Camila Fabrini e Marta Moreira
Loja Jefferson Kulig, São Paulo
- Detalhes
- 10 de Outubro de 2008. Visitas: 37.826
Externamente, a paginação vertical da fachada autoportante de vidro translúcido dá a escala urbana, de modo que a loja, reclusa entre dois edifícios residenciais e totalizando pouco mais de seis metros de largura, faça jus à área de influência próxima. Assim, embora com dimensões relativamente pequenas e inserida em trecho com predominância residencial, sua linguagem guarda certo parentesco com a arquitetura envidraçada e imponente da série de lojas localizadas a poucos passos de distância, na rua Oscar Freire.
Essa filiação, no entanto, é muito mais sugerida do que evidente, uma espécie de imponência contida. A face saliente e suspensa, que recobre externamente a edificação, apenas deixa entrever o que ocorre nos interiores, numa possível referência à idéia de privacidade, de vizinhança residencial, que permeia o espaço comercial. De qualquer forma, a fachada translúcida cria de fato uma intermediação com a área externa, uma câmara qualificada pela luminosidade que fica retida na parede dupla das peças de vidro que a conformam. Durante o dia, o resultado é uma pele esverdeada, integrada ao entorno, enquanto ao anoitecer prevalece a luz homogênea e fria dos interiores, destacando visualmente a loja.
Essa superfície externa não toca nas lajes dos dois pavimentos superiores, o que, por um lado, imprime desenho homogêneo à edificação e, por outro, valoriza a vitrine. Com poucos elementos, assim, estão delineadas as escalas urbana e intimista, a aparência imponente e a imagem simples do projeto. Concebida após a Lei Cidade Limpa - com a qual a prefeitura de São Paulo procura combater a poluição visual urbana -, a proposta previu a sinalização externa por dentro da loja, cuja identificação é feita com escrita luminosa fixada internamente à fachada.
No espaço interno, a arquitetura adota elementos que remetem à pequena escala, a ambientes serenos. Poucos materiais e a prevalência de acabamentos claros - como os pisos e a escada de concreto sem brilho e levemente manchados - contrapõem-se à experimentação e ao traço irreverente do estilista. Há certo aspecto de laboratório de criação, tal a singeleza dos interiores. A escada sem guarda-corpo, quase um bloco bruto, e o longo banco longitudinal reforçam a sensação de local de longa permanência, de estar introspectivo. A isso se soma o desenho limpo e simples do móvel das araras, cujo fechamento posterior abriga a área de provadores.
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 343 Setembro de 2008
Camila Fabrini (FAU/Mackenzie, 1985) foi colaboradora de Eduardo de Almeida de 1989 a 1996, ano em que constitui escritório próprio em São Paulo.
Marta Moreira (FAU/USP, 1987) é, desde 1996, sócia do escritório MMBB, em São Paulo.![]() |
| A fachada de vidro não toca as lajes de concreto, de forma que a luminosidade nela incidente perpasse todos os andares |
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| A loja está entre dois edifícios residenciais |
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| O segundo andar abriga o showroom da loja |
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| A simplicidade de acabamentos e materiais cria uma atmosfera serena nos interiores |





