WAF World Architecture Festival

A segunda edição do festival, ocorrida em outubro de 2009

O arquiteto vencedor afirmou: “Vou continuar em minha missão de servir os menos privilegiados, porque eles merecem”
O arquiteto vencedor afirmou: “Vou continuar em minha missão de servir os menos privilegiados, porque eles merecem”
Fora do centro
A segunda edição do World Architecture Festival (WAF), apesar da organização inglesa, manteve Barcelona como sede do evento. No início de outubro passado, 297 projetos foram apresentados e julgados por uma plateia de quase 50 júris de diversos países. No final de intensos três dias, sagrou-se vencedor um pequeno projeto na savana africana, cujo autor, o sul-africano Peter Rich, declarou: “O arquiteto deve servir a sociedade”.

Para aqueles que haviam participado do júri na primeira edição do World Architecture Festival, a rápida reunião com Paul Finch na sala número um do Centro de Convenções Internacional de Barcelona teve poucas novidades. As regras eram praticamente as mesmas: dez minutos de apresentação dos projetos, mais cinco minutos para as perguntas e comentários dos membros do júri. Para que os mais de 1.500 visitantes pudessem acompanhar as intervenções que lhes interessavam, estas deveriam cumprir horários rigorosos. Contudo, ao contrário do ano passado, nada de cartões amarelo e vermelho para sinalizar quanto tempo de apresentação ainda faltava. Outro item diferente: não haveria cronômetro na mesa (o que atrapalhou a atenção dos jurados, que tiveram de recorrer aos relógios pessoais e celulares). Além disso, a edição 2009 do WAF se diferenciou pelo número de categorias: além das 15 já adotadas anteriormente, foram acrescentadas três seções - Interiores e Fit-Out, Desenho Estrutural e Projetos Futuros (da qual fui um dos jurados), cada qual com diversas categorias. No final, o prêmio de interiores foi para o showroom da Corian em Milão, desenhado por Amanda Levete; o prêmio de estrutura ficou com o UPI-2, de Arena Zagreb, na Croácia; e a proposta do futuro escolhida foi o pavilhão espanhol na Expo Xangai, criado por Miralles Tagliabue.

Ao todo, foram mais de 270 projetos concorrentes, muitos deles realizados por projetistas e escritórios estrelados, como Richard Rogers, Nicholas Grimshaw, Miralles Tagliabue, Will Alsop, Ehrlich Architects, Coop Himmelb(l)au e SOM, entre outros. Na outra ponta, estavam os jurados, com arquitetos e representantes da mídia, tais como Peter Cook, Sou Fujimoto e Charles Jencks. O chamado superjúri, que examinou todos os vencedores para eleger o projeto do ano, foi presidido por Rafael Viñoly (uruguaio radicado nos EUA) e integrado por Suha Ozkan (Turquia), Matthias Sauerbruch (Alemanha), Farshid Moussavi (iraniano radicado na Grã-Bretanha) e Kengo Kuma (Japão). Entre os eventos paralelos, o destaque foram os debates. Foram dois temas centrais - Cidades e Menos Faz Mais -, cujo foco era analisar os desafios que esperam os arquitetos na nova ordem econômica mundial.

O edifício do ano é pequeno e simples: um centro de interpretação em Mupungubwe, na África do Sul
O edifício do ano é pequeno e simples: um centro de interpretação em Mupungubwe, na África do Sul
O edifício do ano é pequeno e simples: um centro de interpretação em Mupungubwe, na África do Sul
Por trás do projeto de Peter Rich há um elaborado programa social, ...
Por trás do projeto de Peter Rich há um elaborado programa social, ...
... que começou na construção e envolveu a população não só na execução, mas também na concepção do espaço.
... que começou na construção e envolveu a população não só na execução, mas também na concepção do espaço

Edifício do ano
O grande vencedor do festival deste ano foi um projeto pequeno e simples. E, além do mais, completamente fora do eixo do cenário arquitetônico tradicional. Trata-se de um centro de interpretação em Mapungubwe, na África do Sul, desenhado pelo arquiteto Peter Rich. Antes de se apresentar para o superjúri e suplantar todos os outros vencedores das demais categorias, o sul-africano já tinha realizado um feito e tanto: ganhar em uma das categorias mais concorridas, a de Edifícios Culturais. Para se ter uma ideia, entre os 15 projetos que disputaram com Rich estavam trabalhos de autores como UN Studio (de Van Berkel & Bos), Populous, Norman Foster, Nicholas Grimshaw e Miralles Tagliabue (com duas obras).

A apresentação de Rich ao superjúri foi mais poética do que técnica, tanto que as primeiras perguntas, feitas por Viñoly, diziam respeito à organização do projeto. “Como é a planta?”, questionou Viñoly, que queria simplesmente entender o funcionamento do prédio. O edifício está localizado na confluência dos rios Limpopo e Shashe e foi desenhado para abrigar artefatos pré-históricos da região. Por trás da proposta há um elaborado programa social, que começou a partir da construção e envolveu a população não só na execução, mas também na concepção do espaço. “Vou continuar em minha missão de servir os menos privilegiados, porque eles merecem”, disse Rich. Atualmente, ele desenvolve um projeto na Etiópia.

Outros vencedores
Para ser consagrado como edifício do ano, o trabalho de Rich venceu os ganhadores de outras 14 categorias. Ficou com a China o prêmio na categoria Paisagismo: o escolhido foi um parque de 22 hectares em Tianjin, grande cidade da região litorânea. Desenvolvido pelo Instituto de Design Pequim Turen, o projeto transformou um antigo campo de tiro, que vinha sendo utilizado como depósito de lixo, em um parque público de baixa manutenção e repleto de vegetação. Um dos trunfos da proposta foi o emprego de resíduos para organizar um sistema de limpeza natural, diminuindo a necessidade de cuidados. O projeto, para o júri, é “um bom exemplo da reutilização de um local abandonado e contaminado pelos resíduos do lixo urbano, a partir de um processo de limpeza com o uso de reservatórios e do plantio de vegetação”.

Uma bilheteria na Times Square, importante centro de produção teatral em Nova York, ficou com o prêmio na categoria Novo e Antigo. Trata-se de um projeto desenvolvido por uma equipe composta pelo estúdio norte-americano Perkins Eastman, pelos australianos do Choi Ropiha, pelos paisagistas do William Fellows/PKSB e pelo escritório de engenharia estrutural Dewhurst MacFarlane and Partners. O desafio não era pequeno: reordenar a famosa praça e criar um ícone adequado ao movimentado espaço. Dentre as diversas características do projeto, o júri destacou que “o novo edifício conseguiu revalorizar o terreno público como resultado de um pensamento inteligente, fazendo uso da cobertura de maneira acolhedora. Ele cria um vibrante e aconchegante palco público no meio do Theater District, pelo uso de vidro estrutural iluminado”.

Dentre os edifícios que concorreram na categoria destinada a Espaços Cívicos e Comunitários, o escolhido foi a unidade de emergência em Zagreb, na Croácia, criado pelo escritório Produkcija 004. Trata-se de uma construção de oito andares no centro da cidade, com paredes parcialmente translúcidas, utilizado para a assistência médica. O júri elogiou a maneira como o prédio se encaixa no entorno. Ainda segundo os jurados, a categoria apresentou grande variedade de propostas, abrangendo desde instalações construídas com 25 mil libras, na África Ocidental, até uma grande embaixada britânica na Argélia.

Ásia em destaque
O vencedor da categoria Habitação Coletiva foi The Met, um arranha-céu em Bangcoc, Tailândia. Desenhado pelo escritório WOHA, de Cingapura, o prédio demonstra como é possível, com esse programa, criar espaços ao ar livre. A proposta de urbanização é inspirada por telhas tailandesas, têxteis e painéis de madeira. “Uma excelente tentativa de abrir um arranha-céu para a cidade e permitir que os seus habitantes façam uso do edifício, tanto quanto possível em uma cidade em acelerado processo de desenvolvimento”, destacou o júri. O WOHA também foi o ganhador na categoria Transporte (aliás, foi a única equipe a conquistar dois prêmios), com a Estação de Transporte Rápido Bras, do metrô de Cingapura, situada no centro do distrito histórico de Civic. O projeto está em harmonia com o entorno e com a localização em um parque histórico.

Também da Ásia veio o vencedor da categoria Ensino, a The Pearl Academy of Fashion, em Jaipur, Índia, projetada pelo escritório Morphogenesis, daquele país. O prédio foi construído com baixo custo, é ambientalmente adequado e ocupa uma antiga área industrial. O júri elogiou a maneira como “uma construção em escala monumental mescla o artesanato tradicional de construção, especialmente em relação aos passivos ambientais, com uma estética contemporânea”.

... que começou na construção e envolveu a população não só na execução, mas também na concepção do espaço.
O vencedor, Peter Rich
O vencedor, Peter Rich, apresentou-se para o superjúri: Rafael Viñoly, Suha Ozkan, Matthias Sauerbruch, Farshid Moussavi e Kengo Kuma
Júri: Rafael Viñoly, Suha Ozkan, Matthias Sauerbruch, Farshid Moussavi e Kengo Kuma.
Entre os eventos paralelos do WFA, o destaque foram os debates, com dois temas centrais - Cidades e Menos Faz Mais - cujo foco era analisar os desafios que os arquitetos enfrentam na nova economia mundial
Entre os eventos paralelos do WFA, o destaque foram os debates, com dois temas centrais - Cidades e Menos Faz Mais - cujo foco era analisar os desafios que os arquitetos enfrentam na nova economia mundial
Uma bilheteria na Times Square, em Nova York, desenvolvida por uma equipe liderada pelo escritório norte-americano Perkins Eastman, foi a vencedora na categoria Novo e Antigo.
Uma bilheteria na Times Square, em Nova York, desenvolvida por uma equipe liderada pelo escritório norte-americano Perkins Eastman, foi a vencedora na categoria Novo e Antigo

Trabalho e descanso
Já a categoria Escritórios foi vencida por um projeto em Hamburgo, na Alemanha. Trata-se do edifício-sede da Unilever, projetado pelo escritório Behnisch. Os jurados elogiaram o compromisso com a sustentabilidade, ilustrada pelo design personalizado da iluminação led (o que economiza 70% de energia em relação à iluminação convencional), e destacaram o trabalho como “um projeto modelo, que marca o início da próxima geração de edifícios de escritórios”.

O escritório liderado por sir Richard Rogers - Rogers Stirk Harbour + Partners, sediado em Londres - venceu na categoria Produção, Energia e Reciclagem, com o novo prédio para a tradicional vinícola Bodegas Protos, construída em Valladolid, uma pequena cidade no norte da Espanha. A adega é subterrânea e incorporou dois quilômetros de túneis e galerias existentes. O júri apontou a maneira como o projeto lida “generosamente tanto com as exigências estéticas quanto com aquelas que dizem respeito às necessidades de produção da vinícola. Ao mesmo tempo, ele possui forte ligação com a cidade através de sua implantação sensível e do uso moderno de materiais tradicionais, como a terracota no telhado”.

O restaurante Tusen, projetado por Murman Arkitekter, na Suécia, levou o prêmio na categoria Férias. De desenho simples, o restaurante foi construído em Ramundberget, próximo a pistas de esqui. O júri chamou a atenção para o “intransigente compromisso com o estilo moderno sueco. Utilizando materiais tradicionais, e ainda experimentando com a forma, produziu-se um restaurante ousado, que se amolda confortavelmente à paisagem”.

O prêmio na categoria Paisagismo foi para um parque de 22 hectares em Tianjin, grande cidade do litoral chinês.
O prêmio na categoria Paisagismo foi para um parque de 22 hectares em Tianjin, grande cidade do litoral chinês
Já na seção destinada a Espaços Cívicos e Comunitários, o escolhido foi o terminal de emergência em Zagreb, Croácia, criado pelo escritório Produkcija 004
Já na seção destinada a Espaços Cívicos e Comunitários, o escolhido foi o terminal de emergência em Zagreb, Croácia, criado pelo escritório Produkcija 004
Também da Ásia veio o escolhido na categoria Ensino, o edifício da The Pearl Academy of Fashion, em Jaipur, Índia, de autoria do escritório indiano Morphogenesis
Também da Ásia veio o escolhido na categoria Ensino, o edifício da The Pearl Academy of Fashion, em Jaipur, Índia, de autoria do escritório indiano Morphogenesis

Esporte e saúde
Desenhado pelo escritório australiano Allen Jack & Cottier, o ginásio de esportes da cidade de Berry ganhou o prêmio na categoria Esportes. Trata-se de de uma arena predominantemente utilizada por crianças, situada dentro de um grande parque. O projeto possui aparência semelhante à de um galpão agrícola. Concorrendo com obras de grande porte, entre as quais um estádio olímpico e o Wimbledon Centre Court, o prédio australiano foi elogiado pelo júri por ter lançado mão de um “orçamento modesto para a inovação de materiais. O resultado é uma construção criativa, que se mantém responsável perante os usuários e o meio ambiente”.

Na categoria Saúde, o vencedor foi o centro Teleton Tampico, projetado pelo estúdio Sordo Madaleno, do México. Trata-se de uma unidade para crianças deficientes, criado para permitir que elas desenvolvam experiências novas que lhes permitam melhor integração com a sociedade. O conjunto é composto por seis elementos de ligação e utiliza complementarmente a diversidade de cores e os espaços verdes exteriores.

Brasil no WAF
Na categoria Exposição, o trabalho vencedor foi uma gaiola do zoológico de Barcelona. Destinada a abrigar araras, ela foi criada pelo escritório espanhol Battle & Roig. O desenho inspirou-se em formas tradicionais de gaiola e estabeleceu duas áreas bem definidas, para o dia e para a noite, conforme a necessidade das aves. Para o júri, o projeto apresenta um uso inovador de armações tubulares e de madeira. Um dos sete concorrentes da categoria foi o brasileiro Gustavo Penna, com o Memorial da Imigração Japonesa, em Belo Horizonte.

Outra categoria que contou com a participação de brasileiros foi a de Casas. O prêmio foi para um projeto na Austrália, uma residência de praia denominada Klein Bottle House, criada por McBride Charles Ryan e situada na península de Mornington. Ela reinterpreta a moradia tradicional australiana utilizando a ideia do origami, e o resultado é um espaço contemporâneo. Para o júri, uma das qualidades do trabalho é que ele evoca, “em cada dia do ano, o lúdico enriquecimento de estar em férias”. Entre os 15 finalistas havia dois brasileiros: Marcio Kogan, com a casa em Paraty, RJ, e Isay Weinfeld, com uma residência em Piracicaba, no interior de São Paulo.

Weinfeld foi finalista em outras quatro categorias, vencendo em Compras, na qual havia recebido, no ano passado, menção honrosa com o projeto da Livraria da Vila da alameda Lorena. O prêmio em 2009 veio com a loja das Havaianas em São Paulo. O júri elogiou o projeto por “seu sentido descontraído e urbano, sinônimo da marca de calçados, enquanto a fachada aberta da loja cria um microclima incomum e permite a entrada da luz solar e da chuva no interior da edificação”. Após o término do evento, enquanto andava em busca de um táxi, Weinfeld se disse feliz com o reconhecimento proporcionado pela premiação. “Não gosto de fazer só um tipo de projeto. Fico contente com o resultado, principalmente porque tive a oportunidade de apresentar vários tipos de trabalho. E essa diversidade é uma das coisas em que acredito”, afirmou.



Texto de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 359 Janeiro de 2010
O vencedor na categoria Habitação Coletiva, um arranha-céu em Bangcoc, Tailândia, foi desenhado pelo escritório WOHA, de Cingapura, que também foi o ganhador em Transporte, com o projeto de uma estação do metrô cingapurense
Ganhador em Transporte, com o projeto de uma estação do metrô cingapurense.
Projetado pelo estúdio Behnisch, o edifício-sede da Unilever venceu na categoria Escritórios.
Projetado pelo estúdio Behnisch, o edifício-sede da Unilever venceu na categoria Escritórios
Uma vinícola na Espanha, desenhada pelo escritório de Richard Rogers, foi a escolhida em Produção, Energia e Reciclagem
Uma vinícola na Espanha, desenhada pelo escritório de Richard Rogers, foi a escolhida em Produção, Energia e Reciclagem
O prêmio na categoria Férias ficou com o restaurante sueco Tusen, projetado por Murman Arkitekter
O ginásio de esportes da cidade de Berry, na Austrália,
desenhado pelo escritório Allen Jack & Cottier, ganhou o
prêmio na categoria Esportes.
O prêmio brasileiro veio com Isay Weinfeld, na categoria Compras, pela loja das Havaianas.
Na categoria Exposição, o projeto vencedor foi uma gaiola
do zoológico de Barcelona, criada pelo escritório espanhol
Battle & Roig.
O prêmio na categoria Férias ficou com o restaurante sueco Tusen, projetado por Murman Arkitekter
O prêmio na categoria Férias ficou com
o restaurante sueco Tusen, projetado por
Murman Arkitekter
Em Saúde, o vencedor foi o centro Teleton Tampico, projetado por Sordo Madaleno, do México
Entre as casas, foi premiada uma residência
numa praia australiana, projetada por McBride
Charles Ryan