12ª Bienal de Arquitetura de Veneza

As Pessoas se Encontram na Arquitetura

São duas vigas de concreto que se estendem na largura total da sala, aparentemente apoiadas por uma pedra e uma mola helicoidal.
Instalação de Anton Garcia-Abril e Studio Ensamble, da Espanha, é resultado da ação conjunta de arquitetos, engenheiros e músicos. São duas vigas de concreto que se estendem na largura total da sala, aparentemente apoiadas por uma pedra e uma mola helicoidal.
Bienal de Sejima premia a abstração e Rem Koolhaas
Curadora da 12ª Bienal de Arquitetura de Veneza, Kazuyo Sejima investiga na mostra principal - com o tema As Pessoas se Encontram na Arquitetura - o discurso cultural da arquitetura na sociedade contemporânea e seus simbolismos inerentes. A exposição tem atmosfera etérea e plástica, antropológica e por vezes artesanal, com direção de arte assinada por Ryue Nishizawa, parceiro de Sejima no escritório Sanaa e vencedor, junto com ela, do Pritzker de 2010.

O presidente da Bienal de Veneza, Paolo Baratta, alertou aos participantes da cerimônia de abertura que é tempo de desacelerar e aguçar a sensibilidade. “A bienal de Kazuyo Sejima resgata a fé serena na arquitetura”, afirmou o italiano, referindo-se ao tom conceitual, artístico da mostra.

Sejima delegou curadorias individuais a arquitetos, artistas e engenheiros, que tiveram à sua disposição ambientes generosos, no galpão Arsenale, a fim de manifestarem com liberdade suas ideias acerca da essência da arquitetura. No lugar das tradicionais e densas representações gráficas, das maquetes de edifícios e áreas urbanas, o evento com sotaque japonês trouxe à cena uma série de instalações abstratas.

Dos prêmios conferidos pelo júri, o Leão de Ouro para o melhor projeto da exposição foi sintomaticamente conferido ao jovem arquiteto japonês Junya Ishigami. De tão frágil, seu trabalho, intitulado Arquitetura como Ar: Estudo para o Château La Coste, teve de ser refeito duas vezes já na iminência da abertura do evento: primeiro, pelo tropeço de gatunos desavisados; na sequência, pela instabilidade da estrutura remontada às pressas.

Fios delgados de náilon delimitam o espaço expositivo de Ishigami, que situa sua linguagem arquitetônica no limite da invisibilidade. Questionado sobre a importância do minimalismo para a sua produção, o arquiteto disse que a abstração era o seu fio da meada, embora tenha citado Mies van der Rohe e Le Corbusier como grandes mestres e fontes de inspiração.

A pergunta sobre referências profissionais foi repetida meia centena de vezes pelo crítico de arte e arquitetura Hans Ulrich Obrist, para os arquitetos - e o cineasta alemão Wim Wenders - entrevistados numa maratona de seis dias, durante os preparativos para a bienal.

Inspirado em trabalho anterior de Obrist e do arquiteto holandês Rem Koolhaas (Maratona de Entrevistas de 24 Horas, na galeria londrina Serpentine, em 2006), o projeto pode ser conferido no Arsenale, no espaço concebido pelo próprio Sanaa ou no site www.labiennalechannel.org.

Agraciado com o Leão de Ouro pelo conjunto da obra, prêmio máximo da bienal, Koolhaas também foi um dos entrevistados de Obrist. Ele discorreu sobre arquitetura e preservação, o tema de sua mostra individual no evento. E citou a bienal de 1980, cuja curadoria de Paolo Portoghesi teve como tema A Presença do Passado, como a primeira exposição em que seu escritório, o OMA (fundado em 1975), abordou a relação com épocas anteriores.

A ideia é questionar o limite tênue entre a autodestruição e um futuro positivo
A ideia é questionar o limite tênue entre a autodestruição e um futuro positivo
O Studio Mumbai Arquitetos recebeu menção especial pelo ambiente imersivo do ateliê que montaram em Veneza
O Studio Mumbai Arquitetos recebeu menção especial pelo ambiente imersivo do ateliê que montaram em Veneza
A participação dos arquitetos belgas do Vylder Vinck Taillieu trata das variantes do projeto arquitetônico
A participação dos arquitetos belgas do Vylder Vinck Taillieu trata das variantes do projeto arquitetônico
O Leão de Prata de atuação promissora foi dado ao escritório Office, de Kersten Geers e David van Severe, em colaboração com o fotógrato Bas Princen
O Leão de Prata de atuação promissora foi dado ao escritório Office, de Kersten Geers e David van Severe, em colaboração com o fotógrato Bas Princen. O júri destacou sua habilidade em utilizar a análise fotográfica como parte do processo criativo
A instalação de Matthias Schuler (Transolar) e Tetsuo Konda representa uma nuvem e fala sobre a mutabilidade do espaço
A instalação de Matthias Schuler (Transolar) e Tetsuo Konda representa uma nuvem e fala sobre a mutabilidade do espaço

Para Koolhaas, que selecionou 32 projetos para apresentar ao público em Veneza, é cada vez menor o ciclo da criação e conservação do patrimônio arquitetônico e urbano, no limite do que denomina preservação antecipatória: já no instante da criação se determina o que será ou não objeto de salvaguarda ao longo do tempo.

Bem articulado, o arquiteto criticou nas entrelinhas a fragilidade da arquitetura contemporânea, referindo-se à economia de meios demandada pelo mercado como causa da efemeridade da produção atual. “Os materiais são frágeis”, disse, emendando a esse comentário a observação de que os arquitetos têm cada vez mais glamour e menos relevância.

Integra sua mostra um painel retrospectivo com capas que a revista norte‑americana Time dedicou a arquitetos. A última delas foi com Philip Johnson em 1979, apontou Koolhaas, enfatizando a crescente irrelevância dos arquitetos no mundo dos negócios. Por outro lado, o próprio Koolhaas foi apontado pela mesma publicação, em 2008, como uma das cem pessoas mais influentes do mundo.

O holandês compartilhou simbolicamente o Leão de Ouro, in memoriam, com o arquiteto Kazuo Shinohara (1925-2006), destacado pelo júri por sua importância no estabelecimento da arquitetura moderna japonesa.

O Leão de Ouro de melhor participação nacional foi para o Bahrein, graças à autoanálise que apresentou sobre as mudanças que têm afligido sua região costeira.

As demais menções e premiações da Bienal de Veneza podem ser conferidas no site www.labiennale.org.

O Brasil participou do evento com a mostra 50 Anos Depois de Brasília, instalada no pavilhão nacional, sob a curadoria de Ricardo Ohtake e com trabalhos de profissionais nascidos depois da inauguração da capital brasileira. A bienal ficou aberta ao público até 21 de novembro.



Texto de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 368 Outubro de 2010
Instalação representa uma nuvem e fala sobre a mutabilidade do espaço
Instalação representa uma nuvem e fala sobre a mutabilidade do espaço
Smiljan Radic e Marcela Correa exibem uma grande pedra, escavada para abrigar uma pessoa.
Smiljan Radic e Marcela Correa exibem uma grande pedra, escavada para abrigar uma pessoa. O trabalho faz referência ao tremor de terra que ocorreu no Chile
Portugal trouxe a Veneza projetos de Manuel e Francisco Aires Mateus, Ricardo Gordon, Carrilho da Graça e Álvaro Siza
Também recebeu menção especial a instalação Decay of a Dome, da equipe Amateur Architecture Studio, pela agilidade com que a estrutura pode ser montada e desmontada
Também recebeu menção especial a instalação Decay of a Dome, da equipe Amateur Architecture Studio, pela agilidade com que a estrutura pode ser montada e desmontada
A mostra do Pavilhão da Itália é intitulada Ailati. Reflexões do Futuro. Com curadoria de Luca Molinari e parceria da revista de tecnologia Wired, ela examina em conjunto o passado, presente e possivel futuro da arquitetura italiana
A mostra do Pavilhão da Itália é intitulada Ailati. Reflexões do Futuro. Com curadoria de Luca Molinari e parceria da revista de tecnologia Wired, ela examina em conjunto o passado, presente e possivel futuro da arquitetura italiana
O Pavilhão do Brasil teve a curadoria de Ricardo Ohtake e o tema 50 Anos Depois de Brasília
O Pavilhão do Brasil teve a curadoria de Ricardo Ohtake e o tema 50 Anos Depois de Brasília
O crítico de arte suíço Hans Ulbrich Obrist montou um set de filmagens no Arsenale e entrevistou meia centena de arquitetos e o cineasta Wim Wenders, que falou sobre suas referências artísticas
O crítico de arte suíço Hans Ulbrich Obrist montou um set de filmagens no Arsenale e entrevistou meia centena de arquitetos e o cineasta Wim Wenders, que falou sobre suas referências artísticas
Hans Ulbrich Obrist
Hans Ulbrich Obrist
Arquitetura como Ar, do japonês Junya Ishigami, recebeu o Leão de Ouro pela melhor mostra da bienal. São delgados fios de náilon que constroem o espaço expositivo, quase invisível
Arquitetura como Ar, do japonês Junya Ishigami, recebeu
o Leão de Ouro pela melhor mostra da bienal. São
delgados fios de náilon que constroem o espaço
expositivo, quase invisível
Koolhaas recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da obra.
Koolhaas recebeu o Leão de Ouro
pelo conjunto da obra
Sua exposição na bienal trata da relação da arquitetura com a preservação do patrimônio
Sua exposição na bienal trata da
relação da arquitetura com a
preservação do patrimônio
Rem Koolhaas
Rem Koolhaas