Brasília 50 anos - parte 5 de 5

Série especial

O craque Túlio e o Bezerrão
Estádio do Gama (2008) - Ruy Ohtake
"Eu já joguei algumas vezes no Bezerrão [nome pelo qual é conhecido o Estádio do Gama] e lá sempre tem a torcida pegando no meu pé. Sempre é aquela brincadeira: ‘Cadê o Túlio? Cadê o Túlio?’. E quando eu faço o gol a torcida do contra fica quieta. No meu jogo de estreia pelo Botafogo‑DF foi a mesma coisa. Eu entrei em campo com a camisa número 900, porque poderia fazer meu 900° gol, e foi aquela pressão. Eu fiz dois gols no jogo e quando saí do campo fui para o vestiário tomar banho. De repente apareceu uma repórter ali, querendo uma entrevista. Foi uma situação meio constrangedora, porque ela me flagrou quando eu já tinha tirado quase toda a roupa. Não perdemos tempo e dei a entrevista daquele jeito mesmo. Em compensação, ela acabou ficando com a camisa 900 que usei naquele dia."
Túlio Maravilha, jogador do Botafogo - DF
Casa Osler (2002) - Marcio Kogan
"Conheci o trabalho de Marcio Kogan através de uma revista. Sou funcionário do ONU e quase sempre estou fora do Brasil. Quando eu estava indo para o Timor Leste, em 2002, aproveitei uma passagem por São Paulo para marcar uma reunião com ele. Conversamos durante três horas e dois meses depois ele me mandou três desenhos com a ideia do projeto. Não havia planta, só um esquema de o que ficava onde. O projeto e a construção foram se desenvolvendo enquanto eu viajava. Começamos quando eu estava no Timor, depois fui para o Haiti, para o Sudão e agora estou de volta ao Haiti. Mas tudo correu muito bem. No Timor, como eu cuidava da construção de escolas, fui ajudado por uma equipe de arquitetos que tinham CAD. Por outro lado, a obra foi muito fácil: o engenheiro era bom e os desenhos de Marcio são bastante detalhados e completos." Francisco Osler, oficial de assuntos civis da ONU
Casa LF (2003) - Gilson Paranhos
"De casamento marcado, eu queria ter minha casa, mas a situação financeira não me permitia sonhar alto. Gilson [Paranhos], um de meus irmãos arquitetos, sugeriu que eu negociasse um lote de madeira com uma tia, que era sócia de meu pai numa fazenda onde esse material estava guardado. Ele faria o projeto a partir desse material. Fui conversar com minha tia e acabei ganhando a madeira como presente de casamento. Gilson tem uma arquitetura mais moderna, mas eu queria algo tradicional, e a casa foi construída aos poucos, o que me transformou temporariamente em mestre de obras. Anos depois vendi a casa, e, por coincidência, quem a comprou foi uma filha de Matheus Gorovitz, que tinha sido professor de Gilson e de Paulo Henrique [Paranhos] na UnB." Luís Augusto Paranhos de Paula e Silva, advogado
Edifício Antac (2004)
Brasil Arquitetura
"Quando recebemos a encomenda, ficamos assustados: nosso primeiro projeto em Brasília, e ainda por cima na W3. Nós nos formamos tendo como ideário toda a carga moderna do urbanismo da cidade, que aos poucos foi se vulgarizando com as construções novas. O projeto acompanha a regularidade externa dos prédios de Brasília, mas internamente ele traz uma surpresa, inspirada nas curvas de Niemeyer para o pavilhão da Bienal. O curioso é que essas curvas foram criadas antes da definição do sistema estrutural, e, como a construtora optou pela pré-fabricação, há uma certa contradição entre a liberdade do desenho e a precisão da estrutura. Assim como a utopia da cidade, o desenho é uma coisa e a realização, outra. Por isso as fotos da obra são mais significativas do que as do edifício pronto."

Francisco Fanucci, arquiteto
Fundação Habitacional do Exército (2005)
Danilo Matoso, Élcio Gomes, Fabiano Sobreira, Newton Godoy, Filipe Montserrat e Daniel Lacerda
"Vencedor da competição organizada pela Fundação Habitacional do Exército para a construção da sua sede, Danilo havia especificado vidro estrutural em determinada parte do edifício. No andamento da obra, o fabricante do material não quis assumir o risco do cálculo e foi preciso desenhar um montante para manter a solução. A convite de Danilo, fui, em outubro de 2009, conhecer o prédio. Tudo me parecia em ordem, mas percebi que a expressão dele se alterava completamente ao ver a solução executada. Obcecado por detalhes - como a maioria dos arquitetos quando se trata do próprio projeto -, ele parecia se perguntar ‘O que fizeram com isso?’, ao notar que o encontro em quina que ele havia previsto no montante estava diferente, algo que ninguém percebia. A distância entre desenho e execução são situações que enfrentamos; mas elas podem assumir ares de tragédia quando somos personagens."
Humberto Hermeto, arquiteto
Mercado Design (2006)
Paulo Henrique Paranhos
"Com peculiar arranjo interno, esse edifício de lojas ligadas à decoração se tornou palco para um número de mágica. Certa vez, enquanto aguardava o contato de um fornecedor no bistrô interno, vi um colega atender três clientes sem que nenhuma delas percebesse que estava dividindo o profissional com as outras. Ele aparecia e desaparecia, ia de uma loja a outra: escolheu o revestimento com uma e foi ao bistrô tomar um café; correu para a outra loja, examinou luminárias e retornou ao toalete, junto ao bistrô; em seguida foi até a terceira loja verificar se a bancada sugerida estava de acordo com o projeto, e ganhou um beijo da cliente (seria sua mulher?) antes de pedir licença para ir ao banheiro. Em vez disso, foi verificar o orçamento das luminárias, tomou um café no bistrô salvador e foi terminar a escolha dos revestimentos - e esta cliente também se despediu com um beijo caloroso (quem seria ela então?). Graças à ausência do mall tradicional e os dois acessos de lojas, articuladas nos fundos pelo bistrô e na frente pela praça externa, ele conseguiu, por motivos profissionais ou pessoais, desdobrar-se em três, como janelas do Windows abertas na tela do computador."

Leonardo Oliveira, arquiteto
Condomínio residencial (2006) - Paulo Henrique Paranhos
"Por natureza, engenheiros são indivíduos mais quadrados que arquitetos. Eu, engenheiro mecânico que trabalha com automação predial, tenho dois irmãos arquitetos, o Gilson e o Paulo Henrique, que chamamos de PH. Quando pedi ao PH que fizesse o projeto da minha casa, fui bem claro: ‘Quero uma casa com jeito de casa, onde pelo menos eu veja o telhado’. Por isso ele teve que se desdobrar para projetar a única residência com telhado no pequeno condomínio onde estão outras três, também desenhadas por PH. Uma delas é do próprio PH, outra de minha irmã e a terceira de uma pessoa que não tem parentesco com a família. Depois que o conjunto ficou pronto eu comecei a brincar com o PH, dizendo que a casa dele seria a biblioteca, a do João Ferreira o memorial, a de minha irmã, Maria Fernanda, o salão de festas. E a minha era casa mesmo." Marcos Alexandre Paranhos de Paula e Silva, engenheiro mecânico
Estações de metrô 102, 108 e 112 Sul (2007) - Departamento de Arquitetura TCBR/Metrô-DF
"Eu havia feito um painel abstrato para a estação de metrô da Ceilândia e sugeri ao secretário de Cultura de Brasília, Silvestre Gorgulho, a criação de outro para a estação da SQS 108, que foi inaugurada em 2008. Eu já estava pensando no cinquentenário de Brasília e propus retratar algumas das obras de Oscar Niemeyer. Ele aceitou a ideia e sugeriu que eu também incluísse no painel a antena digital, trabalho recente do próprio Niemeyer ainda não concluído. O painel é uma pintura acrílica sobre tela, de 7,5 x 2 metros, dividido em cinco painéis menores. Fico feliz por vê-lo na estação, ele se relaciona bem com a arquitetura do entorno e ainda funciona como uma passarela para pedestres."
Marcos Decat França, arquiteto e artista plástico
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 362 Abril de 2010