Especial - Arquitetura Anos '00
Um balanço da década de 2000
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- 11 de Fevereiro de 2011.

da década de 2000
De que adianta fazer previsões se não nos vangloriarmos quando elas dão certo? Há dez anos, ao finalizar o texto de abertura da edição sobre a década de 1990, escrevi que esperávamos “o próximo milênio tão otimistas quanto a revista inglesa The Economist, que mesmo diante da possível crise norte-americana, e, por extensão, global, prevê um novo milagre para a economia brasileira”. Bem, vamos pular as flechas que passaram longe do círculo e ir direto ao alvo: os números da década que passou são animadores. O Produto Interno Bruto brasileiro pulou de 777 bilhões para 2 trilhões de dólares, e a renda per capita foi de 4,8 mil para 10 mil dólares. Mas os algarismos positivos não se refletem com a mesma intensidade no universo arquitetônico. Os escritórios estão movimentados, mas o decênio não foi memorável. O que temos são bons exemplos isolados, destacados nas páginas desta edição. A questão se agrava porque, em geral, o arquiteto brasileiro é mal formado, mal informado e - a pá de cal - desarticulado, não dá a mínima para as organizações de classe que, se fortalecidas, ajudariam a mudar de patamar a categoria e a produção. Como? Através do incremento no número de concursos públicos para contratação de projetos.
Não foram tão poucos os certames do período, é preciso reconhecer. Houve demanda para edifícios culturais, como as sedes do Grupo Corpo (2001), da Orquestra Sinfônica de Belo Horizonte (2005), do Teatro Municipal de Londrina (2007) e do Teatro Castro Alves, em Salvador (2010). Outros concursos se voltaram para os edifícios institucionais, como o Centro Judiciário de Curitiba (2006), o Paço Municipal de Hortolândia, SP (2006), as sedes do Iphan (2006) e do Capes (2007), o Centro de Pesquisa da Petrobrás (2008). O Sesc paulista inovou seu receituário ao escolher por concurso, pela primeira vez, o projeto de uma de suas unidades, no caso a da cidade de Guarulhos (2009) - e a entidade gostou tanto do processo que promete voltar a adotá-lo. Algumas disputas incluíram até a participação de estrangeiros, entre elas a do MIS (2009) e a do Liceu Francês François Mitterrand (2009). Mas, no fundo, mesmo com essa soma razoável, é pequeno o número de projetos levados a cabo, contando-se entre as exceções o Centro Cultural de Araras (2003), a sede da Petrobrás no Espírito Santo (2005) e o edifício do Sebrae em Brasília (2008). Foram quase meia centena de disputas noticiadas no período, com cerca de 10% delas realizadas (outras 25% ainda têm chance de execução). A grande maioria, 65%, naufragou.
Os concursos de urbanismo também ficaram pelo caminho: Bairro Novo (2004), largo da Batata (2002) e Minhocão (2006). As ações nessa área, na década passada, foram tímidas, marcadas pelas iniciativas isoladas de ONGs, como aconteceu na reurbanização das ruas Oscar Freire e Amauri, ambas em São Paulo. Algumas discussões que começaram agora ficam como expectativas para a próxima década - a Nova Luz (2010), em São Paulo, e o Porto Olímpico (2010), no Rio, são exemplos. De fato, passa pelas entidades de classe o aprimoramento da modalidade dos concursos, para conseguir viabilizar um número maior de projetos implantados. Apostar todas as fichas na criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), como se ele fosse a mão de cartas salvadora, foi um erro coletivo. O poder será maior e mais bem exercido com uma entidade exclusiva dos arquitetos, mas a chave, repito, é o aperfeiçoamento do mecanismo dos concursos. A primeira notícia sobre o CAU foi publicada em 2002, e talvez ainda haja uma década de trabalho para a situação dos concursos começar a se cristalizar.
Outros elementos, além do CAU, estiveram na ordem do dia. Um dos principais foi a atuação de estrangeiros no país. Se no começo da década ela já incomodou a comunidade arquitetônica local - com nomes como Jean Nouvel, Álvaro Siza e Christian de Portzamparc -, o posterior aquecimento da economia brasileira em contraponto com a crise mundial fez chover arquiteto graúdo (e miúdo) em nossos lotes. Já temos encaminhados, por exemplo, projetos de Herzog & De Meuron, Calatrava, Diller Scofidio, Norman Foster e Daniel Libeskind. E os dois grandes eventos esportivos da próxima década aumentaram a cobiça por trabalho: metade dos projetos de estádios da Copa de 2014 tem a presença de profissionais de fora. Grosso modo, a classe reagiu aos forasteiros com um descontentamento quase provinciano, e descabido, já que o fato é inevitável diante do crescimento do país. O negócio é aproveitar o momento para valorizar a profissão, aumentar honorários e sofisticar o debate arquitetônico.
Passagem do bastão
A década confirma tendências surgidas no período anterior, mas, por outro lado, houve uma espécie de passagem de bastão no universo arquitetônico. Na seleção dos principais trabalhos do período feita por críticos a pedido de PROJETO DESIGN não aparece, por exemplo, nenhum projeto de Oscar Niemeyer ou Paulo Mendes da Rocha (os dois detentores do Pritzker garantiram sua presença no time titular dos anos 1990 com o museu de Niterói e o Mube, respectivamente). Para os críticos, entretanto, um dos maiores destaques da década de 2000 foi João Filgueiras Lima. Ele não só teve uma obra selecionada, como ela recebeu metade dos votos como a mais importante do período, dividindo o pódio com Álvaro Siza (um empate que acabou exigindo o voto de minerva deste editor para Siza). No caso de Lelé, a escolha ecoa bem mais o conjunto da obra do que um edifício isolado, como o projeto do português (curiosamente, os dois arquitetos disputaram o prêmio máximo da Trienal de Lisboa, em dezembro, também vencida por Siza). Nas respostas que deu a nossa enquete, André Corrêa do Lago mencionou que Lelé deveria ser o terceiro brasileiro a receber o Pritzker.
Outro mestre que teve obra destacada pelos críticos foi Eduardo de Almeida. Na seleção estão, um pouco mais jovens, Roberto Mac Fadden e Joan Villà. Um degrau abaixo na escada da idade, vemos Gustavo Penna; outro lance e encontramos Mauro Munhoz. Contudo, quem marca o período é a “geração de Sevilha” - de Angelo Bucci, Álvaro Puntoni, MMBB, Una, Andrade Morettin, Mario Biselli, Mario Figueroa, Alexandre Delijaicov, entre outros. Eles chegam ao final da década tendo entre 40 e 50 anos, em vias de atingir a maturidade profissional. Das dez principais obras publicadas nesta edição, 30% saíram de suas pranchetas (e vamos bater de novo na velha tecla: esse número seria ainda maior se alguns concursos vencidos por trabalhos dessa geração tivessem sido implantados).
A década foi também de consagração para arquitetos como Isay Weinfeld e Marcio Kogan, que atingem o ápice profissional em projetos que migram dos interiores para a média escala. A jovem geração mineira, como previ há dez anos, não decepcionou, tornando-se o segundo pólo de arquitetura contemporânea do país. As grandes surpresas foram o Triptyque, em São Paulo, lançando peças novas para o debate local, e Thiago Bernardes, no Rio de Janeiro, cuja passagem da escala residencial para os espaços maiores e públicos deve ser observada atentamente.
O holofote nos “sevilhanos” ilumina outra constatação: a arquitetura moderna brasileira continua a ser o paradigma de quase toda a produção. Diz muito o título Ainda Moderno?, dado a uma exposição em Paris sobre a arquitetura brasileira recente, com curadoria de Lauro Cavalcanti e Corrêa do Lago. Quem não tem o modernismo como ponto de partida, o tem como contraposição. Sintomas dessa valorização são a atuação do Docomomo na discussão constante desse legado, a organização de acervos importantes, como a nova sede da Casa de Lucio Costa, no Rio de Janeiro, ou ainda o número significativo de publicações a respeito. O mestre carioca, por exemplo, tanto foi objeto da reedição da compilação de textos realizada por Alberto Xavier, em Lucio Costa: sobre arquitetura (Uniritter, 2007), quanto de novos livros, como Carradas de razão: Lucio Costa e a arquitetura moderna brasileira (Loyola/PUC Rio, 2007), de Otavio Leonídio, e Lucio Costa (Cosac Naify, 2001), de Guilherme Wisnik.
Mundo editorial
A menção à Cosac Naify é um bom gancho para entrar na seara das letras: essa editora foi responsável por sofisticar o mercado de livros de arquitetura na década passada. Além de traduzir clássicos estrangeiros como Vincent Scully Jr., David Underwood, Robert Venturi, Alan Colquhoun, Le Corbusier, Kate Nesbitt, Rafael Moneo e Piet Mondrian, entre outros, reeditou memoráveis volumes nacionais, como Depoimentos de uma geração, de Alberto Xavier, compilou textos de Lina Bo Bardi e Gregori Warchavchik e produziu números monográficos importantes do escritório Brasil Arquitetura, de Paulo Mendes da Rocha e de Marcos Acayaba. A nota preocupante: no final da década, a Cosac Naify diminuiu o ritmo de novas publicações, quase abandonando o tema.
A Romano Guerra realizou igualmente um trabalho de alto nível: Rino Levi: arquitetura e cidade (2001), de Renato Anelli, situa-se entre bons trabalhos de pesquisa que resultaram em publicações. Sem menosprezar as áreas técnicas, podemos afirmar que também entre os temas de pesquisa dos acadêmicos brasileiros reina o modernismo. Aí estão Arquitetura nova - de Artigas aos mutirões, de Pedro Fiori Arantes (Editora 34, 2002); Grupo Arquitetura Nova - Flávio Império, Rodrigo Lefèvre e Sérgio Ferro, de Ana Paula Koury (Romano Guerra, 2003); Artigas e Cascaldi, de Juliana Suzuki (Ateliê Cultural, 2003); e Modernidade verde: jardins de Burle Marx, de Guilherme Dourado (Senac/Edusp, 2009). Em continuidade à década anterior, o mercado editorial teve um boom de monografias, principalmente da segunda geração de modernos, tais como João Walter Toscano (Unesp/Instituto Takano, 2002), Siegbert Zanettini (Edusp, 2002), Jorge Wilheim (DBA, 2003), Índio da Costa (Casa da Palavra, 2003), Decio Tozzi (D’Auria, 2005), Eduardo de Almeida (Romano Guerra, 2006), David Libeskind (Romano Guerra, 2007), Sidonio Porto (PW, 2009) e Marcelo Fragelli (Romano Guerra, 2010). Os mais jovens Isay Weinfeld (Bei, 2008), Sylvio de Podestá (AP Cultural, 2008) e Biselli & Katchborian (Romano Guerra, 2007) também ocuparam as páginas de livros. Mencionem-se ainda alguns guias de arquitetura, como os do Rio de Janeiro, organizados por Jorge Czajkowski, e os da editora carioca Viana & Mosley.
Dois extremos pontuaram o mercado editorial de arquitetura na década passada. De um lado, publicações de fôlego, no que se refere a importância do texto, dimensões dos livros ou pretensões, como os dois volumes de Arquitetura Brasil 500 anos (2002 e 2008), organizados por Roberto Montezuma, Moderno e brasileiro, de Lauro Cavalcanti (Jorge Zahar, 2006) e Pós-Brasília - rumos da arquitetura brasileira (Perspectiva/Fapesp, 2003), de Maria Alice Junqueira Bastos. Na outra ponta estão os numerosos volumes despretensiosos, temáticos ou portfólios, publicados por editoras como C4 e J.J. Carol.
A arquitetura brasileira também ganhou espaço em edições no exterior, como na monografia de Botti Rubin (The Images Publishing Group, 2002), nos livros sobre Paulo Mendes da Rocha na Suíça (Niggi, 2001) e Estados Unidos (Rizzoli, 2007). A revista espanhola 2G dedicou um número a Mendes da Rocha, outro a Lina Bo Bardi e outro a Vilanova Artigas. Dois interessantes trabalhos sobre arquitetura brasileira foram publicados na Inglaterra (Phaidon, 2005) e nos Estados Unidos (Reaktion Books, 2009).
Oscar Niemeyer - que atravessou a década para completar 103 anos - foi alvo de dezenas de publicações, a maioria dispensável. Mas o maior herói/vilão da arquitetura brasileira também se aventurou no mercado editorial: lançou a revista Nosso Caminho, que acaba de chegar ao sétimo número. Outra revista lançada no período foi a MDC, de Minas Gerais. PROJETO DESIGN ganhou um moderno projeto gráfico, implantado em abril de 2004, e voltou a publicar, em 2003, os trabalhos de graduação que participam do concurso Opera Prima. Para finalizar o universo das mídias, a década de 2000 é marcada pelo início da cobertura na web. Além do portal Arcoweb, merece destaque a atuação do Vitruvius, uma plataforma indispensável no âmbito acadêmico. É digno de nota o trabalho do ViverCidades, mesmo que no fim do decênio esteja interrompido. Os blogs ainda ficaram abaixo das expectativas, com pouca coisa interessante. Contudo, vale destacar o trabalho recente de Ana Luiza Nobre, com seu Porto 12, e Fernando Lara, com o Parede de Meia.
Datas e partidas
O livro dos tombos ratificou a valorização do moderno, inscrevendo, em diferentes instâncias, a sede paulista do IAB (Rino Levi), o Conjunto Nacional (David Libeskind), edifícios de Lina Bo Bardi, como o Masp, e de Niemeyer como o Copan. Aliás, parte das obras-primas de Niemeyer foram restauradas no período: Pampulha (reinaugurada em 2006), os palácios da Alvorada (2006) e do Planalto (2010), este último dentro das comemorações do cinquentenário do Distrito Federal. Outras efemérides marcaram a década: os centenários de Rino Levi (2001), Lucio Costa (2002), Franz Heep (2002), Jorge Machado Moreira (2004), Oswaldo Bratke (2007), Affonso Eduardo Reidy (2009) - personagem do documentário A construção da utopia (2009), de Ana Maria Magalhães - e... Oscar Niemeyer, que foi o único a comemorá-lo em vida.
Os que se foram formam uma lista enorme, a começar pelos contemporâneos do grande mestre, Carmem Portinho (1903-2001) e Alcides da Rocha Miranda (1909-2001), e seus colaboradores, como Milton Ramos (1929-2008). O Rio perdeu ainda Francisco Bolonha (1923-2006) e os Bernardes - Sérgio (1919-2002) e Cláudio (1949-2001), pai e filho. Zanine Caldas (1919-2001), figura ímpar da arquitetura brasileira, também faleceu. A década levou os dois ex-sócios de Rino Levi: Luiz Roberto Carvalho Franco (1928-2001) e Roberto Cerqueira César (1917-2003). A arquitetura gaúcha perdeu dois batalhadores pela categoria, Demétrio Ribeiro (1916-2003) e Carlos Maximiliano Fayet (1930-2007). Minas Gerais ficou desfalcada de dois profissionais da geração pós-moderna: Éolo Maia (1942-2002) e Álvaro Hardy (1942-2005). Pernambuco perdeu Vital Pessoa de Melo (1936-2010) e o casal número um da arquitetura-e-interiores nacional: Acácio Gil Borsoi (1924-2009) e Janete Costa (1932-2008). O Paraná ficou sem Rubens Meister (1922-2009). Em São Paulo, o número de profissionais de destaque que morreram na década passada é grande. Entre eles, uma turma grande da velha guarda: Ernest Mange (1922-2005), Oswaldo Correa Gonçalves (1917-2005), Roberto Tibau (1924-2003) e David Ottoni (1927-2004). A arquitetura hospitalar perdeu Jarbas Karman (1917-2008). O universo da Asbea ficou sem o convívio de Elizabeth Goldfarb (1953-2004) e Roberto Amá (1959-2006), sem contar Jaci Hargreaves (1931-2008), ex-sócio de Edson Musa. E faleceram nomes importantes do brutalismo paulista, como Telésforo Cristofani (1929-2002), Alfredo Paesani (1931-2010), Miguel Juliano (1928-2009) e Joaquim Guedes (1932-2008).
Entidades e prêmios
Um dos fatos positivos que marcaram a década foi a criação da Escola da Cidade (no fim de 2001), em São Paulo, uma faculdade de arquitetura gerida por arquitetos. Os eventos esportivos - o Pan do Rio em 2007 e os preparativos para a Copa de 2014 e para a Olimpíada de 2016 - também movimentaram o debate arquitetônico, no qual é importante salientar o papel fundamental do IAB/RJ, liderado por Sérgio Magalhães, uma prova de como é necessário que a classe tenha dirigentes de qualidade. No âmbito das entidades, destaque para a gestão de Jaime Lerner na presidência da União internacional de Arquitetos entre 2002 e 2005. A categoria foi ainda liderada por Haroldo Pinheiro, Demetre Anastassakis, Gilberto Belleza, João Suplicy Neto e Gilson Paranhos, no IAB/DN, e Henrique Cambiaghi, Jorge Königsberger e Ronaldo Rezende, na Asbea.
A polêmica acerca da eleição no IAB/ SP em 2007 teve reflexos na qualidade da 8ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (2009), e culminou na pior exposição já montada, colocando em risco o futuro da mostra. Quem viu a questão com irônico bom humor foi a revista inglesa Architectural Review, para quem a ruindade da bienal traz embutida uma boa notícia: a próxima, quando houver, só poderá ser melhor. Verdade seja dita: da 5ª até a 7ª BIA, a qualidade do evento foi caindo. Mas na 8ª foi queda livre. Boas exposições ocuparam os salões do Museu da Casa Brasileira e do Instituto Tomie Ohtake, ambos em São Paulo, e do Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro. A exposição Des-continuidade, com a arquitetura do Norte de Portugal, também foi memorável, assim como as diversas mostras da Mira, no Rio de Janeiro, que ocorreu em paralelo ao 17º Congresso Brasileiro de Arquitetos (o 18º, de 2006, foi em Goiânia, e o 19º, 2010, no Recife).
A mostra brasileira na Bienal de Veneza foi irregular, com destaque para a produção nacional ligada ao âmbito social (2002 e 2010) e trabalhos contemporâneos (2004 e 2010). São Paulo e a abertura de espaço para que os leigos falassem sobre arquitetura foram os destaques de 2006 e 2008, respectivamente. Rosa Kliass recebeu dois prêmios internacionais, na Bienal de Quito (2004) e na Bienal Ibero-Americana (2006), e Niemeyer foi laureado com o Imperial Praemium, do Japão, em 2004. Mas a premiação mais importante da década foi, sem dúvida, o Pritzker para Paulo Mendes da Rocha, em 2006. No design, o período assinala a consagração internacional dos irmãos Campana e de outros profissionais brasileiros, com destaques seguidos no IF Design Award.
Polêmicas
A legislação paulistana deu o que falar, seja por causa da mudança do zoneamento, seja pela cruzada contra a poluição visual alimentada pela Lei Cidade Limpa. A criação do Estatuto das Cidades e do Ministério das Cidades também alimentaram o debate. A crise energética esteve na mesma ordem do dia em que entrou o tema da sustentabilidade, às vezes encarado com seriedade, às vezes transformado em peça oca de marketing.
Niemeyer, sempre ele, enfrentou diversas polêmicas: a construção do centro administrativo de Minas Gerais, com Sylvio Podestá escrevendo uma carta em que insinuava que Niemeyer deveria se aposentar; o corte na marquise do parque Ibirapuera, em São Paulo, barrado pelos órgãos do patrimônio; o memorial dos presidentes em Brasília e, para não alongar o assunto, o parque de Boa Viagem, no Recife. Aliás, a longevidade do arquiteto - ainda produzindo - é um dos fatos espantosos do final do decênio.
Quais minhas previsões para a próxima década? Não vou falar nada sobre Niemeyer. Mas arrisco dizer que a NBR 15.575 vai mudar o cenário de atuação dos arquitetos, no que diz respeito a responsabilidades; os estrangeiros vão projetar muito por aqui; a “geração de Sevilha” atingirá o ápice de sua produção; a arquitetura vai entrar na pauta da grande mídia; e a Olimpíada do Rio vai contribuir positivamente para mudar o panorama da cidade. Um Pritzker para Lelé? Quem viver verá.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 371 Janeiro de 2011
Em julho de 2001, o então presidente da República Fernando Henrique Cardoso sancionou a lei 10.257, mais conhecida como Estatuto das Cidades. Entre outros pontos, ela previa que municípios com mais de 20 mil habitantes deveriam formular planos diretores, que norteassem seu desenvolvimento. Essa obrigatoriedade aparentemente não teve maior influência no urbanismo praticado no país. As cidades continuaram se expandindo, muito vezes à revelia dos instrumentos normativos, e nenhuma proposta inovadora foi implantada.
Para os próximos anos, existem expectativas quanto às soluções que poderão tomar forma nas duas principais cidades do país: São Paulo, com o projeto de reurbanização da Luz, e Rio de Janeiro, com a implantação das obras do projeto Porto Maravilha. É também nessas duas capitais que estão em curso ações de desenvolvimento urbano em comunidades - a palavra parece ter sido assimilada pela mídia em substituição ao termo favela - que talvez indiquem caminhos para incorporar esses aglomerados à cidade formal.
Essa é a direção tomada na capital paulista com a intervenção realizada às margens da represa Billings, dando origem ao parque Cantinho do Céu, do escritório Boldarini Arquitetura e Urbanismo, cuja primeira etapa foi concluída em 2010. Seu caráter pioneiro está em conciliar a ocupação de áreas (na maior parte das vezes irregular), fato hoje praticamente irreversível, com a implantação de um equipamento urbano de lazer e contemplação que valoriza a paisagem e recupera a autoestima da população. A representatividade do projeto trouxe-lhe o terceiro lugar na categoria habitação social e desenvolvimento urbano da 17ª Bienal Pan- Americana de Arquitetura de Quito, no Equador, realizada em novembro último.
Também foi premiada por uma bienal - no caso, a 6ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, realizada em 2005 - outra intervenção urbana na capital paulista: a praça na rua Amauri (PD 299), um dos raros trabalhos de caráter urbano do arquiteto Isay Weinfeld. Financiada pelos comerciantes da região, a praça tem escala reduzida, cerca de 200 metros quadrados, e ocupou o local de uma construção demolida. Já a praça Otávio Moura Andrade, em São Pedro, no interior de São Paulo, possui área bem mais generosa: são quase 4 mil metros quadrados, em projeto que saiu da prancheta dos escritórios Aflalo & Gasperini e Purarquitetura. O equipamento foi construído em frente do acesso principal do Grande Hotel São Pedro do Senac. A ideia de transformar a antiga rotatória em praça foi da própria equipe contratada para desenvolver trabalhos no interior do edifício.
Alexandre Brasil, André Prado, Bruno Santa Cecília e Carlos Alberto Maciel, do escritório Arquitetos Associados, também tiveram a oportunidade de desenhar uma praça em sua cidade. Ela está localizada próximo do conjunto projetado por Oscar Niemeyer na Pampulha, em Belo Horizonte. O espaço onde foi implantada já era utilizado em eventos de grande porte, mas sem a infraestrutura adequada para isso. A solução adotada não só atendeu a essa demanda (à qual foi destinada a maior parte do terreno), como configurou um lugar de uso cotidiano, para quem vive no entorno ou frequenta a orla da lagoa.
Também apresenta caráter urbano, com incursões pelo design, o projeto do escritório de Índio da Costa para o novo conjunto de quiosques de alimentação e serviços na orla do Rio de Janeiro. As primeiras unidades foram instaladas em Copacabana, em frente do hotel Copacabana Palace, e a proposta inicial era estendê-las a outras três áreas - Arpoador, Ipanema e Leblon; São Conrado, Barra e Recreio; e Prainha -, com o total de 390 quiosques. O trabalho recebeu o Prêmio Asbea de 2006 na categoria projetos especiais, porém o reconhecimento popular parece não ter sido o mesmo.
Urbanismo, reciclagem de edificações históricas e paisagismo interagiram para dar forma ao projeto Feliz Lusitânia, em Belém. Sob o comando do arquiteto Paulo Chaves Fernandes, que foi secretário da Cultura do Pará, uma série de intervenções em prédios tombados do centro histórico da capital promoveu a requalificação de uma área de 50 mil metros quadrados, situada entre a praça Frei Caetano Brandão e a baía do Guajará. Os projetos paisagísticos no local são de autoria da arquiteta Rosa Grena Kliass.
Edição 371 Janeiro de 2011
Em 2000, o metrô paulistano tinha quase 50 quilômetros de linhas e transportava em média 2,3 milhões de passageiros por dia, de acordo com dados da Fundação Seade. As linhas cresceram, em uma década, 26% e hoje somam pouco mais de 62 quilômetros, enquanto o número de passageiros por dia passou para 3,5 milhões, aumento de quase 52%, segundo dados da Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos.
Havia demanda, mas não houve construção. Esse é um dos vários exemplos, nos anos 2000, em que a arquitetura ficou refém da falta de recursos destinados ao transporte público. No caso do metrô, depois que foi colocada em operação, na primeira metade da década passada, a linha 5 - Lilás, com estações desenhadas por Luiz Carlos Esteves, nenhuma outra via começou a operar.
Foram inauguradas estações que prolongaram a já existente linha 2 - Verde, como as projetadas por Ilvio Silva Artioli. Conturbada também é a história do Expressso Tiradentes, na capital paulista, vítima de mudanças nas prioridades administrativas da prefeitura. Chamado inicialmente de Fura-Fila e depois de Paulistão, ele teve seu primeiro trecho inaugurado depois de dez anos e três administrações municipais.
Em sua linha, destaca-se a arquitetura dos terminais Sacomã e Parque D. Pedro, projetados por Ruy Ohtake. Porém, como parte do trajeto é feita por via elevada, não foi possível evitar as interferências visuais negativas que criou na cidade.
Uma das intervenções de maior impacto na capital paulista, na década passada, foi a implantação dos corredores de ônibus (pistas por onde trafega quase exclusivamente esse tipo de veículo), que temporariamente conseguiram afastar o fantasma do colapso no transporte urbano.
Do ponto de vista urbanístico, um dos mais bem resolvidos é o da avenida 9 de Julho, cujas estações de parada, desenhadas por Barbosa e Corbucci Arquitetos, caracterizam-se pelo vermelho intenso dos pórticos metálicos paralelos.
O corredor que liga o centro à zona oeste tem no terminal de ônibus da Lapa, projeto do Núcleo Arquitetura, um legítimo herdeiro da qualidade arquitetônica dos terminais Parque D. Pedro, desenhado por Paulo Mendes da Rocha, e Princesa Isabel, de João Walter Toscano. Na mesma fonte foram beber os integrantes do escritório Una Arquitetos, que projetaram o terminal de Pirituba.
A cidade mineira de Uberlândia também apostou nos corredores de ônibus para a fluência do trânsito, com resultados interessantes na proposta elaborada pelo estúdio Modo Arquitetura.
No transporte aéreo, outros dados impressionam: em 2009 passaram por Guarulhos, o principal aeroporto do país, aproximadamente 21,6 milhões de passageiros, enquanto em 2003 eles eram 11,6 milhões. Nesses seis anos em que a demanda quase dobrou, não houve nenhuma obra de ampliação.
Um rápido rasante sobre a arquitetura de aeroportos mostra que a intervenção nesses complexos foi escassa. Ainda assim, são expressivos os projetos dos novos terminais de passageiros do Aeroporto Internacional Zumbi do Palmares, em Maceió, criado pelo arquiteto Mário Aloísio Melo, e do Aeroporto Internacional do Recife/ Guararapes, projeto de Ubirajara Moretti.
A mobilidade urbana é um dos desafios que o país terá que superar, já na década atual, para sediar com garbo as duas principais competições esportivas mundiais: a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Fica, de antemão, uma pauta para a próxima retrospectiva.
Os projetos de infraestrutura de transportes são usualmente agressivos ao meio no qual são implantados. O projeto de reestruturação viária do corredor de ônibus 9 de Julho-Santo Amaro, em São Paulo, demonstra que é possível fazer de outro modo.
Trata-se de uma arquitetura do chão, raramente valorizada na nossa cultura, mas essencial para dotar nossas cidades de urbanidade. Saíram as imundas barreiras de tipo “new-jersey” e entraram o pavimento de concreto, os pisos elevados para embarque, os cabeamentos subterrâneos, a iluminação especial, as travessias de pedestres. Calçada, mobiliário e infraestrutura definidos e implantados pelo poder público.
Duas mudanças de tecnologia nos transportes, envolvidas neste projeto, possibilitaram um impacto urbanístico positivo.
A primeira foi a integração através de bilhetes eletrônicos, que tornou dispensável os velhos terminais do tipo curral, onde só entra quem passou pela catraca depois de adquirir sua passagem. O sistema digital permite a difusão da integração ao longo das linhas, facilitando o planejamento de redes nas quais as linhas-tronco são alimentadas por linhas locais. O atendimento do serviço de transportes se torna mais capilar e os equipamentos mais difusos pela cidade, permitindo que infraestrutura seja discreta na paisagem.
A combinação de ambas as tecnologias está presente em várias intervenções na cidade de São Paulo a partir de 2003, sendo os trechos implantados nas avenidas 9 de Julho e Santo Amaro (apenas uma parte do projeto inicial de 15 quilômetros) os que apresentam o melhor resultado na sua relação com o meio urbano.
O projeto insere-se na tradição das vias públicas paulistanas da primeira metade do século 20, quando se pensava, a um só tempo, da escala do território à do pedestre. Apresenta, no entanto, a vantagem de participar do esforço contemporâneo de priorização do transporte público e não do transporte individual por automóvel. Demonstra que a infraestrutura pode e deve ser pensada como arquitetura da cidade.
Edição 371 Janeiro de 2011



No começo da década de 2000, a internet e a telefonia celular estavam se consolidando e marcando o início de uma era de profundas transformações nas comunicações e nas relações pessoais. Na região de Itaquera, na zona leste da capital paulista, a grande revolução daqueles primeiros anos do século estava na presença do Estado, que chegava à periferia carente inaugurando uma estação do metrô e uma unidade do Poupatempo (posto de atendimento ao cidadão que oferece acesso a variados serviços públicos e emissão de documentos).
Com projeto de Paulo Mendes da Rocha e MMBB Arquitetos, o Poupatempo Itaquera foi o primeiro de São Paulo a ser planejado e construído especificamente para essa função. Ele foi implantado junto ao então novo terminal intermodal Corinthians-Itaquera, que na época estava no centro de um vazio urbano com até um quilômetro de extensão em certos trechos. Dez anos depois, esses equipamentos continuam sendo a expressão maior do poder público na região, porém com uma vizinhança mais adensada, que inclui shopping center, unidades da Fatec em construção e a área onde deve ser implantado o estádio do Corinthians.
O modelo do Poupatempo nasceu na Bahia, em 1995, e dois anos depois foi adotado em São Paulo, onde hoje tem 19 postos fixos e unidades móveis. Ele também se difundiu por outros estados e no final da década chegou ao Mato Grosso do Sul. Na capital Campo Grande, a Central de Atendimento ao Cidadão foi projetada por Gil Carlos de Camillo, que desenhou um prédio que parece brotar do solo e cujas fachadas de volumetrias distintas dissimulam a existência de cinco pavimentos.
Camillo também é o autor de outro ícone arquitetônico do Centro-Oeste, o Fórum Eleitoral de Campo Grande, que busca materializar nas grandes superfícies envidraçadas a transparência inerente aos processos eleitorais. Em Pernambuco, um dos melhores projetos da década é o Fórum do Recife, de Paulo Raposo e Andréa Câmara.
Vencedores de um concurso do IAB/PE, os arquitetos desenharam um monólito austero que combina valores clássicos e contemporâneos em uma composição assinalada externamente pela colunata de modulação rígida e pelo pátio interno que remete a um fórum romano. A austeridade também é a marca do projeto de Decio Tozzi e Karla Albuquerque para o projeto impecável do Fórum Trabalhista Ruy Barbosa, em São Paulo, cujo desenho reflete o pensamento arquitetônico da escola paulista.
Monumental e vigoroso, o conjunto de duas torres soma 87 mil metros quadrados e é um exemplar significativo da arquitetura brasileira contemporânea, mas na época de sua inauguração foi ofuscado pelo histórico de corrupção por trás de sua construção.
A premissa do projeto de traduzir o ideal de justiça para todos de certa forma se concretizou com a condenação de envolvidos no escândalo do desvio de 170 milhões de reais das obras. Também emblemático foi o intervalo de 12 anos entre o início das obras e sua inauguração, bem representando a morosidade que emperra o funcionamento do sistema judiciário brasileiro.
Já o complexo forense de Cuiabá, projetado por Marcelo Suzuki, foi concebido e construído em pouco mais de um ano com a finalidade de reunir as repartições vinculadas ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso, antes dispersas em locações distintas. Horizontal e apoiado sobre pilotis, o edifício foi identificado desde sua inauguração como um dos melhores representantes da arquitetura brasileira da primeira década do século 21.
A combinação entre o tabuado de pinus que veda os corredores e a cobertura atirantada high tech é uma de suas características marcantes e representa a alta tecnologia dos trópicos. Soluções como circulações distintas para funcionários, público externo e presos, aproveitamento da luz e da ventilação naturais e limitação do uso de ar condicionado somente aos ambientes que permanecem fechados em razão de sigilo valorizam o conjunto pela eficiência e pelo bom desempenho.
A proposta de José Luiz Tabith, Carlos Eduardo Bianchini, Fausto Torneri e Irineu Idoeta para o Paço Municipal de Suzano aparece como destaque entre as obras públicas municipais da década. A cidade da Grande São Paulo tinha um projeto mais ambicioso que refletia a convicção do uso do espaço público como estratégia para o redesenho urbano e, em vez de um palácio, deu lugar a um conjunto permeável como uma praça, com um vazio que transcorre a edificação no sentido longitudinal e dá continuidade às áreas frontais.
Inicialmente, eram previstos também praça cívica, Câmara de Vereadores, teatro, teatro de arena e casa de cultura. O projeto chegou a ser premiado pelo IAB/SP em 1987, mas no mesmo ano as obras foram interrompidas quando da conclusão da estrutura, e retomadas somente em 1998, com alterações que tornaram o conjunto mais modesto, mas não menos vigoroso. O volume da Câmara Municipal foi redesenhado por Tabith e Bianchini em função de sua nova localização, no espaço antes reservado à casa de cultura.
Também nascido com a missão de qualificar o espaço urbano, o projeto de Paulo Zimbres, Marcos Zimbres e Joara Cronemberger para o edifício administrativo da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal é mais um exemplo da boa arquitetura no Centro-Oeste do país.
Situado em Águas Claras, cidade-satélite de Brasília também projetada por Zimbres na década de 1990 e que vem crescendo em ritmo bastante acelerado, ele é composto por seis blocos retangulares de dois pavimentos e um edifício cilíndrico com três pisos. Organizado de forma semelhante a um campus universitário, o conjunto apresenta volumetria rica, bem articulada por meio de ruas e praças internas.
Para a Petrobrás, empresa de capital aberto, Carlos Bratke desenhou o Centro de Capacitação e Pesquisa do Meio Ambiente, mais conhecido pela sigla Cepema. Localizado em Cubatão, cidade do litoral sul paulista, o Cepema é um conjunto emblemático, marcado pela diversidade de formas arrojadas e pela extravagância plástica, o que lhe garantiu o Prêmio Asbea de 2006 na categoria edifícios institucionais.
A escolha de Cubatão para a implantação do Cepema não foi ao acaso. Na década de 1980, a cidade foi considerada pela ONU como a mais poluída do mundo e sofreu graves consequências ambientais devido à pesada emissão de poluentes, boa parte proveniente da refinaria de petróleo. Construído pela Petrobrás a título de compensação pelos danos causados, o centro é administrado pela Universidade São Paulo e realiza pesquisas multidisciplinares sobre os efeitos dessas atividades no ambiente, além de oferecer soluções para que elas tenham continuidade mas com menos riscos.
Três importantes edifícios foram inaugurados em Brasília na década passada: a Assembleia Legislativa, do escritório Projeto Paulista; a Fundação Habitacional do Exército, de Danilo Matoso, Élcio Gomes, Fabiano Sobreira, Newton Godoy, Filipe Montserrat e Daniel Lacerda; e a sede do Sebrae, das equipes de Álvaro Puntoni e Luciano Margotto Soares. Os três foram escolhidos por concurso, a Assembleia e o Sebrae em disputas abertas. O fato evidencia que esse tipo de disputa continua a ser a melhor maneira de escolher um projeto público - comprovando a tese, o edifício do Sebrae foi escolhido o mais significativo do período na categoria institucional.
A sede do Sebrae em Brasília é certamente a melhor demonstração, nos últimos dez anos, de que o processo de decadência dos edifícios institucionais não é necessário, que, ao contrário, é possível fazer novamente, nessa categoria, não só edificações boas (como houve, de fato, várias na última década), mas também obras excepcionais. Sua primeira qualidade é ter sido objeto de um concurso e - mais ainda - o fato de o projeto de Álvaro Puntoni, Luciano Margotto Soares e equipe ter sido o vencedor (parabéns ao júri!).
Do ponto de vista arquitetônico, o edifício tem diversos elementos que o inserem na evolução da arquitetura brutalista paulista, mas vai além. É notável a riqueza de idéias que contém, permitindo que concreto e aço disputem o protagonismo, ou ainda contrastando o lado escultural de uma fachada curva de concreto com a leveza estrutural dos grandes vãos suspensos. O acabamento do concreto, entretanto, poderia ter sido melhor.
O padrão tecnológico, a consistência das soluções, o esforço na busca de efeitos surpreendentes, mas nunca superficiais, e a atenção a diversos aspectos de sustentabilidade (ambiental, social e econômica) mostram nesse projeto a maturidade dos arquitetos na busca de uma arquitetura fiel à tradição brasileira, mas sem temor de enriquecê-la com elementos contemporâneos. Trata-se de obra que enriqueceria qualquer publicação internacional e que mostra uma vigorosa renovação da nossa arquitetura.
Infelizmente, uma exceção.
Edição 371 Janeiro de 2011



Na década de 2000, como na anterior, o Brasil passou por um fenômeno que os especialistas chamam de trânsito religioso: a passagem de fiéis de uma igreja para outra. Resumo da ópera: o país perdeu católicos na mesma proporção que ganhou evangélicos. Mesmo sem a divulgação dos dados oficiais do censo do IBGE de 2010 a respeito, projeções confirmam esse movimento: no início dos anos 2000, 74% da população brasileira era católica (IBGE); em 2007, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas apontava esse grupo na casa de 64%.
A mesma instituição revelava que, no início da década, o número de evangélicos crescia 1% ao ano. Esse agigantamento é visível a olho nu: das pequenas às grandes cidades, é evidente o surgimento de novos templos, sem preocupações arquitetônicas de nível elevado. Grosso modo, valem-se do simulacro do clássico, presente no ornamento de construções que às vezes ocupam quase um quarteirão, como é o caso da Igreja Universal do Reino de Deus em Natal e em Belo Horizonte.
A reação católica vem com o movimento carismático, que, de alguma forma, reverbera a dinâmica do culto evangélico. Nesse contexto, uma das figuras mais expressivas do período é o padre Marcelo Rossi, que encomendou a Ruy Ohtake o desenho de um enorme templo a ser construído em Santo Amaro, zona sul paulistana.
A irrelevância arquitetônica dos templos de grande porte abre clareiras para as pequenas igrejas, sobretudo do catolicismo. Outro dado interessante nessa vitória de Davi sobre Golias é que a maioria das obras de ponta foi construída em propriedades privadas: são capelas particulares que dão continuidade a uma tradição que remonta à propriedade rural do início da colonização.
Entre elas, chama a atenção a capela em Valinhos, interior de São Paulo, desenhada por Decio Tozzi. Na beira de um lago, a construção é formada somente por uma casca de concreto que se apoia em quatro pilares, com a cruz dentro da água. Também no interior paulista, e propondo uma integração diversa com a natureza, a capela em Tatuí, de Beatriz Meyer, utiliza madeira e pedra para erigir a desejada relação com o sagrado. Já no templo ecumênico que desenhou em Ibiúna, SP, Sérgio Kipnis fecha o espaço ao entorno para favorecer a concentração nas orações.
Ainda no terreno privado encontra-se a capela de Nossa Senhora da Conceição, no Recife, desenhada por Paulo Mendes da Rocha e Eduardo Colonelli e construída dentro da propriedade de Francisco Brennand. O projeto se apropria das ruínas de uma antiga residência (o que a gabarita também para a análise sob o viés da revitalização, especialidade de Mendes da Rocha) e constrói a cobertura de forma inusitada, com apenas dois pilares de concreto.
Também particular, o templo ecumênico que Manoel Coelho criou em Curitiba fica dentro de um lago, em um campus privado, e liga-se à margem por uma passarela. Brises de alumínio de formato irregular singularizam a obra, em meio a outros projetos do arquiteto.
Uma das poucas obras comissionadas por uma ordem religiosa é o anexo do Convento São José, implantado em São Paulo, projeto de Ivanir Abreu e Luiz Felipe Pinto. Na mesma linha está a igreja e sede paroquial em Barueri, SP, de Mario Biselli e Paola Sauaia. Ela se destaca pela cobertura, formada, basicamente, por um plano inclinado e o trecho de um arco. O tema é frequente na produção de Biselli, autor de colégios religiosos e casas pastorais, em construção.
Entre os templos judeus, não há um destaque relevante; é digno de nota o Centro Bait, em São Paulo, desenhado por Maria Cecília e Michel Gorski. Contudo, é significativo o investimento da comunidade judaica em outros programas - culturais e hospitalares, por exemplo.
Em abril de 2010, o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) da Secretaria de Atenção à Saúde, do Ministério da Saúde, contabilizava a existência no país de 6.750 hospitais: 1.971 eram públicos (federais, estaduais e municipais), 4.612 tinham controle privado e 167 funcionavam como hospitais universitários. Dos hospitais privados, 2,9 mil atendiam ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Mesmo que no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a assistência pública à saúde tenha melhorado, são os empreendimentos particulares que têm ditado a implantação de novas unidades. A aquisição, pelo banco BTG Pactual, da rede D’Or, no Rio de Janeiro, que em seguida assumiu o controle do Hospital São Luiz, em São Paulo, é um indicativo de para quem os escritórios de arquitetura poderão trabalhar nos próximos anos nessa especialidade (tal como na unidade Anália Franco do Hospital São Luiz, desenhada por Siegbert Zanettini).
A presença de fundos de investimentos e instituições financeiras no controle de grupos hospitalares é relativamente recente na economia brasileira. O segmento de seguros do Bradesco, por exemplo, nem cogitava adquirir parte do Fleury Medicina e Saúde (o que ocorreu no primeiro semestre de 2009) quando o laboratório implantou, no Jabaquara, zona sul paulistana, sua nova sede.
A horizontalidade desejada do ponto de vista operacional foi um dos maiores desafios dos arquitetos Eduardo Martins de Mello, Renata Semin e José Armênio Brito Cruz (os dois últimos do escritório Piratininga Arquitetos), uma vez que o lote apresentava razoável declividade.
O mesmo laboratório contrataria Rocco Associados para desenhar sua unidade no Itaim Bibi, também na zona sul, um conjunto formado por dois blocos de aparência monolítica, visualmente caracterizados pelo fechamento em vidro translúcido branco, complementado por brises de alumínio no padrão madeira. O prédio reafirma a preocupação que o Fleury tem com a qualidade dos espaços - também a unidade Paraíso foi desenhada por profissional de alto gabarito, Paulo Mendes da Rocha, embora o projeto se encontre descaracterizado.
Na década recém-terminada, o Hospital Israelita Albert Einstein manteve sua tradição de combinar excelência no atendimento com arquitetura qualificada. No Pavilhão Vick e Joseph Safra, o escritório Levisky Arquitetos Associados elaborou o plano diretor urbanístico e o estudo de viabilidade para que o escritório Kahn do Brasil implantasse o conjunto.
Pela primeira vez, o hospital apostou na volumetria menos contida e na paleta de cores mais diversificada. O desenho que estampa parte do edifício foi retomado na unidade no bairro de Perdizes, cuja autoria é também compartilhada por Levisky Arquitetos e Kahn do Brasil. O primeiro Einstein fora do Morumbi possui volumetria assimétrica e busca interlocução com o entorno.
O perfil socioeconômico dos pacientes do Fleury e do Einstein não diverge muito daqueles que procuram atendimento no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, também em São Paulo. A secular instituição adquiriu, em 1905, o lote onde está instalada, próximo da avenida Paulista.
Noventa anos depois, Botti Rubin Arquitetos desenhou para o terreno um prédio com 18 pavimentos, de linhas contemporâneas. O centro para idosos Hiléa, com áreas de lazer, hotelaria e atendimento à saúde, também é um dos bons projetos da década. Desenhado pelo escritório Aflalo & Gasperini, em São Paulo, possui forma de lâmina e tem áreas de convivência na base.
O aumento da população de idosos fez parecer que o empreendimento era viável, mas ele não foi adiante e acabou adquirido pelo governo do estado, para receber a primeira unidade da Rede de Reabilitação Lucy Montoro. Esta atende pacientes com dificuldades motoras e é administrada pela Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
É um trabalho similar ao realizado pela Rede Sarah, que trouxe enorme notoriedade a um dos mais admirados arquitetos brasileiros da atualidade: João Filgueiras Lima, o Lelé. A experiência de Lelé com a arquitetura do setor consumou-se no Rio de Janeiro, em Jacarepaguá, com o Centro de Reabilitação Infantil e o hospital Sarah, elegante conjunto de 52 mil metros quadrados de área construída que contrastam com o descampado do entorno.
Situação oposta (vizinhança densa e paisagem natural desprovida de interesse) foi enfrentada pelos arquitetos José Borelli Neto, Hércules Merigo (Borelli & Merigo Arquitetura e Urbanismo) e Walter Makhohl para implantarem o Hospital Municipal Cidade Tiradentes, no extremo da zona leste paulistana. A forma é a do tradicional pavilhão - a parte superior das fachadas é caracterizada pelos elementos vazados e na inferior o desenho é de inspiração concretista.

O infortúnio de um acidente o fez experimentar a desumanidade e a frieza de um hospital e o levou a defender a criação de ambientes que façam o paciente se sentir bem e, assim, ajudem no processo de cura. Nesse hospital, como nos outros da Rede Sarah, a humanização dos espaços é feita por meio de três dimensões.
A primeira é a utilização da ventilação e iluminação naturais como forma de fugir dos espaços herméticos e de contribuir no combate à infecção hospitalar. Para evitar a incidência direta do sol, Lelé propôs o uso de sheds, cujas formas marcantes respondem a requisitos aerodinâmicos que facilitam a circulação dos ventos e ao mesmo tempo atestam sua experiência com Niemeyer.
A segunda é a introdução de amplos espaços coletivos nos quais a presença de jardins e obras de arte é uma constante. As cores e padrões dos painéis de Athos Bulcão, pensados de forma integrada ao ambiente e próximos das fontes de luz e dos jardins, enaltecem e valorizam o paciente e dão vida ao local.
A terceira reside na dimensão tectônica, na forma como ele articula os elementos construtivos. O edifício segue princípios de flexibilidade e padronização dos elementos construtivos, visando rapidez na execução. A repetição desses poucos elementos configura todo o prédio, desde a estrutura até caixilhos e guardacorpos (como é didaticamente mostrado em um vídeo que fez parte da exposição no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, há alguns meses).
A forma como eles são articulados é o que confere significado ao edifício. Neste hospital, a arquitetura emociona não apenas pela integração com a natureza e com a arte, mas sobretudo pela inventividade no manejo de elementos padronizados. Lelé tira partido de aparentes restrições para criar uma arquitetura de pura poesia.
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Após duas décadas de freio, a construção civil brasileira retomou com intenso vigor suas atividades, sobretudo a partir da segunda metade da década passada. Em 2009, a participação do setor no Produto Interno Bruto (PIB) atingiu 8,3%, podendo chegar a 9,5% até 2022, segundo estimativa do Observatório da Construção, um braço do Departamento da Indústria da Construção Civil, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Esse movimento se deveu, em parte significativa, à expansão do crédito para financiamentos habitacionais e a investimentos em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas não ficou restrito a esses segmentos: também aumentou a oferta de edifícios comerciais, administrativos e de serviços.
Em recente edição do jornal Valor Econômico, executivos que comandam incorporadoras e construtoras explicavam que, além de atrair empresas para o país, o crescimento da economia estimula as companhias aqui instaladas a mudar para escritórios maiores e mais confortáveis, fato que determina a procura por conjuntos de alto padrão.
Nem sempre esses empreendimentos prezam a boa arquitetura, mas ao longo de suas edições PROJETO DESIGN conseguiu amealhar alguns exemplares que merecem destaque. Um deles é o Brascan Century Plaza, em São Paulo, de Königsberger Vannucchi Arquitetos Associados, constituído por três torres independentes articuladas, no nível da rua, por uma praça aberta ao público.
Para chegar ao Brascan, Jorge Königsberger e Gianfranco Vannucchi, que flertaram com o pós-moderno na década de 1990, ensaiaram antes com o projeto do Stadium, em Alphaville, também com três prédios, porém geminados.
Mais ousado na estética foi Ruy Ohtake, com o conjunto de múltiplo uso Ohtake Cultural. Em termos programáticos, ele pertence à mesma genealogia do Continental Square Faria Lima, desenhado por Aflalo & Gasperini Arquitetos, seguramente o escritório com mais projetos de torres comerciais relevantes implantadas na década. São de sua autoria, em São Paulo, o E-Tower e o Eldorado Business Tower, este criando interessante conexão com um shopping center.
Nas edificações mais recentes, a preocupação recorrente dos autores é atender preceitos de sustentabilidade - o Rochaverá Corporate Towers foi um dos primeiros empreendimentos a receber certificação Leed.
Do mesmo escritório, o edifício Eudoro Villela completa o conjunto da sede do grupo Itaú, em São Paulo, e foi desenvolvido em parceria com a Superintendência de Arquitetura da instituição. Aliás, foi o Itaú que, ao adquirir a operação brasileira do BankBoston, incorporou a seus ativos a construção que Skidmore, Owings & Merrill (SOM), de Chicago, e o Escritório Técnico Júlio Neves desenharam para o grupo norte-americano.
Já a unidade novaiorquina do SOM aliou-se a Pontual Arquitetura para fincar, na zona sul de São Paulo, o Birmann 31. O prédio assinala o ocaso da Birmann, que na década anterior fora uma das principais empreendedoras brasileiras no segmento de edifícios comerciais.
Nesse cenário, surpreendente é a “pitada de fantasia” que o habitualmente sisudo Marc Rubin, sócio de Botti Rubin Arquitetos, procurou inserir na marginal do Pinheiros, em São Paulo, com a planta ovalada e o gabarito reduzido do Landmark.
No segmento de edifícios comerciais, poucas foram as novas construções em altura no Rio - uma delas é a Torre Almirante, de Pontual Arquitetura e Robert Stern Architects. Já os conjuntos do tipo office park, implantados na região da Barra, conseguiram certa projeção. Entre eles, o Centro Empresarial Mário Henrique Simonsen, do estúdio STA Arquitetura; e o Barra Trade III e Barra Trade V, desenhados pelo escritório Ecotech.
Sedes de empresas também renderam boas soluções arquitetônicas na década. Uma das mais significativas, a SAP Labs Brazil, fica em São Leopoldo, RS, e tem a autoria compartilhada entre Eduardo de Almeida e César Shundi Iwamizu.
O edifício abriga laboratórios de criação de softwares e fica no campus da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Outra corporação que apostou num projeto diferenciado foi a Serasa, cujas instalações, em São Paulo, foram criadas pelo escritório Edo Rocha Espaços Corporativos. Incomum é a configuração - um círculo interceptado por um triângulo - do edifício administrativo da Ypioca, em Fortaleza, construído a partir de projeto de Nasser Hissa Arquitetos.
Faz parte dessa boa safra a sede paulistana da Marisol, marca de roupas e calçados infantis, desenhada pelo escritório Rocco Associados. Outra empresa do ramo têxtil em São Paulo, a Gul foi projetada pelos arquitetos Alexandre Cafcalas e Guilherme Margara.
Inusitada foi a convocação de Guilherme Paoliello e André Vainer para desenharem a sede da Itambé, que atua na administração de condomínios. O grupo mantém relações próximas com profissionais ligados ao mercado imobiliário, mas optou pela dupla, que na época nunca havia trabalhado no segmento. Maior afinidade conceitual existiu, aparentemente, entre o desenho do Triptyque para a sede da agência publicitária Loducca.
Gaúchos, os arquitetos Luciano Andrades, Gabriel Gallina e Rochelle Castro praticamente debutaram na profissão com o E Box, um contêiner suspenso que serve de escritório de um estacionamento em Porto Alegre. Também na capital do Rio Grande do Sul, merece destaque o centro comercial Jardins da Praça, criação do escritório Moojen & Marques Arquitetos Associados.
Igualmente habilidosa e expressiva é a solução plástica do pequeno prédio desenhado por Reinach Mendonça Arquitetos Associados, em São Paulo, com linguagem semelhante à que os autores usam nos projetos de casas. O conjunto de serviços em escala reduzida é ainda o mote do Centro Comercial e de Serviços desenvolvido, em São Paulo, pelo Núcleo de Arquitetura, no qual procurou-se levar a cidade para dentro do projeto. De certa forma, esse também é o ponto de partida de Eduardo Crafig, Fernanda Neiva e Rita Martinussi no edifício DVR Alphaville, em Barueri, SP.
Menos contido em sua volumetria - mas nem por isso exuberante - é o Duquesa de Goiás, elegante conjunto desenvolvido por Paulo Bruna Arquitetos Associados na capital paulista. Na marginal do Pinheiros, o Quadra Hungria, de Miguel Juliano (morto em 2009), por sua vez, recupera a tradição modernista de edifícios em lâmina.
Francisco Fannuci e Marcelo Ferraz, do estúdio Brasil Arquitetura, também recorreram à referência modernista no primeiro projeto que seu escritório desenvolveu na capital federal. Trata-se de um edifício comercial com fachadas recobertas por perfilados de madeira, para controlar a luminosidade.

Vencedor de concurso fechado, é de autoria de Eduardo de Almeida, arquiteto de uma geração que forjou seu currículo com obras de pequeno porte - residências, no caso. Almeida seguiu a linha de muitos de seus contemporâneos, capitaneados pelo mestre Artigas, e nela permaneceu, ressalvada uma ou outra obra de grande porte, como a biblioteca Brasiliana, ora em construção no campus da Universidade de São Paulo.
O complexo, próximo a uma área francamente arborizada, é composto por dois blocos lineares de três pavimentos - o maior, voltado para o norte, com quase cem metros de extensão e sob pilotis - articulados através de quatro volumes, um deles destinado à circulação vertical, recurso que cria um afastamento conveniente à iluminação das faces internas. Abrigam atividades com elevado grau de sofisticação, compostas essencialmente de estações de trabalho e treinamento; são espaços contínuos e descontraídos, típicos desses edifícios, com áreas próprias para descanso e convívio, e que têm na interação interior-exterior um ingrediente importante para um trabalho produtivo.
O projeto é pautado por rigoroso cuidado construtivo, mas também com a sustentabilidade, exigência imposta pela empresa desde o início do projeto, visando a certificação Leed no nível Gold.
Coerentes com uma postura arquitetônica do mais estrito respeito às exigências funcionais, os arquitetos não deram oportunidade, em nenhum momento, a arroubos formais. Assim, extraem dos componentes responsáveis pelo conforto os atributos plásticos que em muito enriquecem a edificação - os brises que cobrem as fachadas e o vazio entre os dois blocos em toda a sua extensão, há décadas elemento que concedeu identidade própria à arquitetura brasileira.
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De forma global, houve uma realocação industrial dos países desenvolvidos para aqueles em desenvolvimento - Estados Unidos e China, respectivamente, são os principais exemplos.
Nesse quadro, a indústria brasileira passou por um processo de internacionalização, seja no aumento das exportações (que foi de quase 300% no período), seja na criação de grandes conglomerados industriais com a participação de capital nacional (de que é exemplo a Ambev, gigante produtor de cerveja).
A indústria automobilística no Brasil teve crescimento expressivo:o país salta do 11º lugar, em 2001, para a sexta posição, em 2010, na lista dos maiores produtores de veículos automotores do mundo. E nesse segmento estão alguns dos melhores trabalhos arquitetônicos da década, não especificamente para as plantas das montadoras, mas, sobretudo, para a produção de suprimentos.
Um deles é o projeto da MTE Thompson, de Dante Della Manna, que produz equipamento de injeção eletrônica para autos. O desenho da fábrica, localizada em Jaguariúna, interior de São Paulo, trata como minimalismo o contraste clássico entre os setores de administração e produção.
Na Valeo, em Itatiba, SP, também se utiliza o contraste entre as duas áreas de trabalho: o escritório GCP, que revitalizou a planta, construiu expressivo volume de vidro apoiado em pilares em Y, à frente do galpão industrial.
Para a mesma empresa - que fabrica componentes automotivos -, o escritório norte-americano DDB (juntamente com o GCP) criou uma unidade em Guarulhos, SP, que é a mais significativa construção industrial da década. Implantada às margens de uma movimentada rodovia, ela alia na mesma proposta volumétrica, com uma solução semelhante a fatias de metal e vidro, a área industrial e a administrativa.
Ainda entre os edifícios ligados à produção automobilística, devemos elencar o centro tecnológico da Mahle, em Jundiaí, SP, desenhado pelo estúdio de Roberto Loeb. A mesma equipe, que se dedica a diversos projetos do gênero, é autora da fábrica da Natura em Cajamar, SP, em que o partido explora diversas tipologias, quase sempre com a utilização do concreto armado.
Nas proximidades, encontram-se as instalações da Ipel, que fabrica pincéis e embalagens para cosméticos. O projeto de Sidônio Porto, com arcos metálicos expressivos, proporciona a entrada de luz abundante no ambiente fabril.
Também ganha destaque a indústria de equipamentos esportivos Circuit, em Pindamonhangaba, SP, de Marcelo Couto e Olegário Vasconcelos. No projeto da Metal 2, em Mogi das Cruzes, SP, Alexandre de Almeida, César Shundi, Marcelo Pontes e Ricardo Bellio propuseram panos de vidro generosos para humanizar o trabalho duro no chão de fábrica.
Na Gráfica VG, em São Paulo, uma interessante solução para a ventilação natural foi adotada pelo NPC, estúdio que também é autor do refeitório da Marilan, uma indústria de biscoitos em Marília, SP.
Quanto às obras no meio rural, que atendem indiretamente ao agronegócio, três são dignas de nota: a Fazenda Sant’Anna, em Uberaba, MG, de Luiz Américo Gaudenzi; um centro educacional em Poços de Caldas, MG, de Alfredo Barbosa Jr.; e o Haras Polana, em Campos do Jordão, SP, desenhado por Mauro Munhoz. Os projetos exploram diferentemente a tipologia tradicional dos telhados, manejando a contemporaneidade à sua maneira.
Entre 2001 e 2009 houve decréscimo de 3,4 milhões de matrículas no ensino regular brasileiro, público e privado, sobretudo a partir do meio da década, apontam os censos educacionais do Ministério da Educação/Inep/Deed. A maior baixa ocorreu na região Nordeste (15% a menos de alunos inscritos) e a menor no Sudeste, com recuo de 5%. São Paulo, por exemplo, permaneceu estagnado nos cerca de 8 milhões de alunos cursando da primeira à terceira série do ensino médio, dos quais 85% pertencentes à rede pública do Estado e município. O melhor dos desempenhos nacionais, em termos de acesso à educação, ainda é, portanto, insatisfatório. No que diz respeito à qualidade arquitetônica dos estabelecimentos de ensino, contudo, os avanços foram inegáveis.
Em São Paulo, já nos primeiros anos da década começaram a concretizarse os novos programas: as escolas da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), órgão vinculado à Secretaria da Educação estadual; e os Centros Educacionais Unificados (CEUs), da prefeitura paulistana. São concepções diversas em escala (mais compacta na FDE), porém similares no propósito de promover a interação da arquitetura com o entorno, normalmente em bairros de ocupação informal já consolidada. Os CEUs são como grandes clubes imersos no cotidiano escolar, com programa setorizado em blocos independentes e predominância da implantação linear.
A concepção geral arquitetônica é de autoria de Alexandre Delijaicov, André Takiya e Wanderley Ariza, do Departamento de Edificações da prefeitura de São Paulo, expressa nos projetos das unidades Jambeiro e Rosa da China.
Suas diretrizes foram parcialmente contestadas na gestão dos prefeitos José Serra/Gilberto Kassab, que delegou ao arquiteto Walter Makhohl a revisão de aspectos relacionados à manutenção predial e à grande escala, a fim de flexibilizar a implantação do projeto. Makhohl, então, concebeu o CEU Água Azul, no mais sem alterações substanciais em relação aos projetos anteriores.
As primeiras escolas da FDE foram implantadas em Campinas, duas a duas, com projetos dos escritórios MMBB, Andrade Morettin, Vainer e Paoliello e Una Arquitetos. Elas serviram de piloto para a primeira leva dessa nova geração, destacando-se a rica espacialidade e as complexas relações urbanas dos edifícios de princípios tão rígidos: utilização de elementos pré-fabricados de concreto, modulação padronizada e seleta gama de materiais.
Os projetos de Morettin e Una se destacam, respectivamente, pela semipermeabilidade dos elementos de vedação (venezianas translúcidas e telhas metálicas) e pela apropriação de parte do térreo pelo espaço público.
Um dos aspectos importantes da experiência da FDE foi promover a efetiva interação entre grande número de importantes escritórios de arquitetura. Da segunda leva de projetos, implantados entre 2005 e 2006, são memoráveis as unidades Tremembé, de autoria de Angelo Bucci e Álvaro Puntoni; Jaraguá, de Ubyrajara Gilioli; e Vila Nova, de Barossi & Nakamura. Mais recentemente, o escritório Grupo SP criou a escola na cidade de Votorantim.
No Rio de Janeiro, a Escola Sesc de Ensino Médio contemplou novas modalidades de negócio e programa de ensino. Concebida por Luiz Eduardo Índio da Costa e localizada na Barra da Tijuca, é tanto preparatória para o ensino superior quanto profissionalizante, fruto de parceria público-privada (a verba é pública e o processo de construção/ gestão ficou a cargo do Sesc). Além dos tradicionais equipamentos pedagógicos, de esporte e lazer, possui como diferencial a existência de moradias para professores e alunos, o que faz de seu campus quase uma pequena cidade planejada, cujo ponto alto arquitetônico é o edifício do teatro.
No item campus universitário, Manoel Coelho passou a década implantando, em Curitiba, as edificações da Universidade Positivo, que teve plano diretor concebido pelo próprio arquiteto. Um dos destaques é o prédio trapezoidal da biblioteca, com seus planos suspensos e justapostos. Assim como na universidade curitibana, a unidade arquitetônica é um aspecto presente nas edificações do campus Senac São Paulo, de autoria de Aflalo & Gasperini Arquitetos. O projeto foi baseado no reaproveitamento e urbanização do terreno e das edificações de origem fabril.
Já a dupla Rafael Perrone e Márcio do Amaral concebeu um centro educacional em Indaiatuba, SP, para a qualificação dos professores da rede municipal de ensino, no qual a fragmentação espacial tem propósito similar ao do Centro Educacional Jardim Santo André, do escritório Brasil Arquitetura. Embora em contextos de implantação opostos - o primeiro localizado em meio à área verde do Parque Ecológico do Tietê, o segundo no miolo de uma já consolidada área de ocupação informal da periferia do ABC paulista -, ambos são hábeis em promover a permeabilidade da arquitetura para com o entorno.
Nesse sentido, os projetos de Affonso Risi Júnior, Francisco Spadoni e Samuel Kruchin lidaram com diretrizes de contextos adensados de inserção em São Paulo.
Risi resolveu com a verticalização a implantação de um novo edifício da Faculdade Paulistana (Fapa) em situação de miolo de quadra; Spadoni levou adiante o plano diretor de adensamento da Universidade Mackenzie, concebido em parceria com Lauresto Esher em 2003, criando o edifício administrativo-pedagógico Modesto Carvalhosa, o primeiro de uma série de prédios laminares previstos para a instituição; e Kruchin engrossou o coro dos que projetaram para a zona leste da capital, com o belo projeto da Unicsul.
Na mesma região, situa-se a Escola Cáritas, de Mario Biselli e Artur Katchborian, um dos destaques da década. A implantação compacta articula pátio, volumes contundentes e uma profusão de espaços internos qualificados pelas circulações em planos diversos.
Extrapolando o universo arquitetônico do ensino básico, Marcio Kogan desenhou a escola-berçário Primetime, localizada no bairro do Morumbi em São Paulo; Felipe Bezerra projetou a Escola PHD Infantil, em Natal; e Camila Fabrini e Carlos Ferrata criaram a Escola de Reeducação do Movimento, um espaço para o ensino da dança na capital paulista.
O CEU é um projeto de grande lucidez e coragem. É fruto do idealismo de arquitetos que trabalhavam no órgão público (Alexandre Delijaicov, André Takiya e Wanderley Ariza), somado à visão de uma prefeita que fez uma aposta social expressiva, e não apenas populista. Baseados na proposta revolucionária das escolasparque do educador baiano Anísio Teixeira, fundador da Escola Nova, e no trabalho pioneiro do arquiteto Hélio Duarte no período do Convênio Escolar em São Paulo (1948 a 1952), os arquitetos da Divisão de Projetos do Departamento de Edificações da Prefeitura (Edif) conceberam o CEU como uma espécie de “condensador social” contemporâneo para uma metrópole da periferia do capitalismo.
Mais do que dezenas de unidades escolares situadas em bairros carentes da cidade de São Paulo - o que já seria notável -, esses edifícios são centros comunitários de lazer, esporte, cultura e festas, abertos nos finais de semana, tornando-se referências agregadoras de civilidade em áreas pobres.
Do ponto de vista arquitetônico, o projeto nem se apequena diante da precariedade do entorno, nem o nega, criando um referencial de urbanidade por contraste, com um desenho geométrico bem marcado, mas abrindo-se francamente para a vizinhança através de amplas superfícies envidraçadas e generosas varandas de circulação. Mais do que uma joia arquitetônica, o CEU é um grande acerto social e urbano. E o seu sucesso de público, para além das disputas políticas conjunturais, é a grande prova disso.
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Apenas nos seus primeiros três anos de funcionamento, o Museu da Língua Portuguesa, que ocupou uma das laterais da Estação da Luz, em São Paulo, recebeu 1,6 milhão de pessoas. Mais novo, o Museu do Futebol, também na capital paulista, levou para baixo das arquibancadas do estádio do Pacaembu público de quase 1 milhão.
As duas instituições têm em comum o fato de surgirem da reciclagem de espaços em edificações históricas, uma vertente da arquitetura nacional extremamente fértil nos anos 2000, como já havia ocorrido na última década do século passado. Os dois museus, desenhados por Pedro e Paulo Mendes da Rocha e por Mauro Munhoz, respectivamente, têm outro ponto de interseção: seus acervos são, em boa parte, virtuais.
O Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte, criado pelo escritório AF&T Associados, também ocupa parte de uma estação de trens. Mas, em contraponto com a espaço dedicado a celebrar a língua pátria, possui farto acervo físico.
Ainda na capital mineira está um dos mais recentes projetos de transformação em prédios históricos, igualmente criado pelos Mendes da Rocha: o Museu das Minas e do Metal, uma requintada fusão de vidro e metal que faz parte do Circuito Cultural Praça da Liberdade.
O repertório museu/reciclagem e a habilidade para equacionar esses programas distingue a produção do Brasil Arquitetura. Nessa vertente, são representativos o Museu Rodin, em Salvador, mesclando o moderno e o eclético, e o Museu do Pão, em Ilópolis, no interior gaúcho.
Neste, um moinho restaurado ganhou dois anexos que servem para espaço museográfico (mais transparente) e uma oficina de panificação (protegida por empenas de concreto). Ainda no Sul do país, o estúdio cooperou com o escritório de Oscar Niemeyer para viabilizar a implantação do museu que atualmente leva o nome do arquiteto, em Curitiba.
O Brasil Arquitetura também assina a reconstituição de um entreposto comercial em Registro, SP, para abrigar o Memorial da Imigração Japonesa e o Centro Cultural KKKK, projeto de resgate da memória da colonização no Vale do Ribeira. Um teatro com 250 lugares, caixa de elevadores e uma marquise, claramente assinalados, foram acrescidos ao conjunto de galpões fabris.
As funções de museu e centro cultural se integram na intervenção que Ana Paula Polizzo, André Lompreta, Gustavo Martins, Marco Milazzo e Thorsten Nolte (à época todos integrantes do Oficina de Arquitetos) fizeram em um prédio construído em 1918, para receber o Museu das Telecomunicações. O projeto foi escolhido entre 63 concorrentes de um concurso.
Mais amplo que a construção carioca, o Santander Cultural, em Porto Alegre, surge da conversão concebida pelo escritório de Roberto Loeb em uma edificação (concluída em 1931, a partir de projeto de Fernando Corona e Stephan Sboczak) que antes fora a sede de vários bancos. Cinema, uma das ações inseridas no Santander, é a atividade-fim da preciosa reformulação de um antigo matadouro, na Vila Mariana, São Paulo, que renasceu como sede da Cinemateca Brasileira. Na proposta assinada por Nelson Dupré, uma delicada cobertura de vidro tece a relação entre os antigos galpões.
Um conjunto de quatro salas de cinema funcionaram até meados da década de 1990 no prédio que hoje abriga o Teatro Abril Paramount, na região central de São Paulo. A transformação, regida por Aflalo & Gasperini Arquitetos, foi, de certa maneira, o reencontro da edificação com seu passado: destinada a espetáculos variados, ela recebe, predominantemente, grandes musicais.
Apesar de histórico, o Paramount tem menor significado arquitetônico que o antigo hotel Jaraguá, símbolo da arquitetura modernista criado por Jacques Pilon e Franz Heep e modernizado por Miguel Juliano para receber o atual Novotel Jaraguá.
A mesma função de hospedagem foi reativada no centro histórico de Curitiba com a reciclagem do Johnscher Hotel, que hoje opera como San Juan Johnscher. Humberto Fogassa coordenou o projeto de restauro e a equipe do Planotel Arquitetura viabilizou a modernização das instalações.
A renovação interna de um edifício do início do século passado entrou, com destaque, para o currículo do arquiteto José Armênio de Brito Cruz. A obra tem relação íntima com a arquitetura: trata-se da biblioteca da pós-graduação da FAU/USP, que ocupa uma ala do centenário casarão da rua Maranhão, criado por Carlos Ekman.
Brito Cruz é um dos sócios do Piratininga Arquitetos Associados, escritório responsável pelo projeto da sede da Associação dos Advogados de São Paulo, em imóvel de fachada eclética, da década de 1940, no centro da capital. As mudanças criaram uma área de pé-direito duplo que serve como foyer do auditório.
Tem programa similar ao de Brito Cruz o trabalho dos escritórios César Dorfman Arquitetura e Urbanismo e Paulo Zimbres Arquitetos, que inseriram a biblioteca central do Centro Universitário IPA-Metodista, em Porto Alegre, nas semirruínas dos anos 1920, recompondo o desenho original a partir das poucas paredes de pedra remanescentes. Na volumetria externa, as intervenções foram sutis.
Solução diferente foi adotada por Ruy Ohtake no Centro Municipal de Educação Adamastor, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Antiga fábrica têxtil reconvertida para uma mistura de centro educacional e cultural, o conjunto recebeu a companhia de um prédio de linguagem contemporânea e linhas curvas, recorrente na obra do profissional.
Em sua área, Ohtake é quase tão pop quanto o apresentador de TV Luciano Huck, idealizador do Instituto Criar de TV e Cinema, instalado em um galpão fabril na Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Os arquitetos Fernanda Neiva e Sílvio Oksman adaptaram as instalações para receber os adolescentes de baixa renda que buscam no local formação técnica especializada.
A educação formal está no cerne das atividades do complexo que tomou forma em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, a partir de projeto de Rafael Perrone e Márcio do Amaral.
O centro educacional é constituído de três edifícios articulados por uma praça - um deles, um moinho do final do século 19, foi revitalizado, para abrigar o centro de qualificação de professores.
É obrigatório citar Recife entre as cidades que reciclaram com habilidade edifícios históricos. Um trabalho emblemático é o Paço Alfândega, sofisticado centro de compras que surgiu a partir de projeto do escritório Pontual Arquitetos. A construção original é de 1720 e foi anteriormente convento e armazém.
Enquanto os pernambucanos mais abastados passaram a frequentar o Paço Alfândega, em São Paulo uma mescla social mais diversificada fez explodir o número de visitantes do Mercado Municipal depois que esse marco paulistano passou por restauro, ganhando uma plataforma metálica que abriga uma cultuada “varanda gastronômica”. O condutor desse processo foi Pedro Paulo de Melo Saraiva.

Revelar e acentuar tais qualidades é a estratégia adotada pelo arquiteto Mauro Munhoz na concepção do Museu do Futebol, instalado no edifício frontal. As decisões de projeto oscilam entre opostos: a radicalidade das demolições em grande escala, com a desaparição de lajes, paredes, vigas e escadas revelando a espacialidade e a lógica estrutural escondidas; e a economia de gestos nas intervenções pontuais, com prescrição moderada de materiais legíveis (aço, madeira, vidro) e instalações expostas (dutos e calhas infraestruturais, escadas fixas e rolantes, placas acústicas). O espaço resultante abriga convenientemente projetores, telas, displays e tabiques previstos no projeto expositivo assinado por Daniela Thomas e Felipe Tassara, que tem seus melhores momentos no uso intensivo da tecnologia eletrônica, adequada à emoção e à magia do futebol, esporte cuja memória foi registrada em sons e imagens dinâmicas pelo rádio, tevê e cinema.
No meio do percurso, surge algo inesperado: uma ponte suspensa de madeira, sustentada por pilares metálicos atirantados na laje superior, articula os dois lados do museu dividido pelo portão monumental. Ao caminhar por ela, o visitante avista novamente a praça, agora emoldurada pelo bairro do Pacaembu, que se ergue no horizonte.
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Dentre os projetos destinados a eventos e lazer, os parques assumem papel de destaque. Dois dos mais interessantes têm curiosos pontos em comum: primeiro, também poderiam ser analisados sob a ótica da reciclagem; por outro lado, transformaram em locais de convivência glebas degradadas, antes destinadas a pessoas ou produtos que, segundo o julgamento da sociedade, estavam condenados à exclusão.
O parque da Juventude ocupa parte do terreno do antigo complexo penitenciário conhecido como Carandiru, na zona norte da cidade de São Paulo. Trata-se de uma iniciativa do governo estadual, que, de uma única vez, descentralizou os presídios paulistas (substituindo os grandes conjuntos por pequenas unidades) e transformou a área do maior estabelecimento penal do país em um parque urbano. O projeto foi objeto de um concurso público de arquitetura, vencido pelo escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos (em parceria com a paisagista Rosa Kliass).
Executado em três fases classificadas pelo uso, o parque da Juventude é dividido em três setores - esportivo, de contemplação e institucional - e tem como aspecto marcante a relação do desenho com o antigo uso, seja nos remanescentes das muralhas, seja nos dois pavilhões transformados.
Julia Dietzsch
Já a praça Victor Civita, de Adriana Levisky e Anna Julia Dietzsch, foi executada graças a uma parceria público-privada (PPP). O projeto transformou em local de convívio uma antiga usina de combustão de lixo, que ocupava área nobre na capital paulista. A praça que ali surgiu possui desenho contemporâneo, baseado em linhas contínuas com cantos arredondados e deques que não tocam o solo.
Também digno de nota, o Parque Ecológico Promotor Francisco Lins do Rego, em Belo Horizonte, deu destinação nobre a material inservível: ele ocupa uma ilha artificial no lago da Pampulha, formada a partir do desassoreamento do local.
Os autores Gustavo Penna, Álvaro Hardy e Mariza Machado Coelho propõem, através de pequenas e discretas construções de apoio (com destaque para o Memorial da Imigração Japonesa, também de Penna e Mariza), um diálogo atemporal com as obras de Oscar Niemeyer nas proximidades.
Outro equipamento público que merece menção é o Parque Municipal do Mindu, em Manaus. Projetado pelo arquiteto Roberto Moita, ele possui como principal característica a correta leitura do ambiente natural, que, entre outros aspectos, se espelha na concepção arquitetônica.
Na categoria eventos, esportes e lazer, historicamente se destacam os edifícios criados para o Sesc, com mais força em São Paulo, mas também em grande parte dos estados brasileiros. Contudo, nos anos 2000, a instituição - apesar de ter mantido seu perfil de cliente sofisticado - não conseguiu concretizar nenhum projeto grandioso, em termos arquitetônicos.
Dentre aqueles que merecem destaque está o Sesc Santo André, desenhado por Tito Lívio Frascino e Vasco de Mello. Fica a expectativa para a produção que a entidade vai apresentar na década que se inicia, principalmente em relação às unidades da rua 24 de Maio, no centro de São Paulo (proposta de Paulo Mendes da Rocha e equipe), e de Guarulhos, na região do ABC (de Dal Pian Arquitetos).
Esta, aliás, abriu o precedente de escolha do projeto através de concurso fechado, procedimento que a instituição pretende tornar padrão nas novas construções paulistas.Por conta dos grandes eventos esportivos programados para ocorrerem em território brasileiro, arenas e ginásios vão ocupar espaço de destaque entre os projetos da próxima década. Contudo, no período que se encerra, o rol de prédios destinados a esse uso é raquítico: foram pouquíssimas as construções de qualidade nesse setor.
Os dois exemplares mais significativos receberam competições dos Jogos Pan-Americanos de 2007, sediados no Rio de Janeiro. O evento, que ajudou a credenciar a capital fluminense como sede da Olimpíada de 2016, teve como palco principal o Estádio Olímpico João Havelange, mais conhecido como Engenhão, desenhado por Carlos Porto, Gilson Santos, Geraldo Lopes e José Raymundo Gomes.
O Complexo Esportivo da Vila Militar de Deodoro, concebido pela equipe do escritório BCMF, é menos visível para o grande público, mas possui mais intensidade arquitetônica. Elaborado com linhas retas e seguras, o espaço abrigou provas de tiro esportivo, hipismo, tiro com arco, hóquei sobre grama e pentatlo moderno, e habilitou a equipe de jovens arquitetos mineiros a pleitear alguns projetos para os Jogos Olímpicos que se realizarão no Rio.
Outro destaque entre as obras públicas destinadas ao esporte é o Ginásio Municipal de Barueri, SP, do escritório Biselli e Katchborian. Aqui, o elemento marcante é a cobertura, com duas treliças metálicas arcadas. À parte esses projetos de maior porte, cabe mencionar também pequenos edifícios com finalidade esportiva.
Entre eles estão o ginásio para ginástica olímpica dentro do clube A Hebraica, em São Paulo, de Barbosa & Corbucci, e o pavilhão de exposições e ginástica no Colégio Santa Maria, de Cecília Hoe, Maria Albertina Fehr e Lucas Fehr. Se o primeiro faz uso da linguagem industrial - com sheds e fechamentos em telhas metálicas - para criar sua expressão arquitetônica, o segundo se apropria da geometria do pequeno espaço disponível, da verticalização e dos materiais empregados no projeto da escola, principalmente os tijolos de barro, para definir seu partido.
Entre as academias, destacase a Sumaré Sports, localizada em São Paulo e criada pelo escritório Reinach Mendonça. Por fim, dos poucos edifícios destinados a feiras comerciais e eventos, marca presença o Centro de Convenções Expominas, de Gustavo Penna, em Belo Horizonte.

Em geral, o grande espaço de exposições é considerado o elemento básico e principal do prédio, ficando as atividades sociais anexas submetidas a uma posição secundária, localizadas em espaços abertos entre os pavilhões. O Expominas assume novamente a antiga proposta de um prédio único, com a particularidade de contar com ar condicionado em todos os locais e permitir uma pluralidade de funções.
O acesso dos visitantes é feito pela rampa que conduz aos grandes vestíbulos de distribuição, onde se localizam os pátios com restaurantes, bares, lojas, quiosques e as salas menores de reuniões e de conferências (seis salas de 375 metros quadrados e quatro de 420), situados no volume de articulação entre os pavilhões e o auditório. O grande vestíbulo de acesso aos pavilhões constitui um elemento de transição entre o exterior e o interior.
A estrutura da cobertura, com peso de 180 toneladas, foi montada no chão e içada a 23,50 metros de altura por quatro guindastes posicionados um em cada canto. A versatilidade dos locais é possibilitada pelos painéis móveis que dividem os pavilhões; estes podem ser utilizados separadamente ou como um espaço único de 17.310 metros quadrados. Esse tamanho considerável permite uma ampla área de circulação e a colocação de estandes de cinco metros de profundidade.
A significação dos pavilhões não é principalmente estética, mas provém da versatilidade e da flexibilidade dos locais, assim como o detalhado estudo dos sistemas acústicos e de iluminação, resultando no conforto ambiental que Buckminster Fuller solicitara desses conjuntos estruturais de grandes dimensões. “O sangue venoso nunca encontra o arterial” - essa é a analogia que o arquiteto costuma usar para demonstrar que o partido urbanístico-arquitetônico adotado impede que o público e usuários tenham qualquer contato com as operações de serviço.
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A atuação de arquitetos estrangeiros no Brasil apimentou o debate no setor. Nos extremos da aceitação e rejeição pela opinião pública figuraram, respectivamente, o projeto de Álvaro Siza para a Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, e o de Christian de Portzamparc para a Cidade da Música, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Mas a lista é recheada por nomes como Jean Nouvel, com o abortado projeto para uma filial do Museu Guggenheim no píer Mauá; a dupla Herzog & De Meuron, contratada pelo governo paulista para a ainda incerta implantação de um teatro e escola de dança no centro de São Paulo; e o estúdio nova-iorquino Diller Scofidio + Renfro, recepcionado amistosamente desde que venceu em 2009 o concurso fechado para a nova sede do Museu da Imagem e do Som/RJ, em Copacabana.
Nesse quadro, destaca-se a obra-prima que Siza implantou às margens do rio Guaíba, uma construção monolítica de concreto branco, minuciosamente detalhada pelo arquiteto português. O edifício abriga, em 8 mil metros quadrados de área, quase 60% das 7 mil obras de arte concebidas pelo expressionista Iberê Camargo.
Via de regra, empreendimentos culturais são viabilizados pela cessão de terrenos públicos, ora financiados integralmente com recursos do contribuinte (a Cidade da Música já demandou mais de 450 milhões de reais da prefeitura carioca), ora bancados parcialmente pelo setor privado através das chamadas parcerias público-privadas - e aí entram em ação leis de fomento e de incentivos fiscais.
A construção, formação, organização e manutenção de museus e bibliotecas podem se beneficiar dos recursos angariados com a Lei Federal de Incentivo à Cultura (que leva o número 8.313/91 e é conhecida como Lei Rouanet), que permite a destinação de percentuais do Imposto de Renda devido a ações culturais (até 6% para pessoas físicas e 4% para jurídicas).
Ela integra as políticas de fomento público do Ministério da Cultura, cuja receita orçamentária teve aumento de cerca de 100% desde meados da década (de 691 milhões de reais em 2006 para 1,3 bilhão em 2010, segundo o Siafi/Siga Brasil). Dos 40 milhões de reais utilizados na construção da sede da Fundação Iberê Camargo, por exemplo, cerca de 40% resultam de patrocínio direto e os restantes 60% vieram pela Lei Rouanet.
Juntem-se aos ingredientes listados acima o bom desempenho do país na crise financeira mundial de 2008, o boom imobiliário do final da década e, sobretudo, a escolha como sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, e o que se tem é que a prospecção de trabalho no Brasil por arquitetos estrangeiros tornou-se quase trivial.
Na contramão do desembarque de arquitetos estrangeiros, o paulista Estúdio América venceu o concurso internacional para a implantação, no Chile, do Museu da Memória e dos Direitos Humanos. Pouco mais de dois anos decorreram entre a premiação e a inauguração do edifício, cujo partido impactante e minimalista fez pousar uma extensa barra metálica sobre a praça aberta do térreo.
Apesar da imagem austera, o museu está em sintonia com o conceito contemporâneo, em que o entretenimento e a natureza imaterial do acervo - sons e imagens projetados pelo espaço - são diretrizes essenciais da arquitetura.
De modo análogo à edificação chilena, o Centro Digital do Ensino Fundamental de São Caetano do Sul, desenhado por José Augusto Aly, é uma construção pavilhonar que pretendeu incrementar os fluxos e apropriações públicas da praça aberta em que se insere, lindeira a uma movimentada via no município da região do ABC paulista.
O simbolismo cívico é uma das marcas do projeto, pontuado por formas geométricas e cores intensas, assim como ocorre com os desenhos de Rafael Perrone e da dupla Marília Sant´Anna de Almeida e José Magalhães Júnior, respectivamente para os teatros municipais das cidades paulistas de Mauá e São Sebastião.
Habituado a atuar em linha direta com o poder público, Oscar Niemeyer continuou emplacando escultóricos museus, centros culturais e teatros públicos, em Goiânia, Curitiba, Brasília, Duque de Caxias, RJ e Niterói, RJ, nesta com teatro e outros edifícios da série chamada Caminho Niemeyer.
Se muitos deles estão fechados e sem programação à altura, o mesmo não se pode dizer de um antigo projeto de sua autoria enfim concretizado: o Auditório Ibirapuera, edifício que faz par com a Oca no coroamento da praça idealizada pelo arquiteto nos anos 1950 como acesso principal do parque paulista.
Com a retomada do projeto, Niemeyer se envolveu na polêmica sobre a demolição de parte da marquise lindeira às construções. Na queda de braço com o Conpresp (órgão municipal de preservação do patrimônio), o arquiteto preferiu concordar com a manutenção integral da sinuosa cobertura de concreto.
Já Roberto Loeb firmou a linguagem ao mesmo tempo robusta e tecnológica de sua arquitetura enfrentando uma delicada situação urbana. Criou o Centro da Cultura Judaica, em São Paulo, cujo terreno de topografia irregular tem privilegiada vista panorâmica da cidade. O caráter icônico do projeto motivou a comunidade, que, agraciada pela cessão do lote público, angariou doações e viabilizou a construção do edifício.
No campo privado, algumas instituições de ensino, como a PUC/Campinas e o Colégio Santa Cruz, em São Paulo, colocaram em prática as diretrizes de seus planos diretores e incrementaram seus campi através da construção de edifícios. No primeiro caso, os profissionais do Piratininga Arquitetos são os autores da biblioteca central e do ambulatório de fisioterapia, ordenados entre si em forma de praça; no segundo, o teatro concebido por Edson Elito marcou a comemoração do cinquentenário da escola.
No Instituto Butantan, a pequena escala e a verba escassa foram os condicionantes do projeto de Marcio Kogan para o belo Museu de Microbiologia, cuja volumetria pura se desenvolve através de peles treliçadas que recobrem e complementam os limites da edificação existente. O traço racional da arquitetura é também o mote do projeto de Rodrigo Cerviño Lopez para a Galeria Adriana Varejão, localizada no Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, em Brumadinho, MG. O complexo paisagístico - em parte concebido por Burle Marx - e museográfico mineiro, do qual faz parte ainda o Centro Educativo Burle Marx, de Paula Zasnicoff e Alexandre Brasil, é uma das boas surpresas da década.
Ele mescla o turismo ecológico ao cultural, descentralizando o circuito das artes. Ainda em Minas Gerais, Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho assinaram o projeto do Memorial da Imigração Japonesa no Brasil, em Belo Horizonte. Também destaque da década, no sentido de gestão cultural, é a Feira Literária de Paraty, RJ, montada anualmente segundo projeto de tendas desenhado por Mauro Munhoz. Outros espaços culturais que se destacaram nos anos 2000 foram agrupados nesta edição na categoria reciclagem.

As opostas, alças ocas quebradas em chanfro reto, descolam-se progressivamente por fora da mesma parede e geram outro átrio, descoberto, monumentalizando o largo de acesso. O bloco ganha jeito de cabeça de guerreiro. As alças velam-lhe a face feito um elmo, enquanto a ala se recorta evocando placas de armadura sobre o braço estendido.
A riqueza iconográfica não esconde a simplicidade do esquema estrutural de base, que tem eixo de simetria diagonal e contrabalança as alças com balanço oposto, protegendo a doca de descarga e introduzindo floreio, a silhueta de copa que negocia a pendente da colina.
As salas de exposições se rasgam para o átrio coberto surpreendentemente claro com algo da compostura outrora convencional e algo da continuidade espacial tão prezada pela modernidade. A calma visual impera, graças ao detalhamento astuto de rodapés, rodaforros, forros luminosos de vidro jateado e grelhas de ar-condicionado.
Nos parapeitos das salas e das rampas que canalizam a coreografia da descida, os peitoris largos e lustrosos convidam a debruçar-se, a ver e a ser visto. As aberturas se ampliam telescopicamente, enquadrando o rio, o céu, a colina, a península onde Porto Alegre se fundou.
Marco, fortaleza, passadiço, recipiente, mirante, máquina de contemplação e transformação, dispositivo de meditação e mediação, o museu de Siza vivifica a interação de cidade e geografia, enquanto reafirma o valor da tradição arquitetônica culta, com nada de saudade e carradas de caráter.
PS. O Guggenheim de Wright é uma referência óbvia, bem como o Museu do Mundaneum corbusieriano, ambos remetendo em última instância ao zigurate mesopotâmico. O partido equivale a fragmento do museu de pátio central do Schinkel neoclássico em Berlim e do Le Corbusier moderno em Tóquio. É similar ao partido do High Museum de Meier em Atlanta, assim como, curiosamente, ao do volume principal do cassino da Pampulha, hoje reciclado como museu. Vale lembrar que para Siza as plantas em L, U ou anel são recursos disciplinares de validade persistente. As aberturas em forma de lágrima vêm provavelmente de Chandigarh. Conexões plausíveis podem se fazer com os buracos e as passarelas abertas do Sesc Pompeia, ou com as passarelas fechadas entre os ministérios de Brasília e seus anexos. Mais fugaz é a relação com o MAC de Niterói, com sua forma de taça, e mais sutil a retomada da diferença exagerada entre elevações opostas que se encontra no pavilhão brasileiro de Nova York ou no Park Hotel de Nova Friburgo. Ambivalência, ao que parece, é coisa luso-brasileira. A iluminação das dependências de apoio em subsolo lembra a solução da administração do Mube, enquanto os forros luminosos no bloco de exposições têm vago sabor de art déco. Entretanto, não é preciso saber nada disso para usufruir da experiência que Siza proporciona.
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Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional): o Brasil tinha, no final de 2008, cerca de 18 mil meios de hospedagem, com a oferta de 1,1 milhão de quartos (média de 60 por hotel). Eles formam a espinha dorsal das atividades ligadas ao turismo, que, segundo a mesma entidade, representa 4% do Produto Interno Bruto nacional.
Esses números tendem a crescer com a realização da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, e também com a elevação da renda das classes emergentes. E que resposta a arquitetura dará a essa expansão? Vai buscar formas de expressão mais legítimas ou continuará produzindo projetos que poderiam estar tanto no Nordeste do país como no Caribe?
A dúvida é pertinente, entre outros motivos porque a seleção da melhor arquitetura de hotéis da década passada traz apenas um exemplo implantado no Nordeste, justamente uma das regiões mais procuradas pelos turistas. Essa saudável exceção é o hotel Tauana, na praia de Corumbaú, em Prado, no sul da Bahia.
O curioso é que o Tauana foi desenhado por Ana Catarina Ferreira da Silva, arquiteta portuguesa que, acostumada a passar férias no Brasil, sentia falta de opções de hospedagem que valorizassem a arquitetura do país e mostrassem personalidade diferente dos padrões das redes internacionais.
A brasilidade marcante do trabalho de Ana Catarina transparece também no projeto que Miguel e Tagore Pereira (pai e filho) fizeram para a pousada Pedra Grande, na praia do Rosa, em Imbituba, SC. O pavilhão com seis apartamentos (primeira fase do empreendimento), adaptado à inclinação do terreno, emprega cores e materiais construtivos locais, revelando sua inspiração regionalista.
Minas Gerais entra na lista com projetos em Inhaúma e São João del Rei. O primeiro, o Águas do Treme Lake Resort, fica numa fazenda e foi desenhado por André Abreu e Gustavo Rocha. Articulado em torno de pátios internos, o hotel apresenta como referências visuais marcantes a esbelta marquise de acesso em balanço e a torre sineira, uma alusão aos espaços religiosos.
O segundo, um híbrido de pousada e resort, tem o nome de Garden Hill Small Resort. Alexandre Bragança, Osmar Barros e Marcos Aguiar explicam que sua arquitetura é silenciosa e privilegia a comunicação com o exterior. Um campo de golfe e uma residência existentes foram o ponto de partida do projeto, completado com um bloco pavilhonar de dois pavimentos.
O Hotel Fasano no Rio de Janeiro tem o traço do cultuado designer francês Philippe Starck. A edificação encontra-se na curva que demarca o início de Ipanema. A configuração de fachada, concebida por Starck com a colaboração de Eduardo Mondolfo e Cláudia Ruiza, é secionada em ângulo obtuso, acompanhando o traçado da avenida beira-mar e abrindo visuais que vão da pedra do Arpoador até o morro Dois Irmãos, no final do Leblon.
Antes de instalar-se em território carioca, o grupo paulista Fasano já colocara em operação, em São Paulo, a sua unidade pioneira. Localizada nos Jardins, a torre surgiu a quatro mãos: as de Marcio Kogan (arquitetura) e Isay Weinfeld (interiores), arquitetos que têm escritórios independentes mas são parceiros de longa data. Externamente, o prédio é uma colagem de referências diversas, mesclando protomodernismo, art déco, minimalismo e detalhes de antigas edificações.
Também nos Jardins e próximo da torre do Fasano está outro hotel de alto padrão: o Emiliano. A construção, originalmente projetada como edifício de apartamentos, foi recriada pelo arquiteto Arthur Casas para transformar-se em edifício para hospedagem. A mudança de uso só foi decidida depois de pronta a estrutura, o que, segundo Casas, tornou a tarefa mais trabalhosa.
O circuito paulistano de hotéis de luxo/Jardins completa-se com o Unique. A emblemática nau de cobre, concreto e madeira que flutua sobre jardim de pedra foi desenhada por Ruy Ohtake, reunindo elementos que o consagraram como um dos expoentes da arquitetura brasileira (curvas e empenas de concreto) e inovações, das quais são exemplo a caixilharia e o revestimento de cobre.
A outra categoria de hotéis, a de negócios, pertence o Anhembi Holiday Inn, em São Paulo. Localizado na zona norte, o edifício foi, durante quase 30 anos, um esqueleto que assombrava o Parque Anhembi. Miguel Juliano assina o projeto do hotel, volume retangular que se destaca pelo fechamento em chapa metálica amarela pré-fabricada e material acústico.
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A loja-conceito da Forum concebida por Isay Weinfeld, na rua Oscar Freire, foi um símbolo do processo de consolidação dos Jardins como epicentro do luxo em São Paulo. O espaço mescla o rigor formal com elementos contrastantes - a parede de taipa de pilão e a escadaria de pastilhas de vidro em intenso vermelho -, e o resultado é um híbrido de monumentalidade e singeleza.
A partir dessa época, as lojas do entorno passaram por repaginações periódicas, mas a arquitetura da Forum permanece imutável. O projeto também consolidou Weinfeld - na ocasião, já um experiente projetista - como o grande protagonista dos interiores brasileiros da década.
Poucos anos depois ele concebeu a vizinha Clube Chocolate, multimarcas de origem carioca que ganhou linguagem tropical ambientada por palmeiras e muita madeira. Também Marcio Kogan dava continuidade à parceria com a confecção Uma, desenhando a loja do Shopping Higienópolis, em São Paulo.
O projeto associou a visualidade etérea da fachada em policarbonato translúcido com o viés tecnológico da iluminação dinâmica e colorida. Algo similar à essência minimalista da Jefferson Kulig na rua Bela Cintra, criada em parceria por Camila Fabrini e Marta Moreira, um singelo exemplo da linha afeita ao moderno paulista - de que são modelos os projetos de Aurelio Martinez Flores e da dupla José Alves e Juliana Llusá paras as lojas de móveis Montenapoleone e Llusá Marcenaria.
São volumes suspensos, em balanço ou com apoio central, aos quais se somam superfícies revestidas, iluminação cenográfica e objetos de design, e tem-se a variante das lojas com dose extra de sofisticação. É o caso ainda, em São Paulo, do showroom de móveis e esquadrias Rimadesio Cinex, criado pela equipe da Decoma Design; da loja de móveis Micasa, de autoria do estúdio Triptyque; e da Mandi, projeto de Gui Mattos.
Outra vertente foi a de enfoque no design expositivo, como a pioneira Graça Ottoni, de Benedito Fernando Moreira; a World Wine, de Couto e Vasconcelos Arquitetura; e mais recentemente a loja das Havaianas, concebida por Weinfeld. Nesse aspecto, as livrarias protagonizaram um caso à parte na década.
Das intimistas lojas de rua do início da década, como a Mille Foglie, de Cecília Vicente de Azevedo, às novas unidades da Livraria Cultura no Conjunto Nacional, projeto de Fernando Brandão, deram a virada para a parceria leitura/entretenimento.
Já a paulista Livraria da Vila ganhou projetos sofisticados de Weinfeld - nos Jardins e no Shopping Cidade Jardim -, que encontram correspondência na elegância e circunspecção da proposta de Bel Lobo para a Livraria da Travessa, no Shopping Leblon, no Rio. Prevaleceu na arquitetura corporativa a solução do espaço total, por vezes integrando de fato, por vezes apenas sugerindo a união dos ambientes.
No início da década, André Vainer e Guilherme Paoliello assumiram o partido industrial do galpão em que foi implantada a agência de publicidade Neogama, em São Paulo, deixando à mostra as instalações, a cobertura de telha ondulada e a elevada altura interna.
Os mezaninos com que setorizaram o programa ocuparam volumes autônomos e envidraçados, ora intercalados a superfícies coloridas que contrabalançam a aparência impessoal da arquitetura. Ao longo da década, os escritórios de publicidade acabaram por dar vida à vertente cenográfica dos interiores corporativos, nas suas variantes do tecnológico ao fluido, à linguagem orgânica.
Destacam-se a profusão de vidros curvos e coloridos, os contrastes intensos de tonalidades, de matiz ou de texturas dos materiais, características presentes nos projetos da Francis-SP e da agência Y&R, ambos do NPC Grupo Arquitetura, e na MatosGrey, de Rocco Associados.
Também marcantes são a visualidade purista do projeto do escritório carioca Bernardes & Jacobsen Arquitetura para a agência MPM, em São Paulo, e a arquitetura orgânico paulista da agência Loducca nos Jardins, concebida pelo Triptyque. Na primeira a madeira é protagonista, empregada com rigor geométrico, enquanto na segunda misturam-se as superfícies de concreto aparente com o invólucro sinuoso de madeira da fachada.
Nos anos derradeiros da década, a sustentabilidade entrou na pauta da arquitetura corporativa, sendo exemplos os projetos de Betty Birger para a sede administrativa da Organização Odebrecht, no edifício Eldorado Business Tower, preparado para receber certificação Leed e de Moema Wertheimer para a Boehringer Ingelheim Brasil, ambos localizados em São Paulo.
A gastronomia foi pauta recorrente na década. Em meio à profusão de restaurantes, bares sofisticados ou despretensiosos, padarias e cafés com ares de armazém, iogurterias, sorveterias, frutarias para a longa permanência, chefes festejados, além de espaços para culinárias regionais, os anos 2000 viram o surgimento de inúmeros restaurantes.
A Figueira Rubaiyat, em São Paulo, e o Gero no Rio de Janeiro, de Fernando Iglesias e Aurelio Martinez Flores, respectivamente, simbolizam o contraponto à efemeridade de muitos dos empreendimentos gastronômicos, permanecendo na ordem do dia em virtude do aspecto atemporal da relação entre o construído e o natural no Rubaiyat e do misto de rigor artesanal e frescor da arquitetura de Flores.
De modo análogo, o projeto de André Vainer e Marcelo Ferraz para o restaurante e choperia do Sesc Pompeia destaca-se tanto pelo caráter histórico do diálogo com a arquitetura de Lina Bo Bardi, como pela coerência do conceito de espaço coletivo e produção seriada.
Mauro Munhoz flertou com a linguagem dos projetos residenciais na volumetria e na espacialidade da Hamburgueria Nacional, localizada em São Paulo, reproduzindo os grandes panos do telhado em água e a proporção horizontal recorrentes nas casas de sua autoria.
Também veio a público a veia espacial do designer e arquiteto Carlos Motta, autor do projeto da pizzaria Quintal do Brás, onde a exuberância da vegetação no pátio posterior faz lembrar a parede verde que Arthur Casas colocou em destaque no restaurante Kaá, de culinária contemporânea.
Por outro lado, foi vasto nos últimos dez anos o panorama estético dos restaurantes de comida japonesa, desde o mais tradicional Kosushi, também de Arthur Casas, até o pop Shimo, de Marcelo Rosenbaum.
Este buscou inspiração na atual visualidade urbana do Japão, iniciativa adotada também em vertente de projetos baseados no resgate de regionalismos gastronômicos e culturais. É o caso, por exemplo, do restaurante Dalva e Dito, criado por Rosenbaum para o chefe Alex Atala.
No extremo do design total dos espaços para a alimentação, os estúdios Mattar Design e Seragini Farné Guardado foram da escala do objeto à arquitetônica na concepção, respectivamente, da comedoria do Sesc Santana e do café Octavio, cuja volumetria arquitetônica deriva do símbolo criado para a marca.
Das boates inauguradas na década, a Disco, em São Paulo, teve projeto de Weinfeld. Recentemente reformulada, mantém o partido de longos percursos e superfícies brilhantes contrapostas à visualidade predominantemente escura dos revestimentos.
A Club Nox, de Metro Arquitetura e Juliano Dubeux, no Recife, e a mineira Roxy, de Fred Mafra, são representativas da vertente da arquitetura líquida, de espacialidade mutante, enquanto a Stereo, de Marco Domini, e a D-Edge (recentemente ampliada com projeto de Muti Randolph em parceria com Triptyque) marcaram a retomada boêmia do bairro paulistano da Barra Funda. Assim como fez o projeto de Eduardo Chalabi para o bar Volt, na baixa Augusta.
Edição 371 Janeiro de 2011
e Marcelo Ferraz
Carlos Motta
A década que vivenciou o apogeu e a queda do neoclássico na elite do mercado imobiliário residencial paulistano - o maior do país - foi marcada, por outro lado, por uma espécie de reação silenciosa a esse tipo de projeto. Neste lado do campo de batalha ficaram projetos de apartamentos concebidos por veteranos, como a generosamente avarandada torre Breeze, da equipe de Aflalo & Gasperini Arquitetos, e o híbrido edifício Site, da dupla Eduardo Martins Ferreira e Jaime Cupertino.
Soma-se a esse grupo um desenho de Isay Weinfeld, que deu as caras com um retrofit que metamorfoseou uma construção comercial em residencial de luxo, transformando- a no edifício Panorama. Contudo, a produção diferenciada nos edifícios residenciais paulistanos coube à ação de empresários à frente de uma pequena construtora e uma imobiliária.
Os resultados, que deverão ficar mais claros na próxima década, já são visíveis em projetos de Gui Mattos e do escritório Andrade Morettin, que criaram na escala intermediária os apartamentos diversificados, e com linguagem de loft, dos edifícios 4x4 e Aimberê 1749, respectivamente.
O virtuosismo desses projetos, ao tirarem o máximo proveito de lotes residuais, foi também o mote de uma série de vilas e condomínios residenciais construídos ao longo dos anos 2000.
Entre eles, podemse citar o pequeno condomínio Oiapoque, do escritório Vista Arquitetura, formado por duas casas sobrepostas; os conjuntos residenciais Vila Taguaí, em Carapicuíba, SP, e Vila Fidalga, na capital paulista, ambos de Cristina Xavier, que realizou experiências técnicas e trabalhou com materiais ambientalmente corretos; e o pioneiro Espaço Móbile II, de Mauro Munhoz, localizado numa nesga de terreno em aclive no bairro do Morumbi, em São Paulo.
No campo da habitação de interesse social, o escasso panorama do início da década foi pontuado por projetos como o do condomínio residencial de Joan Villà e Sílvia Chile para uma área de transição rural/urbana em Cotia, SP.
Mas existe o alento de uma mudança para os próximos anos, com o aporte de recursos via financiamento governamental. Resta saber se teremos arquitetura de qualidade ou casas de subúrbio com duas águas.
Por enquanto, o início desse processo pode ser observado em projetos como a pouco usual moradia de aluguel para a terceira idade, a Vila dos Idosos, de autoria do escritório Vigliecca Associados, assim como na série de intervenções ainda em curso em Paraisópolis (trabalho coordenado pela Secretaria Municipal da Habitação) visando a urbanização e o adensamento habitacional dessa imensa favela na zona sudoeste de São Paulo.
Os projetos arquitetônicos contemplaram soluções específicas para cada área de atuação, como os edifícios laminares da equipe de Edson Elito. A intenção de propor soluções diversificadas para a habitação social levou a prefeitura a avaliar propostas feitas por arquitetos estrangeiros.
O intercâmbio internacional de ideias, aliás, levou Paulo Mendes da Rocha a Madri, onde é autor de um dos edifícios de esquina de uma área de expansão planejada da cidade, a chamada Ensanche de Vallecas.

Trata-se de um projeto que revela o domínio de seus autores sobre o problema habitacional, resultado de anos de investigação, e a coragem e a disposição para enfrentar a realidade. Por um lado, tomam como matéria-prima formal a própria realidade social, conseguindo transformar essa aceitação resoluta do insolúvel em uma proposta estética; por outro, desafiam toda a lógica dos investimentos imobiliários.
A criatividade da proposta começa na disposição dos arquitetos para o enfrentamento da questão das ocupações irregulares das franjas urbanas não como um problema, mas como uma solução empenhada em favor daqueles a quem o Estado não deu nenhuma opção.
Implantados em um bairro popular, com loteamentos de infraestrutura precária, onde despontam algumas tentativas espontâneas de requalificar o lugar, os três blocos de sobrados geminados (no total, 24 unidades de 62 metros quadrados, mais 32 metros quadrados de terraço coberto), dispostos em patamares sucessivos segundo a topografia, configuram-se como um ponto de inflexão na paisagem. As vias de circulação no interior do conjunto foram projetadas considerando o acesso exclusivo de pedestres, de modo a integrá-las aos espaços de convívio e lazer e minimizar a entrada de veículos, para os quais foi delimitada uma área de estacionamento junto à rua.
Em respeito à organização social intuitiva, o programa se distribui em dois andares, com sala e cozinha no térreo, dois dormitórios e um banheiro no primeiro pavimento, e um terraço na cobertura, protegido por uma cobertura metálica que permite o uso mais intenso dessa área, extremamente característico da cultura brasileira, bem como garante maior conforto térmico à moradia.
A tipologia proposta funde as questões teóricas e os aspectos construtivos em uma manifestação de grande significado, que expõe o verdadeiro arquétipo da construção popular brasileira, aquele princípio lógico e imutável expresso através de uma forma que é a própria essência da cultura de se viver neste país. Inspirado na singularidade das coisas evidentes, Villà e Chile conseguiram consumar nesta obra a noção histórica da busca da essência da forma, teorizada por Aldo Rossi como crítica tipológica.
Naturalmente que, construído como um condomínio isolado, ele perde o caráter dado pelas constrições da ocupação irregular, mas dá um passo importante para o enfrentamento das imposições do mercado imobiliário e da indústria da construção civil, levando qualidade arquitetônica a qualquer construção.
Edição 371 Janeiro de 2011



Em contraponto ao déficit habitacional brasileiro, que lentamente começa a diminuir graças a programas como o Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, a residência unifamiliar ainda é um ícone de consumo. Nesse campo arado para a materialização de sonhos individuais, a arquitetura contemporânea também tem sua vez, exprimindo, entre outras coisas, a atualidade e o requinte estilístico de seus proprietários.
Por isso, mesmo que o contexto brasileiro seja repleto de castelos e choupanas, a casa continua a ser o grande laboratório da nossa arquitetura, com resultados, em média, mais significativos do que os de outros programas. A falta de segurança levou grande parte das casas construídas na década passada aos terrenos em condomínios fechados, que dividem as periferias das grandes cidades com as áreas pobres.
São poucas as residências em lotes urbanos - tal como a casa no Morumbi, São Paulo, desenhada por Brasil Arquitetura. Marcada por uma laje curva de concreto aparente e treliças de madeira, a construção integra a trajetória do escritório, que desenvolve projetos em que a apropriação de elementos regionais se associa a pormenores caros à linguagem da arquitetura brasileira. Na década, o estúdio criou ainda as casas em Cotia e na Finlândia, ambas com grandes telhados com inclinações no sentido maior dos volumes, em uma solução que remete a Alvar Aalto.
Ainda na área urbana, podemos elencar uma série de projetos de Thiago Bernardes e Paulo Jacobsen, como a residência próxima do parque Ibirapuera, em São Paulo.
Notabilizados pelo desenho de casas enormes, dentro e fora das cidades, os autores respondem a uma clientela sofisticada com propostas apuradas no uso dos materiais e, de certa forma, conectadas à história da arquitetura brasileira.
Com demanda semelhante, mas em outra vertente, estão as casas desenhadas por Isay Weinfeld e Marcio Kogan, independentemente. Weinfeld, por exemplo, é autor de uma residência na zona oeste de São Paulo que se destaca pela justaposição de materiais e volumes, com destaque para o ambiente interno.
Kogan criou dezenas de trabalhos interessantes no período, com destaque para a casa em Paraty, RJ, com dois volumes de concreto que parecem flutuar sobre a mata atlântica, à beira da praia.
Grande parte da manifestação arquitetônica do período se desenvolve fora do ambiente urbano. São casas de final de semana, na praia, campo ou montanha. Entre as residências em meio rural, destaca- se o anexo de uma fazenda em Barra de São João, RJ, de Pedro Backheuser.
Implantada em Camanducaia, na zona montanhosa entre São Paulo e Minas Gerais, a casa desenhada por Marcos Acayaba revela extrema sensibilidade, ao utilizar pedras locais e tijolos a fim de movimentar o menor volume de terra possível.
Ainda em região montanhosa, a Casa Grelha, na serra da Cantareira, adota uma grelha para acomodar-se à topografia. O projeto é do escritório FGMF. Também recorre aos volumes fragmentados cobertos por grelha de madeira a casa em Brotas, SP, de Andrade Morettin.
O uso da estrutura de madeira como elemento definidor esteve em menor evidência que nos anos 1990. Contudo, além dos exemplos citados, encontram-se as propostas de Mauro Munhoz e dos irmãos Nitsche.
Enquanto o primeiro desenvolveu projetos em Itu, SP, e Gonçalves, MG, Lua e Pedro criaram casas na praia, como as de São Sebastião. À parte o emprego da madeira, revela-se outro elemento comum aos quatro trabalhos: os volumes pavilhonares.
Trata-se de uma tendência da arquitetura residencial brasileira, não importa o material, a cobertura ou a estrutura utilizada: pode ser de concreto, como a casa em São Luiz do Paraitinga, SP, de Cláudio Libeskind e Sandra Llovet; ou de concreto e aço, fragmentada e com vazios, como a de Avaré, SP, de Andrade Morettin.
Há ainda pavilhões de pedra, como as residências em Nova Friburgo, RJ, de Carla Juaçaba, e em Joanópolis, SP, do Una Arquitetos. Derivada dos pavilhões, a casa em monobloco é tendência que também independe de materiais ou tipo de estrutura.
Nesse contexto estão a residência em Curitiba, também do Una; a casa no bairro paulistano do Butantã, de Eduardo de Almeida; a morada em Aldeia da Serra, SP, do Estúdio 6; a casa no morro do Querosene, São Paulo, de Álvaro Puntoni e equipe; ou ainda aquela em Nova Lima, MG, de Gustavo Penna.
Em todos esses trabalhos, destaca-se a maneira como os autores recortam e criam vazios, injetando interesse nos volumes puros propostos.
Na década passada, uma série de autores arriscou a associação de estruturas de concreto e aço. Encaixam-se aqui propostas de Andrade Morettin, como as casas em São Roque, SP, e no bairro do Jardim Europa, na capital paulista.
Na mesma linha caminham o projeto no Guarujá, litoral paulista, assinado pelos irmãos Nitsche, e diversas casas desenhadas por André Vainer e Guilherme Paoliello, como a do Alto da Lapa, em São Paulo, fragmentada em dois blocos interligados por um passadiço.
A divisão em volumes também é o mote da residência em Itu, SP, de Reinach Mendonça, e da casa na praia de Guaecá, São Sebastião, SP, de Biselli e Katchborian - nesta, no entanto, a composição é justaposta.
A ousadia formal, contudo, diante dos pavilhões e volumes monolíticos, não é muito comum nas casas brasileiras. No entanto, projetos como a Casa Fatia, em Porto Alegre, de Fernando Rihl e Christopher Procter, trazem novidades para o caldo arquitetônico brasileiro.
Também mostram interessante solução volumétrica a casa em Araçoiaba da Serra, SP, na qual Renata Furlanetto e Flávia Cancian lançam mão de uma fita contínua para definir o partido; a residência em Nova Lima, de Fernando Maculan e Pedro Morais; e a casa em São Pedro, SP, de Eduardo de Oliveira Rosa.
A pesquisa formal desses autores tem em comum certo distanciamento de uma tendência arquitetônica forte, que dá continuidade à expressão da escola paulista de Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha.
Entre os que desta se aproximam está o escritório MMBB, autor, entre outras, da casa na Vila Romana, em São Paulo, e co-autor de projetos com Angelo Bucci, como as residências em Ribeirão Preto, interior paulista, e Aldeia da Serra, em Barueri, SP.
Bucci, aliás, pode ser apontado como o autor de alguns dos projetos mais significativos do período, como as casas em Ubatuba, SP, e Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Junto com Álvaro Puntoni, ele projetou também a residência em Carapicuíba, SP, escolhida o projeto residencial mais expressivo da década passada.
Renata Furlanetto e Flávia Cancian
Angelo Bucci

Ao longo da década de 2000, Angelo Bucci e Álvaro Puntoni projetaram, em parceria ou individualmente, uma dezena de casas. São, todas elas, altamente representativas da produção arquitetônica brasileira contemporânea, por razões diversas.
A principal delas: casas como as projetadas por Bucci e Puntoni foram protagonistas do evento que, a meu juízo, define a arquitetura brasileira atual: a rentrée da produção nacional no cenário internacional. Era mais ou menos previsível, portanto, que, cedo ou tarde, alguém acabasse afirmando - como fez Frédéric Edelmann, crítico do jornal Le Monde - algo como “é das habitações privadas, ricas ou pobres, que renasce hoje, com a mesma chama, o samba feliz da arquitetura brasileira”.
A afirmação de Edelmann pode ser constrangedora, mas não deixa de ser útil. Afinal, nem tudo o que se produziu e, sobretudo, publicou na década de 2000 (em especial, as casas) é equivalente. Nada mais oportuno, portanto, do que um balanço retrospectivo para procurar separar a turma do “samba feliz da arquitetura brasileira” do grupo de arquitetos que vive a braços com a árdua tarefa de produzir arquitetura de qualidade.
Bucci e Puntoni pertencem a este grupo seleto, como comprova a casa em Carapicuíba. Por falta de espaço, restrinjo-me a comentar um único aspecto do projeto: a relação que aqui se estabelece entre lógica estrutural e espacialidade. Como bons arquitetos brasileiros que são, os autores deram, aqui, enorme atenção ao desenho da estrutura. Sua operação, no entanto, não se restringe à glosa de alguns dos principais padrões estruturais da arquitetura moderna brasileira.
Por certo, esses padrões estão presentes no projeto em questão - notadamente, dois deles: a exiguidade do número de pontos de apoio (no caso, dois grandes pilares de seção cilíndrica que põem de pé o volume que encima a composição); e o lançamento de pórticos estruturais destinados a pendurar lajes de cobertura e de piso (no caso, dois pórticos paralelos e de seção retangular que atirantam as lajes de cobertura e de piso dos demais espaços habitáveis).
O essencial da operação não radica todavia aí, senão na exploração dos efeitos plásticos e espaciais da inusitada justaposição desses dois gestos estruturais, os quais são aqui tratados - e isto é o essencial - como duas entidades minimamente autônomas.
Dizer que a espacialidade do projeto coincide com ou decorre da estrutura é, no caso, dizer pouco. Pois ela é a resultante “híbrida” (para usar uma palavra da moda) da justaposição de entidades estruturais não apenas dotadas de morfologias e lógicas próprias, mas também geradoras de espacialidades próprias.
A qualidade formal/espacial do projeto está, pois, menos na justaposição dos elementos construídos que na colisão dos espaços (dos vazios) que cada uma das entidades estruturais mobilizadas individualmente gera. O rendimento dessa poética - ainda incipiente na casa de Carapicuíba - é perceptível em projetos posteriores da dupla, sobretudo em Bucci, que fez dela um dos eixos temáticos de sua pesquisa projetual.
Para onde essa arquitetura aponta? É cedo para dizer. São, ambos, arquitetos ainda jovens, em pleno gozo do sucesso e do reconhecimento público, internacional inclusive; parecem, em todo caso, empenhados em dar o “passo à frente” que lhes era cobrado nas páginas desta mesma PROJETO, lá se vão 20 anos. Caberá a ambos não esquecer que projetar é uma atividade de risco. Na melhor das hipóteses, quero dizer. Na pior, por estas plagas, é um seguir “ecoando o samba feliz da arquitetura brasileira”.
Edição 371 Janeiro de 2011



