Brasil Arquitetura: Sede da Comunidade Shalom, São Paulo

Marquise em balanço integra espaços

Atendendo requisitos da Comunidade Shalom - que desejava flexibilidade para ajustar os espaços às necessidades de seu dia a dia - projeto de sua sede tem áreas internas e externas integradas por fachada de vidro protegida por uma marquise em balanço de oito metros.

A nova sede da Comunidade Shalom é um sonho de gerações, que só foi possível realizar após um grupo de famílias judaicas doar o terreno para sua construção, localizado entre as ruas Fiandeiras, Ribeirão Claro e Cavazzola, no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. A escolha do projeto arquitetônico se deu através de concurso em 2006.

Ele deveria traduzir a ideologia da Comunidade Shalom e expressar sua nova visão do mundo espiritual, destacando-se por ser uma sinagoga igualitária, pluralista, inclusiva e comprometida com a renovação judaica. O escritório Brasil Arquitetura se destacou entre os seis concorrentes que participaram da competição.

O projeto assinado pelos arquitetos Marcelo Ferraz, Francisco Fanucci e Gabriel Grinspum foi o que melhor atendeu aos requisitos do cliente, que tinha como premissas a flexibilidade para adequar os espaços ao dia a dia da comunidade e a construção de uma sinagoga sem mezanino para receber de 400 a mil pessoas em dias de cerimônias comemorativas. Além disso, pretendia-se a ocupação máxima do potencial do terreno de 2.200 metros quadrados, com espaços multifuncionais e moduláveis.

“A princípio pensamos numa sinagoga com pé-direito duplo e mezanino. Essa ideia, no entanto, foi descartada, porque a Comunidade Shalom não segue a tradição judaica de ficarem os homens no salão e as mulheres no mezanino. Tivemos, então, que pensar em outras soluções”, explica Ferraz.

A configuração do projeto original ganhou uma nova versão, para adequá-lo à topografia, tirar o mezanino e ajustar a forma e o tamanho da edificação ao extenso programa cultural, que compreende desde salas de aulas e sinagoga até quadras esportivas, playground, biblioteca, áreas de estacionamento e de conveniência. Também interferiu a questão de segurança. “Perdemos um pouco da integração com o entorno, pois os muros ficaram mais altos”, lembra o arquiteto.

Em sua nova versão, surgiu uma sinagoga descentralizada. Tal solução deu movimento ao edifício, evitando uma construção simétrica, e permitiu desfrutar de um espaço maior do jardim e de muita iluminação e ventilação naturais nas áreas internas. Implantado no sentido longitudinal, o edifício foi dividido em dois volumes bem definidos por duas empenas estruturais de concreto na fachada oeste, revestidas com um pigmento azul.

De acordo com Francisco Fanucci, essas paredes têm função estrutural. Além disso, uma delas tem duas atribuições bem claras. A primeira é abrigar o mikvá, uma espécie de piscina utilizada em um ritual de banho, que deve ter um percentual de água recolhida da chuva.

Para fazer essa coleta, ao longo da parede esquerda, na altura do primeiro pavimento, há uma inclinação negativa (como uma dobradura no concreto) que permite a captação da água pluvial, que vai direto para o reservatório onde é tratada. A outra função é possibilitar a entrada de ventilação e luz naturais. Aproveitando a inclinação na empena, paralelamente a ela, pelo lado interno, há uma parede com janelas maxim-ar voltadas para salas internas.

Os dois volumes possuem funções bem definidas. Um é o espaço servidor, que abriga sanitários, circulação, elevadores, shafts, equipamentos e áreas de serviço. O outro é o espaço servido, onde estão as salas de aulas, biblioteca, sinagoga e espaços de conveniência e integração. A área construída de 4.630 metros quadrados está distribuída em dois subsolos, térreo, dois pavimentos superiores e cobertura.

A entrada principal se dá pela rua Fiandeiras e a secundária pela Cavazzola. O edifício está alinhado com o muro das casas adjacentes, com o objetivo de liberar o máximo de espaço de jardim no recuo junto ao arvoredo da rua Ribeirão Claro.

No térreo encontram-se a sinagoga e o mikvá, no primeiro e no segundo pavimentos estão os espaços multifuncionais e na cobertura existem duas quadras poliesportivas protegidas por uma tela e instaladas uma em cada volume, para atender separadamente crianças e jovens. Os subsolos têm 140 vagas para carros, e no primeiro deles foi possível instalar salas destinadas a cursos e atividades culturais.

Para evitar o aspecto de clausura, os arquitetos dispuseram o térreo no limite da cota de 1,15 metro acima do nível das ruas circundantes, como um platô flutuante. Isso permitiu iluminar e ventilar naturalmente o primeiro subsolo e diminuir a profundidade dos pavimentos enterrados, otimizando o custo de fundação. Devido ao lençol freático muito intenso no bairro do Itaim Bibi, foram utilizadas paredes-diafragrama com 13 metros, que chegam até o solo argiloso.

Construído com concreto protendido e estrutura metálica, parte do corpo da edificação está em balanço frontal de sete metros, volume que sobressai pela face sul como uma caixa envidraçada. Nessa área, as lajes estão sustentadas por cabos de aço de protensão engastados nas placas estruturais do prédio. De acordo com Fanucci, “o edifício em balanço oferece certa generosidade na recepção das pessoas, além de conferir leveza para as placas que dariam um peso grande na construção”.

ESPAÇOS FLEXÍVEIS
Uma das razões pelas quais o projeto do escritório Brasil Arquitetura venceu o concurso foi a flexibilidade. “Fizemos uma série de estudos de layout e definimos um espaço flexível, sem áreas fixas”, explica Fanucci. Os volumes se comunicam pela circulação vertical e pela varanda na face posterior. A sinagoga pode ser tanto um grande salão para eventos com até mil pessoas, como uma sala para liturgia, cursos, oficinas e shows. Uma grande divisória acústica móvel promove a configuração do espaço conforme a necessidade.

Essa flexibilidade foi uma das premissas do projeto de organização do programa, pensando nas atividades cotidianas. “Dentro da solicitação do cliente, nós tornamos a sinagoga um espaço compartilhado, e esse foi um dos nossos maiores desafios”, lembram os arquitetos.

Em se tratando de uma arquitetura de sinagoga com pé-direito duplo e vão livre de 16 metros, os arquitetos foram no limite de integrar o espaço interno ao exterior através de uma face de vidro protegida por uma grande marquise em balanço de oito metros. De acordo com o consultor de fachadas Crescêncio Petrucci Júnior, o projeto de fachada foi desenvolvido com a orientação de máxima transparência, conforto e isolamento acústico.

“Devido à modulação proposta pelos arquitetos, as colunas e travessas precisaram ser mais robustas e resistentes para vencer vãos de 4,33 metros e distância entre colunas de 2,63 metros. A área de influência de vento passou a ser maior; consequentemente, o carregamento sobre os perfis estruturais da fachada aumentou e as travessas e colunas precisaram ser dimensionadas para tal condição” explica o consultor.

Além de esquadrias entre vãos, a obra possui fachada--cortina com vidro colado com silicone glazing, desenvolvida no sistema stick e com fixação frontal dos quadros maxim-ar e fixos. Para garantir a estanqueidade das áreas envidraçadas, a caixilharia tem três níveis de vedação com gaxetas de EPDM com cantos vulcanizados e sistema de saída de água através de drenos nas travessas. As ancoragens foram projetadas em alumínio e com regulagem de prumo.

Para atender aos elevados níveis de isolamento acústico do salão de festas, da sala da juventude e da sinagoga, utilizou-se vidro multilaminado de atenuação acústica de 14 milímetros, composto por três lâminas de vidro de 4 + 6 + 4 milímetros. Nesses ambientes, os perfis de alumínio foram preenchidos com lã de rocha e manta acústica para auxiliar no tratamento acústico. Nas demais áreas, os vidros são laminados de oito e dez milímetros. Todos foram colados com silicone structural glazing em perfis de alumínio da linha Atlanta II, da Belmetal.

LÂMINA METÁLICA
A fachada da sinagoga é interrompida pela marquise, constituída por uma lâmina de estrutura metálica revestida com chapas de aço, com 23 metros de extensão e dez metros de largura. Ela parte do interior do edifício e atravessa o pano de vidro. Segundo Petrucci, no trecho em que isso ocorre, internamente existe um perfil I metálico para fixação da esquadria através de ancoragens metálicas com furos oblongos verticais e sistema de fixação com porca e contraporca. Tal solução dá liberdade de movimentação da marquise sem transferir esforço para a esquadria.

“A movimentação da estrutura é pequena e não afeta o pano de vidro. No trecho acima da marquise, o peso da esquadria foi transferido para a estrutura de concreto, portanto a ligação na estrutura metálica da marquise só recebe carga horizontal (vento) através da esquadria”, afirma o projetista de estrutura metálica, Fábio Oyamada.

“No trecho abaixo da marquise o conceito foi o mesmo, a esquadria está apoiada sobre outra viga metálica (perfil I) que fixa a esquadria e a divisória retrátil. Dessa forma, a esquadria não transfere carga vertical para a marquise, nem a marquise para a esquadria. A ligação é feita com liberdade nesse sentido. A única carga que a esquadria transfere para a marquise é a de vento.” Na interface marquise/vidro, a junta foi vedada com silicone.

A marquise possui estrutura metálica com apoios na estrutura de concreto na parte interna do prédio. Essa fixação fica acima do forro. De acordo com o arquiteto Gabriel Grinspum, a marquise tem várias funções. Além de ser uma intermediação entre o interior e exterior, pode ser usada na área externa como um prolongamento do interior da sinagoga, pois existe a possibilidade de fechá-la com uma lona pelas laterais, acrescentando ao salão entre 150 e 200 lugares. Devido a sua geometria (côncava e convexa), ela tem função acústica, pois é difusora do som.

LOGÍSTICA
O processo construtivo foi complexo por envolver estrutura de concreto protendido, subsolo com solo inadequado, que levou à adoção de parede-diafragma, estruturas metálicas com grandes balanços em uma área residencial e comercial. O empreendimento exigiu um detalhado planejamento de logística, e para que a obra saísse no tempo estimado de 26 meses foi contratada uma empresa para gerenciar prazo e custos.

“Na obra da Comunidade Shalom, a economia foi de aproximadamente 37% dos adicionais solicitados, em torno de 700 mil reais, ou seja, 7% da obra como um todo”, calcula o engenheiro Fernando Neaim, sócio da Tessler Engenharia, especializada em gerenciamento de obras e projetos.

“Essa situação condicionou as escolhas de métodos construtivos e a sequência de execução das etapas do edifício. Durante a obra dos dois subsolos, o canteiro ocupou os recuos do terreno e, após a conclusão dessa fase, o armazenamento de materiais e a logística da obra se concentraram nas lajes prontas, permitindo um aumento significativo na velocidade dos trabalhos”, explica Marcelo Tessler. No período entre as 23 h e as 7 h, era feito o trabalho de carga e descarga do material construtivo.



Ficha Técnica

Obra: Comunidade Shalom
Local: São Paulo, SP
Projeto: 2007/2011
Obra: 2009/2011
Área construída: 4.630 m²
Arquitetura: Brasil Arquitetura - Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz (autores); Gabriel Grinspum (coautor); Anne Dieterich, Anselmo Turazzi, Beatriz Marques, Carol Moreira, Carlos Arellano, Cícero Ferraz Cruz, Fabiana Paiva, Felipe Zene, Fred Meyer, Gabriel Mendonça, Laura Ferraz, Luciana Dornellas, Marcos Cartum, Natália Coachman, Pedro Del Guerra, Pedro Vannucchi, Rebeca Grinspum, Thomas Kelley, Victor Gurgel e Vinicius Spira (equipe)
Estrutura: FT Oyamada
Instalações: Pessoa & Zamaro
Ar condicionado e exaustão: TR Thermica
Acústica: Harmonia Acústica
Fachadas: Crescêncio Petrucci Júnior (consultoria)
Concreto: Plena (consultoria)
Construção: Sempre e Afonso França Engenharia
Gerenciadora: Tessler Engenharia
Fotos: Nelson Kon

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 73
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