto também. Em Veneza [no projeto do Museu Punta della Dogana, inaugurado em 2009], por exemplo, havia a questão do restauro. Há sempre muitas críticas quando se intervém num monumento histórico, as proibições são de toda ordem. Mas foi alto o nível de elaboração manual, em paralelo com a seriedade da restauração do palácio.
Além da influência confessa de Le Corbusier, que o motivou a se tornar arquiteto, que outras pessoas foram determinantes no seu modo de trabalhar?
Posso citar, por exemplo, Carlo Scarpa. Palladio também, ele representa a grandeza de uma época.
Qual a sua expectativa com relação ao desenvolvimento futuro da arquitetura?
Vão continuar fazendo belos palácios, assim como toda a sorte de museus. Mas devemos nos preocupar também com a preservação.
E da sua arquitetura?
O momento é de resistir contra essa coisa de arquiteto business. Fazer o belo depende de desenvolvimento gradual, a criação ocorre passo a passo, semanalmente. Não se inventa algo assim, de repente, e sem esforço.
Quais as novas frentes de trabalho abertas em seu escritório?
Temos muitas propostas na China [na semana seguinte a esta entrevista, o arquiteto partiria para Xangai, em viagem de negócios], em Taiwan e Coreia. Devemos pensar no que dedicar energia na Ásia, incluir a preservação em nossas preocupações. Mas o mais importante é que desejo preservar a alta qualidade do meu trabalho. O fundamental é haver respeito.
Em diversas oportunidades o senhor manifestou apreço pela sensibilidade japonesa. O que muda em seu diálogo com as culturas de outros países, nos trabalhos quye são desenvolvidos na Europa, por exemplo?
O importante é haver a cultura necessária ao estudo, ao desenvolvimento sólido da vida. É essencial que se possa estimular a sensibilidade estética.
O que mudou na cultura japonesa desde o pós-guerra? Refiro-me às catástrofes recentes, entre elas terremotos e vazamentos nucleares.
Há uma nova fase, diferente do consumo direto de mercadorias.
Mas Ando - que na cidade italiana inaugurou uma exposição de recentes projetos de museus na galeria e loja Duvetica, projeto de sua autoria - é também pessoa carismática. Dirigindo um escritório pequeno que trabalha no limite do possível - são apenas 30 funcionários e cerca de 80% de projetos estrangeiros - e que a cada dia abre novas frentes de trabalho na Ásia, ele é capaz de abstrair as formalidades momentâneas e interromper a fala para cumprimentar o casal de clientes que se aproxima, um amigo no canto da sala ou mesmo o jovem que se contorce na calçada em busca do ângulo inusitado do arquiteto.
Nesta entrevista, realizada em Milão, o arquiteto enfatiza o essencial de sua arquitetura, os diálogos que teve com Jean Nouvel, Frank Gehry e Renzo Piano nos anos 1970 e a sua admiração por Oscar Niemeyer, por vezes mais, por vezes menos guiado pelas perguntas que fizemos em inglês, depois traduzidas para o japonês e finalmente devolvidas pelo tradutor, em inglês.
Já li relatos seus sobre a dificuldade de construir alguns projetos, como o Teatro Armani, aqui na Itália, por causa do baixo nível de qualidade do trabalho civil. Como lida com esses entraves?
O importante é que, no final, o teatro ficou muito bem feito, satisfatório. Você deveria ir lá conhecer, não é tão fácil ter acesso, porque é um teatro privado, mas valeria a tentativa.
Tem algum sonho ainda não realizado, a conquistar com a sua arquitetura?
Sonho com manter a qualidade do meu trabalho.
Hoje pela manhã, na abertura de sua exposição, o senhor se mostrou entusiasmado no encontro com a imprensa. Há um significado especial para o senhor em se apresentar na Itália?
Não é algo novo para mim. Já me apresentei aqui, na inauguração de outros projetos, como o do Teatro Armani [ocorrida em 2000].
Museus são um programa especial para a sua arquitetura. Qual a importância, para o senhor, de organizar uma exposição sobre esses espaços?
Não estamos falando apenas sobre museus nesta exposição. Estamos falando sobre lugares de exibição da cultura.
O mesmo vale para o museu [Marítimo] que o senhor está projetando em Abu Dhabi? Teve a oportunidade de escolher o local e o programa [além do projeto de Ando para o chamado Distrito Cultural, na ilha Saadiyat, há museus sendo criados por Frank Gehry - Guggenheim, Jean Nouvel - Louvre, Zaha Hadid - Performing Arts Centre e Norman Foster - Sheik Zayed National Museum]?
Tive algum papel na escolha do lugar, mas o programa já estava estabelecido. A distribuição já estava decidida.
Em 2010, foi lançada no Brasil a sua autobiografia. O que o motivou a reunir em livro pensamentos sobre o seu trabalho e a sua vida?
Como você deve saber, esse livro foi lançado no Japão inicialmente, só depois houve o lançamento no Brasil. Pensei que poderia estimular os jovens leitores se reunisse um pouco da minha vida e da minha experiência nessa publicação. A intenção foi favorecer a emergência de novas ideias.
Seu trabalho - com formação autodidata - foi cedo reconhecido. Com pouco menos de dez anos de atuação, em 1978, por exemplo, sua produção já fazia parte da exposição Uma Nova Tendência da Arquitetura Japonesa, que Kenneth Frampton organizou em Nova York. A que o senhor credita esse fato?
Naqueles anos eu estava buscando ideias para a minha arquitetura, fazendo contatos. Acreditava que era esse o caminho certo a ser seguido para dar forma aos meus pensamentos, à minha arquitetura. Fui reconhecido.
Cerca de 80% dos meus trabalhos atuais são fora do Japão. Todos os anos recebo por volta de cem pedidos de novos projetos, mas não tenho tempo para atender nem uma parte disso. Trabalho muito, tenho que escolher bem um novo projeto.
Depois, na passagem para os anos 1980, o senhor elaborou artigos. Era época de tomar partido?
Já não havia os metabolistas, não poderia ir contra algo que não existia mais, nem seria essa a minha intenção. Nos anos 1970 estabeleci discussões com outros arquitetos, como Jean Nouvel, Renzo Piano e Frank Gehry. Falávamos sobre tecnologia, obras de arte e como a arquitetura deveria ser no futuro.
É famosa a história de sua chegada à França uma semana depois da morte de Le Corbusier. O que teria perguntado se o tivesse encontrado pessoalmente?
Le Corbusier foi um arquiteto de muitas conquistas, e foi determinante para mim ter entrado em contato com os seus desenhos. Mas eu não tinha nenhuma pergunta preparada para o nosso possível encontro, apenas queria ver o seu rosto, ouvir a sua voz, estar em sua presença. Gostaria de vê-lo, simplesmente.
Há alguns anos, durante a comemoração do centésimo aniversário de Oscar Niemeyer, o senhor respondeu prontamente solicitação da PROJETO DESIGN para que formulasse algum pensamento sobre a obra do arquiteto carioca. O que o senhor admira no trabalho de Niemeyer?
Ele fez parte de uma época em que o Brasil estava se desenvolvendo rapidamente, o país tinha urgência em abrir novas áreas urbanas. E Oscar Niemeyer teve papel muito importante nesse contexto, não apenas ele, mas Lucio Costa também. Diferente da arquitetura moderna, a de Niemeyer tem muitas curvas, mesmo hoje vemos esse tipo de forma nos trabalhos dele. Niemeyer teve grande imaginação no modo de se inserir num novo tipo de cidade, numa nova tecnologia.
Eu me exercito diariamente, o que faz com que eu me sinta muito bem. Não sinto necessidade de diminuir o ritmo de vida. Quero continuar trabalhando ainda aos 90 anos.
E com outras escolas modernas brasileiras, como o trabalho de Paulo Mendes da Rocha, o senhor tem afinidade?
Prefiro não dar opiniões tão diretas.
O senhor esteve envolvido com a candidatura de Tóquio para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, traçando as linhas gerais do master plan que buscava reocupar o centro da cidade através da revitalização e interligação de grandes áreas verdes. Houve alguma evolução desse trabalho, mesmo que a cidade tenha perdido a candidatura para o Rio de Janeiro?
Fui chamado para elaborar o master plan de 2016 ainda na fase de pré-seleção das cidades. O Japão não conquistou o direito de sediar os Jogos em 2016, mas, neste momento, estamos tentando novamente para 2020. O restabelecimento de áreas verdes originais é um dos temas desse trabalho, tem a ver com a análise do desenvolvimento das cidades e com a criação de edifícios que se relacionem com a natureza. Nós podemos reconquistar o ambiente natural, trazê-lo de volta para as nossas cidades.
O senhor tem mencionado com frequência a questão da recuperação do verde nas cidades. A que se deve esse ativismo?
Meu ativismo é para transformar colinas abandonadas em florestas novamente. Não apenas no Japão, mas também na Itália e em outros países em todo o mundo. É algo possível de se fazer, aos poucos, e certamente trará nova condição para as cidades.
Qual a proporção atual em seu escritório entre trabalhos no Japão e no estrangeiro?
Cerca de 80% dos trabalhos atuais são fora do Japão. Todos os anos eu recebo por volta de cem pedidos de novos projetos, mas não tenho tempo para atender nem uma pequena parte disso. Eu trabalho muito, tenho que escolher bem na hora de aceitar um novo projeto.
Essa predominância de trabalhos estrangeiros mudou algo na dinâmica de trabalho do seu escritório? Lembro de ter lido na sua autobiografia o relato sobre o posicionamento central da sua mesa de trabalho, de modo a ter acesso visual ao desempenho de tarefas de todos os seus funcionários.
Não muda nada. É difícil manejar um trabalho no exterior, mas não impossível.
O senhor mencionou certa vez que seu escritório havia chegado ao limite máximo de funcionários, 25. Conseguiu manter essa marca mesmo desenvolvendo tantos trabalhos no exterior?
Não, hoje somos 30 [cada arquiteto é responsável, em média, pelo desenvolvimento de oito projetos. Além disso, a curadoria e a produção das exposições do trabalho de Tadao Ando são feitas totalmente por sua equipe de arquitetos].
As artes plásticas são referência para o senhor? Que artistas o senhor admira?
Como você deve saber, estou criando a casa de Damien Hirst e também a de Bono Vox. Nesses casos, e para essas pessoas, eu busco estímulos diferentes.
O senhor é figura popular no Japão, influente além do domínio restrito da arquitetura. Como encontra tempo também para esse tipo de ativismo?
Sempre que posso eu contribuo com diferentes discussões em meu país.
Tem em vista algum projeto ou proposta de trabalho no Brasil?
Gostaria de levar uma exposição sobre o meu trabaho, como essa que você viu hoje pela manhã, para o Museu Oscar Niemeyer. Até já fiz a proposta. De qualquer forma, ir para o seu país é algo desafiador para mim.
O que resta da sua prática esportiva? O senhor parece muito bem disposto aos 71 anos de idade, trabalhando muito e cumprindo agenda intensa de compromissos. Não o vi parar nem um minuto desde as 11 da manhã, e já passam das 4 da tarde.
Eu me exercito diariamente, o que faz com que eu me sinta muito bem. Não sinto necessidade de diminuir o ritmo de vida. Quero continuar trabalhando ainda aos 90 anos ou mais. É com a arquitetura que eu posso enfrentar as dificuldades do mundo.
Por Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 388 Junho de 2012
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 388 Junho de 2012

