Fernando Brandão Arquitetura + Design
Livraria, São Paulo
   
 
  Os interiores mantiveram o carpete quadriculado que caracteriza as lojas da Cultura, mas desta vez em tons de cinza e vermelho
 
Maior loja de livros do país resgata memória de cinema paulistano

Localizada no Conjunto Nacional, em São Paulo, a mais nova unidade da Livraria Cultura ocupa o espaço onde por 40 anos funcionou o tradicional Cine Astor. O projeto de Fernando Brandão transforma a área na maior livraria do país e ao mesmo tempo resgata a identidade do antigo cinema. A rampa de acesso ao foyer foi reconstruída com novo desenho e conduz agora ao ambiente de estar, que marca a entrada principal da loja, no piso intermediário.

Inaugurado em 1956, com projeto de David Libeskind, o Conjunto Nacional foi concebido como o primeiro centro residencial, cultural, de lazer e comércio na avenida Paulista. Cinco anos mais tarde seria aberto ali o Cine Astor, que viveu tempos de glória e decadência até ser desativado, em 2001. Sua área permaneceu isolada por seis anos, até que a retirada dos tapumes revelou, no final de maio, a mais nova unidade da Livraria Cultura.

Com 4,2 mil metros quadrados, a loja marca os 60 anos da Cultura e é considerada a maior livraria do país. Em 1.560 metros lineares de prateleiras e em outros tipos de expositores estão disponíveis cerca de 190 mil livros, dispostos de maneira a garantir ao cliente fácil acesso e manuseio dos volumes. No total, são 150 mil títulos de livros e 35 mil de CDs e DVDs, acervo antes dividido entre as quatro unidades da rede no próprio Conjunto Nacional, agora fechadas.

 
Tirantes e guarda-corpo em barras de aço transformam a rampa de acesso em elemento de impacto visual
 
  A escada de metal e madeira constitui outra opção de entrada para a loja. A empena da direita separa a galeria do acesso às garagens
 

A loja está posicionada junto do acesso pela alameda Santos e sobre as garagens do Conjunto Nacional. A grande empena que separa a galeria do estacionamento dificultava a instalação da entrada principal no térreo. Essa condição se reverteu em ponto favorável, ao induzir à reconstrução da rampa que conduz ao piso intermediário e destinar a área térrea restante a exposições de arte. “O cliente considerou que ceder espaço ao público agregaria valor ao seu negócio”, destaca o arquiteto Fernando Brandão.

Com novo desenho, a rampa inicia-se mais perto da circulação do conjunto e convida o transeunte a subir. Ela tem piso de chapa metálica com um centímetro de espessura, aproveita a viga de apoio da rampa original e é sustentada por uma malha de tirantes metálicos que transferem a carga para os pilares. Esses tirantes aliam-se ao guarda-corpo em barras de aço para criar impacto visual. O acesso principal fica no mesmo ponto onde estava a entrada do cinema, e o que foi a sala de espera abriga hoje um ponto de encontro no lado externo da loja.

 
O antigo foyer do cinema é hoje ponto de encontro no nível da entrada principal. O painel que sustenta a tela também dá privacidade ao ambiente
 
  Descendo a rampa no interior da loja, o visitante tem acesso à revistaria, ao café e a diversas seções de livros
 

A entrada revela o conjunto de três pavimentos com área central de pé-direito triplo e a estrutura metálica da cobertura, destacada pela pintura em tom laranja. No nível inferior, outra rampa na parte central da loja preserva a inclinação da platéia. Os dois pisos acima, ambos com geometria irregular, estão apoiados em pilares que nascem da malha estrutural original, reforçada para suportar as três lajes, agora com carga de 800 quilos por metro quadrado. No pavimento superior, o guarda-corpo de concreto junto à entrada é na verdade uma grande viga que livra a área de acesso da presença de pilares. Essa peça recebeu parte do acabamento com pintura e parte em madeira laminada, a mesma usada na confecção dos expositores.

Os interiores repetem a linguagem das demais unidades projetadas por Brandão, com pequenas alterações que incorporam os elementos mais bem-sucedidos de cada uma delas. Da loja do Recife veio o tom de vermelho do carpete quadriculado; da unidade do Market Place, em São Paulo, os guarda-corpos em barras de aço cruzadas e soldadas; de Porto Alegre, o café de dimensões generosas. O dragão de madeira, elemento que caracteriza a área infantil, aparece aqui em versão dupla, com o maior acomodado no piso e o menor suspenso por tirantes, aproveitando a altura livre do espaço.

 
Entrada secundária, pela lateral do piso inferior
 
  A vista evidencia a irregularidade geométrica dos dois pisos superiores. Os guarda-corpos em barras de aço apresentam desenho ora linear, ora sinuoso
 

O café, no nível inferior, no alinhamento com a alameda Santos, ganhou aberturas de vidro para a rua. No piso superior, o Teatro Eva Herz homenageia a fundadora da livraria. Com capacidade para 166 pessoas e equipado com camarins e chuveiros, ele está sob a direção artística do ator Dan Stulbach.




Texto resumido a partir de reportagem
de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 330 Agosto de 2007

 
A grande viga com acabamento em pintura e madeira laminada funciona como guarda-corpo e livra o acesso principal de pilares
 
O tablado com almofadas é uma releitura da escada da unidade do Market Place, onde ela forma uma arquibancada para o público acompanhar leituras ou declamações
  Fernando Brandão formou-se pela FAU/Santos em 1988, ano em que estabeleceu em São Paulo o escritório Fernando Brandão Arquitetura + Design
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  Para aproveitar a altura livre, Brandão criou um segundo dragão de madeira, em tamanho menor. Suspenso por tirantes, ele parece voar em direção ao maior
       
   
  Detalhe de expositor curvo, próximo do café   Esquema dos pisos
       
   
  Espaços de leitura em forma de dragão caracterizam o setor infantil nas unidades da Cultura projetadas por Brandão   Vista do Teatro Eva Herz, no terceiro piso. Detalhado por J. C. Serroni, ele foi planejado como um pequeno teatro de arte
 

Ficha Técnica

Livraria Cultura Conjunto Nacional
Local
São Paulo, SP
Início do projeto 2006
Conclusão da obra 2007
Área de intervenção 4.200 m2
Arquitetura Fernando Brandão Arquitetura + Design - Fernando Brandão (autor); Márcia Rocha (coordenação); Marcelo Lagos, Saturnino Pereira, Ana Castro e Alexandre Arana (colaboradores)
Programação visual Fernando Brandão Arquitetura + Design e Carlos Matuck
Cálculo estrutural Monteiro & Linardi (concreto); Modus (metálica)
Luminotécnica Laura Larrubia
Detalhamento do teatro J. C. Serroni
Painel artístico Carlos Matuck
Ar condicionado Vetor
Instalações Projetar
Construção e gerenciamento Valor
Fotos Carolina Vargas e Fran Parente

 
Como o projeto original de David Libeskind já previa um bulevar voltado para a alameda Santos, o patrimônio histórico autorizou as aberturas em vidro na área do V. Café, gerido pela rede Viena; luminárias foram desenhadas por Fábio Falangue e Fernando Brandão
 

Fornecedores
Verona (carpete); Ybiraitá (marcenaria); Permetal (serralheria); Tafisa Poliface (piso madeirado); SignoSinal (comunicação visual); Peça Única, Alberflex (móveis); E27, Osram (luminárias); Souza Lima Construtora (implantação do café)

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