Felippe Crescenti
Galeria Raquel Arnauld, São Paulo
- Detalhes
- 14 de Setembro de 2011. Visitas: 8.862
O bairro da Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, é marcado pela topografia acidentada e pela pequena escala construtiva. Embora se sobressaiam aqui e ali escassos edifícios comerciais ou residenciais, o skyline local é ainda o assobradado, seja das casas unifamiliares ou do pequeno e diversificado comércio.
A Galeria Raquel Arnaud está localizada em uma rua com declividade íngreme, contida lateralmente por duas construções com as quais faz limite direto, sem recuos de qualquer ordem.
Em contraponto, é generoso o afastamento frontal - 12 metros - e relativamente suave a inclinação longitudinal do lote, de modo a acomodar-se a circulação pública através de rampa natural ou de uma escada dissimulada no pátio da frente.
Assim, surpreendentemente, a galeria cria para si a condição favorável de ampla visualização no entorno densa e irregularmente ocupado, o que potencializa a aparência da sua escala construtiva tanto na frente quanto nos fundos do terreno, onde um pátio aberto funciona como ambiente contemplativo ou de encontro.
Nem por isso a edificação é ostensiva ou está deslocada na vizinhança. Pelo contrário, estabelece-se uma série de transições que parecem colocar a galeria e a rua em contato direto, sem que com isso se comprometam a privacidade e a segurança do domínio interno.
As angulações das espaletas da pele metálica, por exemplo, deixam entrever sutilmente o interior conforme a posição do observador, preservando- se a sensação de espaço reservado e protegido, tão cara ao programa.
Era justamente esta a relação conflituosa, da integração urbana com a caixa hermética, que o arquiteto pretendeu equacionar em todas as variantes testadas desde 2008, ano de início do projeto.
Decorre da impactante fachada, portanto, o claro limite entre o espaço público e o privado sem a vedação total da galeria.
A luminosidade natural é abundante nos ambientes internos e há também generosa ventilação quando abertas as portas de vidro paralelas aos brises metálicos.
A edificação tem três pavimentos, todos aptos a receber exposições, e o deslocamento da caixa de escada em direção da lateral direita setorizou eficientemente a área de apoio e serviços, marcada pela cor preta, que faz par com o acabamento das escadas e elementos metálicos.
É simples a ambiência interna - piso de concreto aparente, paredes e tetos de gesso branco - e homogênea a iluminação zenital sobre a circulação vertical.
Os escritórios foram posicionados nas extremidades longitudinais do pavimento superior, valendo-se da condição de privacidade filtrada que qualifica o projeto como um todo.
Estão, assim, resguardados pela retícula angulada das fachadas, que, de sobra, tem ainda marcante linguagem gráfica.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 377 Julho de 2011
Felippe Crescenti formou-se arquiteto pela FAU/USP em 1979. É também cenógrafo de teatro, cinema, dança e ópera e participou de quatro bienais internacionais de São Paulo. Trabalha em projetos de arquitetura nas áreas comercial e residencial


