Vanderley John

Não estamos preparados para a eficiência energética

Não estamos preparados para a
eficiência energética
Um dos nomes em destaque quando o tema é desenvolvimento sustentável, o engenheiro Vanderley John afirma que imitar o mercado norte-americano, achando que construção sustentável é fazer alguns poucos green buildings certificados, é um grande engano. Outro equívoco são os condomínios-clubes, que agregam novas formas de consumo de energia elétrica.
Quais os impactos da construção civil no meio ambiente?
No Brasil não temos números consolidados. Mundialmente, o consumo de recursos naturais pelo setor varia entre 40% e 75%. O consumo de energia elétrica pelos edifícios é de cerca de 48% e tem crescido mês a mês. Mas não existem dados de quanto as indústrias consomem na produção dos materiais de construção. Por outro lado, nenhum setor tem um produto tão grande quanto a cadeia da construção civil: ele é do tamanho do país, são as cidades, as estradas e tudo mais. Muito do que é extraído da natureza vai terminar em edifícios, rodovias e outras obras. E não se faz algo desse porte sem um impacto ambiental significativo. Quanto aos resíduos de construções e demolições, da ordem de 500 quilos por habitante anualmente, já representam volume maior que o de lixo urbano domiciliar e de escritórios.
O que tem sido feito pelo setor para reduzir esse impacto?
As ações ainda são muito tímidas no Brasil. Existem exemplos de evolução tecnológica, como o concreto de alta resistência, muito mais ecoeficiente. Na década de 1960, quando a indústria do aço aumentou a resistência do produto, surgiram os tipos CA 50 e CA 60, que provocaram expressiva diminuição nos diâmetros dos pilares. O mesmo aconteceu quando se trocou o tijolo maciço pelo tijolo furado, fazendo com que o peso das paredes caísse de 200 para 120 quilos por metro quadrado. São exemplos de que a indústria da construção está avançando, mas não existe uma política formal, nacional, para diminuir o impacto ambiental.
E com relação ao uso da áqua?
Há um pouco mais de organização. O Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Hábitat [PBQP-H], junto com o programa nacional de uso racional de água, conseguiu fazer com que as bacias sanitárias brasileiras passassem a consumir 6,8 litros por vazão. Mas isso ainda é um projeto. Temos a resolução 307, do Conama [Conselho Nacional do Meio Ambiente], que trata dos resíduos da construção, e o Procel Edifica [Programa Nacional de Eficiência Energética em Edificações, instituído em 2003], uma proposta ainda tímida, que só vai se tornar obrigatória a partir de 2012. Todo o resto está por fazer.
Qual é a posição da industria da construção com relação à sustentabilidade?
A Agenda 21 do Brasil é estatizante e não atribui tarefas a nenhum setor industrial brasileiro. Ela simplesmente trata o assunto sob o ponto de vista do poder policial e da responsabilidade do Estado. A cadeia da construção civil é mais mobilizada. É o único segmento cujas lideranças têm a sustentabilidade na sua agenda. Não há outro setor industrial em que se tenha isso tão claro, a não ser aqueles altamente concentrados, como as indústrias cimenteiras e de aço.
Os edifícios no país estão sendo preparados para a eficiência energética?
Não. Infelizmente, estamos sempre agregando novas formas de consumo de energia elétrica dentro dos edifícios. Não existe nenhum projeto sob o ponto de vista de eficiência energética nas edificações brasileiras, a não ser em alguns prédios comerciais mais novos. O consumo de energia vai subir significativamente, até mesmo nas construções residenciais.
E quanto as fachadas de vidro?
O vidro é fundamental para deixar entrar luz e permitir a vista do exterior, mas luz demais ofusca, é desconfortável. E luz é sempre energia, calor. A fachada de vidro não tem explicação num clima como o nosso. Num país frio permite coletar calor no inverno e isso é bom, mas, num país quente, coletar calor quando é preciso retirá-lo torna-se incompreensível. Não faz sentido uma fachada de vidro num país tropical. Da forma como elas são feitas hoje no Brasil, trata-se de um crime ambiental. Mesmo que se use o melhor vidro, o desempenho térmico será pior que o de uma parede de tijolo. E isso é um fato. Não dá para rasgar as leis básicas da física.
Então, qual a solução?
É possível fazer uma fachada sombreada e, depois, do lado de fora, colocar uma parede de vidro independente, afastada, com câmara de ventilação. É uma solução, só que não se faz isso por causa do custo. Recentemente, a prefeitura de São Paulo tornou obrigatório o uso de coletor solar nos telhados dos edifícios para economizar energia elétrica, mas seria melhor proibir os espigões de vidro. Seria mais eficiente e mais fácil de controlar. Uma parte da fachada deve ser opaca, não tem jeito. A arquitetura deveria evoluir, e até já existem vidros eletrocromáticos. Além disso, a variedade de fachadas no Brasil é muito baixa; nós copiamos muito. Estou pensando em propor um tema ao CBCS: como sombrear a fachada de um prédio com 30 ou 40 andares. O arquiteto brasileiro se considera, essencialmente, um artista. Fazer arte é sonhar, e não há nenhum limite prático em termos de formas, mas a arquitetura não é uma arte pura, uma vez que tem seus limites técnicos e funcionais. Os arquitetos, especialmente os grandes, resistem a isso, enquanto a engenharia brasileira faz de conta que estética não é importante, mas o custo sim. Os acidentes e muitos problemas de qualidade e de satisfação dos usuários dos edifícios vêm dessa visão de redução de custo. Arquitetos e engenheiros têm que agregar a variável ambiental aos seus projetos. Se entendessem que sombra é fundamental, não teríamos tantos problemas de eficiência energética nos edifícios.
“A cadeia da construção civil é o único segmento cujas lideranças têm a sustentabilidade na sua agenda”
Essas mudanças podem limitar a criatividade?
Elas não significam que o arquiteto deve deixar de ser criativo, mas a criatividade será muito mais desafiadora. Quando se colocam limites - e o meio ambiente vem a ser um deles -, as diferenças ficam mais evidentes. O drama do Brasil é pensar que criatividade é algo que ficou na categoria das belas-artes ou na agência de publicidade, que ela ainda não chegou à engenharia e à arquitetura. Outra variável a ser incorporada é o aspecto social. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, os vizinhos têm o poder de impedir um projeto de mau gosto perto de suas casas, enquanto no Brasil pode-se ignorar o entorno e fazer o que bem quiser.
Que países estão mais avançados?
Qualquer país europeu está melhor, mas o Brasil não está pior do que a média dos países em desenvolvimento. Em alguns aspectos de eficiência energética ficamos atrasados, mas, numa visão geral, estamos bem. O mercado brasileiro é um dos poucos emergentes que resiste à visão simplista de que a certificação vai resolver tudo. É essa, também, a posição do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável. Ou seja, não é o mercado que vai resolver os nossos problemas. Na visão das lideranças brasileiras, precisamos de um conjunto de ações e é em cima disso que vamos conseguir a política. Na indústria de materiais de construção há setores, como os de cimento e aço, que já seguem as práticas internacionais. Agora, no setor das construtoras, essas coisas não necessariamente funcionam. Outro equívoco é imitar o mercado norte-americano e achar que construção sustentável é só fazer green buildings certificados. Agindo assim, as construtoras não mudam, nem mudam os seus fornecedores.
Já que a indústria da construção civil gera resíduos e poluição, como o setor se posiciona a esse respeito?
Alguns fabricantes de materiais fazem parte da grande indústria e sempre foram considerados poluidores, só que não havia consciência por parte da ponta da cadeia. Engenheiros, arquitetos e outros profissionais foram formados num contexto em que se considerava que a construção civil não gerava poluição nem resíduos. Não havia nenhuma reflexão crítica. Talvez por isso, o pessoal mais antigo resiste. Ao exercer o poder de escolha, o engenheiro e o arquiteto estão definindo a demanda de uma empresa mais ou menos ecoeficiente. A política governamental sempre tratou a construção civil como um setor desvinculado da indústria. A partir do PBQP-H, no entanto, começa-se a criar uma visão de cadeia produtiva, na qual um depende do outro, para o bem ou para o mal.
E qual é a responsabilidade dos usuários?
Não adianta projetar o edifício mais complexo se o usuário não for informado sobre a maneira correta de utilizá-lo. Ou então colocar lâmpadas de alta eficiência, se ele não desliga a luz. Num edifício mais sofisticado, o consumo de água e energia elétrica poderia ser acompanhado on-line. Assim, em caso de descontrole, seria possível tomar medidas corretivas.
É possível reduzir custos e obter ganhos ambientais na construção civil?
O mais importante é reduzir as perdas da construção, ainda elevadas. Depende muito dos projetos e das pessoas que estão na obra. Dá para reduzir essa perda com coordenação modular, gestão de canteiros, seleção de fornecedores que trabalham esses conceitos. Por outro lado, os empreendedores estão agregando equipamentos de impacto ambiental, como laguinhos, piscinas, spa e espaço gourmet, que serão pouco utilizados, mas acredita-se serem importantes para a venda. É preciso aumentar a área de uso e diminuir a área ociosa. Em qualquer obra é possível fazer muito pelo meio ambiente sem modificar o orçamento. Basta ter vontade, adquirir o conhecimento necessário, planejar e controlar.
Como avaliar os edifícios certificados?
Os prédios certificados são 5% a 8% mais caros, pois estão na fronteira da tecnologia e têm projetos mais sofisticados. O custo total de um edifício sustentável, envolvendo construção, operação e manutenção, certamente será vantajoso com o passar do tempo. A diferença é brutal, porque o custo de energia e água vai subir, enquanto a manutenção e a operação serão cada vez mais caras. Se o custo da mão-de-obra aumentar, como já está acontecendo, esses condomínios-clubes vão virar mastodontes. E isso já está ocorrendo nos Estados Unidos.
“Da forma como as fachadas de vidro são feitas hoje no Brasil, trata-se de um crime ambiental”
Por que isso vem ocorrendo?
Com a perda do poder aquisitivo, as pessoas não têm como mantê-los. E quem pretende comprar não consegue pagar o condomínio. Estamos criando uma bomba de efeito retardado. Não é possível imaginar que teremos o mesmo número de serviçais daqui a 40 anos. Não se pensa nessas coisas quando se projeta. Os prédios com consumo de energia elétrica duas vezes superior ao que precisava ser ou até mais são um problema macroeconômico, porque o país precisa investir para gerar essa energia, que será jogada fora, quando poderia aplicar recursos em outras prioridades. O drama é que se constrói para vender e não para operar. E o consumidor, por sua vez, não tem consciência do custo que terá pela frente.
O que garante a sustentabilidade de uma construção?
Só é sustentável aquilo que é economicamente viável. Sustentabilidade é o equilíbrio entre sociedade, viabilidade econômica e impacto ambiental. Hoje a variável ambiental não existe - o centro está na economia. A sociedade entra muito pouco no planejamento de um empreendimento. Também é ruim o maniqueísmo sustentável x não sustentável, porque cria a sensação de que só se pode contribuir para o meio ambiente se se fizer um prédio sustentável, o que é uma bobagem. Em nenhum lugar do mundo 100% dos prédios são sustentáveis. A certificação vai identificar 5% dos edifícios mais avançados possíveis, mas se os outros 95% não fizerem nada, por não poderem obter o certificado, vamos morrer, por mais avançados que sejam os 5% certificados. Na verdade, a pergunta é outra: o que eu posso fazer pelo meio ambiente, pela sociedade e pela sustentabilidade, dentro do orçamento que meu cliente pode pagar?
Já existem leis para isso?
Como tudo na política brasileira, a discussão ainda é bastante oportunista. O processo de regulamentação de eficiência energética, por exemplo, tem avançado muito lentamente e com critérios que, a meu ver, são tímidos, abaixo do que é possível fazer com um custo razoável.
As universidades estão preparando seus alunos para a questão ambiental?
Definitivamente, não. Foram criados cursos de engenharia ambiental que tratam de saneamento, mas o desafio é introduzir a questão socioambiental no currículo dos engenheiros e arquitetos, para que os projetos passem a integrá-la. A pesquisa avançou, mas ainda não temos, talvez, material didático que facilite a incorporação desses avanços no ensino. Pior é que a estrutura das universidades brasileiras é muito burocratizada. É difícil mudar um curso, quase impossível. Sem uma pressão externa significativa, não vai haver modernização do ensino superior brasileiro, será um processo lento e enfrentará uma resistência feroz. Professores universitários, de modo geral, só gostam de estudar o tema com o qual se identificaram a vida inteira. Isso é uma coisa muito brasileira.
Onde estão os maiores focos de resistência no setor da construção civil?
O maior foco é cultural. Existe uma resistência natural das pessoas a qualquer mudança. Mas acho que será mais difícil mudar a academia, a universidade. Já as indústrias são mais pragmáticas: se chegarem à conclusão de que o mercado delas vai cair, vão investir em sustentabilidade. A indústria de fibrocimento, por exemplo, está em grande velocidade atrás de novas tecnologias sem o uso do amianto. Por outro lado, a academia, particularmente as escolas públicas, são muito resistentes às mudanças - ninguém tem nada a ganhar e nada a perder.
Existem edifícios auto-sustentáveis?
Na Europa há uma proposta de zero energy building [edifício com energia zero] ou zero net energy [energia líquida zero], pela qual o edifício gera a energia que vai consumir através de células fotovoltaicas, reciclagem de água e outras possibilidades. Tem gente estudando a casa autônoma e outros assuntos, mas eu acho que isso é voltar um pouco ao castelo medieval. O tratamento de esgoto centralizado, a geração de energia e de água centralizada trazem vantagens ligadas à escala, que viabiliza processos e controles. Com tudo esparso, como está hoje, não há viabilidade. Um edifício que trate o próprio esgoto precisará de alguém para controlar a qualidade e a operação da estação de tratamento.
“O mercado brasileiro é um dos poucos emergentes que resiste à visão simplista de que a certificação vai resolver tudo”
E como poderá ser no futuro?
Eu imagino que no futuro poderemos ter sistemas automáticos confiáveis, mais baratos. O conceito zero energy começou com o uso do calor que o
ar-condicionado tira do ambiente para gerar energia. Uma coisa é captar água da chuva para uma família. Outra é ter um prédio com 50 apartamentos, com muito mais gente. Se der alguma coisa errada, não serão apenas cinco pessoas afetadas, mas centenas. É muito mais fácil operar e fazer manutenção num local centralizado do que num prédio em determinado local, outro a um quilômetro, outro a cinco quilômetros. Esses são os nós do sistema de autogeração de energia.
Quais as iniciativas do CBCS para o setor?
Nossa meta é trabalhar mais com educação. A sustentabilidade exige que em cada projeto se busque a melhor solução. Temos que pensar a construção para daqui a cinqüenta, cem anos. Estamos lançando as bases disso. O conselho está mais preocupado com o médio e o longo prazos e também em ensinar e levantar critérios que façam com que os arquitetos e engenheiros busquem as melhores soluções. O segredo é incentivar e criar uma engenharia e uma arquitetura mais criativas. O objetivo do conselho é mudar a média. É mais vantajoso, por exemplo, ter 100% das bacias sanitárias gastando metade da água do que ter 5% das bacias de duplo fluxo consumindo um quarto da água.
E as empresas que começam a oferecer produtos e serviços verdes?
A sustentabilidade virou um negócio e eu acredito que isso é bom e necessário. Não acho que existam produtos sustentáveis, pois qualquer produto industrializado leva impacto à natureza e se ele não for de material renovável vamos ter problemas. O impacto do processo de produção também influi bastante, e não apenas o produto final. De qualquer maneira, podem ser gerados muitos negócios em cima de soluções que tenham menores impactos ambientais. Salvo algumas exceções, temos hoje no mercado muito verniz verde, muita maquiagem, produtos piores que os convencionais. Falta para nós uma métrica. No futuro, imaginamos que junto com cada produto, além da especificação técnica, virá um relatório de impacto ambiental. Vão surgir muitas empresas certificadoras e me preocupa o fato de os critérios da maioria dos selos certificadores não serem muito claros. Caso os critérios não sejam públicos e definidos previamente, corremos o risco de desmoralizar os selos, como desmoralizamos a ISO 9.000 por muito tempo.
Sustentabilidade significa racionalidade ou é algo bem mais profundo?
Significa uma nova cultura, e cultura não é algo muito racional. Significa até uma nova estética. A estética de um automóvel de quatro toneladas precisa desaparecer. Estamos discutindo o futuro da humanidade. Sobrevivência não é uma questão de razão. Usar melhor os recursos naturais não está errado, mas temos que fazer isso mais intensamente. É preciso avançar em mudanças de padrões de beleza e sonhos de vida. O nosso mundo vai ter que mudar, nós vamos ter que mudar, pois a cada dia que passa teremos menos opções.
Publicada originalmente em FINESTRA
Edição 55 Dezembro de 2008
Detentor de vasto conhecimento na área de eficiência energética, professor, consultor e coordenador de projetos de pesquisa, entre outras atividades, o engenheiro Vanderley John tem livre-docência pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado no Instituto Real de Tecnologia, na Suécia. É também um dos fundadores do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), que realizou, em setembro, evento em São Paulo, no qual ele abordou o tema materiais.