O escritório dos arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre De Meuron foi contratado pelo governo do estado de São Paulo para projetar a sede da São Paulo Companhia de Dança no centro da capital paulista.
Orçado em 300 milhões de reais, dos quais entre 6,5% e 8,5%, ou seja até 25 milhões, serão cobrados pelo projeto.
No Rio temos a Cidade da Música do francês Christian de Portzamparc, obra bancada pela prefeitura e que está sob investigação, orçada inicialmente em 80 milhões de reais com gastos chegando em 500 milhões.
Em Porto Alegre temos o Instituto Iberê Camargo do português Álvaro Siza, construído com recursos privados e que rendeu ao seu autor o Leão de Ouro da Bienal de Veneza.
São grandes nomes reconhecidos mundialmente que conseguiram emplacar projetos diferenciados no Brasil. No entanto, ao arquiteto brasileiro é ensinado que a nossa é mais simples do que a feita no exterior e que para nós é impensável realizar obras de tal escalão, etc. Bom, juntamente com pouquíssimos edifícios projetados por brasileiros, dentre eles se destacando ainda os projetos de um arquiteto centenário, os projetos mencionados acima provam que essa é apenas mais uma desculpa pela mediocridade presente na arquitetura brasileira. Ou seja, é possível sim, criar arquitetura de ponta em todos os sentidos no Brasil. Ou será que estou enganado?
Por outro, são notórias as particularidades político-econômicas e sociais em que tais obras foram ou estão sendo realizadas. Denúncias de corrupção de entidades públicas, superfaturamento, desrespeito às entidades e dos processos legais requeridos, licitação, concurso, transparência de gastos, etc., posicionamento contrário dos profissionais locais para a contratação de escritórios estrangeiros, entre tantos outros problemas acompanham o desenvolvimento dos projetos mencionados acima.
Apesar disso não ser uma exclusividade nacional, será que não é possível realizar um projeto desse tipo de uma forma mais transparente e coerente?
Este tipo de projeto deve ser realizado a partir de concurso internacional. Agora se o escritório é Brasileiro ou estrangeiro não é parâmetro para escolha do projeto vencedor. Dizer que o projeto tem que ser necessariamente atribuído a brasileiros é um erro, vejam o que se faz em outros países. O que deve prevalecer é a boa arquitetura, a melhor solução para o terreno e o projeto em questão, independente de se tratar de arquitetos nacionais. Forçar a barra para escolher arquitetos brasileiros mostra um complexo de inferioridade, se o projeto de um brasileiro for melhor ele ganhará o concurso...
Sem entrar em debates nem respondendo à questão, digo apenas que é com pesar que, eu que sou um mero estudante português de arquitetura, leio o que diz, pois da mesma forma me sinto relativamente à arquitetura em Portugal. Mas embasbacado fico ao perceber a forma como se referem a Siza Vieira, pelo menos não é 'O Mestre' como em Portugal, mas referir-se a SV como se de um grande arquiteto, criador de grandes obras se tratasse é desesperante, principalmente no país do Grande Criador Oscar Niemeyer!
Se a ambição do arquiteto brasileiro é chegar a Siza Vieira, então a arquitetura no Brasil anda realmente pela hora da morte.
Quem fez grandes projetos no Brasil???
Parece que só meia duzia detém essa qualificação aqui,o que não é verdade, poderia citar pelo menos 10 grandes arquitetos não tão conhecidos ou não tão reconhecidos, e os novos talentos? Me parece que a arquitetura no Brasil virou sinônomo de decoração!!! Só ficam conhecidos ou "reconhecidos" aqueles que enveredaram por esse caminho. Não tenho nada contra, eu mesma sempre trabalhei nesse setor, porém me pergunto e os projetos urbanísticos e sociais? Existe espaço na nossa arquitetura para novas idéias, como na moda? Ou será que ainda vamos ter que aturar mais uma abóboda ou curva ou vão livre ...?
Meus dois centavos a respeito de um projeto realizado para uma cidade cuja população em nenhum momento foi consultada a seu respeito: [http://tinyurl.com/herzogsp]
Sinceramente, acho que fazer ou não fazer concurso é simplesmente uma falsa questão: a opinião da população (tanto a população local a ser expulsa do lugar quanto a paulistana de uma forma geral) continua ignorada e não entendendo porque um escritório estrangeiro levará o dinheiro equivalente a algumas escolas.
Em relação aos comentários do colega Beto Miranda, é necessário que se esclareça que os quase 26 milhões em honorários acertados com os responsáveis pelo projeto representam em verdade 8,5% do montante de 300 milhões previstos para a obra (PROJETO 354). Um percentual ainda abaixo dos 10% comumente cobrados por qualquer escritório mediano europeu ou norte-americano que se preze. Nossos honorários é que devem assustar aos colegas suiços.
Primeiro quero agradecer a revista por ter este fórum onde pessoas, comuns como eu, possam divulgar seus pensamentos sobre a ARQUITETURA.
Vou contar uma pequena história daqui, Foz do Iguaçu, cidade onde estou a quase vinte anos.
Logo após me formar na FAUS - UNISANTOS, vim para Foz (desbravar o oeste), com a intenção de realizar aquilo que sonhei toda infância e juventude: PROJETAR.
Bem no início participava de reuniões locais de planejamento urbano e outros assuntos da vocação principal da cidade, o turismo.
Bem, numa dessas reuniões o tema a ser debatido era o da Segunda Ponte. Para quem não conhece Foz, este até hoje é o principal tema da Fronteira Brasil-Paraguai. Lá pelas tantas daquela reunião chata cheia de políticos e neófitos da boa arquitetura e depois de apresentarem um estudo primário e sem nenhum conceito plausível, peço a palavra. - VAMOS FAZER UM CONCURSO INTERNACIONAL PARA O PROJETO DA PONTE? - OU... VAMOS CHAMAR O CALATRAVA? - QUEM CONHECE O POMPIDOU? A ARQUITETURA ATRAI O TURISMO, SABIAM?
Enfim eram questões de um recém formado, estudante idealista e apaixonado (até hoje) pela boa arquiteura.
Meus comentários foram imediatamente desprezados, mudaram de assunto, já tinham o projeto de alguém envolvido com aquele grupo.
Tempos depois inaugurava o Guggenheim em Bilbao (cidade até então desconhecida pela maioria), e o turismo por lá ascendeu, a exemplo de Dubai, China etc.
Ano passado houve uma nova licitação para o projeto da Segunda Ponte, tentamos participar em parceria com um escritório de São Paulo, mas nem tivemos acesso ao edital.
Acho que não vai ser nenhum Calatrava ou Paulo Mendes da Rocha, o autor.
A cidade perde, e a boa arquitetura também.
Então não me importa se seu nome é: HERZOG, CALATRAVA, NIEMEYER,...tantos outros.
PREOCUPEMO-NOS COM A BOA ARQUITETURA.
Um abraço.
O texto abaixo pertence aos arquitetos Euclides e Pitanga,faço de suas palavras, as minhas palavras e espero que algo impeça nosso governo de aprovar essa loucura.
O Brasil tem pelo menos umas duas dezenas de arquitetos de nome que já projetaram teatros, salas de concerto, casas de ópera (e dança, naturalmente). Nos anos recentes, o Instituto de Arquitetos do Brasil promoveu vários e concorridos concursos assemelhados, como a sede do grupo de dança "O Corpo" em MG, a Escola de Artes Cênicas da Unicamp, em Campinas, o Teatro Municipal de Londrina, PR, o complexo teatral de Natal, RN, a sede da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, etc...
Experiência no tema proposto é o que não falta aos nossos arquitetos.
O que me impressionou muito foi o valor de aproximadamente R$ 25 mi pelo projeto. No Brasil acredito não haja precedentes com valores similares. Muito boa matéria.
A discussão é boa porque a causa é fundamental. Os profissionais da construção civil, principalmente nós arquitetos, devem ficar de olho nas obras públicas que pretendem fazer ou fazem nas capitais, principalmente em São Paulo, centro nevrálgico do capital nacional. Tamanha são as desproporções tomadas pelos problemas sociais que os governos brasileiros, em todas as suas instâncias, não têm mais o direito de errarem tanto na escolha e na execução de seus projetos públicos, principalmente porque democraticamente não somos tão insipientes e politicamente não somos tão ingênuos.
O Brasil precisa de "tudo" mas tudo tem que ser feito com consciência de causa e de acordo com os reais anseios gerados pelas mais emergentes necessidades. Não importa se serão os arquitetos estrangeiros ou se serão os arquitetos brasileiros que farão o trabalho mais competente, mas importa que a escolha dos trabalhos seja realizada do modo mais democrático e mais justo, e não vejo de outra forma a não ser por concurso público aberto a profissionais brasileiros e estrangeiros, que deveriam atender a um programa de necessidades bem definidos socialmente, e que vença o melhor.
Devemos ter sempre o cuidado de não usar a arquitetura para representar grupos privilegiados por uma política apartada da real necessidade de expressão cultural brasileira, e ser estrangeiro não impede que o autor do projeto tenha a sensibilidade e o conhecimento necessário para dar ao povo o espaço que precisa para realizar com competência a dança e expressões vinculadas com a cultura autenticamente brasileira.
Assim como os profissionais brasileiros desempenham sua função em outros países, levando um pouco de nossa cultura, aqui também é terreno para profissionais estrangeiros apresentarem um pouco de seu repertório enriquecendo e diversificando nosso patrimônio cultural.