Brasília 50 anos - parte 2 de 5
Série especial
- Detalhes
- 30 de Junho de 2010. Visitas: 18.001

Participações diversas na década
Ministério da Justiça (1962) - Oscar Niemeyer
"Na fachada do prédio do Ministério da Justiça existem algumas cascatas que ajudam a tornar o ambiente um pouco mais úmido, uma vez que a cidade possui clima muito seco. Ainda assim, como na maioria dos edifícios em Brasília, ele possui aparelhos de ar condicionado de janela. Não tenho ideia de quem ocupava o cargo de ministro quando foi instalado um desses equipamentos junto ao gabinete. E ele era imenso, tão grande que se interpunha entre o ministro da Justiça e o presidente da República: impedia que do ministério avistássemos o Palácio do Planalto. Quando fui ministro [de julho de 1999 a abril de 2000], tomei conhecimento de que Niemeyer havia manifestado irritação com essa interferência, mas nunca ninguém fizera caso dela. Decidi, então, em respeito ao trabalho do autor, remover o ar-condicionado da janela e deixar o gabinete ao natural. E sobrevivi ao calor da cidade."
José Carlos Dias, advogado e ex-ministro da Justiça
José Carlos Dias, advogado e ex-ministro da Justiça
Rede Sarah (1960) - Glauco Campello
"Dona Sarah encomendou esse projeto ao Oscar, mas na ocasião ele sofreu um acidente no trajeto Rio-Brasília e me pediu que, como funcionário da Novacap, fizesse o desenho. Fiquei honrado com o convite e me dediquei bastante - sempre ouvindo Oscar. Ao ficar pronto, o prédio foi fotografado por Marcel Gautherot e quando o escultor Sérgio Camargo viu as fotos me elogiou pelos volumes que criei. Após a entrada do médico Aloysio Campos da Paz na direção do Sarah, já depois do governo JK, a instituição começou nova fase. Ele me pediu para fazer alguns acertos, mas, por ser muito ligado ao Lelé, chamou-o para diversas ampliações no conjunto, que hoje toma a quadra inteira. Lelé trabalhou de maneira muito cuidadosa e envolveu meu prédio, hoje chamado de ‘Sarinha’, que, no final, com toda a quadra ocupada, ficou no meio de um pátio. Eu disse ao Lelé que não estava chateado com o resultado. Primeiro, pelo carinho com que tratou meu projeto; depois, porque este acabou como o Tempietto, de Bramante, em Roma, uma das principais obras do Renascimento. Não pela importância histórica, claro, mas porque ambos estão em um pátio, envoltos por outros edifícios." Glauco Campello, arquiteto
Faculdade de Educação da UnB e Auditório Dois Candangos (1961)
Alcides da Rocha Miranda e Luís Humberto Pereira
Alcides da Rocha Miranda e Luís Humberto Pereira
"Darcy Ribeiro me levou para ver o Auditório Dois Candangos, porque queria instalar ali 250 poltronas dentro de três semanas. Gesticulou no terreno livre, como se houvesse alguma construção no lugar, e disse que não queria nada pronto, de linha, não era o caso de fazer compras em São Paulo. Eu deveria desenhar e mandar produzir as cadeiras. Fiquei apavorado, mas ele me tranquilizou: ‘Isso aqui é Brasília. Quando você voltar a construção estará pronta’. Voltei numa Semana Santa, faltando três dias para a inauguração. Foi emocionante. Precisei mandar um caminhão - com a faixa ‘A UnB precisa de você’ - trazer os estudantes para a obra. Era feriado, eles vieram." Sergio Rodrigues, designer
Palácio do Itamaraty (1962) - Oscar Niemeyer
"Há alguns anos tenho guiado colegas em incursões pela cidade. Numa delas, próximo da posse de Luiz Inácio Lula da Silva para o primeiro mandato, acompanhei Ricardo Legorreta. Um dos lugares que visitamos - eu, ele, sua acompanhante e Cecília Souto, embaixadora do México no Brasil - foi o Itamaraty, uma das obras que mais impressionam em Brasília. No terceiro pavimento do palácio, onde estão o jardim de Burle Marx e esculturas de Victor Brecheret, Legorreta sentou-se e ficou observando o horizonte da cidade, pensativo. Sua acompanhante voltou-se para ele e comentou: ‘Que responsabilidade a sua’. ‘É isso mesmo, uma grande responsabilidade’, devolveu Legorreta, que naquela época projetava a Secretaria da Saúde em seu país. Ambos se referiam ao peso que, depois de ter visitado o Palácio do Itamaraty, acabava de ser depositado sobre seus ombros de autor." Sérgio Parada, arquiteto

Edifício-sede da CNI (1963)
Pedro Paulo de Melo Saraiva e
Paulo Mendes da Rocha
Pedro Paulo de Melo Saraiva e
Paulo Mendes da Rocha
"Fiz esse prédio a pedido de Fernando Gasparian, que era o presidente da CNI.
Eu era muito jovem e convidei o Paulinho para o projeto. A projeção máxima permitida naquela quadra era de 16 por 48 metros. Respeitamos a largura com 16, mas com os brises, de um metro e meio de cada lado, o prédio ficava com 19 metros. O pessoal da Novacap não queria concordar. ‘Só se o dr. Oscar aprovar’, disseram.
Marcamos um encontro com Niemeyer. Ele viu o desenho e falou: ‘Eu também queria colocar brises nos ministérios. Pode fazer’.
Anos depois trocaram os brises, pois os primeiros não prestavam!"
Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto
Eu era muito jovem e convidei o Paulinho para o projeto. A projeção máxima permitida naquela quadra era de 16 por 48 metros. Respeitamos a largura com 16, mas com os brises, de um metro e meio de cada lado, o prédio ficava com 19 metros. O pessoal da Novacap não queria concordar. ‘Só se o dr. Oscar aprovar’, disseram.
Marcamos um encontro com Niemeyer. Ele viu o desenho e falou: ‘Eu também queria colocar brises nos ministérios. Pode fazer’.
Anos depois trocaram os brises, pois os primeiros não prestavam!"
Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto
Colina (1963) - João Filgueiras Lima (Lelé)
"Em 1964, dirigindo meu Karmann Ghia, eu e minha namorada - hoje minha mulher - fomos de Belo Horizonte até Brasília. Era minha segunda visita. Passamos uma semana hospedados no apartamento de um amigo, William Abdalla, professor da UnB. Ele morava no Colina. Com quatro pavimentos e pilotis, a obra, toda pré-fabricada, me impressionou. Eu já conhecia o escritório do Ceplan, da primeira ida à capital. Um pouco por causa dessas visitas, a industrialização da construção influenciou muito meu trabalho em São Paulo. Na ocasião, William me apresentou Lelé, que também dava aula na faculdade de arquitetura. Fomos até uma agência de automóveis em construção, a Desbrave, que ele estava projetando. Lelé ainda não era famoso e não tinha escritório: desenhava no próprio canteiro de obras." Sidonio Porto, arquiteto

Banco de Brasília (1965)
MMM Roberto
MMM Roberto
"Em toda a minha vida, fui à capital federal apenas uma vez, para receber a última parcela referente ao projeto de um anexo que fiz para o Banco de Brasília.
Tentei voltar no mesmo dia, mas não consegui, tive que ficar na cidade e me hospedei na casa de Athos Bulcão.
Desenvolvi o projeto do anexo a distância, no Rio de Janeiro. E a sede do banco é o único projeto do escritório MMM Roberto em Brasília. Eu, no entanto, não gosto da cidade. Ainda garoto, sem saber no que estava trabalhando, no escritório do meu pai, Maurício, e dos meus tios Milton e Marcelo, fiz vários desenhos que eles usaram para participar do concurso da nova capital brasileira. Mas a competição, soube depois, estava com cartas marcadas."
Márcio Roberto, arquiteto
Tentei voltar no mesmo dia, mas não consegui, tive que ficar na cidade e me hospedei na casa de Athos Bulcão.
Desenvolvi o projeto do anexo a distância, no Rio de Janeiro. E a sede do banco é o único projeto do escritório MMM Roberto em Brasília. Eu, no entanto, não gosto da cidade. Ainda garoto, sem saber no que estava trabalhando, no escritório do meu pai, Maurício, e dos meus tios Milton e Marcelo, fiz vários desenhos que eles usaram para participar do concurso da nova capital brasileira. Mas a competição, soube depois, estava com cartas marcadas."
Márcio Roberto, arquiteto
Instituto Central de Ciências (1963) - Oscar Niemeyer
"Quando foi necessário construir o estacionamento sul do Minhocão [nome pelo qual é conhecido o Instituto Central de Ciências - ICC, da Universidade de Brasília], encontramos no terreno o protótipo de um projeto de Oscar Niemeyer destinado à moradia dos estudantes. Ficamos em dúvida sobre o que fazer. Se o retirássemos, poderíamos ser acusados de estar desrespeitando um trabalho do autor; se o deixássemos lá, também seríamos alvos de críticas. No fim, resolvemos manter a construção, que fica entre 1,20 metro e 1,5 metro elevada do solo. Mais tarde, a habitação que Niemeyer desenhou para os estudantes, e que nós decidimos preservar como um testemunho da época, transformou-se, com autorização da reitoria, em barbearia do ICC, sendo também usada como central de cópias." Paulo Zimbres, arquiteto
SQN 64 (1963) - Sérgio Souza Lima e Mayumi Souza Lima
"Não sei por que, mas essa é a única quadra de Brasília que as pessoas conhecem pelo nome: Conjunto São Miguel. São quatro prédios, com paisagismo de Fernando Chacel, que deveriam ter sido executados em pré-moldados, mas foram construídos com concreto moldado in loco. Por isso, algumas pessoas dizem que Sérgio e Mayumi consideravam o conjunto um filho bastardo. A torre maior é a mais descaracterizada, pois foi detalhada por Hélio Ferreira Pinto. Há pouco tempo, o concreto dessa torre foi pintado. Tentei recorrer ao patrimônio, porque acho que descaracterizou o conjunto, mas em Brasília não existe tombamento provisório: as obras só são protegidas após o processo." Danilo Matoso, arquiteto
Aeroporto de Brasília (1965) - Sérgio Parada
"Um colega me contou que teve a oportunidade de conhecer Brasília quando a cidade ainda estava em construção. Chegando à capital, ele foi gentilmente recebido pelo próprio Oscar Niemeyer, que, apesar de toda a correria, permitiu que um aluno de arquitetura o acompanhasse em suas visitas aos canteiros. A cada obra que Niemeyer mostrava, meu colega questionava: ‘Mas por que isso é assim? Não seria melhor de outro jeito? E se você tivesse feito assim?’. No final do segundo dia, Niemeyer, já sem paciência, abriu a planta do Plano Piloto e pediu ao jovem que nomeasse cada um dos edifícios que apontava. Meu colega foi respondendo tudo certinho. Por fim, Niemeyer perguntou: ‘E você sabe o que é aqui?’. ‘Sei sim, é o aeroporto’, respondeu o estudante na ponta da língua. ‘Então, se você sabe onde fica o aeroporto, não faça cerimônia. Tem um avião saindo a cada duas horas’, disse Niemeyer, colocando um ponto final à visita."
Sérgio Teperman, arquiteto
Sérgio Teperman, arquiteto
Restaurante dos estudantes da UnB (1969) - José Galbinski e Antônio Carlos Moraes de Castro
"José Galbinski me contou uma história engraçada sobre o projeto dele para o restaurante universitário da UnB. Era final da década de 1970 e ele ficou surpreso ao saber que os participantes de um congresso de portadores de necessidades especiais estavam elogiando muito o projeto. O que se comentava é que o restaurante era o único lugar do campus que permitia aos cadeirantes se locomover livremente. Galbinski ficou com a imagem de um arquiteto engajado naquela causa. Só que ele me confessou que essa imagem era totalmente desconectada da motivação: em nenhum momento ele havia pensado nos cadeirantes quando projetou aquelas rampas. Isso mostra que a arquitetura tem um potencial que vai além das intenções do arquiteto." Emília Stenzel, arquiteta
Palácio do Buriti (1969) - Nauro Esteves
"Para receber no Palácio do Buriti o general Alfredo Stroessner, então presidente do Paraguai, o cerimonial de Brasília contratou o melhor serviço de buffet da cidade. O cerimonial era comandado por Aimé Alcebíades Silveira Lamaison e minha mulher fazia parte de sua equipe. Assim como todos os ingredientes do banquete, os graúdos camarões que faziam parte do menu estavam no segundo andar do palácio, onde ocorreria a recepção, quando o gás acabou, antes que eles estivessem completamente fritos. Para desespero do cerimonial, o elevador por onde viria o botijão substituto quebrou e não houve jeito de conseguir abri-lo. Resultado: os camarões foram servidos meio crus, al dente. Ninguém pareceu ter notado. Talvez tenham pensado tratar-se de uma nova receita." Alfredo Gastal, arquiteto
Edifício Eldorado (1969) - Éolo Maia e Alvimar Marchesotti Machado
"Projetamos em Brasília o Colégio Pré-Universitário, obra executada pela construtora Eldorado, do engenheiro Francisco Aguiar Carneiro. A partir desse trabalho, ele pediu que nosso escritório - chamado Equipe 58, número do imóvel que ocupávamos na avenida Getúlio Vargas, em Belo Horizonte - estudasse o projeto do edifício Eldorado. Como havíamos feito com a obra do colégio, revezávamo-nos na viagem semanal à cidade, às quintas-feiras, num Caravelle, num voo de cerca de 50 minutos, para acompanhar o desenvolvimento da construção. Para conseguir levar o projeto adiante, tivemos que embarcar com a maquete do conjunto no Rio de Janeiro, com destino ao escritório do ex-presidente Juscelino Kubitschek, que na ocasião era presidente do Conselho Administrativo do Banco Denasa. Kubitschek chamou o doutor Lucio Costa para aprovar nossa solução e manter o brise na posição que prevíamos, com o prédio abrindo vistas na direção do lago e do Eixo Monumental." Alvimar Marchesotti Machado, arquiteto
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 362 Abril de 2010
Edição 362 Abril de 2010


