12ª Bienal de Arquitetura de Veneza
As Pessoas se Encontram na Arquitetura
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- 08 de Dezembro de 2010. Visitas: 7.450
O presidente da Bienal de Veneza, Paolo Baratta, alertou aos participantes da cerimônia de abertura que é tempo de desacelerar e aguçar a sensibilidade. “A bienal de Kazuyo Sejima resgata a fé serena na arquitetura”, afirmou o italiano, referindo-se ao tom conceitual, artístico da mostra.
Sejima delegou curadorias individuais a arquitetos, artistas e engenheiros, que tiveram à sua disposição ambientes generosos, no galpão Arsenale, a fim de manifestarem com liberdade suas ideias acerca da essência da arquitetura. No lugar das tradicionais e densas representações gráficas, das maquetes de edifícios e áreas urbanas, o evento com sotaque japonês trouxe à cena uma série de instalações abstratas.
Dos prêmios conferidos pelo júri, o Leão de Ouro para o melhor projeto da exposição foi sintomaticamente conferido ao jovem arquiteto japonês Junya Ishigami. De tão frágil, seu trabalho, intitulado Arquitetura como Ar: Estudo para o Château La Coste, teve de ser refeito duas vezes já na iminência da abertura do evento: primeiro, pelo tropeço de gatunos desavisados; na sequência, pela instabilidade da estrutura remontada às pressas.
Fios delgados de náilon delimitam o espaço expositivo de Ishigami, que situa sua linguagem arquitetônica no limite da invisibilidade. Questionado sobre a importância do minimalismo para a sua produção, o arquiteto disse que a abstração era o seu fio da meada, embora tenha citado Mies van der Rohe e Le Corbusier como grandes mestres e fontes de inspiração.
A pergunta sobre referências profissionais foi repetida meia centena de vezes pelo crítico de arte e arquitetura Hans Ulrich Obrist, para os arquitetos - e o cineasta alemão Wim Wenders - entrevistados numa maratona de seis dias, durante os preparativos para a bienal.
Inspirado em trabalho anterior de Obrist e do arquiteto holandês Rem Koolhaas (Maratona de Entrevistas de 24 Horas, na galeria londrina Serpentine, em 2006), o projeto pode ser conferido no Arsenale, no espaço concebido pelo próprio Sanaa ou no site www.labiennalechannel.org.
Agraciado com o Leão de Ouro pelo conjunto da obra, prêmio máximo da bienal, Koolhaas também foi um dos entrevistados de Obrist. Ele discorreu sobre arquitetura e preservação, o tema de sua mostra individual no evento. E citou a bienal de 1980, cuja curadoria de Paolo Portoghesi teve como tema A Presença do Passado, como a primeira exposição em que seu escritório, o OMA (fundado em 1975), abordou a relação com épocas anteriores.
Para Koolhaas, que selecionou 32 projetos para apresentar ao público em Veneza, é cada vez menor o ciclo da criação e conservação do patrimônio arquitetônico e urbano, no limite do que denomina preservação antecipatória: já no instante da criação se determina o que será ou não objeto de salvaguarda ao longo do tempo.
Bem articulado, o arquiteto criticou nas entrelinhas a fragilidade da arquitetura contemporânea, referindo-se à economia de meios demandada pelo mercado como causa da efemeridade da produção atual. “Os materiais são frágeis”, disse, emendando a esse comentário a observação de que os arquitetos têm cada vez mais glamour e menos relevância.
Integra sua mostra um painel retrospectivo com capas que a revista norte‑americana Time dedicou a arquitetos. A última delas foi com Philip Johnson em 1979, apontou Koolhaas, enfatizando a crescente irrelevância dos arquitetos no mundo dos negócios. Por outro lado, o próprio Koolhaas foi apontado pela mesma publicação, em 2008, como uma das cem pessoas mais influentes do mundo.
O holandês compartilhou simbolicamente o Leão de Ouro, in memoriam, com o arquiteto Kazuo Shinohara (1925-2006), destacado pelo júri por sua importância no estabelecimento da arquitetura moderna japonesa.
O Leão de Ouro de melhor participação nacional foi para o Bahrein, graças à autoanálise que apresentou sobre as mudanças que têm afligido sua região costeira.
As demais menções e premiações da Bienal de Veneza podem ser conferidas no site www.labiennale.org.
O Brasil participou do evento com a mostra 50 Anos Depois de Brasília, instalada no pavilhão nacional, sob a curadoria de Ricardo Ohtake e com trabalhos de profissionais nascidos depois da inauguração da capital brasileira. A bienal ficou aberta ao público até 21 de novembro.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 368 Outubro de 2010
o Leão de Ouro pela melhor mostra da bienal. São
delgados fios de náilon que constroem o espaço
expositivo, quase invisível
pelo conjunto da obra
relação da arquitetura com a
preservação do patrimônio


